O Cavaleiro em Eterna Regressão

Capítulo 859

O Cavaleiro em Eterna Regressão

859. De alguma forma, vai dar certo.

Era um dia em que uma chuva torrencial desabava. A chuva fria gelava meu corpo, e o fedor ardia em minhas nar[?25hinas.
Dezenas de pessoas tremiam de ansiedade.
Os depósitos de grãos eram construídos de pedra, e as moradias das pessoas, de tábuas. Essa
era a realidade das fazendas que alimentavam a cidade.
“Solo fértil”, o que mais essa palavra poderia significar?
Trigo sangrento, grãos encharcados de sangue. As muralhas internas da cidade impediam que a luz do sol alcançasse a terra. Fazendas não podiam ser construídas no centro. Portanto, as fazendas eram erguidas a uma curta distância da cidade, e celeiros de pedra eram construídos para proteção contra os ataques de demônios e feras.
Os fazendeiros arriscavam suas vidas para se aventurar e cultivar. Os grãos eram protegidos por paredes de pedra, e pessoas morriam defendendo suas terras. Era assim que a cidade funcionava.
Deveríamos apenas aceitar que a cidade só conseguia sustentar uma população limitada?
O Encrid do passado não conseguia. Ele estava a caminho para escoltar uma nobre. Então, acabou sendo retido por um contratempo.

— Isso é tudo o que eu tenho.

Era um velho, com as pontas dos dedos enegrecidas por uma vida inteira de trabalho na terra. Suas costas curvadas não se endireitavam. Sua cabeça baixa permanecia em silêncio.
A cerca de madeira que cercava a fazenda, as gotas de chuva caindo sobre ela e as pessoas que viviam ali.
As chaves dos porões de pedra estavam com os soldados, e os senhores, que deveriam proteger a cidade, protegiam apenas a cidade.
Os fazendeiros, expulsos, não podiam desistir de suas terras, pois sabiam que, se abrissem mão da colheita daquele ano, cairiam na miséria. Eles juntaram suas riquezas e contrataram mercenários.
Era a mesma velha história que se ouve em qualquer lugar:
riqueza escassa, grãos encharcados de sangue.
Pessoas lutando para sobreviver.
Os governantes que fechavam os olhos para isso.
A única joia que o velho curvado trouxe foi um anel de cobre e artefatos rudimentares de vidro.
Encrid tinha um olhar aguçado e uma experiência considerável como guarda-costas de nobres, por isso conhecia o valor de cada objeto.

‘Nem uma única moeda de ouro apareceu.’

Era uma quantia irrisória para contratar uma força mercenária. Esse era um dos motivos de o terem retido.

— Por favor, nos ajude.

Disse o velho. Encrid pegou apenas o anel de cobre.

— Estou sozinho, então isso basta.

Um dos homens que assistiam arregalou os olhos. Seu cabelo molhado grudava na bochecha. A chuva continuava a cair implacavelmente.

— Nós mesmos podemos impedir isso.
— Que estupidez. Não conseguiremos sem um espadachim.

Era uma discussão entre um velho e um jovem vinte anos mais novo que ele.
Esta terra tinha tido sorte. Houve várias incursões de demônios, mas foram repelidas sem incidentes. Houve mortes, mas ninguém havia experimentado o desespero.

— Tom, eu vou vingar você.

— Uf — resmungou o homem, cuspindo catarro no chão. Seu olhar era um tanto assassino. Encrid olhou de relance para o grupo reunido e ficou em silêncio.
Eles eram um grupo que não mudaria mesmo se tivessem um comandante. Para ser sincero, estavam ocupados demais se protegendo. Eles tinham a opção de ignorar a fazenda, mas não o fizeram.
Através da chuva que caía no final do verão, um bando de feras mostrou a cabeça. Lobos e raposas eram a maioria. As feras não visavam os celeiros de pedra nem nada do tipo. Elas queriam os humanos. Mal armados, os humanos eram presas fáceis.

— …… São muitos.

Um jovem sussurrou, e Encrid assentiu internamente.
Mais de vinte feras demoníacas famintas. Mas deveriam apenas m

morrer? Todos os capazes de lutar, excluindo mulheres e crianças, haviam se reunido.
Costas com costas, eles gritavam

 para lutar, com as raposas mordendo suas pernas enquanto eles esmagavam seus crânios com maças. Mesmo assim, ele nunca a

afrouxara em seu treinamento diário, sua força era incomparável.
Mas ser um pouco mais forte que os outros não era o s

suficiente para superar essa crise. Ele estava prestes a se tornar excremento de fera, junto com a fazenda.
Mancando,

 com os membros mordidos, ele resistiu, estocando com a espada e brandindo a maça.

