Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 4

Livro dos Mortos

Roubar túmulos era menos excitante do que Tyron esperava.

Ele esperava que se esgueirar pela noite para roubar o cemitério seria difícil, tendo que desviar dos Guardas da Cidade e marechais antes de ter que enganar o vigia do cemitério e fugir com seu prêmio apodrecido. Porém, a realidade era muito diferente da sua imaginação. Ao cair da noite, os viajantes e os jovens recém-Despertos estavam nas ruas e pousadas de Foxbridge, bebendo, celebrando e fazendo uma bagunça em geral. Os Guardas estavam, portanto, em peso, dentro da cidade, ficando de olho no comportamento dos bêbados e tentando impedir de lutar. Os marechais enviados da província não estavam em lugar nenhum e o vigia do cemitério havia desmaiado de bêbado na sua casa. Todos os seus preparativos agora pareciam um tanto tolos. Ele até mesmo sujou o rosto com terra e comprou a Habilidade Geral Furtivo para essa exata missão. Um completo desperdício de esforço.

Então, foi assim que se encontrava parado na frente do túmulo de Myrrin Jessup, a idosa matrona de uma família de fazendeiros nos arredores da cidade, que faleceu há cerca de um mês, com uma pá em mãos e um olhar conflitante no rosto.

Ele havia enganado o tio e a tia quando eles pressionaram por detalhes da sua Classe, dizendo a eles que ficaria feliz em contar de manhã, mas que agora só queria descansar, afinal, estava acordado há vários dias seguidos. Tio Worthy relutantemente concordou e Tyron correu de volta para a segurança de sua própria casa e tentou decidir o que fazer.

Em seu pânico, esta tarde, ele nem sequer parou para investigar sua própria Classe através da sua própria Avaliação, nem pensou em fazer qualquer pergunta sobre sua Subclasse, Anátema. Ele amaldiçoou sua estupidez, mas, no fim, não poderia ser tão duro consigo mesmo. Falta de sono combinando com a pressão única da situação atual significava que suas tomadas de decisão não eram o que deveriam ser. Considerou severamente ir para a cama, conjurar Sono em si mesmo se precisasse, apenas para ter o descanso que desesperadamente precisava, mas, por pouco, decidiu não fazer isso, ele tinha um tempo disponível muito limitado e precisava retirar o máximo dele. Estava em uma corrida contra o tempo e não podia se dar ao luxo de perder.

Com um suspiro de exaustão, apoiou a pá no chão e se inclinou pesadamente sobre ela. Era realmente necessário enterrá-los tão fundo? Seus ombros estavam pegando fogo e a sua lombar doía intensamente. Quase todos da sua idade estavam ficando bêbados na cidade e aqui estava ele, cavando a terra com suas roupas mais escuras. O pensamento de Elsbeth bebendo, dançando e se divertindo passou pela sua mente, mas o afastou com raiva. Ela não importava neste instante e provavelmente nunca mais. Suas vidas estariam em caminhos muito diferentes após hoje.

Depois de recuperar o fôlego, segurou sua pá mais uma vez, amaldiçoando quando suas mãos em carne viva se esfregavam na madeira.

‘Tempos desesperados…’ Mais uma vez, colocou seu peso atrás das suas mãos e começou a cortar através da terra suave. Depois de uma hora cavando e desejava desesperadamente não ter que ir mais fundo. A cada pá de terra que movia, sua consciência sussurrava no fundo da sua mente, e a cada vez ele a afastava. Viver normalmente não era uma opção para ele, não se quisesse manter esta Classe. Se quisesse aprender mais sobre Necromancia, então não tinha escolha a não ser tentar subir de nível. A mensagem havia sido alta e clara durante seus Despertar: para subir de nível sua Classe Necromante ele tinha que ressuscitar os mortos.

Então, aqui estava ele. Realizou uma Avaliação em sua mesa e encontrou exatamente o que esperava. Nem sua Classe Necromante, nem sua Classe Anátema forneciam opções de compra no nível um. Quase todas as Classes eram assim. A pessoa receberia as habilidades básicas de Classe assim que a recebesse e, em seguida, mais opções no segundo nível. Após isso, escolhas normalmente surgiam a cada cinco níveis para personalizar e adaptar a Casse aos desejos do indivíduo. Como ele não tinha ideia do que os “patronos sombrios” queriam que ele fizesse para subir de nível Anátema, algo com que estava relativamente feliz, concentrou toda sua atenção em Necromancia.

