Entomologista Do Clã Tang De Sichuan

Capítulo 7

Entomologista Do Clã Tang De Sichuan

Entrevista Reversa 3

Foi um tanto surpreendente saber que o senhor Cheolsan entendia de medicina, então segui o chefe da aldeia até a casa dele e perguntei ao guerreiro do clã Dang.

Pelo que ouvi enquanto morávamos juntos, o clã Dang de Sichuan é uma família da região de Sichuan que pratica artes marciais.

Mas a especialidade deles era incomum. Eles se especializavam em venenos?

Diziam, portanto, que era uma família que estudava e praticava métodos de matar pessoas usando veneno.

Parece até algum tipo de clã lendário de assassinos ou algo assim.

Com isso, minhas notas da entrevista estavam despencando bastante.

Se o clã Dang também era bom em medicina, parecia que seria possível aprender medicina em vez de usar venenos terríveis para matar pessoas.

Mesmo que seja fora do comum, ainda dá para seguir esse caminho.

Afinal, o caminho original não está na mente de quem o trilha?

‘O especialista em medicina do clã Dang de Sichuan. Quem será o melhor?’

[Mas essa técnica médica é real?]

Então, quando olhei para o guerreiro do clã Dang com uma expressão questionando se aquilo era verdade, o guerreiro respondeu com um sorriso.

Ele respondeu à minha tão esperada pergunta com entusiasmo e sinceridade, perguntando se eu realmente queria me juntar ao clã Dang de Sichuan.

— Como as artes marciais do clã Dang lidam com venenos, também somos proficientes em medicina. A medicina e o veneno compartilham da mesma origem. Além disso, as artes marciais começam pelo conhecimento do corpo, então temos um certo nível de habilidades médicas.

Se você quer ferir o corpo de alguém, precisa conhecê-lo muito bem.

— Bem, a nossa família Dang de Sichuan precisa saber como o veneno reage no corpo humano, por isso capturamos criminosos e nós mesmos aplicamos neles. Assim, naturalmente, temos mais conhecimento sobre medicina do que outras famílias.

— Ah... E-entendo?

Os guerreiros estavam até usando uma linguagem formal comigo porque queriam de alguma forma me arrastar para o clã Dang.

Mas, depois de ouvir a explicação dele, a imagem do clã Dang de Sichuan na minha cabeça era a de uma família de loucos que pesquisa o corpo humano e faz até experimentos nele com o único propósito de matar pessoas.

Era uma família de psicopatas que usava até veneno para cometer assassinatos em massa.

‘Estudar o corpo para conseguir matar melhor... Nota da entrevista reversa: -50 pontos. Experimentos humanos insanos: -100 pontos. Uma família de completos psicopatas. No entanto, apoio público: +3 pontos.’

No fim, com exceção da técnica de leveza (Qinggong)[1] e do apoio público, a pontuação da entrevista do clã Dang só caía.

Isso foi enquanto eu fazia uma avaliação da entrevista do clã Dang na minha cabeça.

Quando o velho Cheolsan chegou à casa do chefe da aldeia, colocou a mão no peito da criança e pareceu fazer alguma coisa; em seguida, o coração acelerado da menina se acalmou e ela soltou um suspiro profundo.

— Ufa...

O senhor Cheolsan usou algum método para trazer a criança de volta à vida.

O velho limpou a testa e falou com o chefe da aldeia.

— Primeiro, canalizei minha energia no corpo dela e contive a respiração.

— Oh, obrigado! Oh... Por favor, poupe a vida da minha única neta restante.

Mas então ele olhou para a neta do chefe da aldeia por um longo tempo, com uma expressão de quem não compreendia algo.

— Mas que estranho. O pulso está descompassado.

— O... o que isso significa?

‘Se o pulso está descompassado, será arritmia? É uma doença cardíaca?’

Embora eu não tenha estudado medicina acadêmica, o fato de ter me especializado em venenos e insetos peçonhentos em minha vida passada significa que possuo algum conhecimento sobre toxinas e remédios.

Por isso, consegui deduzir algo a partir da explicação do senhor Cheolsan.

— O coração[2] não está batendo direito. A criança está assim desde o nascimento?

‘Ah, então ele está perguntando se é uma doença cardíaca.’

