Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 1

Livro dos Mortos

O sino tocando avisou Tyron que ele não tinha muito tempo sobrando. Com um suspiro, se inclinou sobre a cadeira e esfregou seus olhos cansados, borrando a bochecha de tinta ao fazê-lo. Com alguma sorte, essa seria a última vez que ele teria que virar a noite cuidando dos livros do seu tio. Por mais que apreciasse a renda, as horas que era forçado a cumprir colocavam muita pressão no seu sono. Sentando-se ereto, ele fechou o livro-razão à sua frente, limpou o pincel e fechou a tinta antes de guardá-la. O pote encontrou seu lugar sobre uma fileira de volumes cuidadosamente dispostos sobre a mesa, com as lombadas voltada para fora. Atrás dos livros, na própria parede, páginas após páginas de anotações escritas à mão cobriam a superfície, cada uma presa cuidadosamente no lugar, cada uma cheia de sigilos, iconografias estranhas e diagramas.

O sol já havia começado a nascer, a luz fraca da manhã invadia pela janela do primeiro andar e adentrava o sótão, que havia se tornado seu lar longe de casa, assim como um escritório improvisado. Tanto quanto pode se chamar um saco de dormir no canto do quarto, ou uma mesa gasta coberta por livros e papeis com runas no escritório. Enquanto Tyron se levantava, ele tropeçou, pois seus músculos estavam mais rígidos do que ele antecipou. Amaldiçoou e parou por um momento para se esticar, antes de reunir o livro-razão e caminhar em direção à escada. Tudo no quarto estava onde estava porque ele colocou ali. Era seu, de uma forma que a casa de seus pais nunca fora.

A poeira começou a se reunir nos cantos de novo, ele observou com um olho crítico, além disso, parecia que as aranhas estavam começando a pensar que ele as havia aceitado e haviam começado a retornar, tecendo diligentemente enquanto ele trabalhava. Quando voltasse durante a noite, ele precisaria dissuadi-las dessa ideia particular. A guerra contra os aracnídeos nunca acabava, Tyron estava sempre pronto para se juntar às linhas de frente. O jovem rangia ao caminhar, seus olhos pareciam secos como serragem após uma noite inteira de trabalho. Ele precisava se refrescar.

Com cuidado para não escorregar, quebrar um pé não era algo que gostaria de repetir, ele desceu a escada de madeira e foi cumprimentado por seu tio, Worthy, assim que chegou ao fundo.

— Aí está você, rapaz! — Soou um grito entusiasmado antes que um braço pesado batesse nos ombros do jovem no instante em que alcançou o piso. — Eu já estava pensando que você já havia saído para o dia!

Tyron cambaleou sob o peso da saudação entusiasmada do Martelador, antes de levantar o livro-razão e balançá-lo no rosto do seu parente.

— Estive cuidando da sua contabilidade, lembra? Você não vai esquecer de me pagar? De novo?

Os olhos azuis e brilhantes de Worthy Steelarm desviaram-se por um segundo antes de voltar para o rosto do seu sobrinho, mais uma vez radiante de alegria.

— Isso aconteceu apenas uma vez, rapaz! Não precisa continuar falando nisso! De qualquer forma, esqueça aqueles livros malditos, não sabe que dia é hoje?

O velho pegou o livro com facilidade e o jogou sem cuidado em uma mesa próxima, com seu sobrinho mais baixo ainda preso sob o peso do seu braço.

— É improvável que eu esqueça meu próprio Despertar, tio — ele disse. — É tudo o que as pessoas têm falado comigo nos últimos dias. Inclusive você!

— É por isso que você esteve se escondendo no meu sótão? — seu tio riu. — Você só passa pela cerimônia de Despertar uma vez, afinal! Estive esperando por esse dia há muito tempo. Muito tempo. Mal consigo acreditar que aquela pilha de panos gritantes está toda crescida! É uma pena que seus pais não tenham conseguido voltar a tempo.

Emoção cresceu no peito dele, mas Tyron a conteve por reflexo.

— Eles tentaram — ele deu de ombros —, você sabe tão bem como eu que eles vão aonde o vento os leva.

— Sim, eu sei disso. Nasceram para se aventurar, aqueles dois. Eu sempre disse isso — os olhos de Worthy se suavizaram enquanto olhava de volta para o sobrinho. Ele levantou o braço e bagunçou o cabelo do garoto com uma mão. Quando o rapaz olhou para ele, indignado, ele apenas gargalhou e bateu no ombro dele.

— Eles nasceram para isso, rapaz. Como eu nunca vi igual, mas isso não significa que eles não deveriam estar aqui para isso. Vão se envergonhar da próxima vez que chegarem à cidade. Como deveriam! Vou ficar dando bronca neles pelos próximos vinte anos! Pelo menos! Quanto a você, faça isso por cinquenta anos! Mande-os para a cova com isso! Apenas me prometa que irá perdoá-los. Tudo bem?