*THUNK.* A ponta da sua pá perfurou a terra e atingiu algo sólido. A trepidação aumentou em seu coração e o jovem Necromante começou a raspar a terra e alargar o buraco, mais trinta minutos de trabalho, até que estivesse olhando para o caixão parcialmente apodrecido da pobre Sra. Jessup. Antes de proceder, Tyron saiu da cova e procurou em sua mochila que havia colocado em algum lugar no chão próximo. Não era fácil no escuro, mas ele se recusava a conjurar Luz. Mesmo que todos os outros fossem descuidados com a segurança no cemitério, ele não seria. Depois de um momento, ele tinha o que queria, uma bola de cera que preparou para essa parte da tarefa. Ele xingou suas mãos em carne viva e sujas, mas pegou a cera e a amoleceu rolando-a entre suas palmas, antes de quebrá-la na metade e usar os dois pedaços para tampar seu nariz.

Ele nunca sentiu o cheiro de um cadáver de três meses antes e não queria começar agora. O cheiro já estava subindo quando ele terminou de cavar e não se sentia tentado a experimentar a dose completa assim que abrisse o caixão. Trabalho feito, puxou um rolo de corda que utilizou para amarrar ao redor das pontas de uma das madeiras parcialmente apodrecidas. O mais silenciosamente que pôde, começou a puxar os restos mortais da amada esposa do fazendeiro e seu túmulo para fora da terra, mas estava progredindo devagar. Ele nem possuía o físico para isso. Por um momento, ficou tentado a colocar seus pontos livres em Força, mas afastou esse pensamento. Isso seria um desperdício estúpido.

Xingando baixinho, coberto de suor e sujeira, Tyron puxou, arrastou e empurrou até concluir a escavação. Ele caiu de costas e respirou fundo algumas vezes o ar fresco da noite antes de se levantar de novo. Sua tarefa ainda não havia terminado, nem perto. Com cuidado para não interromper o descanso do cemitério, ele arrastou a caixa de madeira por quarenta metros até o Mausoléu Arryn. A família do Prefeito havia o construído há quase uma centena de anos e gerações foram enterradas lá desde então. Não era enorme, aproximadamente do tamanho de uma casa comum em Foxbridge, mas nenhuma outra família poderia se dar ao luxo da extravagância de uma cripta de pedra para sepultar seus mortos.

Tyron abaixou com cuidado o caixão e caminhou de volta para sua mochila. Pegou-o com uma das mãos e tateou com a outra enquanto caminhava de volta. Chegou em frente ao imponente edifício de pedra, esculpido com imagens dos Cinco Divinos e “Arryn” escrito em letras cursivas na entrada. Estava trancado, claro. Uma corrente grossa, trancada com ferrolho atravessando as portas de madeira com faixas de ferro, e Tyron sabia que não teria esperança de forçá-la, certamente não em silêncio. Ser o filho de dois Exterminadores de Monstros proeminentes e perpetuamente ausentes, entretanto, tinha algumas vantagens. Movendo-se com cuidado na escuridão, Tyron desdobrou o embrulho de panos e retirou um recipiente de vidro transparente no qual havia uma pequena quantidade de um líquido verde-escuro.

“Porta Aberta.” Sua mãe descreveu alegremente. Eles haviam comprado um suprimento do material para completar um trabalho que requeria que assaltassem uma ruína despedaçada que um louco havia renovado para criar monstros. O que ele segurava era tudo o que restava depois que eles terminaram com aquele lugar.

Prendendo a respiração, cuidadosamente abriu a garrafa, quase derramando o líquido em si mesmo quando as mãos deslizaram.

— Merda. — Ele xingou.

Suas mãos estavam em carne viva e dormentes, seus braços e ombros queimavam como fogo. Estava mental e fisicamente exausto, mas não podia parar agora. Respirou fundo, depois outra vez, antes de levar a garrafa à fechadura. Segurando a fechadura de aço pesada em uma mão, derramou uma pequena quantidade do líquido no metal enfiado dentro da corrente. O fluido imediatamente borbulhou e fumegou, fazendo com que Tyron recuasse para evitar o vapor. Em mesmo de um minuto a fechadura foi corroída e ele conseguiu soltar a corrente, com o metal tilintando a cada movimento, e abriu a porta.

Poeira, escuridão e teias o cumprimentaram do outro lado.

— É claro, aranhas. — Ele murmurou enquanto se virava e arrastava o caixão para dentro.

