Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 2

Livro dos Mortos

Tyron nem havia chegado à porta antes que houvesse uma batida suave. Ele franziu o cenho, era incomum que alguém tentasse procurá-lo em casa, já que ele quase nunca estava aqui. Essa pessoa devia ter vindo vê-lo. Isso diminuiu a lista de suspeitos consideravelmente. Aproximou-se da porta grossa de madeira e parou.

— Elsbeth? — Ele chamou através da porta.

— Como você sabia? — Ouviu-se uma resposta abafada.

— Intuição.

Ele sorriu para si mesmo e girou a fechadura, abrindo a porta para o dia e a jovem brilhante do outro lado. Foi cumprimentado por um sorriso amplo e olhos verdes calorosos que dançavam com entusiasmo.

— Ei, Tyron! Você está pronto para o grande dia? Essas roupas são limpas, pelo que vejo?

— Ah, sim. Pensei que deveria… me arrumar um pouco.

— Você parece bem! Pensei em me arrumar um pouco também. O que você acha?

Ela realizou um giro rápido, permitindo que seu longo vestido flutuasse no vento enquanto ela ria de forma feminina. O vestido em si deixava os braços esguios nus, chegando abaixo dos joelhos dela. Tyron também percebeu que ela estava usando seus melhores sapatos para a ocasião, e talvez… estivesse usando um pouco de maquiagem?

— Você está ótima. — Ele disse honestamente.

Ela se acalmou com a mão no peito e sorriu.

— Obrigada. Sei que não deveria ter me incomodado, mas não consigo deixar de ficar animada! Não consigo acreditar que está finalmente acontecendo…

Ela estava tão animada e cheia de vida que era quase ofuscante vê-la, Tyron olhou para o lado enquanto desejava que esse sorriso fosse apenas para ele.

— Sim. Está quase na hora, você está pronta para ir?

— Pronta? Estou pronta há horas! O único motivo para eu estar aqui é porque estive te esperando! Os outros já estão esperando na biblioteca, então vamos nos apressar!

— Tudo bem, tudo bem. — Ele resmungou enquanto saía pela porta e a trancava atrás dele. — Ninguém disse que vocês precisavam me esperar.

Elsbeth apenas revirou os olhos.

— Oh, claro, depois de dez anos de aulas juntos, devemos simplesmente te abandonar no último dia. Agora, vamos lá.

Ela o segurou pelo braço e o arrastou pela rua de paralelepípedos, seus sapatos macios mal faziam qualquer som na rua. Ele aguentou por um instante até se sentir desconfortável e soltar seu braço.

— Estou indo, okay? Você irá destruir seus sapatos, vamos caminhando.

— Tudo bem. — Ela bufou e saiu com um ritmo rápido em direção ao centro da cidade.

Foxbridge não era uma cidade particularmente grande ou importante. Não possuía qualquer valor estratégico ou recurso raro e sua posição relativamente rural a condenava à mediocridade. O Rio Azul fluía das ironicamente nomeadas Montanhas da Pedra Vermelha e seguia em direção à província central, perto da capital, o que significava que o pouco comércio que ocorria acontecia na cidade. O resultado era um centro rural discretamente próspero, perfeito para uma família viver em paz e começar um negócio ou uma fazenda, ou para um casal de Exterminadores deixarem seu filho nas mãos do tio dele.

Havia algumas comodidades que a maioria das crianças na periferia do Reino não teria acesso, como escola, biblioteca e, entre outras coisas, uma Pedra do Despertar totalmente carregada. O que significava que no ano em que completavam dezoito anos, pessoas de todos os cantos da província viajavam para cá para a cerimônia. Tyron esperava que o Prefeito tivesse tido uma boa noite de sono, ele provavelmente acompanharia a cerimônia do meio-dia até quase meia-noite.

De fato, enquanto o par se aproximava da praça, a multidão aumentava e os rostos ficavam visivelmente mais jovens. Quando se aproximaram da biblioteca os corpos estavam ombro a ombro.

— Era por isso que eu queria chegar aqui mais cedo. — Elsbeth exibiu um olhar acusatório para ele enquanto se levantava na ponta dos pés para procurar por seus amigos. — Ah! Eu os vejo! Vamos.

