
Capítulo 101
Começando com o Nível SSS: Eu Ganho Uma Nova Habilidade a Cada Transmissão ao Vivo.
Tradutor/Revisor: miggigibe
— Deixa isso, Kyle. Não vai sair fácil assim.
Kyle resmungou, ainda esfregando a mancha de sangue no tapete.
— Isso é caro, e eu não quero ninguém achando que matei alguém aqui.
O corpo estava jogado no canto, com uma sacola plástica enrolada ao redor da cabeça para impedir que o sangue se espalhasse pelo chão.
Blake agarrou o pulso do irmão e o puxou para cima.
— Ninguém vai suspeitar de você por causa disso. Mas, se você não for honesto comigo agora… aí alguém com certeza vai acabar suspeitando.
Kyle estreitou os olhos e largou o tapete.
— Eu não sei do que você está falando.
— Ah, você não faz ideia do motivo de aquele homem ter te atacado? Então era só um ladrão comum? — Blake perguntou, cruzando os braços.
Kyle deu de ombros.
— Acredite no que quiser.
Com isso, entrou no banheiro para lavar as mãos.
Blake tirou os óculos e soltou o ar devagar.
Precisava se acalmar antes de levar aquilo adiante.
Verificou se a porta estava trancada, então puxou uma cadeira e a colocou no lugar.
Quando Kyle saiu, Blake apontou para ela.
— Sente.
— Estou com fome — Kyle respondeu. — Se quer conversar, fale enquanto eu cozinho.
Blake não discutiu.
Ele tinha acabado de voltar, e já estava tarde.
Kyle foi até a cozinha, integrada ao restante da casa pequena. Agachou-se e começou a tirar alguns ingredientes da geladeira.
Encostado na parede, Blake perguntou:
— Primeiro me diga… você está bem?
Kyle soltou um murmúrio antes de responder:
— Eu já não disse isso na ligação? Não estou ferido. Fiquei no meu quarto o tempo todo.
— E eles simplesmente deixaram você voltar assim? — Blake insistiu.
Kyle franziu a testa.
— O que você quer dizer?
A voz de Blake ficou pesada.
— Kyle… existe um motivo para aquelas pessoas terem sido mandadas ao hospital, mesmo sem serem atacadas diretamente. Todas elas. Mas você, que estava no quarto, saiu completamente ileso.
Kyle parou.
Ethan havia levantado a mesma questão naquela manhã. Kyle ouvira por acidente. Felizmente, Veronica lidou bem com aquilo.
Mas agora?
— O quê? Queria me ver ferido ou algo assim? — ele brincou, pegando alface e pão.
— Kyle… haa. — Blake soltou o ar com força. — Estou muito decepcionado agora. Não com você. Comigo.
Kyle ficou imóvel.
Ele colocou a faca na bancada e se virou para encará-lo.
— Certo, agora você está me assustando. O que quer perguntar? Desembucha.
Blake não deu voltas.
Falou de forma direta.
— Kyle… você é um caminhante noturno?
Kyle permaneceu em silêncio, mas Blake ainda não havia terminado.
— Eu tinha minhas dúvidas, mas não queria acreditar nelas. Quando você me trouxe aquela poção absurda, mentiu dizendo que havia conseguido com Amanda. Eu não conseguia entender por que esconderia algo assim de mim. Foi aí que a primeira semente da dúvida surgiu.
— Depois, eu investiguei. Alguns dias atrás, encontrei indícios de Gênese vindo desta casa. E você nem me contou que alguém veio aqui investigar.
Kyle apertou os lábios e não disse nada.
Normalmente, teria contado a Blake sobre um oficial do Departamento de Proteção Civil aparecendo à sua porta.
Mas, dessa vez, não contou.
O motivo era óbvio.
Blake continuou:
— E hoje eu tive certeza. Quando você bateu a cabeça naquele cara, seu corpo liberou Gênese.
— …
Certo.
O Membro Dourado havia exposto Kyle de novo.
Blake se endireitou e caminhou até ele.
Então colocou uma mão no ombro de Kyle.
