
Capítulo 861
O Cavaleiro em Eterna Regressão
861. Diferenças de personalidade
— Oh, Senhor. — Um dos padres, que havia sido atingido pela praga e perdido a consciência, derramou lágrimas ao despertar. Foi uma mudança que veio no momento em que tudo parecia acabado.
— Não se preocupe, descanse, irmão. — Aquele que estava no centro era o apóstolo da guerra.
— O seu julgamento! — Alguns dos soldados que ouviram seu toque e sua canção ficaram praticamente convertidos. Eles ergueram um poste e ofereceram uma nova relíquia. O objeto em forma de punho era um símbolo em homenagem ao deus da guerra.
— Café gelado [1]. — O objeto sagrado estava imbuído de divindade. Para um olho destreinado, parecia que nada havia acontecido.
‘Sem sinceridade ou oração, ali mesmo?’ O padre despertado estava tão chocado que ficou sem palavras. Isso seria possível? Era possível. Aconteceu bem diante de seus olhos. Ele não estava tão desorientado a ponto de confundir a realidade com sonhos. Teria sido tudo uma ilusão, e ele estava sendo seduzido pelos sussurros de um espírito maligno? Não. Olhe para a mulher cantando no centro da relíquia. Seu físico lembrava o de uma gigante, mas sua voz era um presente do céu. O padre se ajoelhou e chorou novamente. Encred passou pelo padre que chorava e se aproximou de Audin.
— Isso não é demais? — O acampamento não era pequeno. Era vasto e amplo. Incluindo os soldados que passavam, o número chegava a quase mil. Mil, esse era o número de pessoas que se reuniram, montaram tendas e viviam ali. Mesmo que cada tenda abrigasse dez pessoas, haveria uma centena delas. Além do número de pessoas, eles também precisavam de lugares para armazenar comida e outros suprimentos. Em outras palavras, havia dezenas de tendas para armazenamento. A unidade de suprimentos ocasional também precisaria de um lugar para ficar. Para que a frente sul resistisse, a linha de suprimentos não poderia ser cortada. Tudo isso contribuía para a área de terra ocupada pelo acampamento. Audin e Teresa renovaram as relíquias sagradas e cobriram todo o acampamento com sua sacralidade. Eles dissiparam o presságio misturado com a chuva demoníaca e até melhoraram a qualidade do ar. Não era uma tarefa fácil, como Encred via.
— É verdade, irmão. — Audin admitiu prontamente. Ele assentiu. Tudo isso era possível porque Teresa cantava sem parar, no centro da seriedade.
— Não acho que isso possa durar muito. — Eu digo isso com um sorriso. — Mesmo quando chegar a hora de lutar, será difícil avançar.
Luagarne falou ao lado. Tendo se juntado aos Cavaleiros, ela era uma estrategista e tática. Esse era o seu papel. Ela reconhecia o vácuo de poder.
— Sim, Irmã Lua. — Audin e Teresa despejavam sua divindade em vez das relíquias. Não era algo que pudessem fazer por muito tempo.
— Quanto tempo? — Era uma pergunta sem um fim claro, mas o significado era evidente: por quanto tempo vocês conseguem aguentar?
— Provavelmente levará cerca de duas semanas, no máximo. — Encrid se virou. Ele não tinha dado nenhuma ordem, e Audin agira por conta própria.
— É uma perda de poder. — Luagarne tem razão.
— Eu admito. Mas é uma sensação boa. Podemos nos comunicar sem dizer uma única palavra.
Yong-in leu a mente de Encred. Enquanto Shinar observava em silêncio, Krang olhou para a guarnição. Mesmo com a Guarda Real e as tropas reais, a atmosfera permanecia inalterada.
— Obrigado. — Ele cantarolou. Era o rei, vestido com um manto cor de creme. Cinco guardas reais o cercavam, mas sua voz não era baixa. Havia vários soldados por perto, e eles podiam ouvi-lo.
— Você fez o que eu deveria ter feito. — O coração do rei era sincero. Ele esperava, se possível, que nenhum de seus soldados morresse e que essa batalha não durasse muito. Ele esperava que as sequelas da batalha não chegassem aos que viviam ali hoje. Ele incluía não apenas aqueles que viviam em suas próprias terras, mas também os do sul. Talvez seja por isso que ele mereça ser chamado de rei.