Ela começou a abrir seu caminho através da multidão com uma expressão determinada, deixando Tyron sem escolha, a não ser suspirar e segui-la, desculpando-se enquanto passava. Por sorte, ninguém ficou ofendido com isso e eles conseguiram chegar inteiros ao corrimão de madeira em frente à biblioteca.

— Vocês demoraram bastante. — Rufus sorriu. — Eu disse que ele dormiria até mais tarde. Você não precisava esperar por ele.

Elsbeth abanou com a mão para ignorar as críticas.

— Não houve mal algum, estamos todos aqui. Certo, Laurel?

O quarto membro do pequeno círculo deles apenas deu de ombros.

— Está tudo bem. Como você está, Tyron?

— Cansado. — Ele suspirou. — Mas estou aqui.

Rufus mostrou-lhe um olhar perplexo, como se perguntasse como alguém poderia estar cansado depois de dormir até tal hora, mas Laurel apenas assentiu.

— Tem mais alguma ideia sobre a Classe que você conseguirá? — ela perguntou.

Naturalmente, tudo o que todos queriam conversar durante o último ano eram suas Classes, a propósito, a maior parte da infância era focada nesse tópico. Isso criava muita pressão e excitação entre as crianças, mas Tyron estava simplesmente entediado. Eles conversariam sobre isso sem parar por quase uma década. Ninguém sabia de nada com certeza até que o evento acontecesse. Fazer planos intermináveis que poderiam nunca se concretizar era um desperdício de energia mental.

— Não. — Ele suspirou. — Para ser honesto, estou ansioso para terminar com isso. Quero conseguir minha classe, ler sobre ela e ir para casa. Estou pronto para continuar com a minha vida.

— Sempre com os livros. — Rufus zombou. — Nós devemos sair e celebrar! Estamos despertando hoje!

— E se conseguirmos uma Classe Não Sancionada? — Elsbeth se preocupou. — Se eu receber algo banido, não sei o que farei…

— Remova-a. — Rufus deu de ombros. — Trabalhe para conseguir uma nova Classe. Você nem precisa sair da cidade para fazer isso, já que aquela velha, Barbury, está aqui.

— Lembram quando aquele cara recebeu Ladrão há dois anos e se recusou a desistir dela? Eu nunca vi o Prefeito tão bravo. — Laurel riu.

Um sentimento amargo percorreu o estômago de Tyron. Aquele homem havia tentado fugir da vila sem ter seu status lido depois do Despertar. Depois de ser pego pelos marechais, arrastado de volta para ser Avaliado e se recusar a renunciar à Classe Ladrão. O Prefeito decepou as duas mãos dele. Sem a capacidade de roubar, o aspirante a Ladrão jamais conseguiria aumentar o nível da sua Classe, aleijando-o para o resto da vida.

— Não sei por que você está preocupada Elsbeth, você é praticamente garantida como uma Sacerdotisa — Laurel provocou.

— Não diga isso! — Elsbeth levantou ambas as mãos e as balançou em negação. — Sacerdotisas são raras! Apenas porque eu ajudo na Igreja não significa nada.

Silenciosamente, Tyron concordou com Laurel, se alguém seria uma Sacerdotisa era Elsbeth, mas quem sabia? Afinal, os Deuses eram inconstantes. Ao ouvir a conversa sobre a Classe Sacerdotisa, os olhos de Rufus piscaram e ele levantou a voz para falar com o grupo.

— Vocês já pensaram na minha sugestão?

Os ombros de Tyron caíram um pouco quando seu velho amigo trouxe esse tópico. Sabia que chegaria a isso, sempre chegava.

— Nós nem sabemos que Classes conseguiremos, Rufus. Não há muito sentido jurarmos ser Exterminadores juntos, há?

— Sempre um cético, Tyron. — Rufus zombou. — Olhe para nós quatro. Temos uma ótima química, esperando para acontecer. Serei um guerreiro ou um Espadachim, sem dúvidas, Laurel será uma Patrulheira ou uma Arqueira, Elsbeth será nossa Curandeira e Tyron será nosso Mago. É uma combinação perfeita.

