Entomologista Do Clã Tang De Sichuan

Capítulo 3

Entomologista Do Clã Tang De Sichuan

Família 1

— Tum! Tum, tudum!

— Gyaaaaaah!

Enquanto eu me maravilhava com a visão do ovo e da tocha, algo do tamanho de um punho caiu de cima da minha cabeça, sem aviso.

— Fwoosh! Fwoosh!

— Pof!

Brandindo minha tocha feito louco, derrubei uma daquelas coisas no chão, e tudo o que consegui ver foram tentáculos longos e costas corcovadas.

Corcunda!

— Ugh.

Rapidamente chutei a criatura que esperneava perto da tocha e, brandindo-a novamente, encurralei o resto delas na cavidade.

— Sumam daqui, seus merdinhas! Que porra de criatura corcunda do tamanho de um punho é essa?!

Eu gosto de qualquer outro tipo de inseto, mas essa borboleta-corcunda é um pouco demais...

Primeiro, pensei que precisava acalmar meu coração sobressaltado, recolher logo todos os ovos e dar o fora dali.

Aqueles malditos são extremamente cruéis e comem até carne.

Eu não queria ficar ali e virar comida de corcunda do tamanho de um punho.

Por isso, avancei rapidamente em direção à pilha de ovos, mantendo a tocha erguida à minha frente.

— Shhh, shhh.

Os corcundas recuaram conforme a chama se aproximava.

A visão daquelas criaturas corcundas, que pareciam ser umas vinte ou trinta, de início me deixou preocupado.

— Será que os ovos estão bem?

O que me preocupava era que, embora a civeta fosse o que era, ela é um animal único que põe ovos e os guarda até que choquem e se tornem independentes.

Elas chegam a lamber os ovos até eclodirem para evitar que mofem.

Como a mãe já tinha morrido, eu temia que os ovos, sem cuidados há dois dias, pudessem ter mofado e morrido.

‘Se eu soubesse que havia ovos, teria vindo antes...’

A pilha de ovos estava logo ali.

Conforme iluminei com a tocha, uma visão terrível se revelou.

Eu achava que eles teriam uma cor amarelo-brilhante, mas a maior parte dos ovos tinha sido devorada pelos filhotes de corcunda.

E os ovos perto do fundo estavam cobertos por um bolor branco, parecido com algodão-doce.

— Droga. Seus corcundas desgraçados!

O bolor não era obra dos corcundas, mas praguejei contra os filhotes e corri em direção aos ovos, revirando a massa com a extremidade da tocha.

— Urgh.

‘Por favor, que pelo menos um esteja vivo.’

Um muco grudento e líquidos escorrendo grudavam na ponta da tocha, gotejando um caldo viscoso.

Foi quando eu estava revirando os ovos pegajosos por cima.

Três ovos de cor viva surgiram sob um ovo que tinha marcas de dentes de um corcunda.

Rapidamente enfiei a mão e peguei os três ovos.

Algo viscoso melou minhas mãos, mas fiquei tão animado por ter encontrado os ovos de uma civeta gigante que não senti nojo.

— Encontrei!

De uns cinquenta ovos, apenas três estavam intactos e ainda mantinham uma cor amarelo-brilhante.

Eles pareciam intactos por estarem bem no centro do aglomerado, protegidos pelos outros ovos.

A maior parte do aglomerado de ovos estava danificada ou esmagada pelos corcundas do tamanho de um punho, mas salvar três já era uma grande vitória.

— Droga. Devo me alegrar por salvar pelo menos três? Mas não é hora para isso. Tenho que correr, levá-los e limpá-los primeiro!

Limpei rapidamente os ovos na manga da camisa, coloquei-os em um jarro e saí rastejando do buraco.

E então corri feito louco em direção à casa abandonada.

Seria um desastre se até os ovos restantes apodrecessem, então achei melhor voltar logo e limpá-los com um pano fervido e esterilizado.

— Meus caracóis, esperem só um pouco. Logo vou lhes dar um banho.

