Re: Blood and Iron

Capítulo 865

Re: Blood and Iron

Maria von Zehntner estava quieta na sua mesa, enquanto a luz do sol entrava suavemente pelas janelas altas da sala de aula.

Assim como sua irmã gêmea Theresa, e a maioria dos seus primos, Maria frequentava uma das universidades católicas mais antigas de Innsbruck.

A escola tinha orgulho de sua disciplina, história e proximidade com o legado. Na frente da sala, a professora continuava sua palestra, o giz tocando suavemente o quadro enquanto datas e nomes se acumulavam com precisão mecânica.

Theresa, sentada ao lado de Maria, contornou um bocejo. Não era história que a entediava, era a repetição.

Elas tinham crescido cercadas por isso; história falada não como abstração, mas como memória.

Histórias contadas na mesa do jantar, durante longas viagens de carro, e ao lado do fogo no inverno. Histórias que seu avô nunca tinha se oferecido para contar, mas nunca tinha se recusado quando pediam.

Nenhuma recitação de livro didático podia competir com aquilo.

Maria percebeu o bocejo instantaneamente e lançou um olhar rápido e severo para a irmã. Theresa endireitou-se imediatamente, dissimulando uma expressão que se aproximava de atenção.

Sergarem gêmeas não as isentava de consequências; se alguma delas fazia algo, refletia na outra. A professora notou, mas preferiu não dizer nada, apenas tossiu levemente enquanto continuava a lição.

"O que nos leva," disse ela cuidadosamente, "ao assassinato do arquduque Franz Ferdinand e sua esposa, Sofia."

Theresa estremeceu enquanto Maria abaixava o olhar para a borda da mesa, os dedos se cruzando cuidadosamente sobre ela.

O ambiente reagiu. Não de forma barulhenta, mas sutil. Cadeiras se mexeram, canetas pausaram, e os olhos se descolaram de relance, alguns com sentimento de condolência, outros com curiosidade mal disfarçada.

Sussurros se espalharam, baixos e passageiros, antes que a disciplina se restabelecesse. Todos na sala sabiam quem tinha sido Franz Ferdinand. E todos sabiam quem eram Maria e Theresa.

Para sua crédito, a professora ajustou o tom de sua voz, suavizando agora.

"Quando a guerra começou," continuou ela, "o marechal de campo Bruno von Zehntner assumiu o comando das forças alemãs nos Bálcãs. Agindo rapidamente, ele liderou os 2º e 8º exércitos através da fronteira da Sérvia e garantiu uma vitória decisiva logo no início do conflito."

Ratios, setas e informações gerais sobre a batalha inicial apareceram no quadro-negro.

Os murmúrios retornaram, desta vez mais altos. Uma aluna levantou a mão. Uma garota com cabelo loiro bem penteado em tranças e um forte sotaque francês.

"Não entendo," ela disse, hesitando por um breve momento. "No meu país, nos ensinaram que a Alemanha foi bem-sucedida nos Bálcãs porque concentrou uma força esmagadora lá. Então por que as tropas alemãs estavam em menor número que a Sérvia, que era considerada uma potência menor?"

O ambiente ficou quieto.

Os olhos da professora se estreitaram; não de raiva, mas de autoridade automática. Por um momento, ela não respondeu.

Aquela pausa foi importante. Permitiu que as outras meninas da turma se juntassem. Criando um ambiente hostil para a estudante de intercâmbio francesa, que encolheu-se na cadeira e desvia o olhar.

Maria sentiu aquilo como uma pressão no peito ao testemunhar a cena. Antes que a professora pudesse falar, ela ergueu a cabeça orgulhosamente.

"Porque ele não esperou," disse ela, baixinho.

Todos giraram o rosto.

Maria não olhou para cima. Manteve o olhar fixo à frente, a voz firme e controlada.

"A Alemanha ainda não tinha mobilizado totalmente," continuou. "Nem a Sérvia. Meu avô se moveu antes que alguém esperasse dele. Usou velocidade, impulso e pura audácia, não números brutos."

Seguiu-se o silêncio.

Depois, a professora inclinou a cabeça uma vez.

"Correto," ela disse. "O ritmo operacional e a mobilização precoce permitiram às forças alemãs tomar a iniciativa antes que a coordenação dos aliados pudesse se formar."

Ela voltou-se para o quadro, preenchendo detalhes: suprimentos motorizados, comunicações integradas e superioridade tecnológica. Mas Maria mal ouviu.

Ao seu redor, os estudantes anotavam furiosamente, trocando olhares discretos, como se soubessem algo que ela não percebia.

Eles estavam escrevendo sobre o avô dela.

Para eles, ele era a face da doutrina e estratégia. Um nome gravado em campanhas e resultados. Uma figura cujas decisões eram medidas em setas e contagem de baixas.

Para Maria, ele era o homem que corrigia seu latim com exagerada paciência. Que ria alto demais de brincadeiras inofensivas. Um homem que tinha mais carinho pelos netos do que por qualquer outra coisa.

O sino tocou pouco depois.

Enquanto os alunos saíam, Maria permaneceu por mais um momento, recolhendo suas coisas com cuidado deliberado.

Eles falavam dele como se ele tivesse acabado.

Como se a história já o tivesse levado.

Maria se perguntou quantos deles percebiam que, no fim do dia, ele ainda era um homem, igual a qualquer outro.

Quando ela terminou de guardar a mochila, ouviu uma voz tímida vindo de trás dela.

"T… Obrigada…."

Maria virou-se e viu a estudante de intercâmbio francesa ali parada, o olhar fixo no chão.

