Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 3

Livro dos Mortos

A biblioteca da cidade estava incomumente lotada essa hora do dia. Normalmente, quando Tyron visitava, tinha o lugar quase todo só para si, mas quanto mais pessoas conseguiam suas Classes, mais vinham até aqui para consultar com a Escrivã e pesquisar possíveis caminhos e carreiras. Não era como se isso não pudesse ser feito com antecedência ao Despertar, mas a maioria não se incomodava. O próprio Tyron havia feito muitas pesquisas, preparando-se para ter pelo menos uma ideia de como seu futuro seria, independentemente da sua eventual Classe.

Entretanto, nenhum desses trabalhos incluía o que fazer com Necromancia.

Após correr para casa e hiperventilar no chão, Tyron havia se acalmado e pensado sobre o que faria a seguir. Seu primeiro pensamento foi que teria de renunciar à sua nova Classe, as consequências que se fodam. Seu pai havia dito a ele que não se importava se ele era um Ladrão ou um Bandido, mas como ele se sentia sobre um Mago Sombrio que podia ressuscitar os mortos?! Provavelmente não muito bem! Mesmo que quisesse mantê-la, não havia como ele conseguir. Ele esperava ser Avaliado pela Sra. Barbury dentro de cinco dias. Assim que sua Classe fosse revelada ele seria forçado a revogá-la, e ponto final.

Ainda mais problemático era a misteriosa Subclasse.

Durante toda sua pesquisa, Tyron nunca ouviu qualquer menção de algo como os Sombrios, Corte Escarlate ou Abismo, muito menos a capacidade de transmitir algum tipo de Classe Especial.

Anátema.

Apenas o nome o marcava como o inimigo dos bons e dos justos. Se realmente renunciasse à Classe Necromante e a extinguisse, como reagiriam a essa Subclasse? A Igreja não era conhecida por sua tolerância com coisas que cheiravam à magia negra. Será que seria enforcado na hora?! Claro que não… seus pais provavelmente destruiriam toda a cidade assim que voltassem, mas ele podia correr o risco?!

Se ele quisesse evitar a Avaliação então precisaria fugir da cidade de alguma forma, evitar os marechais e sobreviver por conta própria na natureza, sem o apoio de sua família ou amigos. Sem mencionar a completa ausência de habilidades de sobrevivência. Ele poderia ser capaz de caçar um coelho ou dois, graças à sua mãe, mas Tyron não era exatamente do tipo que gostava de atividades ao ar livre. Não. Seria impossível para ele fugir e, mesmo que conseguisse, como ele deveria sobreviver e subir de nível vivendo como um selvagem na natureza?

Havia realmente outra escolha, além de revogar sua Classe e Subclasse? Talvez sim. Talvez simplesmente as removessem e permitissem que ele seguisse seu caminho. Sem sua Classe Primária e sem uma vaga de Subclasse, ele seria aleijado para sempre, mas sobreviveria. Talvez conseguisse obter o treinamento para Escrivão e ser um Escriba da vila. Talvez seus pais conseguissem pagar para que ele fizesse o treinamento de Alquimista. Havia algumas opções. Talvez ele se fortalecesse mais devagar, talvez nunca alcançasse um nível tão alto, mas isso importava? Ele poderia viver uma vida segura e produtiva em outro lugar, poderia ser útil e ajudar as pessoas. Era realmente tão importante para ele ser excepcional?

Enquanto continuava deitado no chão e tentava se convencer a aceitar seu destino, parte dele se recusava a reconhecer seu raciocínio. O que a voz disse? Que ele queria poder. Ele queria controle. Enquanto tentava juntar seus pensamentos, Tyron pôde admitir que era verdade. Seus pais eram excepcionais. Ambos eram Exterminadores de alto nível e requisitados, heróis das pessoas, que vagavam pelas regiões selvagens e defendiam a civilização. No fundo, ele esperava ser igual. Talvez não um Exterminador, mas extraordinário e especial. Ele queria se destacar como eles. Não queria viver uma vida na sombra deles por toda sua vida. E o que eles diriam? Que tipo de olhar eles lhe dariam quando contasse que sua Classe havia desaparecido, que ele seria fraco por toda sua vida?