Os ovos pareciam um pouco ovais, mas pensei que era por ser uma espécie nova e apressei o passo.

***

— O Jovem Herói está?

Dang Cheol-san, ao chegar à casa abandonada, gritou em direção ao interior do local onde o Jovem Herói se abrigava.

Mas o pavilhão continuou em silêncio, sem resposta.

— Jovem Herói?

Ele chamou mais algumas vezes em direção ao interior, mas o Jovem Herói não respondeu.

Dang Cheol-san hesitou por um longo tempo na entrada do pavilhão.

‘Será que ele saiu? Ou talvez tenha pegado um resfriado por causa da chuva que caiu nos últimos dias?’

O motivo de Dang Cheol-san ter aparecido naquela casa abandonada depois de alguns dias...

Dang Cheol-san, que chegara ao porto da Ilha de Haenam no dia anterior sob a chuva, pedira ajuda ao pai, Mandokshin-gun[1].

— Pai, por favor, parta para Sacheon primeiro com os guerreiros que não estão feridos.

— Hã? O que quer dizer com isso?

Mandokshin-gun perguntou com um olhar confuso ao ser instruído a partir primeiro.

Dang Cheol-san respondeu à pergunta com um sorriso.

— Se levarmos o elixir interno[2] agora, Hwa-eun poderá salvar a sua vida. Como estou ferido e meu ritmo seria lento se eu fosse junto, seguirei viagem com os guerreiros machucados.

— Pai, lidere o caminho com todas as suas forças e apresse o passo.

— Você está dizendo que devemos nos dividir em dois grupos? Mesmo assim, não seria melhor irmos de barco e nos dividirmos quando chegarmos à terra firme?

Mesmo que se dividissem em dois grupos como o pai sugerira, seria melhor desembarcar antes, mas Dang Cheol-san tinha outros planos.

— Não resta mais nada a fazer aqui?

— O que fazer?

Quando Dang Cheol-san perguntou se ainda havia algo a fazer, seu pai inclinou a cabeça intrigado. Dang Cheol-san sorriu de novo e respondeu:

— Won-gak-hyeol (怨刻血), o rancor se esculpe no sangue; Eun-gak-seok (恩刻石), a gratidão se esculpe na pedra.

As palavras dos sábios: grave os inimigos no sangue e a bondade na rocha.

Mandokshin-gun reacted com uma expressão surpresa diante da resposta de Dang Cheol-san.

— Ah! Eu tinha me esquecido completamente do tamanho do favor que recebemos dele, pensando apenas em salvar minha amada filha. Sim, você tem razão! Se não fosse por você, eu teria cometido um grande erro.

— Sim, Pai. Embora ele seja um pequeno ladrão, recebemos um favor imenso dele. Como o Clã Dang de Sacheon[3] poderia simplesmente ignorar isso?

Sim, eu não podia simplesmente deixar para lá, pois devia um grande favor ao jovem Herói.

Se eu ignorasse isso depois de receber uma ajuda tão vital para salvar a vida da minha filha, o que o mundo pensaria do Clã Dang de Sacheon?

Diante da pergunta de Dang Cheol-san, Mandokshin-gun acenou com a cabeça e disse:

— Deve ser difícil para um jovem como ele viver sozinho nas montanhas da Ilha de Haenam, caçando cobras para comer. Então, vamos recebê-lo como convidado em nossa família, para que não precise se preocupar em ficar desabrigado. Se ele desejar algo, será nosso dever conceder.

— Sim, eu penso da mesma forma.

Por essa razão, ele deixou os guerreiros feridos da família descansando em uma estalagem perto do porto e veio sozinho para saudar o Jovem Herói, mas ele não estava em lugar nenhum.

Dang Cheol-san ponderou por um momento e abriu a porta do pavilhão com cuidado.

Fez isso porque se perguntava se o garoto não estaria gravemente doente por causa da chuva dos últimos dias.

— Jovem Herói, vou entrar.

Ao dar um passo para dentro, deparou-se com um interior de aparência peculiar.