— Por que você veio pessoalmente? — Encred perguntou casualmente. Era uma pergunta dirigida a Krang. A Guarda Real, especialmente o capitão, parecia particularmente infeliz. Ele era familiar. Um traço de descontentamento apareceu em seu rosto. Claro, era um traço vago de emoção, algo que apenas alguém com experiência em observar as expressões das fadas notaria.
— Eu não quero que a guerra se prolongue. — A voz de Krang ficou fraca. Era quase inaudível. Claro, Encred e seu grupo ouviram. Um cavaleiro possuía a audição necessária para detectar até mesmo um grito de “Senhor! Guerra!” de um lado a outro. Krang então falou, com a voz um pouco mais alta.
— Todos pareciam ocupados. — Desta vez, foi alto o suficiente para ser ouvido por todos ao redor. Os olhos de Encred e Luagarne se encontraram. Vários pensamentos pareciam passar por suas mentes.
— Terei que ouvir os detalhes mais tarde. — Luagarne sussurrou. Encred assentiu. Ela estava falando com Krang.
— Eu preencherei o vazio deixado pelo Sir Audin. — Fel falou abruptamente. Sua voz estava cheia de paixão. Ele era o menos conectado à oração, divindade ou milagres. Ele era um pastor do deserto, uma terra intocada pelo divino. Nem mesmo os peregrinos mais comuns iam até lá. Não é à toa que três grupos detêm nomes tão elevados no continente: o deserto, a geleira e a montanha negra. Aqueles que habitam esses três lugares vivem em uma terra que os deuses abandonaram. Fel viu as consequências do que Audin e Teresa fizeram. As pessoas mudam. A lenha é alimentada em uma chama fraca. Salvar pessoas — ele nunca sonhou com tais coisas. Até agora, no fundo do coração de Fel, apenas a espada brilhava por si mesma. Mas…
‘Se você puder.’ Não poderíamos estar caminhando em uma direção melhor do que estamos agora? Talvez, ao observar Encred e aprender com ele, tenhamos apenas captado alguns pontos-chave: esgrima e uma certa mentalidade. O que é mais importante do que talento e trabalho duro? Audin e Teresa queimaram sua divindade. Eles despejaram suas energias para protegê-los. Por algo mais importante do que lutar com espadas.
‘Até onde minha espada alcança?’ Ele perguntou a si mesmo. A resposta não veio facilmente. Em um momento em que ninguém estava olhando, Pell acordou e abriu os olhos. Então ele deu um passo à frente e falou. Lawford, vendo a mudança em seu rival, ficou comovido. Ele, também, deu um passo à frente.
— Eu preencherei o que falta. — É uma declaração de intenção de nunca mais pensar no assento vazio do Sir Audin. Apenas ver os dois juntos é reconfortante. O vínculo deles é verdadeiramente afetuoso, e é uma alegria assistir.
— … Insuficiente? Estou bem sem você. — Fel reagiu às palavras de Lawford, e Lawford permaneceu calmo.
— Não, não é suficiente. Não consigo fazer isso sozinho. Não serei nem metade tão forte quanto o Sir Audin. E com o Sir Teresa ausente também.
Vamos encarar a realidade.
— Ei, você, sábio chorão que procura pelo manto vermelho todas as noites. Você precisa encontrar um lugar para colocá-lo e colocá-lo lá. — É um ataque pessoal.
— Então, estou preso. Então, se eu lhe disser para cortar ali, corte aqui. Apenas faça. Eu cuido do resto.
As brigas deles eram diárias. Encred deu um tapinha no ombro deles.
— Poupem suas forças. — Ele também deu um conselho. Seria difícil relaxar aqui. A luta contra o Sul nem tinha começado. Se alguém tivesse que escolher a pessoa mais chocada com o que Audin tinha feito, seria, sem dúvida, Inggis, um membro dos Cavaleiros do Manto Vermelho. Ele encarou Audin e Teresa, depois Krang, depois o grupo de soldados, parecendo alheio ao cabelo encharcado de chuva que grudava em seu rosto.
— Se resistirmos no lugar das relíquias sagradas, sofreremos uma perda de força. Portanto, devemos pará-los. Na luta contra o Sul, a chave é um pequeno número de soldados de elite — ou seja, a força cavalheiresca. O sacrifício dos soldados é inevitável. Portanto, parem as más ações desses dois imediatamente.