Não era como se o plano de Rufus não tivesse méritos. Rufus era o filho do ferreiro e tinha o físico necessário para ajudar a forjar, mas passava a maior parte do tempo treinando com armas no campo de prática da escola. Com seus cabelos ruivos flamejantes, habilidades sólidas e temperamento irritável, ele tinha uma certa reputação de encrenqueiro. Laurel era uma garota quieta e de pele escura que herdou a caça do pai. Ela costumava sair para rastrear monstros nas florestas.

Ela havia confessado para Tyron que sua habilidade Arquearia havia alcançado o nível cinco, uma conquista incrível para sua idade.

Elsbeth provavelmente seria algum tipo de curandeira, dado o tempo que passava se voluntariando para ajudar os doentes e tal disposição natural. Ter acesso à magia de cura era tão raro quanto dentes de galinha. Qualquer grupo imploraria para Elsbeth se juntar a eles se conseguisse uma Classe dessas. O que restava era Tyron.

Mesmo que tivesse de admitir que estava perfeitamente preparado para ser algum tipo de Mago, fosse Conjurador, Elementarista, Invocador ou uma das incontáveis variedades. Seus Status Mentais eram altos para sua idade, ele trabalhou duro na sua teoria de Magia e suas habilidades práticas haviam progredido muito bem. Secretamente, Tyron esperava pela Classe Bruxo. Eles não eram adequados para serem Exterminadores de Monstros, já que suas magikas eram geralmente em larga escala. Se ele conseguisse ascender para um Arqui-Bruxo, teria sua própria torre em algum lugar e ficaria entregue à própria sorte até que o Reino precisasse dele para lançar um cometa em algo, então poderia voltar para seus livros.

Ainda assim, ele se comprometeria com a Classe que receberia. Só esperava que não fosse Dançarino ou Músico. Ter que se apresentar diante de multidões para subir de nível seria um pesadelo, além disso, a ideia de ter que trabalhar tão próximo dos outros simplesmente… o incomodava. Ele podia gostar dos seus amigos sem querer passar semanas a fio com eles, certo? Embora se Elsbeth se juntasse…

— Talvez se eu conseguir a Classe Espadachim, seu pai finalmente me treinaria. Você pediria para ele por mim, certo? — Rufus perguntou.

Tyron deu de ombros de novo.

— Rufus, você já pediu para ele, eu pedi para ele te treinar. Não acho que ele deseje ensinar alguém.

— Ele te ensinou, não ensinou? — Rufus refutou.

— Ele me ensinou alguns exercícios para que eu conseguisse a Habilidade Esgrima. — Tyron o recordou, exasperado. — Sabe disso.

— Não sei por que ele desperdiçou o tempo dele. — O outro garoto murmurou. — Ele poderia ter treinado alguém que realmente quer aprender a como lidar com uma lâmina.

— Oh, acho que está prestes a começar! — Elsbeth cortou, querendo evitar uma discussão.

Tyron balançou a cabeça e Laurel exibiu um sorriso malicioso para ele antes de olhar para frente. O Prefeito subiu no palco e começou a embaralhar os papéis com suas mãos grandes demais. O homem sempre parecia deslocado para eventos formais. Na opinião de Tyron, ele era mais adequado, e feliz, atrás de um arado trabalhando em seus campos. Como a família dele havia trabalhado e economizado por gerações trabalhando na terra, haviam se tornado bastante prósperos para os padrões rurais. Pessoas merecedoras, se era que existiam alguma.

O Prefeito Arryn passou a mão pela sua pele bronzeada para limpar o suor e se recompor. Ele odiava este evento. Tinha que vestir sua camisa boa, abotoada até o pescoço por doze horas diretas, de longe o compromisso público mais longo do ano. Bem no meio da temporada de rega. Momento idiota, e ele já havia dito isso na cara do Barão. Não havia como mudar a opinião daquele sapo gordo, então não adiantou nada. Ele girou os ombros largos uma vez e começou a falar.

— Bem-vindos à cerimônia de Despertar deste ano. Sou o Prefeito Arryn de Foxbridge e cumprimento todos vocês. Há muitos de fora da cidade aqui hoje e dou as boas-vindas aos nossos amigos de toda a província. Quebrem a lei em minha cidade e os marechais farão vocês saírem correndo sem um pedaço de roupa.

Silêncio.

