
Capítulo 867
Re: Blood and Iron
Heidi percebeu isso nos detalhes mais simples primeiro.
Bruno sorriu mais.
Ele também começou a rir. Alto. De coisas que não eram inteligentes, nem profundas, e que não valiam a pena lembrar. Uma neta tropeçando nos próprios pés, uma piada mal contada, ou o cachorro roubando pão da mesa.
Isso sozinha dizia mais do que qualquer declaração já poderia.
Ela observava da porta enquanto ele tentava ajudar um dos meninos mais novos a consertar uma persiana solta, apenas para piorar as coisas, lascando a madeira onde antes não tinha quebrado.
No passado, um erro assim teria provocado uma correção; agora, ele só ria e prometia arrumar tudo “de verdade amanhã”.
Amanhã.
Heidi sentiu a respiração ficar presa na garganta com aquela palavra.
Por décadas, Bruno tinha vivido como se o amanhã fosse uma incerteza a ser conquistada, planejada ou totalmente negada. Agora, falava dele de forma casual, como algo que tinha certeza de que viria.
Bruno brincava com os netos, enquanto se deixava provocar em troca. Aceitava pequenas derrotas com graça e grandes inconvenientes com humor.
O homem que já mediu o tempo em campanhas e contingências agora perdia totalmente a noção dele. E isso a assustava.
Não porque temesse que a paz acabasse, mas porque percebia quanto tempo tinha esperado por ela.
Bruno tinha ficado em casa pouco mais de um mês desde que a guerra chegou ao fim. As folhas verdes, agora pontilhadas de amarelo e laranja do outono que avançava, bloqueavam o sol que já declinava.
Enquanto isso, Bruno descansava com um velho livro em mãos. Não era um tratado político nem um texto de filosofia. Nem um manuscrito do Ministério da Defesa, como costumava ter na coleção pessoal.
Não, era a obra-prima de Johann Wolfgang von Goethe, o auge da literatura alemã tradicional, uma edição original, bem preservada apesar do envelhecimento da impressão. Os dedos de Bruno percorriam as letras, enquanto silenciosamente lia seu conteúdo.
Só parou quando ouviu um anjo chamando por ele e fechou o livro para olhar.
"Nunca imaginei o dia em que o Leão do Tirol leria uma obra de ficção… Pensava que esse tipo de leitura fosse coisa de gente inferior ao poderoso Reichsmarshal. Aliás, noto que tem a curiosa tendência de passar o dedo pela página como uma criança."
Bruno sorriu com a lembrança enquanto olhava para a esposa, que o encarava com um sorriso divertido.
"Por muito tempo, foi… Obras de ficção têm pouco peso quando estamos cercados por um mundo de inimigos. Mas, devo confessar, às vezes ainda gosto de clássicos. Quanto a passar o dedo… Não pode um homem apreciar a sensação de tocar uma obra de arte que existiu muito antes do seu nascimento e que vai sobreviver muito além da sua morte?"
Heidi pegou o livro e leu claramente o título. Estava realmente curiosa pelo gosto literário do marido.
"Faisal… Sério? Sinceramente, Bruno. Sei que você não gosta de falar dessas outras memórias suas. Mas, depois de um século, você ainda acha que poderia estar lendo algo melhor do que esse velho livro empoeirado? Mesmo num mundo que você despreza, certamente nem sua cultura foi tão deteriorada a ponto de isso ser sua fonte de diversão?"
Bruno pegou o livro de volta, com facilidade, enquanto a puxava para deitar na rede ao lado dele. Só depois que ela colocou a cabeça firmemente contra o peito dele, é que respondeu.
"Você poderia pensar assim, mas, infelizmente, tínhamos poucas grandes obras para realmente celebrar. Apenas alguns poucos autores do meu velho mundo que ainda tinham compreensão de sacrifício, consequência e mito. Homens que viveram as guerras, e não apenas comentaram sobre elas. Como Tolkien, Heinlein, Herbert, e, em menor escala, Howard…."
Heidi olhou nos olhos de Bruno, e, pela primeira vez quando ele falou do passado, não havia desprezo ou vigilância, mas pena. E uma pena distante.
"São esses, apenas quatro autores cujas obras podem se comparar ao que lemos na nossa infância?"
Bruno coçou a cabeça enquanto pensava na questão com mais cuidado, suspirando ao fazê-lo.
"Quer dizer, havia alguns outros nomes relacionados ao jeito que o mundo estava se tornando, mas eles não criaram nada grandioso; apenas negaram o que já acontecia. A literatura morreu com os homens que lutaram na guerra. E o que veio depois foram histórias superficiais voltadas para o consumo em massa e a afirmação moral de gerações que nunca conheceram verdadeiramente as dificuldades."
Heidi permaneceu em silêncio por um longo tempo. Passando delicadamente os dedos pelo peito de Bruno, como se estivesse refletindo profundamente.
Finalmente, ela surpreendeu Bruno ao decidir o que queria dizer.
"Fico feliz… Você não fala mais daquele mundo como se ele assombrasse todos os seus pensamentos. Esperei sessenta anos da minha vida, e finalmente vejo você, o homem que sempre soube que existia lá dentro. Finalmente posso ver você aproveitar o tempo que temos juntos, sem que algum espectro constante ameace perturbarmos nossa paz…"
Bruno não soube ao certo como reagir a essa frase. Apenas riu alto, diante da absurda sinceridade. Heidi riu com ele, ambos compartilhando um momento livre de qualquer presságio de futuro sombrio que pudesse vir a acontecer.
No fim, Bruno só pôde suspirar e balançar a cabeça.
"Então, valeu a pena um sacrifício tão monumental? Estar ao meu lado… Carregar meus fardos, ver de longe enquanto eu encaro os destinos e as marés da história enquanto ativamente conspiram contra mim?"
Heidi, de algum modo, tinha esperado que Bruno insinuasse uma questão séria no meio da diversão. Mas ela não ficou brava com ele, não como faria no passado, quando ele sabotava qualquer momento que ficava confortável demais entre eles.
Pelo contrário, ela se acomodou mais em cima dele e o beijou nos lábios, sussurrando suavemente no seu ouvido.
"De jeito nenhum… Mas mesmo assim, não trocaria por nada. Uma carga que se divide é mais fácil de suportar, não é? E tudo deu certo, mesmo assim. Você fez eu esperar sessenta anos para você voltar pra mim, e só quero que saiba que estou feliz por você ter finalmente cumprido sua promessa."
Bruno retribuiu o beijo, e ambos compartilharam um momento de paz sob o pôr do sol.