— Claro que não. Já faz meio ano que as pessoas começaram a adoecer de repente e acabar desse jeito. Nós chamamos isso de peste. Por isso eu disse para vocês darem meia-volta na entrada da aldeia mais cedo.

Eu me perguntava por que aquelas mulheres, que pareciam ser bondosas, tinham nos tratado de forma tão fria, e pelo visto era devido aos problemas da aldeia. Após ouvir a explicação, o velho Cheolsan assentiu e respondeu:

— Não parece ser uma doença contagiosa, então acho que ficaremos bem. Mas, se quisermos salvar essa criança, precisamos examinar os outros também. Você poderia reunir as pessoas que apresentam essa mesma doença estranha?

— Está bem!

Como o velho disse, fiquei um pouco aliviado, pois, dentre as doenças infecciosas que conheço, nenhuma causa danos ao coração.

Sob a direção do chefe da aldeia, os doentes começaram a se reunir um a um em frente à casa dele, e o velho passou a dedicar um tempo considerável para tomar o pulso de cada paciente.

No entanto, o senhor Cheolsan, após examinar todos os pacientes e anotar seus sintomas em um papel, balançou a cabeça com uma expressão de quem não entendia o que estava acontecendo.

— Há letargia, inchaço nos olhos, palpitações e febre leve, mas os sintomas não são exatamente os mesmos. É estranho que aqueles com sintomas graves pareçam todos apresentar problemas no coração.

Algumas pessoas sentiam letargia e febre, outras tinham arritmia e olhos inchados, e aquelas com sintomas graves apresentavam problemas cardíacos.

Diante dessas palavras, o chefe da aldeia perguntou com uma expressão temerosa:

— Doutor, o senhor não tem como curá-los?!

— Primeiro, vou receitar alguns remédios bons para aliviar os sintomas. Vocês poderiam colhê-los rapidamente? Vou tentar usar esse medicamento.

Como não sabia a causa, parecia que ele iria apenas tratar os sintomas; no entanto, o chefe da aldeia pensou que havia uma esperança, então reuniu os moradores e correu para procurar as ervas.

— Reúnam-se todos! O doutor disse para conseguirmos algumas ervas medicinais!

***

Havia um motivo pelo qual eu não conseguia simplesmente ignorar aquilo, mesmo sendo assunto de outros.

Quando vi a menina doente, acabei me lembrando de Hwa-eun em Sichuan.

‘Sinto muito, meu pai. Fui uma filha ingrata.’

Depois de falhar em praticar artes marciais, a filha se desculpa com o rosto pálido devido ao envenenamento.

Aquele rosto me veio à mente, e eu simplesmente não conseguia ir embora.

Foi por isso que Dang Cheolsan cuidou da criança com a maior sinceridade possível.

Era porque ninguém entendia melhor do que ele a aflição de ver uma filha ou neta doente.

E, entre os cuidados com a criança, ele preparava remédios, lavava e aplicava medicamentos nos olhos das pessoas com problemas de visão.

Para as pessoas com febre, ele preparava um antitérmico para baixar a temperatura e o entregava a elas.

Quando terminou de examinar todos os doentes, o anoitecer já havia caído sobre o lugar.

Um dos guerreiros do clã Dang se aproximou e entregou uma toalha molhada.

— Mestre, por favor, limpe o rosto. O senhor trabalhou duro.

— Obrigado. Sinto muito por isso.

— Eu que agradeço.

A pessoa que entregou a toalha era Gu Pae, o líder do Esquadrão do Sangue Venenoso.

Ele era um homem de grande caráter e muito respeitado pelos guerreiros da família.

O motivo de ele estar ali era por ter se ferido ao tentar salvar outros guerreiros em perigo de morte enquanto capturavam a Centopeia de Placas Verdes[3].

— A propósito, e quanto ao Jovem Herói?

— Ah, ele deve ter ficado cansado de ajudar nos afazeres, então o deixei descansando no quarto dele porque acabou pegando no sono.

— Sim, deve ter sido difícil para ele aguentar passar vários dias conosco sem saber nada de artes marciais. Então, o que achou do jovem após observá-lo por estes dias?

Dang Cheolsan perguntou a Gu Pae sobre Wei Soryong.