Tyron sentiu uma onda de afeição pelo velho rude e, desajeitadamente, abraçou-o com um braço.

— Não é como se eu pudesse guardar rancor deles. Você sabe como eles são.

— Sim, eu sei. É por isso que os perdoo pelos deslizes, mas isso não significa que tenham um passe livre. Agora vá se lavar. Não posso ter um membro da minha família aparecendo para o seu Despertar parecendo que não dormiu por três dias! — ele parou e seus olhos se estreitaram. — Quando foi a última vez que você dormiu?

— Uhhh.

— Eu sabia! Sai daqui e vai tomar um banho frio, seu garoto idiota! — com um empurrão brincalhão, seu tio o mandou cambaleando em direção à cozinha antes de se virar para cumprimentar o funcionário que entrava pela porta.

O jovem riu enquanto saía cambaleante da sala comum e entrava na cozinha da pousada, onde foi cumprimentado por sua tia Megan. A mulher mais velha tirou os olhos do mingau que estava fazendo – sem dúvidas o café da manhã de hoje – e sorriu.

— Bom dia, Tyron. Ouvi o rabugento te dando um sermão. Como se você não estivesse fazendo o trabalho dele — ela fungou. — Bem, não quero que pense que não apreciamos isso. Venha e sente-se. Me conte como está o mingau. Subi o nível da minha habilidade Culinária ontem à noite e estou animada para saber a diferença.

Nunca recusando a comida da tia, Tyron ficou muito feliz de se sentar e saborear o café da manhã. Que Megan era a melhor cozinheira de Foxbridge era indiscutível, e em grande parte o motivo pelo qual a Pousada Steelarm atraía tantos clientes. O fato de ela ter conseguido outro nível significava que sua vantagem já formidável seria ampliada ainda mais.

Logo a tigela fumegante de mingau foi colocada no balcão à sua frente e ele puxou um banquinho para se acomodar. Depois de soprar, ele pegou uma amostra para testar.

— Sensacional, Tia Meg. Está ainda melhor do que antes. — Ele disse sinceramente.

— Que bom garoto você é. — Ela sorriu, orgulhosa da sua conquista. — Agora coma. Você é tão magro que as pessoas começarão a dizer que não te alimentamos e não podemos admitir isso!

— Sim, madame. — Ele sorriu e começou a comer enquanto sua tia tagarelava atrás dele.

Após ouvir um pouco das fofocas e de ouvir o que os velhos pela cidade achavam que seriam as Classes que todos receberiam hoje (aparentemente ele era o candidato perfeito para Escrituário), Tyron pediu licença e foi para o fundo da pousada para se lavar. Se lavou com água fria do barril e um sabão que funcionava com magia, como tudo sempre fazia, e se sentiu muito mais refrescado quando voltou para dentro e encontrou a estalagem a todo vapor.

Os ajudantes de cozinha haviam chegado, assim como Lauren e Gwen, as duas garçonetes, que começavam a circular pela sala comum, servindo a clientela matinal. Tio Worthy fez o que fazia de melhor: serviu as bebidas e encantou a audiência com contos de suas aventuras. Poderia se pensar que o homem era um Bardo antes de se aposentar, dada a sua simpatia. Ele já estava imerso na história do Drake da Montanha quando Tyron passou sorrateiramente e saiu pela porta, tendo a campainha sobre a porta como sua única testemunha.

Ele suspirou de alívio enquanto abaixava a cabeça e seguia pela Rua Leaven para sua própria casa, a apenas algumas portas de distância. Foxbridge já estava acordando neste horário, mas hoje em particular havia uma tensão nervosa no ar. Era o dia do Despertar. Mais um ano de crianças se transformando em adultos e recebendo suas Classes. Um grande dia para qualquer criança e um dia orgulhoso para qualquer pai.

Se estivessem aqui.

Ele retirou os pensamentos dos seus pais da cabeça e conteve a excitação em sua barriga até se dissipasse completamente.

‘O que tiver que ser, será. Não precisa ficar nervoso ou excitado,’ ele se avisou. Enquanto caminhava em direção à porta familiar, não pode deixar de se recordar do aviso que seu pai lhe deu sobre sua Primeira Classe.

— Agora, isso não será algo que você escutará em suas aulas. — Ele disse com seu sotaque carismático. — Mas isso é algo que muitos de nós, Exterminadores de Monstros e Exploradores, sabemos.

Ele se inclinou e deu uma longa tragada em seu cachimbo. Um hábito que havia desenvolvido durante sua expedição mais recente, visitando um povo da montanha, para o desgosto de sua mãe.

