
Capítulo 406
Re: Blood and Iron
A sineta da capela soou pelo pátio de inverno da Academia de Juventude de Potsdam, seus sons agudos ecoando contra as paredes de pedra e os alojamentos congelados. A neve se acumulava nos cantos deles. Intocada e silenciosa, assim como Erwin von Zehntner, que estava sentado sozinho no banco de pedra sob a estátua de Santo Mauricio, com o colarinho levantado contra o vento frio.
Com quatorze anos, já mais alto que a maioria dos seus colegas, vestia o uniforme cinza de cadete do corpo de jovens da Academia Militar Imperial. O tecido, impecável e bem passado, ostentava o emblema da Casa von Zehntner sobre o coração — um lobo prateado em posição de ataque sob a Cruz de Ferro.
Um símbolo pelo qual ele tinha aprendido a nutrir aversão.
Suas mãos com luvas apertavam a carta com mais força. Ele já tinha lido aquilo três vezes, cada leitura mais dolorosa que a anterior. A caligrafia de Alya era graciosa, mesmo carregada de tristeza.
Embora fossem casados há menos de um ano, suas palavras, escritas poeticamente, refletiam um sentimento verdadeiro, aquele que toda esposa de soldado já experimentou na história. Ela sentia saudades dele. Dissera que a casa parecia grande demais sem ele.
Que tinha se acostumado a adormecer ao som da sua respiração tranquila ao seu lado, e agora o silêncio a corroía como ratos de inverno entre as vigas do teto. Ele leu aquelas palavras e sentiu o peito apertar de um jeito que nenhuma instrução ou luta de treinamento tinha causado.
A vida de cadete não era o que ele esperava. Os uniformes, as formações, as aulas sobre Clausewitz e Frederico o Grande — tudo aquilo era como o pai tinha dito. Mas a pressão... o peso da expectativa... isso não estava em nenhuma carta ou palavra dita por aquele homem que era mais alto que qualquer estátua de Germania.
Bruno von Zehntner era mais que um pai. Era o homem que salvou a Alemanha. O homem que esculpiu uma nova ordem mundial com sangue e ferro. Uma lenda viva. E Erwin era seu filho. Não só qualquer filho, mas o primogênito. O herdeiro. Aquele cujo nome já era falado em messes de oficiais de Berlim a Königsberg.
E, no entanto... Ele não queria aquilo. Não assim. Durante anos tentou se distanciar da expectativa que tinha sobre ele. Pensando que seria o próximo alfa de uma alcateia de lobos. Mas quanto mais espetacular Bruno ficava, mais Erwin esperava preencher as pegadas que ele deixara.
Era uma realização esmagadora, uma que Erwin entendia não ser culpa de seu pai, nem de sua própria inadequeção — mostrando uma maturidade e resiliência notáveis para sua idade. Ele sabia apenas que, pelo jeito que as coisas caminhavam, o caminho de oficial militar talvez não fosse o que ele havia imaginado anos atrás, quando implorou à mãe para se tornar cadete.
Porém, esses pensamentos foram interrompidos pelo ranger das tábuas do chão. Erwin ouviu passos se aproximando. Não eram botas — eram mais leves, mais suaves. Ele não precisou olhar para saber quem era. Apenas uma pessoa na academia sabia procurar por ele naquele canto isolado.
Konrad Albrecht. Seu colega de quarto. Filho de um comerciante, neto de um oficial de artilharia condecorado. Leal, simples e honesto ao extremo.
— Você está faltando ao almoço de novo —
disse Konrad, enquanto se aproximava, exalando névoa na frição do ar.
Erwin não respondeu. Apenas voltou a dobrar a carta e a guardar no bolso do casaco, com o cuidado de quem manipula vidro frágil. Konrad o observou.
— Mais uma da ela?
Erwin assentiu com a cabeça.
— Eu achava que cadetes não podiam se casar — murmurou Konrad, sem crítica, apenas dizendo o óbvio, como se pensasse alto.
— Exceção especial — respondeu Erwin, de modo plano. — Meu pai providenciou isso com a bênção do Tsar. A família dela... bem, você sabe.
— Não sei muito, só o que você me contou... Ela foi órfã, adotada pelo seu pai, o general-legaunte Heinrich von Koch, enquanto estavam na Rússia durante a revolução, liderando a Divisão de Ferro, anos atrás.
— Pelo que você me contou, ela nem é de nobreza, e é bem mais velha que eu. Então por que o Kaiser e o Tsar aprovariam um casamento tão pouco ortodoxo em primeiro lugar?
Erwin permaneceu em silêncio por um instante, sem responder a essa pergunta. Não podia revelar os grandiosos planos do pai de unir os Hohenzollern, Romanov e, talvez, até os Habsburgos, usando as mulheres de suas famílias como liga — isso ainda não era de conhecimento público.
Por isso, ele se levantou, varrendo a neve de suas calças. Olhou para o campo de desfile, onde cadetes mais jovens marchavam sob o olhar atento de um instrutor com o nariz vermelho, que berrava comandos. Para mudar de assunto, pensou em algo mais pessoal, mais íntimo, além das intrigas dos nobres que estavam além da sua compreensão.
— É ela que ocupa meus pensamentos, Konrad. Nenhuma tática. Nem postura de baioneta. Só ela. O sorriso dela. Como ela me olha quando leio pra ela. Como ela segura minha mão quando estou preocupado.