— Esse cara é louco.

Era um grupo de mercenários. Essas foram as palavras do homem na vanguarda.

— Está chovendo canivetes.

Era o capitão mercenário. Ele falou novamente, brandindo sua espada. Encrid, na época, achou que ele era bastante hab

bilidoso. Com um único golpe de sua espada, a fera raposa que avançava contra ele gemeu e recuou. Outras fizeram o mesmo.

.
Quinze guerreiros armados, muito mais habilidosos do que o próprio Encrid.

— Bem, quem entregaria a própria filha?

Um dos mercenários perguntou alegremente: “Por que você está aqui causando tanto alvoroço?” A crise passou, mas a vid

da não acabou.

— Não, eu não sou tão bom nisso, então no que você está confiando?

O capitão mercenário perguntou de novo.

— Eu não podia simplesmente deixá-lo sozinho.
[?25l[?25l[?25l— …… Ele é um garoto realmente maluco.

Encrid juntou-se ao grupo mercenário após esse incidente e aprendeu muito com ele.
Embora ele não fosse o que se p

poderia chamar de seu primeiro mentor, ainda era alguém que o acolheu e cuidou dele.

— Largue a sua espada. Isso mesmo. Se você se recusar a largá-la, não importa o que eu faça, apenas fique perto da da

ama.

Ele teria mesmo lhe dado esse conselho?
A lembrança daquele dia chuvoso sobrepôs-se ao presente. Encrid olhou para

a o homem em sua memória.

— …… Equipe?
— P*rra, quem é esse? Meu nome é Bunyan.
— Ah, certo.

Encrid assentiu. Bunyan. Esse era o nome.

— Se você não sabe, não precisa dizer nada, então por que está usando outro nome?

Lawford resmungou.

— Ele sempre foi esse tipo de pessoa. Por que está perguntando se já sabe disso?

Pell interveio. Lawford estava mais sensível do que o normal desde que chegara aqui. Era consequência dessa influênci

ia. Talvez aquela linha de frente fosse o seu lugar.
A vida é uma sucessão de coincidências, e nunca se sabe o que vai

i mudar. As escolhas feitas entre o nascimento e a morte podem transformar muita coisa.

— Não era parecido?

Encrid inclinou a cabeça diante do monólogo de Lawford. Bunyan olhou fixamente para a frente e sorriu. Ignorou os ruí

ídos estranhos. Ele tinha um talento especial para esse tipo de bobagem.

— Eu nunca imaginei que você seria o comandante dos cavaleiros loucos. Sério. Você estava destinado à grandeza.

[?25h

— Bunyan — disse ele, torcendo o nariz. Era um hábito que tinha ao sorrir. Ele tinha olheiras sob os olhos, e seu cor

rpo estava claramente pesado de cansaço, mas ele sorria.

— Quando você vai deixar de ser um espadachim?
— Eu? Quando?

Bunyan deu de ombros, como se estivesse ofendido.
Encrid riu abafado e estendeu a mão. Bunyan era o atrevido de se

empre. Os dois apertaram as mãos.

— Estou tão feliz que sinto vontade de chorar.
— Mas essa não é a expressão no seu rosto.
— Ah, meu orgulho não

o me permite chorar por causa de um homem.

Era uma atitude descontraída. Bunyan era um líder de esquadrão liderando dez soldados.
Enquanto as unidades guarda

avam a fronteira sul em turnos, algumas permaneciam permanentemente.
Bunyan pertencia a uma dessas unidades.
Natura

almente, Bunyan foi designado para guiar o grupo pelo acampamento. He explicou a localização das tendas e a situação atua

al, e Encrid, tendo ouvido a história, fez perguntas.

— Como você veio parar aqui?
— Alguém tinha que fazer isso, então eu faço.

Tudo isso é superficial. Há mais coisas escondidas em seu interior, mas ele não parece ter a menor intenção de revelá

á-las agora.
Foi a mesma coisa quando nos conhecemos, mas para alguém que vive no continente, esse sujeito é um tanto

 reservado. Mesmo assim, ele me acolheu e cuidou de mim naquela época.

— Você veio para nos ajudar, não foi, Encrid? Então nos ajude. Ajude-nos a proteger esta terra.

Favor, graça.
É seguro dizer que eles estavam unidos por esse tipo de laço. O Capitão Mercenário Bunyan salvou a v

vida de Encrid e lhe ensinou muitas coisas. Até mesmo a habilidade de brincar sem vergonha foi algo que Bunyan lhe ensino

ou.

— Não se preocupe.

Um favor vai e volta. Aqueles que dão sempre encontram um retorno. Bunyan ficou surpreso ao ouvir o nome do comandant

te dos cavaleiros loucos, e hoje o viu pessoalmente.