— Que bom que nos entendemos. — Ele tossiu. — As regulamentações da cerimônia são as mesmas do ano passado. Há um período de tolerância de cinco dias no qual é permitido se registrar com a Escrivã para ter seus Status Avaliado, para que sua Classe seja registrada. Espero que não aconteça, mas quaisquer Classes Não Sancionadas devem ser revogadas. Essa é a lei. Nós começaremos na ordem de sempre, locais primeiro, viajantes depois. Se você veio de fora da cidade, por favor vá para o fundo ou, melhor ainda, saiam da praça, não precisam estar aqui por algumas horas.

Dito isso, o Prefeito pulou do pódio e caminhou até o pequeno pedestal do lado de fora da prefeitura, o qual abrigava a Pedra do Despertar apenas para esse dia do ano. Tyron havia tentado apreender o que conseguia da Pedra do Despertar, mas não havia muito, pelo menos nos textos que conseguiu encontrar. Elas foram usadas por milhares de anos para ajudar as pessoas a Despertarem suas Classes Primárias, supostamente ajudando a canalizar a energia dos Deuses. Sua mãe disse que eram apenas Pedras de Mana de alta qualidade que atuavam como um canal entre o receptáculo (pessoa) e as energias mágicas que preenchiam o mundo. Qualquer que seja o motivo, todos conseguiriam suas Classes assim que colocassem suas mãos na pedra.

— Vocês o escutaram, vamos.

Rufus pulou e começou a abrir caminho pela multidão, usando sua altura e força para isso. Laurel e Elsbeth o seguiram ansiosas, enquanto Tyron se moveu um pouco atrás. O que, naturalmente, significava que foi empurrado do início ao fim por fazendeiros irritados que viajaram um longo caminho e agora tinham que esperar por esses mimados da cidade.

Fazendo uma careta por trás do seu sorriso rígido, Tyron avançou e se juntou aos outros de sua faixa etária vindo de Foxbridge. Não havia muitos que faziam dezoito este ano, apenas trinta e três, o que era um grupo decente para uma cidade deste tamanho. A maioria deles frequentou a escola juntos, embora nem todos tivessem a frequentado tanto quanto Tyron. A maioria eram filhos de fazendeiros, ou de famílias de comerciantes ou até de trabalhadores das docas, e passavam a maior parte do tempo ajudando no comércio da família. Os Steelarms estavam no negócio de exterminar monstros e Tyron com certeza não estava ajudando nisso, mas exterminar monstros certamente pagava bem, especialmente para veteranos de alto nível como seus pais, então Tyron tinha o luxo de ser capaz e frequentar as aulas todos os dias e encher a cabeça com história, teoria mágica, biologia dos monstros, política e matemática.

Claro que isso significava que sua reputação como um viciado em livros estava concretada entre seus pares.

Enquanto Elsbeth, Laurel e Rufus cumprimentavam os outros e se envolviam em brincadeiras animadas, formando uma fila ligeiramente organizada, Tyron se conteve e se manteve reservado até que pudesse ocupar seu lugar no fundo. Ao se colocar atrás da figura corpulenta do filho do padeiro, sentiu o gelo se infiltrar em suas veias e seu coração começou a bater forte.

Respirou fundo e se acalmou.

‘Sem problemas. Não importa qual Classe seja. Apenas persista. Simples assim. Você receberá outras Classes ao longo do caminho, de qualquer forma, essa é apenas a primeira.

Apenas a sua primária.

Ele amaldiçoou silenciosamente a voz traidora em sua mente e tentou controlar suas emoções.

‘Fique calmo. Não se preocupe. Acabará em breve, você poderá ir para casa e relaxar, estudar a sua nova Classe. Você esteve esperando por isso por um longo tempo.’

Enquanto Tyron tentava se recompor, a cerimônia começou na linha de frente. Quatro guardas corpulentos flanqueavam o Prefeito, que era maior que todos eles e estava à frente da Pedra do Despertar levemente brilhante. O pedestal em que a pedra repousava estava longe da multidão, embora muitos se apressassem para observar os jovens passarem por este rito de passagem. Na linha de frente, naturalmente, estava Rufus. Ele prosseguiu com confiança, mal escutando o que o Prefeito lhe dizia para fazer. Assim que recebeu permissão, deu um passo em frente e colocou ambas as mãos na pedra, quase como se a cobrisse com suas mãos grandes.