Konrad assentiu lentamente, com uma expressão de entendimento profundo, embora algo mais sutil estivesse por trás do sorriso dele — inveja... Mas ele não revelou esse sentimento ao falar com seu amigo claramente angustiado.
— Você sente outra coisa por ela.
A frase de Erwin foi breve, mas surpreendente.
— Eu preciso dela.
Konrad se mexeu, sem saber o que dizer. Mas, antes que pudesse formular uma resposta adequada, Erwin tomou uma decisão decisiva, declamando, com coragem, o caminho que agora via na sua frente.
— Estou pensando em fugir.
Essas palavras ficaram no ar, congeladas, como um trovão.
— Fugir da academia?
Erwin assentiu com a cabeça.
Konrad deu um passo à frente, com voz urgente.
— Erwin, se fizer isso, não terá mais volta. Você sabe disso. O próprio Kaiser assina a sua lista de cadetes avançados. Você será marcado como uma decepção, não só para o exército, mas para o seu pai.
Ao contrário do que Konrad dizia, e da verdade que carregava, Erwin conhecia seu pai melhor que a maioria, talvez só sua mãe e os amigos mais próximos realmente o conhecessem melhor. Por isso, seus olhos não mostravam ansiedade ou medo, mas um sutil sorriso de alívio, como se suas palavras refletissem aquele estado de espírito.
— Talvez fosse melhor assim...
Konrad interpretou essas palavras de forma diferente do que Erwin queria expressar e, de imediato, ficou bastante preocupado, aproximando-se do rapaz numa tentativa de convencê-lo a não seguir aquele caminho.
— Você não quer isso. Você trabalhou tanto esses últimos anos! Mais duro que qualquer um! Vai mesmo jogar tudo fora agora?
A voz de Erwin foi fria, sem paixão, ansiedade ou, principalmente, intimidação. Aquilo que ele disse era uma afirmação de fato, nada mais, um último comentário antes de encerrar a conversa.
— Não é?
Depois, ergueu o rosto e se virou de costas para o amigo, os olhos brilhando com um fogo que antes não tinha estado ali.
— Você não entenderia, Konrad... Você não entende meu pai, nem minha família... E, honestamente, estou começando a entender a verdade também... Tudo isso... Foi totalmente desnecessário. Meu desejo de ser como meu pai... quando tudo que ele queria era uma vida pacífica pra mim. Acho que chegou a hora de honrar esse desejo...
Konrad abriu a boca, mas nada saiu. Novamente, passos pesados na direção deles. Ambos se viraram. Um homem se aproximava do outro lado do pátio, vestido com um casaco grosso de lã, mãos enluvadas atrás das costas, cabelos com fios de prata. Olhos como gelo. Bruno.
Ele chegou sem escolta, como costumava fazer quando visitava sem aviso. Os cadetes na guarda das portas principais sabiam que não deviam questionar o Lobos da Prússia. Konrad recuou e fez uma saudação. Bruno acenou com a cabeça.
— Nos deixe a sós —
disse Bruno. Konrad desapareceu de cena. Bruno olhou para o filho, que agora permanecia mais ereto, mas não menos resistente.
— Parece que minhas suspeitas estavam corretas. Quando te vi pela última vez, parecia que vacilava de convicção. Na verdade, esperava que você viesse me procurar antes de tomar uma decisão assim.
Bruno falou em voz baixa.
— Ouviu?
A expressão de Bruno suavizou-se, de um aço rígido para um gelatinoso e macio. Colocou a mão enluvada no ombro do filho e fez uma leve observação, com a intenção de acalmar as tensões entre eles.
— Poucas coisas acontecem nestes sagrados corredores que não cheguem aos meus ouvidos. Eu não seria um pai bom se ignorasse seu desenvolvimento. Assim, posso dizer que tenho acompanhado suas dificuldades há algum tempo.
— Sei o quanto deve ter sido difícil para você, todos esperando que você fosse maior que eu. E não vou mentir, você tem potencial para me superar, mas, Erwin... Essa nunca foi a vida que quis para você, nem para seus irmãos.
Nossa linhagem foi forjada no sangue e no ferro, desde as batalhas de Waterloo até a unificação do Reich alemão, todo sucessor masculino do nome von Zehntner serviu o Reich de forma exemplar.
— Mas são tradições antigas. Não é obrigatório levantar uma arma e lutar em algum campo de batalha distante daqui. Uma nova era está chegando, e eu ainda estarei aqui para carregar a espada por você.
— Se você realmente decidiu seguir esse caminho, vá, esteja com sua esposa, construa uma família, torne-se um homem instruído, que utiliza sua riqueza e poder para o bem do povo.
— Você pode ser o que eu nunca poderei ser: um homem de consciência e de cavaleirismo. Chegará o dia em que a Alemanha não precisará mais de um lobo à sua fronteira, devorando aqueles que a ameaçam. E, nesse dia, precisará de você para guiá-la rumo a uma era verdadeiramente pacífica, próspera e segura. Vá para casa, Erwin, você não precisa seguir meus passos. Você é seu próprio homem, e um homem melhor do que eu alguma vez serei...
Depois de dizer isso, Bruno não falou mais nenhuma palavra, fez uma última saudação ao filho, numa inversão do que seria esperado, considerando seu posto e autoridade, e, ao receber a resposta, virou-se e se afastou, indo embora da Academia — onde nem ele, nem Erwin voltariam a pôr os pés novamente.