Relutância, fúria e culpa lentamente se cristalizaram na forma de uma determinação recém encontrada. Ele era excepcional. A Classe que recebeu provava isso. Recusava-se a desistir sem pelo menos tentar. Tendo se decidido, conseguiu se recompor e vasculhar os livros em sua casa. Seus pais tinham um pequeno acervo de livros sobre Classes e habilidades, coisas que haviam recolhido para usar como referência, junto de muitos bestiários. Tyron já havia os lido todos, mas agora os folheava, desesperado para encontrar alguma referência sobre Necromantes.

Sem surpresa, não havia nada. Classes Não Sancionadas eram ilegais, portanto, não havia motivo para quaisquer informações sobre elas estarem disponíveis publicamente. O conhecimento de que não teria nenhum guia ou referência para trabalhar o atingiu severamente. Havia milhares de livros dedicados a explicar Classes, detalhando talentos e habilidades que estavam disponíveis, ensaios inteiros que discutiam portadores proeminentes das Classes e como eles estruturam suas escolhas. Não haveria nada disso sobre Necromancia. Necromantes famosos eram tudo menos celebrados. Na verdade, era o oposto. Durante a história houve vários que causaram danos significativos…

‘Livros de história!’

Foi quando Tyron percebeu que estava procurando no lugar errado. Nunca conseguiria a informação sobre guias de Classes, eles eram inúteis, mas havia referências de Necromantes em livros de história. Não era tão útil, mas algo muito, muito melhor do que nada.

Pois Tyron não sabia muito sobre Necromancia. Como ele saberia? Era uma Classe ilegal e, portanto, não era discutida durante aulas ou escrita nos livros didáticos. Seus pais nunca falaram com ele sobre os Necromantes com quem trabalharam. Pensando bem, nunca os ouviu falar sobre os Necromantes contra quem lutaram. Se não fosse tão culto como era, talvez nunca tivesse escutado falar sobre eles.

Então, caçou cada texto histórico que poderia encontrar em casa, um total de dois, e os vasculhou em busca de qualquer referência de necromantes. Após dez minutos incansáveis de folhear páginas, ele finalmente encontrou. Ansiosamente, segurou o volume com as duas mãos e o aproximou da sua face. Depois de alguns minutos jogou o livro de volta com desgosto. Não havia quase nada. Uma pequena referência sobre a devastação causada por “Arihnan, o Sombrio” no Império de Granin, a oeste. Algumas linhas sobre cidades queimadas e exércitos destruídos, antes que o Mago finalmente fosse derrubado do lado de fora das muralhas da capital.

A princípio, Tyron ficou desencorajado, mas então sua mente começou a raciocinar. Exércitos destruídos? Cidades queimadas? Um único Mago quase causou a queda de um Império. Como ele fez isso? Ao ressuscitar zumbis? Isso não fazia sentido algum. Com a testa franzida, Tyron agarrou os poucos bestiários que tinha em casa e folheou as páginas, procurando por referências de Mortos-Vivos.

Encontrou o que procurava no segundo volume, um capítulo inteiro dedicado às criaturas Mortas-Vivas, suas características, forças e fraquezas. Zumbis eram fracos, lentos e fáceis de derrotar, que poderiam ser ameaçadores em grandes números. Eram encontrados com frequência em locais de grande mortalidade, onde a mana era espessa. Algumas formas avançadas de zumbis também eram capazes de passar a maldição da morto-vivo para suas vítimas, aumentando assim a horda. Tais monstros deveriam ser abatidos urgentemente.

Claramente um mago com um exército de zumbis lentos e fracos não seria muita ameaça, certo? Tinha que haver mais nisso. Ele folheou as páginas e leu sobre esqueletos, fantasmas, espíritos aprisionados, magos mortos-vivos, liches e outras criaturas assustadoras. As mais comuns eram geralmente consideradas fracas, cheias de fraquezas exploráveis e alvos fáceis para Exterminadores de verdade. Os Mortos-Vivos mais poderosos eram raros e pareciam ter pouca relação com necromancia. Vampirados eram criados por vampiros existentes, aparentemente passando algum tipo de maldição para suas vítimas. Liches eram formados por magos poderosos tentando estender suas vidas além da morte, a maioria deles sendo Necromantes, não algo que Tyron pudesse criar.

Havia algumas pequenas dicas aqui, mas era frustrante. Um Necromante era capaz de derrubar cidades! Que poder incrível! Mas como? O que esse Arihnan realmente fez para conseguir esse tipo de força? Ele precisava saber mais.