‘A situação mudaria apenas com a chegada de um único cavaleiro?’

E se avançássemos pela fronteira sul dessa forma? Deveríamos mesmo travar uma guerra total?
É difícil. Realmente d

difícil.
Uma das armas secretas de Lichenstätten é a balista antipessoal. Cada projétil disparado contra as pessoas po

or essa arma modificada é mais espesso do que uma lança de madeira.

‘Mesmo um cavaleiro teria dificuldade para passar por isso.’

O ponto fraco é que ela só pode ser usada em locais fixos. A partir daqui, a posição do exército do sul estende-se po

or uma série de colinas e terrenos estreitos.
Tentar um ataque frontal, subindo as colinas e atravessando o desfiladei

iro estreito, exigeria repelir ataques de balistas que disparam projéteis mais grossos que dardos e mais rápidos que flec

chas. Isso não é uma tarefa fácil.

‘Se fizermos um desvio.’

Um pequeno grupo de cavaleiros poderia, de alguma forma, romper as linhas e retornar, mas os cavaleiros do sul ficari

iam de braços cruzados nesse meio-tempo?
O cenário é sombrio. Bunyan sabe disso. Ele também sabe que, mesmo com a cheg

gada dos Cavaleiros, pouco mudará nessa situação.
E como eles vão lidar com o monstro conhecido como Cavaleiro de Grif

fo?

— De alguma forma, vai dar certo.

Encrid falou. Ele ouviu a situação. Não tinha uma resposta imediata. Mas falou mesmo assim.
O engraçado é que as b

bochechas, os olhos e os dedos de Bunyan tremeram com essas palavras.

— …… Você já conheceu o Sir Cyprus?

Bunyan perguntou.

— Não, ainda não.

Encrid balançou levemente a cabeça.
O que o comandante da Fronteira Sul estava pensando? Não sei. Nem sei por que

 ele não mostra o rosto. Ele já havia se encontrado com Krang e decidido o que fazer. Isso era o suficiente para Encrid.###TAG###<



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— Sério? Isso é interessante.

— De alguma forma, vai dar certo — disse Bunyan. Encrid não sabia, mas o mantra de Cypress era: “De alguma forma, vai

i dar certo”.

‘Aquele que não sabe como desistir.’

Aquele que brilha mesmo no desespero.
Esse era o cavaleiro que protegia esta terra.

* * *

A maioria dos soldados que guardavam o Sul era semelhante a Bunyan. Esta era uma terra onde era difícil permanecer se

em um forte senso de dever.
Mesmo a menor chuva traria uma enxurrada de vítimas de afogamento, monstros surgiriam a qu

ualquer momento e até o exército de Lichenstätten atacaria.
Recentemente, com os Cavaleiros de Grifo e o enfraquecimen

nto da Relíquia Sagrada, as coisas estavam indo de mal a pior.
Ainda assim, não havia desertores. Mesmo nessas circuns

stâncias, aqueles que permaneciam no campo de batalha nunca fugiam de seus deveres. Eles ficavam de guarda, mancando, e l

lutavam cobertos de bandagens. A Relíquia Sagrada não estava cumprindo seu papel? Então eles não tinham escolha senão lut

tar com ainda mais vigilância. Lançavam algo de fora do alcance deles? Então eles se agachavam e resistiam até que a opor

rtunidade se apresentasse.
E assim, eles protegiam aqueles que haviam lutado ao seu lado no Sul. Eram uma força implac

cável, irredutíveis em sua determinação de não desistir de nada.

— Posso dar uma olhada?

Audin e Teresa encontraram a tenda onde os sacerdotes estavam abrigados. O cheiro de morte pairava denso ao redor da

 tenda.
Em meio ao fedor sangrento da chuva demoníaca, sobressaía um cheiro distinto de homens moribundos. Audin tinha

a se deparado com pessoas assim muitas vezes como monge.
Aquele cheiro mofado e fétido, o cheiro dos moribundos. Até a

aquela tenda estava impregnada com o mesmo odor.
O soldado, fazendo força para conter o estômago, respondeu à pergunta

a do gigante.

— Quem são vocês?

A cabeça do soldado estava pesada. Seu couro cabeludo estava coberto de poeira por causa da dor de cabeça e da chuva

 mágica. Suas capacidades cognitivas e de raciocínio estavam reduzidas a menos da metade do habitual. Ele simplesmente se

e concentrava em seu dever. Se não o fizesse, seria facilmente possuído por um espírito maligno.

— Sou um servo que serve ao deus da guerra.