Você desiste do que tem que desistir. Só então você pode obter até mesmo uma pequena vantagem. Era loucura drenar a força de dois cavaleiros aqui. É por isso que Inggis teve que falar. Eram as palavras que vinham de sua cabeça. Mas as palavras que saíram de sua boca não vinham de sua cabeça, mas de seu coração.
— Isso está bem? — O que eu deveria dizer? Aqueles estacionados na frente sul agora eram irmãos e família. Eles se viam todos os dias. Eles sentavam na mesma mesa e rolavam juntos. O estômago de Inggis trazia uma cicatriz do tamanho de uma mão. Foi o soldado ao lado dele que a costurou. Inggis não podia desistir de seus soldados, sua unidade. É por isso que Lichenstätten empregou uma estratégia de atacar soldados comuns e enfraquecer a força dos cavaleiros. Para Lichenstätten no sul, os Cavaleiros do Manto Vermelho eram como manteiga macia. A manteiga exposta ao sol de verão derrete facilmente, e até um leve toque a esmaga. Opacos e macios.
‘Se eu puder salvá-los.’
Inggis estava preparado para desistir de sua vida. Apesar dessa resolução, dois paladinos protegeram sua unidade, seus soldados e seus irmãos. Todo o perigo havia passado? Não. Mas Inggis, a Máscara de Ferro, sentiu algo quente brotando dentro de seu peito.
— Tudo bem. — Uma resposta veio às palavras que ele murmurou, como se para si mesmo. Cabelo preto, olhos azuis, o líder dos cavaleiros loucos, o confidente do rei. Era a resposta de um homem que ele vira de passagem no final da guerra civil. Ele respondeu e desviou o olhar. Seu olhar se voltou para os arredores do acampamento. O homem que originalmente protegera aquela terra, que sempre a protegera, estava caminhando de lá.
— Sim, ouvi dizer que ele era muito bonito, mas pensei que não fosse. — Cabelo castanho claro entremeado com branco, e um rosto tão comum quanto qualquer outro. Se você o apresentasse como um mascate saindo de uma estalagem e indo fazer negócios, ele provavelmente assentiria, e a imagem dele carregando frutas em uma carroça evoca uma sensação de admiração. Ele não parece ter qualidades extraordinárias. No entanto, esse homem era a primeira espada que já sustentara Naurilia. A unidade à qual Encred pertencia originalmente levava seu nome.
— Você? Encred? — Ele se aproximou dela prontamente e perguntou. Ao lado dela, Rem sorriu, com um canto da boca levantado. Era o que se poderia chamar de sorriso assassino. Dunbakel permaneceu cauteloso, seu rosto era um muro de cautela.
— Sir Cyprus. — Encred chamou seu nome. Krang assentiu, fingindo reconhecê-lo. Seus olhos se encontraram. Mesmo durante o tempo de Encred vagando pelo continente, esse homem já havia feito um nome para si mesmo. Naturalmente, ele sonhava em conhecê-lo. Ele queria fazer perguntas e aprender com ele.
— Quando você o encontrar, pergunte se ele tem algum talento. — Ouvi até sarcasmo de um colega espadachim com quem costumava sair. Foi um comentário zombeteiro, uma piada que ouvi por levantar um tópico inútil. Era o momento de sonhar em se tornar um cavaleiro. Foi um comentário que fiz quando mencionei meu desejo de conhecer alguém que já tinha chegado ao auge.
— Você está aqui para lutar? — O Cavaleiro Cyprus perguntou.
— Estou aqui para ajudar. — Encred respondeu. Os dois ficaram parados e começaram a conversa. Ninguém tentou impedi-los. A multidão de espectadores cresceu. Não apenas os Cavaleiros do Manto Vermelho e os Cavaleiros Loucos, mas até a multidão de soldados que pediam guerra voltaram sua atenção. Apesar da falta de uma plataforma no acampamento, havia pessoas em toda parte. Todos estavam assistindo.
— Você acha que pode vencer se for até o fim? — Cyprus perguntou. Foi uma pergunta direta. Ele estava se referindo à luta com o Sul ou a algo a mais? O significado não estava claro.
— Eu não sei. — Encred respondeu.
— E se você for até o fim e ainda assim não conseguir? E se não sobrar nada no final? — Então teremos que seguir. — Você não está com medo? Você não está ansioso?