Suas bochechas estavam rosadas, sem dúvida de vergonha, mas havia algo mais escondido mais fundo em seus olhos.

No entanto, Maria fingiu não perceber.

"Claire, não é? Sua pergunta foi válida, e eles não deviam ter reagido assim. Não é certo, mas acho que você sabe melhor do que ninguém que rancores antigos são difíceis de superar…."

Os olhos de Claire se arregalaram ao ouvir Maria falar aquilo, como se ela tivesse mencionado o elefante na sala.

"Você é surpreendentemente… direta com suas palavras."

A menina imediatamente começou a recuar, percebendo que aquilo poderia parecer rude.

"Desculpe, deve ser a barreira do idioma. Não estou acostuma com uma atitude tão direta."

Theresa entrou na conversa de repente, colocando-se entre as duas enquanto abraçava a irmã pelo pescoço, parecendo incomodar um pouco Maria ao fazer isso.

"É um traço familiar. Nosso avô nunca se preocupou com falsidades, e por isso nos ensinou a falar o que realmente pensamos. Quero dizer, quem exatamente iria repreender um von Zehntner por falta de decoro, certo, Mitzi?"

Maria suspirou e revirou os olhos. Avisou as mãos da irmã que estavam nos seus ombros, como se dissesse que ela concordava a contragosto.

"Infelizmente, ela não está errada. Muitos na nossa casa acreditam que ser franco é melhor do que ser tacto."

Claire observou as gêmeas interagirem e não pôde deixar de rir de suas maneiras distintas.

Era especialmente estranho para ela, considerando que cresceu na França, e nunca imaginou que algum dia fosse colega das netas daquele homem que muitos lá consideravam a encarnação do ceifeiro.

Claire não tinha percebido o quão forte se segurava aos livros até quase deixá-los cair quando as meninas começaram a caminhar.

"Você vai conosco?" perguntou Theresa de costas, já a meio caminho do corredor.

Claire piscou. "Eu… o quê?"

"Vai ficar com a gente neste semestre," disse Maria simplesmente. "A direção te designou quartos perto do palácio. Assim é mais fácil."

Claire hesitou. "O palácio?"

Theresa sorriu. "Você vai acostumar a esse nome."

A caminhada de volta para casa não foi nada como Claire tinha imaginado.

Não havia guarda de elite apontando armas, nem bandeiras estendidas nas ruas. Innsbruck seguia seu ritmo habitual: lojistas fechando as persianas, estudantes rindo, sinos marcando a hora.

Se não fossem as paredes de pedra que se erguiam lentamente à frente deles, ela poderia acreditar que apenas seguiam duas garotas comuns de volta da escola.

O próprio palácio era imponente, mas não teatral. Pedra antiga, linhas limpas, janelas abertas para deixar o ar da montanha entrar. Servidores passavam noddando, sem se curvar. Um cachorro latia ao longe.

Claire sentiu o coração acelerar.

Dentro, o calor surpreendeu ainda mais. Não a temperatura, mas a sensação de humanidade. Vozes ecoando suavemente pelos corredores mais profundos; crianças rindo, e de tempos em tempos Claire jurava ouvir uma bronca de mãe.

Um homem estava perto das janelas do salão principal, com as mangas arregaçadas, a jaqueta jogada sobre uma cadeira. Ria abertamente, sem contenção, enquanto um garoto mais novo tentava equilibrar algo precariamente no assento de uma cadeira.

"Cuidado," disse o homem, sorrindo ainda. "Se você cair, vou ter que fingir que avisei."

O menino sorriu mais e imediatamente caiu.

O homem xingou baixinho, com carinho, atravessando o cômodo em três longos passos, ajudando o garoto a levantar-se e dando um afago nele.

Só então Claire o reconheceu.

Sua respiração ficou presa.

Esse não era o personagem dos livros ou dos cartazes. Não era a silhueta de ferro das postagens ou histórias sussurradas.

Esse homem era mais velho, de ombros largos, barba prateada, postura relaxada. Os olhos, quando se voltaram às meninas, eram acolhedores.

"Ah," disse ele. "Aqui estão."

Theresa foi rápida, adiantando-se. "Vovô, a Mitzi disse que você é terrível em táticas."

Maria lançou um olhar para ela. "Eu não…"

O homem riu novamente, profundo e sincero. "Ótimo. Assim você aprende a se conter."

Seu olhar se moveu e fixou-se em Claire.

Durante um instante, ela sentiu-se vista de um jeito que a fez endireitar a coluna.

"E você deve ser nossa hóspede," disse ele gentilmente. "Claire, foi?"

Ela assentiu, sem palavras.

Ele estendeu a mão, sem comando ou cerimônia.

"Seja bem-vinda," disse Bruno von Zehntner. "Você está segura aqui."

Segura.

A palavra atingiu-a com mais força do que qualquer outra.

Naquele momento, Claire percebeu o quão absurda tinha sido sua expectativa. Pensou que entraria na toca de um ditador. Que sua própria vida dependia de como ela se comportasse.

Ao invés disso, ela estava num salão iluminado pelo sol, assistindo ao homem que seu país temia ajoelhar-se levemente para falar com uma criança na altura dos olhos, fazendo uma brincadeira suave sobre joelhos ralados.

Mais tarde, quando as meninas a conduziram rumo ao corredor de hóspedes, Claire olhou para trás uma última vez.

Bruno escutava agora, verdadeiramente escutando, enquanto alguém lhe falava calmamente. Seu rosto sério, mas não duro. Atento. Humano.

Claire engoliu em seco.

Pela primeira vez desde que saiu da França, ela se perguntou se as histórias que cresceu ouvindo eram mentiras.

Ou simplesmente incompletas.

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