— É dito que a Classe Primária que você recebe é escolhida pelos próprios Deuses. Que eles utilizam a pedra para espiar no seu coração e olhar para a pessoa que você é antes de lhe darem o poder para você realizar seus sonhos. Não sei se isso é verdade, mas o que eu sei é que a Classe Primária é feita sob medida para cada pessoa. Não pode ser apenas algo ao acaso. Mas existe uma coisa…

Neste ponto, ele se inclinou, com os olhos brilhando para o jovem Tyron.

— Ninguém que renunciou à sua primeira Classe ascendeu ao topo. Ninguém. Subclasses jamais compensarão a perda, mesmo para humanos. É por isso que estou lhe contando, mantenha sua Classe. Não me importo qual seja, Bandido, Ladrão, Prostituta, diabos, até mesmo um Mercador imundo. — Ele cuspiu para enfatizar. — Essa é a Classe que se adequa a você, e eu e sua mãe não nos importamos com o que ela seja. Nós a aceitaremos assim como aceitamos você, okay? Siga o caminho que lhe foi traçado. Não há algo como vergonha entre nós.

Era impossível para Tyron odiar Magnin e Beory Steelarm. Eram dois péssimos pais. Ele poderia admitir isso, e eles também, mas o que eles faziam era amá-lo incondicionalmente, e por isso ele era grato. Eles o aceitavam como ele era, assim como aceitavam a si mesmos. Em vez de parar de viajar, ficarem ressentidos e amargos até se odiarem, eles se entregaram a essa vida. Quando fez quatorze anos, eles se ofereceram para levá-lo junto em suas viagens, mas ele nunca se sentiu confortável em aceitar a oferta. Esse era o mundo deles e ele suspeitava que se sentiria como um intruso, mesmo que fosse o filho deles. Não tinha certeza se queria ser um Exterminador em primeiro lugar. Quem sabe? Talvez acabasse como um Escrituário.

Enquanto retirava a chave de ferro pesada do seu bolso ele riu com o rosto do seu pai ao descobrir que seu filho havia recebido a Classe Escrituário. Ele abriu a fechadura e entrou na casa silenciosa. A poeira havia se acumulado durante os últimos dias, ou talvez já estivesse perto de uma semana? Quando pensou sobre isso, não tinha certeza de quanto tempo fazia desde que não voltava para casa. Como sempre, o ar parecia pesado aqui. Tanto espaço com ninguém para preencher tornava a casa desconfortável. Era por isso que ele hesitava em permanecer aqui, mesmo após seu tio decidir que ele era velho o suficiente.

Sem querer afundar em pensamentos negativos, caminhou até seu quarto e pegou um conjunto de roupas limpas para vestir. Um minuto depois, estava pronto. Embora tivesse roupas de cores vibrantes, a maioria presente de sua mãe, ele só as usava por tolerância. Hoje, vestiria seus tons cinza e pretos habituais e comuns que o ajudavam a esconder as manchas de tinta. Não que seus pais pudessem reclamar, já que não estavam aqui.

Depois de se vestir e encontrar suas botas boas, ele passou um tempo para arrumar a casa. Não precisava ir até a praça da cidade por algumas horas, embora fosse certeza que alguns outros aldeões de dezoito anos já estivessem lá. Ele não poderia culpá-los. Alguns deles esperavam a vida toda por este dia, como se tudo até então tivesse sido um desperdício. Dezoito anos de vida, tudo em preparação para este dia.

Após uma hora de limpeza inútil, Tyron desistiu e recolheu sua documentação da mesa da cozinha, onde a havia deixado da última vez. O Prefeito era rigoroso com as regras, e essas regras exigiam que uma leitura de Status realizada dentro de quinze dias antes do Despertar fosse apresentada antes da cerimônia. Sem querer ser pego pela correria, ele havia obtido sua leitura da Sra. Barbury, a Escrivã da cidade, com treze dias de antecedência. Olhou para a página e notou a letra limpa em que estava escrita.