Assim que passou do batente, ele o deixou cair no chão e bateu em suas vestes para desgrudar as teias e os insetos meio imaginários que sentiu se arrastando por ele. Ele segurou sua mochila, trouxe-a para dentro e depois fechou a porta, prendendo-se lá dentro.

— Luz.

Seu cérebro cansado trabalhava com magika com facilidade depois de anos de prática, e um pequeno globo de luz apareceu em sua palma. Concentrando-se brevemente, ele levantou a mão e abriu os dedos com um movimento brusco. O globo flutuou no ar, como se estivesse suspenso por um fio invisível, iluminando Tyron e a nova morada de Myrrin. Havia quatro salas no mausoléu dispostas em uma cruz. Esse espaço em particular parecia ser uma entrada, com o chão livre para permitir o tráfego mais adentro do prédio, o que era perfeito para Tyron.

Sua sombra tremeluzia pelo interior esculpido da tumba enquanto ele trabalhava em abrir a caixa. No fim, teve que usar mais algumas gotas de Porta Aberta para conseguir. A tampa se soltou após outro puxão, enviando-o cambaleando para trás até bater a cabeça no arco ao redor da porta. Mais xingamentos e alguns momentos para se recompor, então ele caminhou em direção ao caixão aberto.

Ele desejou que não tivesse. Ele desejou que não tivesse conjurado Luz. Ele desejou que não estivesse ali. O cadáver era uma massa repugnante e fétida de carne apodrecida, mal reconhecível como uma pessoa. O cheiro era tão avassalador que mesmo seus tampões nasais improvisados não eram suficientes para mantê-lo completamente afastado, fazendo seu estômago revirar. Ácido queimou o fundo da sua garganta enquanto ele se engasgava, mas o forçou abaixo e cuspiu no chão.

Não era como se ele quisesse isso. Ele não queria estar aqui, fazendo essas coisas. Se dependesse dele, estaria bebendo com Elsbeth na cidade, bebendo com a visão dos cabelos dourados e o sorriso brilhante dela, enquanto celebrava sua Classe Bruxo, mas era um Necromante, então ali estava ele fazendo o trabalho de um Necromante. Ele cuspiu de novo, como se quisesse expulsar a autopiedade do corpo. Ele não tinha uso para ela.

‘Hora de trabalhar.’

O conhecimento base das habilidades que recebeu junto de sua Classe foi gravado em sua mente, mas isso não significava que ele era completamente proficiente nele. Pelo que havia lido, era como ter instintos e impulsos inseridos em seu cérebro e apenas com aplicação e prática ele seria capaz de tornar esse conhecimento seu.

Foi o que Tyron fez. Preparação de Cadáver e Avaliação de Cadáver eram as duas habilidades que recebeu de sua Classe no nível 1 e confiou nesses instintos para guiá-lo, enquanto passava um olhar crítico pelo corpo. Ele não sentiu que precisava fazer muito para preparar o restante para o feitiço, na verdade, não parecia haver muito o que poderia fazer em sua circunstância atual. Sua Habilidade Avaliação lhe dizia que esse corpo seria um Morto- Vivo particularmente ruim. Uma frágil idosa quando faleceu, não havia muita carne em seus ossos quando foi enterrada, e havia muito pouco até pra isso. Ele estava confiante de que o feitiço funcionaria. Se tudo corresse bem, então Myrrin Jessup renasceria como um zumbi sob seu controle.

Ele respirou fundo para acalmar seus nervos e imediatamente se arrependeu disso. Entre a poeira e o fedor de podridão, o ar tinha um gosto denso e fétido.

— Apenas termine com isso! — Ele rugiu para si mesmo e foi até sua mochila. Retirou um pequeno livro encadernado com couro dele e o folheou até suas anotações.

Assim como suas habilidades, o feitiço que recebeu era mais um esboço, uma sensação, do que uma pintura completa. Enquanto praticasse, subiria o nível da Habilidade e ficaria mais experiente, então conseguiria desenvolver sua compreensão da magika e conjurá-la com a mesma facilidade que tinha com o feitiço Luz. Uma grande parte dos seus preparativos para esta tarefa foi dedicada à preparação dessas anotações. Usando seu conhecimento da teoria da Magia, descobriu o máximo que pôde no tempo limitado que possuía. Era uma magika complexa, uma que consumiria quase toda sua reserva para conjurar, de longe o feitiço mais poderoso que já encontrou.