Para quem observava, parecia que os olhos dele ficaram vazios, a consciência por trás deles sumiu, antes que se enchessem de vida mais uma vez e um sorriso amplo dividisse seu rosto. Seu júbilo era visível e aqueles observando soltaram uma salva de palmas. Era sempre bom ver um jovem conseguindo a Classe que esperava. Sorrindo de excitação, Rufus caminhou para o lado e assentiu sem pensar enquanto o Prefeito o recordava de suas obrigações, seus olhos já escaneando a fila por seus amigos. Quando encontrou Elsbeth e Laurel perto da frente sorriu animadamente e cerrou o punho. Quando viu Tyron no fundo, exibiu um olhar alegre e acenou.

Bem, pelo menos ele estava feliz. Ele deve ter recebido uma Classe orientada para espada como esperava. Tyron sabia que seria incomodado para pedir para o seu pai treiná-lo até que seus pais voltassem para casa. Pelo menos não demoraria muito. Seus pais pretendiam voltar ontem, mas foram atrasados na estrada. Estavam há quatro dias de distância de acordo com a última carta, uma semana no máximo. Ele poderia tolerar Rufus por esse tempo. Se o pior acontecesse, ele recuaria para o seu “escritório” no sótão, isso funcionou antes e funcionaria de novo.

A próxima pessoa se aproximou, depois a próxima, então foi a vez de Laurel. A reação dela foi bem mais contida do que a de Rufus, mas Tyron conseguia dizer pela leve curva nos seus lábios que ela estava satisfeita. O que era interessante, já que Tyron nunca definiu exatamente o tipo de Classe que ela queria. Ela costumava concordar com qualquer sugestão que oferecessem, sem oferecer sua própria opinião. Ela podia lhe contar o que tinha, mas era mais provável que não. Ela poderia considerá-lo um amigo, mas tendia a manter suas cartas escondidas.

Havia apenas uma pessoa entre Laurel e Elsbeth, e logo foi a vez da jovem. Seu cabelo loiro brilhante cintilava no sol, enquanto se aproximava nervosamente. Ele torceu silenciosamente por ela em sua cabeça, enquanto a jovem assentia, em silêncio, às palavras do Prefeito e depois cambaleava para frente, quase caindo na pedra, mas conseguiu se segurar ao firmar as mãos diretamente sobre ela.

Houve um momento de silêncio enquanto seus olhos ficavam vazios. Quando a luz voltou a eles, ela ainda permaneceu imóvel e em silêncio por mais um instante, antes que um sorriso deslumbrante aparecesse em seu rosto e lágrimas se formassem em seus olhos. Ao lado, Rufus cerrou os punhos enquanto seus olhos brilhavam em triunfo. Até Laurel pareceu chocada por um momento antes que recuperasse sua postura. Era difícil para Tyron ver, mas pela comoção em frente e pela linguagem corporal de Elsbeth, parecia que o palpite estava certo e ela realmente havia se tornado uma Sacerdotisa.

— Bom para você, El — ele murmurou para ninguém em particular, enquanto a garota em questão se recompunha e corria até sua mãe, que havia fechado sua alfaiataria para assistir ao grande evento.

Pouco depois de Elsbeth, Laurel e Rufus desapareceram da praça, deixando Tyron sozinho na multidão. Ele tentou ignorar. Eles tinham família para celebrar e planejar o que fazer, seus futuros subitamente eram muitos mais claros do que eram há momentos, enquanto ele ainda tinha que esperar mais meia hora. Ainda doía, mas não importava. Ele havia confiado em si mesmo até aqui, então cruzaria a barreira final da mesma maneira.

Pessoa por pessoa, a linha diminuiu enquanto cada jovem se aproximava e descobria seu destino. Com cada passo que dava para frente, Tyron precisava se recompor de novo, pois o nervosismo e a ansiedade aumentavam e tentavam arrastá-lo para baixo. Quando finalmente chegou sua vez, sentia-se exausto e uma dor de cabeça havia começado a se formar em suas têmporas. Poderia ser a ausência de sono, ou o sol batendo forte ou as repetidas ondas de emoções, mas enquanto se aproximava da pedra e as palavras murmuradas do Prefeito alcançavam suas orelhas, ele se sentiu fisicamente enjoado.