Motivo pelo qual relutantemente decidiu ir à biblioteca, onde se encontrava encolhido sobre uma pequena mesa no fundo da área de leitura, debruçado sobre textos relatando a história do Império Granin e estudando bestiários sobre Mortos-Vivos. Os bestiários eram muito inúteis, não contendo nada que não conseguiu aprender com aqueles que leu em casa, mas os livros de história eram diferentes. Após uma hora procurando através da modesta seção de história, foi sortudo o suficiente para encontrar um volume dedicado ao Império Granin e encontrou um capítulo inteiro dedicado ao desastre que foi a revolta de Arihnan, o Sombrio.

O livro falava com entusiasmo sobre os guerreiros valentes que se levantaram para derrotar o mago maligno, dos Sacerdotes e Paladinos que pegaram suas armas para acabar com o mal que ameaçava o povo deles, mas pouco tempo foi dedicado ao próprio mago. Além de descrevê-lo como um “Necromante de grande poder”, muito pouco foi dedicado ao homem. De onde ele veio, onde ele vivia antes da revolta, o que o fez tentar derrubar um Império inteiro sozinho? Nada. Era desconcertante. Certamente uma figura de tamanha importância histórica justificaria mais do que uma menção casual!

Mesmo assim, havia alguma coisa para se absorver. Nas descrições das batalhas o autor detalhou fileiras de Esqueletos, amparadas por figuras em vestes negras, que disparavam maldições e tiros sombrios de energia sobrenatural. Também havia monstros que haviam ressuscitado dos mortos, wyverns com carne escorrendo dos ossos, mas que ainda assim voavam e devastavam o Império dos céus. Até cavaleiros esqueletos em corcéis de ossos que avançavam trovejando, indiferentes ao perigo, lançando-se contra as fileiras à frente para abater o máximo de pessoas possível antes que a magia que os unia fosse quebrada.

E era magia que os mantinha juntos. O livro detalhava o momento em que Arihnan perdeu sua cabeça em uma linguagem florida e excruciante. Apesar disso, uma coisa era clara: no instante que o mago morreu, todo o exército definhou com ele e se desfez. De alguma forma, essa única pessoa mantinha tudo unido.

Embora não tivesse ambições de destruir Impérios ou destruir cidades de inocentes, Tyron sentiu um arrepio de excitação crescer em seu estômago. Quantas Classes poderiam se gabar desse tipo de poder? A força de controlar exércitos de verdade? O que ele poderia fazer com esse tipo de força? Esqueça ser um Exterminador, ele poderia conquistar vastas extensões de terra nas áreas selvagens, exterminar os monstros em terras equivalentes ao Reino. Talvez pudesse tirar seus próprios pais do mercado.

Ele riu ao pensar nisso, mas logo se recuperou. Se fosse capaz de acumular esse tipo de força, o tipo que Arihnan possuía, mas utilizada para o bem, talvez fosse permitido ter sua Classe, talvez até mesmo celebrado. Seria insultado no começo, claro, mas com feitos bons o suficiente em seu nome, seria bem-vindo de volta, certamente.

— Está tudo bem, Tyron? — Uma voz suave falou ao seu lado.

— Gah! — Tyron pulou do assento, esticando os braços sobre os livros abertos à sua frente, antes de virar a cabeça.

— Sra. Barbury! Com-Como você está?

A mulher em questão o encarou com um olhar frio até que ele começou a suar.

— Estou bem, obrigada. — Ela respondeu finalmente. — Estava curiosa sobre o que você poderia estar lendo aqui.

Ela olhou para os livros sobre a mesa.

— História? — Ela perguntou com uma sobrancelha levantada.

— Uh, sim. Apenas revisando alguns tópicos que acho interessante. Nada demais.

Ela assentiu lentamente e franziu os lábios, e Tyron ficou abalado, não pela primeira vez, só devido ao quão atraente a Escrivã da cidade realmente era. Para os adolescentes e crianças em Foxbridge, ela era a “velha Barbury”, mas, na realidade, ela estava apenas em seus trinta anos. Por trás das roupas simples e do comportamento sério, ela possuía um rosto suave e um par de olhos inteligentes e afiados.

— Pensei que você estava estudando sobre sua Classe. Eu não queria espiar, é claro, sua Classe é assunto seu fora do registro…

Tyron forçou uma risada, com a garganta seca.

— Naturalmente. — Ele ofegou.