— Estou decepcionado comigo mesmo por não ter sido confiável o bastante para você me contar algo tão importante, Kyle.
O peito de Kyle ficou pesado.
Blake estava magoado.
E tinha todo o direito de estar.
Desde a infância, Blake sempre estivera ao lado dele, não importava o quão rígido ou afiado parecesse. Nunca havia abandonado Kyle de verdade. Sempre observava de longe, sempre garantia que ele estivesse seguro.
Se não fosse por Blake, Kyle jamais teria conseguido deixar a mansão dos Astortia e viver sozinho.
Se existia alguém em quem Kyle deveria ter confiado acima de todos, era seu irmão.
Mas existia um motivo para Kyle não ter compartilhado seu segredo com ele.
— Senta — disse ele em voz baixa, abandonando o sanduíche.
Blake obedeceu sem protestar e se sentou.
Kyle se encostou no balcão da cozinha e soltou o ar devagar.
Baixando a cabeça, falou:
— Existe um motivo principal para eu não ter contado. O outro é todo o caos ao meu redor. Não faz muito tempo que despertei esse lado meu e, depois disso… tudo começou a acontecer sem parar. Eu precisava manter a atenção longe de mim, ir naquela viagem e lidar com uma coisa atrás da outra.
Ele não conseguia se lembrar da última vez em que havia passado dois dias inteiros sem se meter em algum problema. Desde que desbloqueou a Gênese e começou a receber aqueles presentes poderosos dos espectadores, sua vida vinha avançando em um ritmo implacável.
— Qual é o motivo principal? — Blake pressionou, aliviado por Kyle finalmente estar se abrindo.
Ele já havia aceitado a verdade de que seu irmão era um caminhante noturno.
— O principal motivo é o pai — Kyle disse por fim. — Eu não quero que ele descubra que consigo usar Gênese agora.
Blake ficou surpreso.
— Mas por quê? Isso não seria a melhor forma de dar o troco nele?
Kyle balançou a cabeça.
— Eu não quero que ele tome o controle da minha vida de novo. No instante em que descobrir que eu tenho essa habilidade, ele vai me arrastar de volta para casa e me transformar em marionete dele. Agora, pelo menos, eu ainda tenho uma pequena chance de resistir.
Manter sua identidade em segredo era, ao mesmo tempo, seu escudo e sua fraqueza.
No uso da Gênese, ele ainda não era forte o bastante para enfrentar o clã Astortia.
Se aquilo viesse à tona, tudo sairia do controle.
E sua vida já tinha caos demais para lidar.
— Então você não podia ter confiado em mim para guardar seu segredo? Alguma vez eu contei para o pai sobre Amanda? Alguma vez deixei que ele soubesse da confusão que você causou com aqueles moleques da escola?
Kyle gemeu.
— Eu já disse. Tudo aconteceu tão rápido que eu nem tive tempo de pensar direito.
— Mas você estava disposto a ser pego pelas autoridades? — A voz de Blake se ergueu, afiada o bastante para interrompê-lo de vez.
— Eu sempre cuidei de você. Nunca precisei me preocupar tanto com as bagunças em que você se metia, porque você sempre me contava antes que tudo saísse do controle. Isso poderia ter custado a sua vida, e mesmo assim você não me contou?
Blake pressionou, forçando Kyle a baixar a cabeça.
Ele soltou o ar e esfregou a ponte do nariz.
Um traço de culpa surgiu por ter erguido a voz, mas pensar no que poderia ter acontecido com Kyle naquele mundo perigoso e imprevisível tornava impossível se conter.
Blake suspirou e disse:
— Desculpa por gritar. Vamos começar do início.
Kyle ergueu a mão.
— Primeiro… prepara alguma coisa saudável para mim, ou eu não vou ouvir mais nenhuma palavra.
Blake abriu um sorriso torto antes de balançar a cabeça e se levantar.
Kyle saiu do caminho e foi até a cama.
Estava com fome demais para pensar direito.
Arregaçando as mangas, Blake entrou na cozinha.