‘Está quase acabando. A um passo de distância, jogue suas mãos nessa pedra estúpida e termine com isso. Você poderá trilhar seu próprio caminho, assim como sempre quis. Está bem na sua frente. É SÓ PEGAR.’

E ele fez.

Ele respirou fundo e, repentinamente, deu um longo passo para frente e bateu suas mãos na pedra.

Imediatamente sentiu que sua mente foi retirada do seu corpo e adentrou num vasto espaço de luz e escuridão. Ele sentiu o infinito. Ele sentiu o frio. Ele não sentiu nada. O tempo se estendeu diante dele até que não conseguia nem imaginar quanto tempo esperou, então, uma voz falou, enviando vibrações por todo seu corpo.

[Tyron Steelarm. Você busca poder. Você busca controle, tanto sobre si mesmo como sobre seu destino. Mais que isso, você busca controle sobre aqueles ao seu redor, para assegurar que eles não te machucarão, para assegurar que eles agirão de acordo com a sua vontade. Você fez da escuridão seu lar e do estudo do arcano sua paixão. Solidão e Autoridade são os seus desejos. Eles devem ser garantidos.]

[Você recebeu a Classe: Necromante.]

[O Mago da Morte, o Necromante que consegue invocar espíritos, criar Mortos-Vivos e invocar Magikas Negras. Para aumentar sua proficiência, você deve se dedicar às principais buscas da sua Classe: ressuscitar os mortos e levá-los a batalha em seu nome.]

[Atributos de Classe por nível: Inteligência +2; Sabedoria +1; Constituição +1: Manipulação +1;] [Habilidades concedidas no nível um: Avaliação de Cadáver.

Preparação de Cadáver.]

[Feitiços concedidos no nível um: Ressuscitar Mortos.]

Ele sentiu seu cérebro queimar enquanto o conhecimento era gravado nele. Sussurros mal compreendidos e fragmentos de pensamentos foram injetados em sua cabeça, enquanto ele tentava, impotente, resistir ao processo. Por pouco, sua mente se chocou contra seu corpo e recobrou os sentidos. Por um momento, ele não se moveu. Não conseguia se mover. Qual Classe era? O que acabou de acontecer? Ele permaneceu na frente da pedra, com as mãos ainda apoiadas nela, imóvel como uma pedra e boquiaberto como um peixe. Antes que conseguisse organizar seus pensamentos, outra voz irrompeu em sua mente e falou diretamente com sua alma. Enquanto a primeira voz fora poderosa e justa, esta era sombria e sinistra.

[Tyron Steelarm. Os fios do destino teceram uma trama ao seu redor que achamos muita divertida. Com nossa ajuda, é possível que sobreviva um longo período para proporcionar ainda mais diversão. Você conquistou a atenção dos Sombrios, da Corte Escarlate e do Abismo. Eles te concederam uma Classe Especial.]

[Você recebeu a Subclasse: Anátema.]

[Você é o inimigo dos justos e um vilão aos olhos dos Deuses. Você atraiu a atenção daqueles que jazem além, mas não o favor deles. Para aumentar sua proficiência, realize ações que agrade aos seus patronos sombrios. Preste culto e espalhe a Vontade dos Sombrios, ofereça sacrifícios e sangue para A Corte Escarlate ou investigue os mistérios proibidos do Abismo.]

[Atributos de Classe por nível: Constituição +2; Inteligência +2; Força de Vontade +2;] [Habilidade concedida no nível um: Nenhuma.]

[Feitiços concedidos no nível um: Nenhum.]

Após o primeiro choque, o segundo quase o deixou insensível. Ele simplesmente não conseguia processar o que acabou de escutar. Uma Classe Especial? Anátema? Inimigo dos Deuses?! Congelado no lugar com as mãos na pedra, sua mente correu para tentar acompanhar, até que escutou uma tosse educada ao seu lado. Tyron virou seu olhar frenético para o lado apenas para encontrar o Prefeito gentil o encarando de volta.

— Está tudo bem, rapaz?

Por reflexo, Tyron se forçou a exibir um sorriso na face e assentiu.

— Claro que sim! Está tudo ótimo!

Ele saiu para o lado para permitir que a próxima pessoa passasse e conseguiu manter seus pés firmes enquanto voltava para a multidão. Abriu caminho até chegar na borda e ruas vazias se abriram diante dele.

Ele correu.

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