Deixando de lado os talentos do Jovem Herói, ele queria conhecer seu caráter, por isso pedira para que Gu Pae o avaliasse durante esses dias.

Já que ele seria seu genro, o caráter era de suma importância, independentemente do talento.

— Como o Jovem Herói ainda não se tornou um membro do nosso clã Dang de Sichuan, posso ser totalmente honesto?

— Claro.

Dang Cheolsan assentiu, pois era exatamente isso o que queria, e Gu Pae começou a relatar suas observações sobre o Jovem Herói.

— Antes de tudo, é incomum que ele tenha vivido sozinho como órfão nas florestas de Hainan[4], criando criaturas peçonhentas. É natural que alguém da idade dele sinta falta de companhia humana.

— Sim, é inegável que o Jovem Herói seja um gênio.

— Sim, mas se me perguntar se a personalidade dele é tão ruim quanto a dos excêntricos do mundo das artes marciais, eu diria que não. Ele não é comum, mas também não demonstra ter um caráter cruel ou perverso.

— Antes de vir para cá, ele libertou algumas das criaturas venenosas que criava por medo de que morressem. Então, definitivamente não é uma pessoa cruel. Sendo assim, ele seria um bom genro para mim, não é?

Gu Pae inclinou a cabeça diante da pergunta de Dang Cheolsan.

— Sim, mas estou um pouco preocupado...

Ao ouvi-lo dizer que estava tudo bem mas que havia uma preocupação, Dang Cheolsan inclinou a cabeça e perguntou:

— E qual seria o problema? Você acabou de dizer que ele é um bom garoto.

— É sobre o talento dele para as artes marciais...

Dang Cheolsan também sabia disso.

O Jovem Herói tem agora entre quatorze e quinze anos.

Era um pouco tarde para começar a treinar artes marciais, e o potencial do próprio rapaz para isso não era dos melhores.

No entanto, no quesito artes marciais eles já tinham Hwa-eun, e o valor do Jovem Herói não residia nisso, por isso ele balançou a cabeça.

Mesmo com o talento atual do Jovem Herói, ele ainda poderia desenvolver ainda mais as técnicas do clã Dang.

Não, na verdade, era certeza de que o clã cresceria ainda mais graças a ele.

— Não se preocupe. O valor do Jovem Herói não está nas artes marciais. Afinal, nós não vimos as criaturas venenosas que ele mesmo criou?

— Ainda assim... Para ser o parceiro da senhorita Hwa-eun, ele deveria ser excepcional em vários aspectos...

— Haha, você é exigente demais. Quem olhar vai achar que você é o pai da Hwa-eun.

— Peço desculpas. Vamos indo.

Toda a preocupação de Gu Pae vinha do seu zelo pelo clã Dang e por Hwa-eun.

Com essas palavras, Dang Cheolsan deu um largo sorriso.

Isso mostrava o quanto Gu Pae se importava com o clã Dang de Sichuan e com Hwa-eun.

E, após desviar os pensamentos do clã Dang e de Hwa-eun, seu olhar se voltou para a garota que continuava desacordada.

— Mas, mudando de assunto, essa menina está em apuros.

Primeiro, baixamos a temperatura corporal dela com antitérmicos e preparamos um remédio para recuperar a energia perdida, mas não conseguimos encontrar a causa raiz.

Se não resolvermos o problema no coração, o pulso voltará a ficar descompassado.

Porque, se ele for embora, não poderá garantir a sobrevivência da menina.

— O senhor não conseguiu descobrir a causa?

— Não faço a menor ideia. Como você sabe, há poucas pessoas no clã Dang que leram tantos livros de medicina quanto eu, e eu nunca vi nem ouvi falar de uma doença como esta.

— Não podemos ficar aqui para sempre, o que faremos?

— Pois é. Gostaria de tentar examinar o pulso dela?

Apenas por garantia, ele pediu para que Gu Pae examinasse o pulso da menina, mas, após fazê-lo, Gu Pae balançou a cabeça.

— Eu também não faço a menor ideia.

No fim, los dois tentaram pensar em alguma solução, mas nenhuma ideia lhes veio à mente.

Já estava completamente escuro lá fora, e os insetos começavam a voar em direção à lanterna.