Inúmeros armários de ervas cobriam as paredes, e jarros de todos os tipos enchiam o salão.

‘Será que ele é um médico?’

O primeiro pensamento que lhe veio à mente ao ver os armários de ervas e os jarros foi se o Jovem Herói teria aprendido a arte da medicina.

Mas, como não havia sinal de ninguém, ele estava prestes a fechar a porta novamente, pensando que seria rude entrar em um espaço vazio sem permissão.

— Rrroç, rrroç.

— Tsc, tsc. Tsc.

— Tsrrrrrr.

De repente, ruídos estranhos ecoaram de dentro dos jarros e potes.

Aquele som esquisito fez Dang Cheol-san hesitar antes de fechar a porta e ir embora.

Era um barulho que lhe parecia familiar de alguma forma.

Dang Cheol-san sentiu-se atraído pelo ruído familiar e, esquecendo-se da própria indelicadeza, entrou nos aposentos do jovem Herói e abriu a tampa de um jarro como se estivesse possuído.

‘O que diabos há aí dentro?’

E então, o que surgiu dentro do jarro foi uma enorme aranha negra.

A aranha negra repousava silenciosamente no fundo do jarro.

— Is-isso é...!

Dang Cheol-san arregalou os olhos de surpresa.

E então começou a verificar os outros jarros e potes com uma expressão de descrença.

A cada jarro que abria, surgiam lagartos, aranhas, cobras e grilos.

A julgar pelos restos deixados nos jarros com pedras e gravetos, parecia que aquelas criaturas eram criadas como alimento para outros insetos peçonhentos.

Observando as carapaças de centopeias e escorpiões em um dos cantos, ficava claro que aquelas criaturas vinham sendo criadas ali há bastante tempo.

Além disso, algumas das aranhas estavam chocando ovos e, perto da lareira, que parecia aquecida, havia montes de ovos enterrados na areia.

Uma visão inacreditável.

Dang Cheol-san estremeceu diante do que via dentro daquele pavilhão.

Não era para menos: afinal, mesmo o Clã Dang, conhecido por sua maestria em venenos e toxinas, jamais imaginaria alguém criando animais peçonhentos dessa maneira.

Quer dizer, eles até os criavam, mas a criação de venenos do Clã Dang limitava-se a manter as criaturas até a extração da toxina, e não a coletar ovos para multiplicar sua quantidade.

‘Achei que tinha salvo a vida da minha filha por pura coincidência, mas será que o verdadeiro milagre foi ter encontrado esse Jovem Herói?!’

Dang Cheol-san colocou os jarros de volta nos seus lugares e saiu do pavilhão.

Sentou-se nos degraus de pedra do lado de fora e tentou acalmar o coração sobressaltado.

O segredo de criação de venenos que o Jovem Herói possuía...

Pensou que, se o Clã Dang dominasse aquela habilidade, as técnicas exclusivas da família poderiam ser elevadas a um patamar ainda maior.

Foi enquanto organizava as perguntas que faria ao Jovem Herói quando ele voltasse...

— Hã?! Senhor?

O Jovem Herói, que acabara de se banhar e ainda estava com a cabeça gotejando água, aproximou-se com uma voz acolhedora.

— Oh! Jovem Herói!

Dang Cheol-san levantou-se contente e deu um passo rápido em direção a ele.

‘O que é isso?!’

De repente, uma intenção assassina avassaladora.

— Vrum!

Ele ergueu uma das mãos para bloquear a energia violenta que voou em sua direção, mas Dang Cheol-san foi arremessado para trás, caindo diante do pavilhão do Jovem Herói.

— Cof! Cof, cof!

Uma grande quantidade de sangue escorria de sua boca.

Não era de modo algum um ferimento leve.

Era um mestre do nível de seu pai.

Ficou claro que o impacto de bloquear com apenas uma mão fora devastador; ele devia ter usado ambas.

— Oh, senhor! Ugh!