—… mas eu queria que você soubesse que, se gostaria de discutir suas opções, pode procurar por mim. Me deslocarei entre a prefeitura e a biblioteca nos próximos dias. Terei prazer em conversar a qualquer hora!

Confuso, Tyron esqueceu o nervosismo e inclinou a cabeça, enquanto olhava para a Escrivã como se ela fosse um puzzle. De repente, fez sentido.

— O Prefeito te enviou. — Ele disse.

A sra. Barbury assentiu e sorriu ironicamente.

— Muito esperto para o seu próprio bem, jovem mestre Steelarm. Sim. Ele mencionou que você não parecia tão… satisfeito, após o seu Despertar. Ele me pediu para ver como você estava e oferecer conselhos.

Ele deveria se sentir grato pelo cuidado deles, mas, em vez disso, sentiu-se ameaçado. Eles provavelmente imaginaram que ele conseguiu um Classe entediante e estava perturbado com o futuro chato diante dele. Havia várias pessoas nesse barco a cada ano. Sem dúvidas, o Prefeito ficava de olho neles e tentava acalmá-los antes que fizessem alguma besteira, mas algo o intrigava.

— Mas por que você, Sra. Barbury? Com todo respeito, esse tipo de coisa geralmente está fora do seu papel normal.

— É verdade. — Ela disse diretamente, antes de segurar sua saia e se sentar na mesa. — Não é algo sobre o qual falo com frequência, mas eu mesma renunciei da minha Classe após meu Despertar.

— O quê? — Tyron ficou chocado. — Sério? Por quê?

— É uma história comum, há pessoas em todo lugar que escolhem renunciar à sua Classe Primária. Não é o fim do mundo. Com trabalho duro e um Treinador, é possível aprender praticamente qualquer Classe, assim que tempo suficiente se passe. Muitas pessoas fizeram grandes coisas depois de escolher uma nova Classe Primária. Quanto ao motivo, minha família não aprovou minha Classe e eu não via um futuro nela, então a troquei. Depois de seis anos de espera, então meses trabalhando com um Treinador, adquiria a classe de Escrivã e assumi as funções aqui em Foxbridge. Viu? Não é o fim do mundo.

— Posso… Posso perguntar qual era a sua Classe original? Se estiver bem para você… quero dizer. — Tyron gaguejou, percebendo quão inapropriada foi sua pergunta.

A primeira Classe era muito pessoal e as pessoas podiam ser muito sensíveis sobre ela. Sra. Barbury hesitou antes de responder.

— Recebi a Classe Dançarina. Eu gostava muito de dançar quando era jovem.

Tyron conseguia entender isso. Mesmo agora ela se movia com uma certa graça da qual certamente não tinha Destreza suficiente para justificar. Depois de dizer o que tinha a falar, a Escrivã colocou as mãos na mesa e se levantou.

— Lembre-se de vir me procurar se precisar de conselhos, certo? Certifique-se de conversar com várias pessoas antes de tomar qualquer decisão.

Tyron faria isso, se pudesse.

— Obrigado, Sra. Barbury. Diga ao Prefeito que aprecio a preocupação dele.

— Direi.

Com um sorriso final, ela saiu para verificar outro grupo e deixou Tyron com seus livros. Embora se sentisse um pouco trêmulo com a intrusão inesperada, ele retornou ao seu estudo, esperando encontrar mais exemplos de Necromancia através da história. Depois de mais uma hora, ele teve sucesso. Enquanto folheava um volume denso que abordava os negócios do Povo da Areia ao sul, encontrou referências a certas práticas que se assemelhavam muito à Necromancia. Supostamente capazes de invocar espíritos e prendê-los sob seus comandos, assim como passagens que descreviam aqueles seres “desprovidos de vida’ usados para suprimir vilas rebeldes.

Ele se levantou da mesa para procurar os volumes relacionados às tribos e retornou com alguns textos promissores dentro de dez minutos. Antes que pudesse se aprofundar neles, foi interrompido mais uma vez.

— Lá está ele! Sabia que ele estaria preso em um livro! — A voz Rufus de ecoou pela biblioteca silenciosa.

‘Agora não.’

Ele não queria lidar com isso agora! Ele não tinha escolha. Quando se virou do livro, encontrou Rufus atravessando a sala com passos largos, alheio à perturbação que causou, com Elsbeth e Laurel logo atrás dele.