Relatório de Status datado de 14/6/5447

Nome: Tyron Steelarm

Idade:18

Raça: Humana (Nível 10)

Talentos Raciais:

Nível 5: Mão firme

Nível 10: Coruja Noturna

Atributos:

Força: 12

Destreza: 11

Constituição: 15

Inteligência: 19

Sabedoria: 18

Força de Vontade: 15

Carisma: 13

Manipulação: 10

Postura: 13

Habilidades Gerais:

Aritmética (Nível 5) (Máx)

Caligrafia (Nível 4)

Concentração (Nível 2)

Culinária (Nível 1)

Funda (Nível 3)

Esgrima (Nível 1)

Seleção de habilidades disponíveis: 3

Feitiços Gerais:

Globo de Luz (Nível 5) (Máx)

Sono (Nível 4)

Raio Magiko (Nível 1)

Mistérios:

Modelagem de Feitiços (Inicial): INT +3, SAB +3

Era curto e direto, mas comunicava a totalidade dos dezoito anos de vida de Tyron. Estranho como tanto de uma pessoa poderia caber em uma curta lista. Ainda assim, ele tinha que admitir que pintava um quadro bastante complexo. Quase todos subiam o nível de sua Raça para dez ao completar dezoito anos, muitos eram capazes de levá-la ainda mais alto. Como a experiência era adquirida por meio do que lhes era ensinado a chamar de “experiências humanas”, como socializar, formar conexões emocionais e se envolver em atividades comunitárias, era um milagre que Tyron ter conseguido chegar ao nível 10. Ele devia isso à sua tia, tio e seu pequenos círculos de amigos para isso.

Algumas pessoas gostavam de salvar suas seleções de talentos até que soubessem qual era sua Classe, mas Tyron havia decidido que alguns talentos gerais, com uma ampla variedade de aplicações, seriam boas escolhas. Ele não gostava da ideia de não continuar com sua vida até o Despertar, então escolheu seus talentos o mais cedo possível. Ajudava na contabilidade da pousada desde que tinha dez anos, então o talento Mão Firme fazia sentido. Isso havia ajudado com sua caligrafia e certamente seria útil em quase todas as Classes que recebesse. Magos precisavam de habilidades motoras sutis excepcionais, assim como Artesãos, Arqueiros, até mesmo Escrituários.

Como tentava conciliar estudos, a prática de feitiços e trabalhar para seu tio, suas noites estavam ficando cada vez mais longas. O talento Coruja Noturna o mantinha alerta à noite e o ajudava a aliviar a fadiga que sentia pela falta de sono. Essa era uma escolha da qual nunca se arrependeria. Muitos ignoravam esse talento, mas era um salva-vidas para Tyron.

Seus atributos eram razoavelmente normais para sua idade. Seus atributos mentais mais altos, em oposição aos físicos faziam sentido, ao considerar seu físico e estilo de vida.

‘Desculpa pai, parece que seu filho puxou mais a minha mãe nesse aspecto.’

Esperava que Magnin tivesse desistido da esperança de que seu filho herdasse sua Classe Espadachim há alguns anos, pois era certo que isso não aconteceria. Constituição maior que o normal era bom, ele raramente ficava doente e conseguia lidar com em noites em claro como um campeão. Seu Carisma conseguiu se manter um pouco acima do normal devido mais à sua aparência do que seu próprio carisma pessoal. Os olhos azuis perfurantes de seu pai e os cabelos escuros e sedosos de sua mãe certamente valiam alguns pontos, o que sem dúvidas compensava seu comportamento geralmente estranho e voz suave.

Ele seguiu a sabedoria dos mais velhos de não usar todas as escolhas de Habilidade. Essa era uma das raras e ele poderia precisar delas depois para compensar as fraquezas ou aprimorar suas forças dependendo da sua eventual Classe. As habilidades que tinha eram um testamento de seu trabalho duro. Certo, ele não havia aprendido Aritmética e Caligrafia da maneira mais difícil, e sim as comprado usando suas seleções de habilidade, entretanto o resto era todo dele. Seu pai insistiu que ele treinasse até que recebesse Esgrima e Tyron quase chorou de alívio há dois anos quando ela finalmente apareceu. Os treinos intermináveis tinham sido muito mais exaustivos do que as caçadas em que sua mãe o levava, onde aprendeu Funda.

Sua maior conquista foi o Mistério: Modelagem de Feitiços, junto da sua pequena seleção de Magikas. Isso não era fácil de conseguir fora de uma Classe e sem nenhum dos Atributos bônus aos quais os magos tinham acesso, mas Tyron persistiu até que a pesquisa teórica interminável se pagou. Sua mãe ficaria orgulhosa quando ela descobrisse, a última vez que ela viu seu Status completo foi há um ano e ele não possuía nenhum Mistério naquela época. Os Feitiços que aprendeu eram básicos, preferia usar Luz em vez de velas para trabalhar à noite, já que era mais barato e o ajudava a treinar. O feitiço Sono foi um truque que tinha sido difícil de aprender e, até então, era utilizado exclusivamente nele para combater a insônia. Raio Magiko era o Feitiço ofensivo básico que qualquer um poderia conjurar. Passar o tempo lutando com livros em vez de monstros significava que ele não tinha muita chance de subir de nível.

Com tudo o que precisava em mão, era melhor ir andando. O destino o aguardava.

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