Da sua compreensão limitada, o feitiço continha três componentes principais. Primeiro, a construção de um animus mágico, um conjunto rudimentar dos instintos que o zumbi utilizaria para controlar seu corpo e tomar decisões básicas. A mente e a alma do corpo original já haviam desaparecido há muito tempo e, portanto, precisavam ser substituídas, o que era o propósito do Animus. Era um trabalho complexo, criar uma estrutura de energia arcana que permitia aos mortos ressuscitados perceberem e reagirem ao ambiente, embora apenas da forma mais rudimentar possível. Seguindo isso, um canal de magika seria estabelecido entre ele e seu servo, permitindo que este extraísse a magika que necessitava de Tyron para sustentar sua existência. Era óbvio que um corpo em estado tão avançado de degradação não seria capaz de se mover com seu próprio poder, magika seria o motor que animaria a criatura e ele precisaria fornecer o combustível. Terceiro, vinha o vínculo, uma invocação que acorrentaria a criatura recém-criada à sua vontade.

Cada parte individual do feitiço era mais complexa do que o feitiço Sono que ele havia aprendido e era insano até mesmo tentar em sua condição. Na verdade, toda esta aventura era uma loucura, mas ele se sentia desesperado. Sentia como se um olho invisível estivesse o vigiando a cada momento. Como se mãos estivessem agarrando seus tornozelos, desesperadas para puxá-lo para a mediocridade. Ele se recusava a aceitar isso!

Ele fechou o livro decisivamente e o guardou de volta em sua mochila. Deu dois passos para ficar junto à cabeça do cadáver, esticou suas mãos e começou a invocação.

Magika era ciência e arte ao mesmo tempo, assim lhe contou sua mãe. Como uma Maga de Batalha de alto nível, ela fazia a ponte entre truques improvisados, que podiam ser lançados com uma palavra, e feitiços mais poderosos que exigiam concentração, tempos de conjuração maiores e que geralmente consumiam componentes materiais. Este feitiço era sem dúvidas o último. As mãos de Tyron desenharam os sigilos arcanos no ar, enquanto as palavras de poder saíam de sua língua e ecoavam pelas paredes empoeiradas daquele vão de pedra apertado. Suas longas horas de estudo e o poder do Mistério que conquistou mostravam seus efeitos agora. Apesar da sua exaustão, apesar da incapacitante falta de sono, ele enunciou cada palavra com clareza e moldou a magika suavemente, a energia arcana drenada do seu corpo e derramada no recipiente à sua frente.

Tanta energia.

O feitiço drenou profundamente suas reservas, enquanto o suor começava a escorrer por sua face. Ele queria fazer uma careta e cerrar seus dentes, mas não conseguia, a invocação não poderia ser parada depois de iniciada, e arrastar as palavras poderia ser desastroso. Segundo após segundo, ele lutava contra o próprio corpo e travava uma guerra contra sua própria mente. Seus braços estavam pesados como chumbo, seus pensamentos tão lentos quanto melaço, mas ele se recusava a ceder. Se falhasse agora, poderia muito em desistir de todos os sonhos que uma vez teve e se resignar em ser um contador para o resto da vida.

Por vinte minutos, ele lutou com unhas e dentes, a voz ficando rouca e seu corpo tremia com o esforço. As últimas palavras saíram de seus lábios em um grito, antes que caísse de joelhos, completamente exausto. Consumiu cada gota de magika para completar o feitiço, mas ele conseguiu. Correu tão perfeitamente como ele poderia ter esperado, devido as circunstâncias.

Ele ofegava, com a cabeça abaixada enquanto sua visão desvanecia diante de seus olhos.

— Posso ter… exagerado um pouco. — Disse com a voz rouca.

Mas não conseguiu conter um sorriso em seus lábios. Ele teve sucesso. Ele realmente conseguiu! Quem mais poderia ter realizado um feito de magika tão difícil como este, com tão pouca preparação como ele? Uma risada borbulhou em sua barriga, mas só saiu de sua garganta rasgada como um grunhido.

— Hrrrrrrrrrrrr. — Emitiu um gemido lento e longo.

Tyron levantou a cabeça para ver os resquícios pútridos e apodrecidos do seu novo servo lentamente se levantando, até que seus olhos cegos o encarassem de volta.

— Parece bom, amigo. — Ele ofegou.

Então, a última gota de sua magika o deixou e ele não soube de mais nada.

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