— Ei, Tyron! Desculpa não ter te visto após o seu Despertar. — Elsbeth o cumprimentou.

— Tudo bem. — Ele disse. — Sei que você teve que falar com seus pais e resolver os assuntos na igreja.

Ela corou e assentiu.

— Era tão óbvio? — Ela questionou.

Tyron forçou um sorriso.

— Era sim. Parabéns por se tornar uma Sacerdotisa.

— Eu te disse que isso aconteceria. — Rufus interrompeu. — Nada era mais claro. também recebi a Classe Espadachim. O grupo está se formando! Estou dizendo para vocês, fomos feitos para Matar!

Tyron olhou para Laurel.

— Presumo que isso signifique que você conseguiu a Classe do tipo Patrulheiro que queria?

Os olhos de Laurel brilharam enquanto ela sorria.

— Talvez. — Foi tudo o que ela disse.

Tyron sentiu seu coração doer em seu peito. Todos seus amigos haviam recebido a Classe que queriam e agora estavam aqui sem nenhuma preocupação com o mundo, com o futuro se estendendo à frente deles, como um tapete vermelho. Ele se esforçou para reprimir sua amargura. Não era culpa deles que ele tivesse recebido a Classe que recebeu. Na verdade, era culpa dele mesmo. Essa era a Classe com que ele mais se adequava. Quem mais, além de si mesmo, ele poderia culpar por isso?

— Então — ele quebrou o silêncio —, Elsbeth. Já pensou em qual divindade quer servir? Precisa escolher uma, certo?

— Isso mesmo. — Ela disse. — Não devo ficar surpresa por você saber disso.

— Eu pesquisei muito sobre Classes.

— Dá para ver. — Ela riu. — Preciso escolher antes que eu seja Avaliada, pois isso afeta permanentemente meus Status e Classe, mas não depende só de mim, os Deuses têm a palavra.

— Você quer escolher Selene, certo?

Ela ergueu as mãos para segurar o símbolo de Selene que vestia ao redor do pescoço, uma flor de prata que possuía há anos. Selene era a Deusa da Pureza e da Cura. A maioria dos seus seguidores eram mulheres e Elsbeth passava a maior parte do tempo com as Irmãs que trabalhavam na igreja local.

— Espero que sim. Minha família também queria que eu escolhesse Selene.

— Tenho certeza de que você será aceita, e existe toneladas de vilas e igrejas precisando de uma Sacerdotisa. Você se sairá bem.

Rufus mexeu os pés antes de interromper.

— Elsbeth pode se preocupar com isso mais tarde, é hora de celebrar! Nós Despertamos! Vamos dar uma volta! Levanta a bunda e vamos comemorar!

Tyron se afastou da exuberância do seu amigo.

— Ah, estou bem. Acho que vou ficar lendo mais um pouco antes de ir dormir. Ainda não falei com o tio Worthy também, ele está provavelmente preocupado.

Isso era verdade. Seu tio esperava que ele voltasse assim que a cerimônia acabasse, o que ocorreu há cinco horas. Ele tinha que voltar.

— Você não disse qual Classe você recebeu, Tyron. Tudo bem se eu bisbilhotar? — Ele sorriu, seus olhos dançando de excitação.

O coração dele congelou. Ele não podia dizer a eles. Tentou disfarçar.

— Ah, nada especial. Não acho que serei um Exterminador, no futuro.

Houve um silêncio pesado depois que ele falou, enquanto os três amigos tentavam pensar no que dizer. Tyron acenou as mãos.

— Está tudo bem! Nada dramático. Olhe, vocês vão celebrar. De qualquer modo, preciso voltar para a pousada.

Eles olharam para ele com olhares complicados. Ao considerar a família dele, era quase inconcebível que Tyron tivesse uma Classe ordinária. Elsbeth parecia igualmente chocada e triste. Tyron correu para fechar todos os livros e passou por eles.

— Até mais — murmurou.

Não conseguia aguentar seus olhares de pena. Ele correu para fora da biblioteca o mais rápido que pôde, mas não conseguiu evitar de escutar a voz atrás dele.

— Esqueçam ele. Iremos celebrar ou não?

Sentindo-se irritado, Tyron correu de volta para a pousada para tranquilizar os tios que estava bem ao mesmo tempo que suportava os olhares curiosos e preocupados, antes de recuar para a casa dos seus pais.

Ele precisava pensar.

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