
Capítulo 866
Re: Blood and Iron
Claire nunca tinha jantado em um palácio antes.
Ela cresceu em uma família rica no interior da França, que sobreviveu a mais de cem anos de guerras.
Sua família ganhou o privilégio da nobreza na França quase ao mesmo tempo que a de Bruno.
Durante as Guerras Napoleônicas, foi fundada a Casa von Zehntner, com vitórias sobre os franceses em Leipzig e Waterloo.
Enquanto isso, a casa de Claire fora criada uma década antes, em Austerlitz. Contudo, na época dela, esse privilégio tinha se reduzido a pouco mais do que terras e memórias.
Mas, após a queda do Segundo Império, eles haviam se isolado bastante e evitado se envolver nos caos das Repúblicas seguintes.
Dizer que era a primeira vez que ela testemunhava a grandiosidade e o esplendor de um palácio real era um eufemismo. E o da Tirol era tão exato quanto um palácio poderia ser.
A sala de jantar era ampla, sim, mas habitada. Existia há poucas décadas, mas dava a impressão de ter resistido com orgulho por séculos.
O que mais a inquietava, entretanto, não era o cômodo.
Era as pessoas dentro dele.
Maria e Theresa tinham desaparecido brevemente ao voltarem para casa, só para reaparecer com as mangas arriadas, cabelo preso, e aventais amarrados neatly na cintura.
Elas se moviam com familiaridade pela cozinha ao lado da sala, ajudando os cozinheiros sem cerimônia. Uma mexia uma panela enquanto a outra levava pão à mesa.
Claire observava em silêncio, indecisa se estaria interpretando algo fundamental errado.
Ao seu redor, outros membros da casa faziam o mesmo. Meninos mais novos ajudavam a limpar os pratos. Meninas mais velhas arrumavam os lugares e serviam água.
No pátio além das janelas, ela via vários homens, claramente de aparência nobre, trabalhando ao lado dos criados, aparando sebes e consertando uma cerca.
Ninguém gritava ordens.
Ninguém ficava parado.
Quando Bruno entrou na sala, o ambiente mudou, não por medo, mas por reconhecimento. Ele não usava uniforme, apenas uma jaqueta simples e uma camisa, com as mangas já sujas de serra.
Ele cumprimentou os netos com calor natural, beijou a bochecha de Heidi e sentou-se como se aquilo fosse a coisa mais comum do mundo.
Claire esperou até o começo da refeição para falar, hesitante, mas incapaz de esconder sua confusão.
"Com licença," ela falou suavemente, com um sotaque francês mais evidente quando estava nervosa. "Posso perguntar uma coisa?"
Bruno olhou para ela enquanto comia e sorriu — não o sorriso de um estadista, mas de um avô satisfeito com a curiosidade.
"Claro."
Ela fez um gesto sutil ao redor da sala.
"Por que… vocês fazem isso?" perguntou. "Podiam contratar mais empregados. Muito mais. A maioria das famílias da sua classe nunca—"
Ela parou, com medo de ter se metido longe demais.
Bruno não pareceu ofendido.
Pelo contrário, inclinou-se um pouco para trás, estudando-a com olhos pensativos.
"Eu nasci o nono filho de uma família Junker," disse calmamente. "Minha herança era um antigo casarão de Fachwerk na cidade velha de Berlim, e nada mais. Dei a mim mesmo na noite em que Heidi e eu nos casamos. Naquela época, eu ganhava o salário de um oficial júnior, e ela era dona de casa. Não podíamos pagar cozinheiros, criados ou jardineiros."
Ele olhou ao redor da mesa, encontrando os olhos de seus filhos e netos.
"Então, aprendemos a fazer tudo sozinhos."
Claire ouvia, fascinada.
"Desde então, as coisas mudaram," continuou Bruno. "Meus filhos e eu ajudamos a construir este prédio com nossas próprias mãos, sempre que podíamos ajudar. Esta é nossa casa, e uma casa exige cuidado diário, seja consertar tábuas do chão, limpar o banheiro, aparar sebes ou cozinhar."
Ele fez uma pausa.
"Não negligenciamos a manutenção," disse ele quietamente. "E não obrigamos os outros a fazerem o que não faríamos."
Ninguém falou.
Maria voltou para seu lugar, com as mãos ainda levemente enfarinhadas, e olhou para Claire com um sorriso pequeno e seguro.
Claire olhou para o prato, de repente envergonhada, não pela pobreza ou pelo trabalho, mas pelas suposições que carregava consigo.
Não era luxo; era disciplina.
Ela continuou a comer em silêncio, ouvindo as conversas da família na mesa.
Gerações dos von Zehntner se reuniam na sala de jantar, compartilhando refeições, bebidas e histórias pessoais. Não havia discussões políticas ou comentários passivo-agressivos sobre competição.
Até mesmo os Cousins distantes, ligados aos irmãos mais velhos de Bruno, pareciam não guardar rancor, apesar de o mais novo da linhagem paterna ter herdado o título da família.
Para Claire, isso era um choque, pois a sala de jantar da própria família, que agora via como bastante humilde em comparação, era quase toda dominada por debates, competições e falsas aparências.
Ela se lembrou das palavras de Maria e Theresa, ditas mais cedo na aula daquele dia: que sua família era franca e direta, preferindo essa honestidade à superficialidade.
E agora ela finalmente compreendia… O homem que seu povo tinha, literal e oficialmente, retratado como o ceifador durante a propaganda de guerra, a quem se culpava pelas desventuras da França nas últimas décadas, tinha fomentado uma dinastia mais forte do que qualquer outra, justamente porque focava em criar os filhos num ambiente que não ostentava privilégios, mas os enraizava na realidade ao seu redor.
No caminho de volta ao dormitório naquela noite, que ficava na mesma rua do Palácio de Tyrol, Claire se deitou pensando se tudo o que lhe tinham ensinado sobre a Alemanha, e sobre o temido Reichsmarschall, era apenas uma mentira.
Ou se um homem que parecia tão gentil, tão carinhoso com a própria família e preocupado com o futuro deles, também podia, de alguma forma, ser um monstro responsável por milhões de mortes e pelo sofrimento de milhões de outras pessoas.
No fim, ela decidiu acreditar em seus olhos e ouvidos. Não nos rumores de pessoas que nunca sequer tinham conhecido o homem.