— Ah, preciso verificar se o meu genro está dormindo bem. Tem muitos insetos voando por aqui. Deve ser por causa do calor, há tantos insetos quanto na floresta de Yunnan[5].

— Eu cuido disso. Venha por aqui. Vocês, cuidem da jovem senhorita aqui.

— Sim, senhor.

Deixando a menina sob os cuidados de outro guerreiro, ele foi até o quarto onde o genro dormia para ver como estava.

Lá estava o rosto do jovem genro adormecido sob a luz oscilante.

Foi um momento em que ele olhava para o genro dormindo com o coração cheio de alegria.

— Padadak.

Ouviu-se o som de um inseto se debatendo vindo de algum lugar, e um deles pousou na testa do genro. Lentamente, começou a rastejar pela bochecha dele em direção aos lábios.

‘Não, esse bicho não!’

Se o meu genro for picado por um inseto desses, será um grande problema.

Isso porque existem muitos insetos peçonhentos desconhecidos na região de Hainan.

Assim, Dang Cheolsan correu rapidamente em direção ao genro e desferiu um tapa no inseto com toda a sua força.

— Ploft!

Ele não podia perdoar aquele bicho por ousar pousar em seu genro.

— Aaaaargh!

Mas na ânsia de pegar aquele inseto insolente, ele se esqueceu de que o bicho estava rastejando bem na bochecha do genro.

Como resultado, o genro acordou assustado, segurando a bochecha vermelha, e olhou para Dang Cheolsan com olhos cheios de ressentimento.

— O-o que foi isso?! Ai, minha nossa, isso dói!

Seria absurdo e revoltante levar um tapa no meio da noite do nada.

Dang Cheolsan coçou a cabeça e respondeu:

— Er, desculpe. Eu estava tentando matar um inseto que estava rastejando na sua bochecha.

— Não, senhor. Se continuar caçando insetos assim, vai acabar me matando primeiro. Minha nossa.

— Me desculpe. Sério. Minha mão se moveu sozinha quando vi esse inseto enorme rastejando na sua bochecha. Olhe só para isso. Não é um bicho grande?

Dang Cheolsan estendeu a mão com o inseto esmagado para se justificar, mostrando o tamanho do bicho e alegando que fizera aquilo pelo bem do genro.

Afinal, o inseto ainda estava grudado na palma de sua mão.

Felizmente, o ressentimento do genro se desviou de Dang Cheolsan e se voltou para o inseto.

Mas algo estranho aconteceu.

O genro, que acabara de acordar e mal tinha notado o inseto, de repente arregalou os olhos sonolentos e aproximou o rosto do bicho, que ainda mantinha a forma original na palma da mão.

E então, o genro puxou a mão de Dang Cheolsan para perto da lamparina e fez uma pergunta intrigada:

— O... o que é isso? Por que diabos esses bichos estão aqui?!

Isso significava que havia um inseto ali que não deveria estar naquele lugar.

Dang Cheolsan perguntou cautelosamente:

— Que tipo de inseto é esse?

O genro então olhou para Dang Cheolsan e respondeu:

— Não, não é o inseto do beijo... Como chamam isso nas Planícies Centrais? Ah! Certo! Percevejo-assassino! É um percevejo-assassino, senhor.

— Inseto... do beijo?

Um inseto do beijo. Dang Cheolsan arregalou os olhos diante do nome daquele inseto obsceno. Aquele nome não parecia nem um pouco decente.

[1] - Qinggong: Técnica de artes marciais que permite mover-se com extrema leveza e velocidade, quase flutuando.

[2] - No original, foi usado o termo antigo "Yeomtong" (literalmente, "recipiente de sal"), que é uma forma coloquial para se referir ao coração.

[3] - Centopeia de Placas Verdes (Qingbanwugong): Uma criatura peçonhenta fictícia comum em histórias de artes marciais.

[4] - Hainan (Haenam): Uma grande ilha localizada no extremo sul da China, conhecida por suas florestas tropicais.

[5] - Yunnan: Província no sudoeste da China, famosa por seu clima tropical e florestas densas.

[6] - Percevejo-assassino (família Reduviidae): Conhecido coloquialmente como "percevejo-do-beijo" (e, no Brasil, como barbeiro), este inseto é famoso por picar o rosto de suas vítimas enquanto dormem.

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