Encred lembrou-se repentinamente de sua conversa com o barqueiro. As palavras que o incitaram a desistir até agora. Até as palavras que o cavaleiro chamado Cyprus acabara de dizer pareciam uma parte dele. Então não foi difícil responder. Eram palavras que ele repetira inúmeras vezes, e eram os padrões pelos quais ele vivera sua vida.
— Se você desistir porque está com medo, ansioso e lutando, o que resta? Então apenas faça. Caminhe de acordo com suas crenças para alcançar o que deseja. Se não puder caminhar, rasteje, mesmo que isso signifique seguir em frente.
Embora eu tenha revelado brevemente minha vontade, a luz parecia persistir. A chuva, que caía incessantemente, parou. Um raio de sol caiu através das nuvens densas. Era uma luz solar cor de limão, misturando-se com a luz branca emitida por Audin e Teresa. Uma luz quente se espalhou em todas as direções. Refletiu no cabelo de Temares, passou pelo rosto inexpressivo de Rem, seu descontentamento havia desaparecido. Tocou os lábios de Shinar, cujos cantos eram mal visíveis, e pairou ao redor dos soldados. Nenhum dos soldados que assistiam falou facilmente. O silêncio caiu. Até o som da chuva desapareceu. Sob a luz do sol cor de limão, Cyprus estendeu a mão.
— Bem-vindo. — Encred pegou sua mão. Ele esperava que esse dia chegasse. Era um momento com o qual ele sonhara, uma esperança, em algum momento do passado.
‘Manter o Lorde Cyprus ao seu lado e guardar suas costas.’
Heehee.
Acima do céu limpo, um cavalo alado subiu pelo ar. Alguns soldados, assustados com a visão, apontaram suas armas para o céu. Só então os soldados falaram, e uma comoção irrompeu.
— Um grifo? — Não, é um cavalo. — É um cavalo alado agora? — Tragam-me a besta!
Enquanto Inggis tentava detê-los, Encred falou.
— Somos amigos. — Vocês aceitam cavalos alados como amigos? — Cyprus olhou para o céu e perguntou.
— Sim, aconteceu assim. — É.
Os Suin e os selvagens do Oeste eram formidáveis. Eles tinham aguentado o suficiente em seu caminho para cá.
— Ele é meu camarada. Todos os cavaleiros devem tratá-lo com cortesia. — Cyprus disse com um sorriso. Ao ouvir essas palavras, o cavaleiro da Ordem, que olhava ferozmente para Rem, baixou a cabeça.
— Com licença. Este é o Cavaleiro Ferdinand. — A atitude mudou em um instante. Rem estreitou os olhos. Ainda assim, o oponente permanecia o mesmo. Não havia sinal de hostilidade. Pelo intervalo, Ragna falou.
— Vamos comer comida cozida agora? Eu gostaria que tivéssemos um cozinheiro de campo. — Rem disse depois de ouvir as palavras de Ragna.
— Eu sou Rem, e aquele cara é um carnívoro. — Naturalmente, foi o começo de uma comoção. Os Cavaleiros do Manto Vermelho foram os que tiveram seu ímpeto alterado pela palavra de Cyprus. Os Cavaleiros Loucos.
— Parem com isso, a luta virá depois. — Encred parou a luta antes mesmo de começar.
— O que você quer dizer com esses dois terem se tornado totens aqui? — Rem perguntou sobre a situação de Audin, com as orelhas tremendo.
— Não é um totem, é um objeto sagrado, irmão. Se você não precisa da orelha, arranque-a. — Quando Audin ouviu isso, ele o cumprimentou e perguntou se ele estava bem.
— Vocês são apenas um bando de idiotas do Oeste. Lidar com vocês só vai causar problemas. — Ragnar acrescentou.
— A chuva parou. Finalmente está começando a parecer um pouco com chuva. A propósito, quem construiu este forte? Quando é a reunião do oficial comandante? — Isso é o que Luagarne diz, ignorando completamente todos ao seu redor. Eles vão lutar de qualquer maneira, mesmo se você tentar impedi-los, e eles vão lutar de qualquer maneira se você os deixar. Então, eles apenas fazem o que querem.
— Iza é minha noiva. — Enquanto isso, Shinar levantou a voz de uma maneira incomum para uma fada. — Confuso, confuso. O que são esses? Os monstros se transformaram? — Eu pensei.
Temares lê as mentes de alguns soldados e lhes diz.
— ha ha ha. — Cyprus explodiu em risadas ao ver tudo aquilo. Não houve constrangimento. Ele era um tipo diferente de pessoa.