O soldado hesitou. Afinal, aqueles que estavam na tenda estavam morrendo. Não importaria quem ele deixasse entrar. Es

specialmente porque eram sacerdotes. Mas o seu dever era protegê-los.
Audin poderia ter forçado sua entrada, mas não o

o fez. Ele os respeitava.

— Esta é a questão. Se eu agir de má-fé, bastará apontar sua lança contra mim.

Se não fossem aliados, não teriam chegado tão longe, e os sacerdotes que permaneciam na tenda atrás deles já não tinh

ham salvação. Portanto, eles poderiam simplesmente ter saído do caminho, mas este soldado não abriria mão de seu posto fa

acilmente.

— Saia do caminho.

Então, uma voz veio de trás de Audin. Era Raffield. He era um soldado veterano, mais antigo que os guardas.
Ele ti

inha tirado um cochilo rápido e estava a caminho. Tinha encontrado o chamado “cultista do deus da guerra”. Encontrá-lo nã

ão foi difícil. Afinal, ele era um homem enorme. Além disso, os dois estavam parados em frente à tenda de seu benfeitor.###TAG###<



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— Veterano Raffield.
— Saia do caminho.

Ele falou e empurrou o soldado de lado. O soldado que guardava a tenda piscou os olhos opacos e se afastou.

[?25h

— Vocês vão entrar? Se entrarem sem permissão, podem contrair a doença.

Disse Raffield.
Seu desejo era o mesmo desde o início até o presente.
Aqueles que sofriam naquela tenda eram vi

irtuosos demais para morrer ali. Mesmo sem a chuva, esta terra era um lugar que devorava as pessoas. Por isso, seu único

 desejo era que pudessem ser levados para a cidade, em segurança.

— Sim, está tudo bem, irmão de rosto triste.

Quando Audin falou, Raffield franziu a testa e pigarreou.

— Que título estranho.

O soldado se afastou, e Raffield abriu a entrada da tenda. Audin acenou com a cabeça em cumprimento e entrou. Ele viu

u os homens deitados em meio ao odor de urina e decomposição. Havia
dez deles. Os sacerdotes estavam reunidos em uma p

pequena tenda. Ao lado deles, tigelas de água e panos secos eram visíveis. Mesmo naquela situação, esses eram sinais de c

cuidado.

— Se os deixar sozinhos, eles morrerão.

Raffield falou por trás. Para ser sincero, eles podiam morrer a qualquer momento. Ainda assim, se possível, se ele pu

udesse salvar ao menos um.
Ao contrário de seu desejo, as palavras que saíram de sua boca foram realistas.

[?25h

— Se não puder salvá-los, pelo menos recite a oração da paz.

Raffield soluçou. A culpa de não poder fazer nada por seu benfeitor pesava sobre seu corpo, e he só conseguia clamar

 por Deus.

‘Senhor, se puder conceder o meu desejo, por favor.’

Por favor, salve-os.

‘Se o Senhor poupar suas vidas, eu O adorarei e servirei pelo resto dos meus dias.’

Era uma oração que colocava em jogo sua fé, sua vida, seu amanhã, sua existência inteira — tudo. A prece era fervoros

sa.

— É um pouco tarde.

Disse Audin. Essas palavras o encheram de um sentimento de desespero ainda mais profundo. Mesmo sabendo disso, a conf

firmação ainda machucava.

— Será necessário pelo menos um mês de repouso para a recuperação.

As palavras seguintes o deixaram sem fala.

— Irmã, por favor, cante.
— Sim.

E então, ele caiu de joelhos diante da música que ouviu e do que aconteceu diante de seus olhos.

Café gelado-.

Teresa infundiu divindade em sua canção. Não era uma marcha fúnebre. Seus cânticos substituíram as relíquias sagradas

s.
Dez sacerdotes foram atingidos pela peste desencadeada pelo espírito demoníaco. Naturalmente, eles não estavam sozi

inhos. A peste se espalhara por todo o campo de batalha.
Raffield presenciou um milagre.
A luz fluiu através da let

tra da música, e essa luz salvou os dez sacerdotes. Arfando, eles exalaram e, à medida que a luz passava sobre sua pele e

enegrecida, o sacerdote que havia salvado seu irmão abriu os olhos.

— …… O que aconteceu?

Ele não conseguia abrir os olhos havia três dias, então foi preciso virá-lo de lado para evitar escaras. Ele abriu os

s olhos, virou a cabeça e falou.

— Raffield?

O sacerdote, ao virar a cabeça, viu Raffield, que apenas rezava e agradecia, diante de Audin e Teresa.

— O senhor sobreviveu, Padre.

Raffield aproximou-se de joelhos e chorou amargamente.
Os seres humanos choram quando estão tristes, mas também ch

horam quando são tomados por uma imensa alegria.

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