E então, junto aos gritos do Jovem Herói, a voz sinistra de um ancião que o segurava pela nuca ecoou pelo lugar:

— Ouvi dizer que homens do Clã Dang tinham entrado na Ilha de Haenam e vim verificar. Para minha surpresa, encontrei o filho de Mandokshin-gun ferido e sozinho.

— Eu nunca esqueci o seu rosto e o do seu pai desde que os vi de longe, há dez anos! Hoje, enviarei a sua cabeça de presente para o seu pai, Mandokshin-gun! Hahaha!

Sua aparência era grotesca, com o lado esquerdo do rosto derretido e as mãos tingidas de um vermelho cor de sangue.

Havia alguém que vagamente vinha à mente de Dang Cheol-san, mas essa pessoa já devia estar morta.

Dang Cheol-san forçou o corpo a se erguer e perguntou:

— Cof! Quem diabos é o sênior que está nos atacando, ao Jovem Herói e a mim?

O ancião gargalhou e apontou o dedo para o próprio rosto:

— Hahaha. Não consegue reconhecer olhando para esta cara e para estas mãos vermelhas? Eu sou o Rakshasa das Mãos de Sangue[4], Tak Yun-yang, aquele que seu pai deixou neste estado!

Como esperado, era o sangrento e impiedoso Tak Yun-yang.

Há cerca de dez anos, ele era um temido líder demoníaco ativo nas regiões de Guizhou e Guangxi. Ele fora encurralado por Mandokshin-gun em Qinzhou, atingido na cabeça por uma lança envenenada e caíra de um penhasco costeiro. Pelo visto, sobrevivera e viera se esconder na Ilha de Hainan.

Diziam que, naquela época, ele tinha um nível de cultivo similar ao meu atual, mas a energia interna que eu sentia agora dele era aterrorizante.

Dang Cheol-san levantou-se e implorou, percebendo que dificilmente veria o amanhecer do dia seguinte:

— Esse garoto não é um artista marcial e não tem nada a ver conosco, por que não o deixa ir? Seu rancor é contra o nosso clã. Se o poupar, entregarei minha cabeça de bom grado.

Ele queria retribuir o favor que devia ao garoto, mas, vendo que acabou trazendo perigo ao jovem, tentou de tudo para salvá-lo.

Mas o Rakshasa das Mãos de Sangue riu com escárnio e respondeu:

— Eu matarei qualquer um que cruzar o meu caminho! No budismo, não dizem que até mesmo o roçar de mangas exige três mil vidas de carma? Hahaha!

‘Aquele monstro não tem a menor intenção de poupar o Jovem Herói!’

Diante da resposta do Rakshasa das Mãos de Sangue, Dang Cheol-san desesperou-se. O demônio apertou lentamente a nuca do Jovem Herói.

— Ahhh! S-salve-me...

— Tsrrrrrr!

Com um ruído estranho, criaturinhas amarelas surgiram da nuca e das mangas do Jovem Herói e avançaram contra o Rakshasa das Mãos de Sangue, mordendo sua nuca e seus punhos.

— Ugh!

A pele dele escureceu e ficou negra em um piscar de olhos.

O corpo do terrível Rakshasa das Mãos de Sangue desabou lentamente no chão, com os olhos cheios de desespero.

E o Jovem Herói perguntou com uma expressão sem jeito:

— Ahn... esse cara era um sujeito mau, né? Ih, parece que ele morreu.

Na mente de Dang Cheol-san, a palavra “hóspede” (食客) começou lentamente a se transformar na palavra “família” (食口).

[1] - Mandokshin-gun (萬毒神君): Título que significa "Lorde do Veneno Infinito" ou "Deus dos Dez Mil Venenos".

[2] - Elixir Interno (Naedan): Núcleo de energia cultivada de uma besta espiritual ou praticante.

[3] - Clã Dang de Sacheon: Uma das grandes famílias de artes marciais de Jianghu, famosa por seu uso de venenos e lâminas voadoras.

[4] - Rakshasa: Criatura mítica ou demônio da mitologia hindu/budista, frequentemente usado como alcunha para artistas marciais cruéis.

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