
Capítulo 852
Re: Blood and Iron
Erich bebia a cerveja que sua esposa tinha lhe dado enquanto se sentava diante da lareira. Sua mulher, Erika, aninhada ao seu lado, tocava a lista de medalhas penduradas em seu uniforme.
Durante toda a guerra, ele recebeu quase todas as honras por bravura e coragem no campo de batalha que um soldado e oficial júnior poderia conquistar.
E ele as ganhou não por causa de sua origem, mas por sangue e ferro. Erika, porém, não admirava as medalhas apenas por serem provas do heroísmo do marido diante da morte.
Ela compreendia muito bem o peso do que elas simbolizavam. Os dois conversaram por horas sobre vidas separados durante o conflito.
E Erika conhecia seu marido bem o bastante para entender que, após poucos minutos, ele tentava evitar pensar em algo. Algo importante…
Até que ela forçou a mão dele ao pegar outra garrafa de cerveja na cozinha.
"Então… quando é que vamos conversar sobre o que te incomoda?"
Erich quase se engasgou com a cerveja. Olhando para sua esposa, ele ia protestar contra a ideia de que algo pudesse estar atrapalhando aquele momento feliz, até que viu a expressão de smugness no belo rosto dela.
Ele simplesmente bufou e deu mais um gole, aquele que desceu muito mais suave.
"Não é nada… Conheço suas preocupações, mas não é isso. É que… quando me despedi dos soldados da minha brigada, todos falaram sobre uma vida além da guerra… além do serviço. E isso me fez questionar como seria minha vida se nunca tivesse pegado na espada. Se nunca tivesse seguido os passos dele."
Erich não precisou dizer mais nada. Apesar das dúvidas dela com relação à carreira do marido como oficial, Erika nunca tentou dissuadi-lo de sua escolha.
Porém, aqui e agora, na encruzilhada, ela decidiu falar sua opinião. Ou, mais especificamente, ajudar o marido a escolher um caminho a seguir nesta vida.
"Ninguém te acusaria, muito menos te condenaria, se decidisse se aposentar. Especialmente depois do que você passou. Você pode ser neto do Reichsmarschall, mas ninguém espera que siga os passos dele para sempre."
Erich simplesmente revirou os olhos. Sabia, pelas medalhas no peito, que não havia um único homem neste mundo que ousasse chamar sua covardia por decidir se aposentar após a guerra.
"Tenho medo de que esse não seja o meu problema, querida… Meu pai é o primeiro filho da linha von Zehntner desde a sua fundação, há mais de cem anos, que não serve no exército. Meu avô quebrou a tradição ao permitir que meu pai abandonasse a academia militar e seguisse uma vida completamente civil."
Erika sabia exatamente para onde a conversa estava indo e rapidamente tirou a cerveja das mãos do marido, deu uma golada, limpou a espuma da boca e devolveu a bebida para ele.
Erich não reagiu, não por achar absurdo, mas porque decidiu continuar seu pensamento, sabendo que aquilo provocaria a ação da esposa em primeiro lugar.
"Decidi reescrever essa tradição. Não era obrigatório. E ainda assim, escolhi entrar na linha de dever… A questão agora é se meu dever já foi cumprido?"
Dever, fidelidade, fortaleza, disciplina e uma vontade inflexível. Essas eram as virtudes que definem a Casa von Zehntner e seus nobres filhos.
E por mais admiráveis que fossem essas qualidades, Erika já tinha chegado ao limite de ouvir homens e seus deveres com ideais abstratos. E foi rápida em lembrar ao Erich qual era a primeira dessas obrigações que ele tanto mencionava.
"E quanto ao seu dever com a sua família? Você foi abençoado por voltar de duas guerras com apenas ferimentos leves. Meu pai sobreviveu a três guerras e morreu no final da quarta. Ele cumpriu seu destino ao servir à pátria, e ao fazer isso, abandonou minha mãe… e a mim... E se você não voltar na próxima vez?"
Erich, claro, já conhecia os pensamentos, preocupações e pesadelos da esposa. Como não conhecer? Ambos tinham o mesmo nome do pai dela, que nunca voltou da guerra. E morreu cumprindo seus deveres.
Ele rapidamente a puxou pela mão e a puxou para perto, enquanto a cerveja molhava seu rosto, antes que ela percebesse.
"Erika, por que faria isso? Você sabe que é leve… Está tão preocupada que eu não voltarei para você se continuar na carreira militar? Pois deixe-me aliviar esse medo. Se eu ficar na ativa, tenho garantido o posto de Generalmajor em até um ano, no máximo."
Erika olhou nos olhos de Erich, vendo sinceridade e preocupação ali. Sentiu-se envergonhada por fazer ele se preocupar tanto por ela, ainda mais logo após voltar da guerra.
Ela tentou esconder o rosto dele, mas Erich não deixou. Segurou delicadamente seu queixo, obrigando-a a olhar nos seus olhos azul celeste.
"Depois que as comemorações acabarem, muitos oficiais-generais estarão se aposentando. Metade do exército vai se retirar. Com meu histórico na guerra e como voluntário na Guerra Civil Espanhola antes, tenho certeza de que poderei substituir um Generalmajor que já está na retirada. Em tempos de paz, o Exército vai passar por reduzimentos e reestruturações, e, quando eu for oficial-general, nunca mais precisarei pisar em uma batalha."
Isso não trouxe alívio imediato para Erika, que começou a ficar cabisbaixa, tomando outro gole na bebida do marido.
"Quer que eu acredite nisso, quando seu avô ficou no campo de batalha até alcançar o posto de Marechal e foi forçado pelo Kaiser a se distanciar da guerra?"
Erich entendeu o que a esposa estava dizendo. Ficou calado, desviou o olhar, o que só deixou Erika mais angustiada, que pegou a garrafa novamente.
Porém, desta vez, Erich a impediu, colocando a cerveja na mesa, segurando suas mãos e fazendo um voto solene.
"Eu não sou meu avô… Não sou Bruno… Ele gostava de guerra… Eu odeio isso…."
Erika ficou surpresa ao ouvir isso. Ele sempre idolatrara o avô, tentava copiar o homem em tudo.
Mesmo após ser ferido em ação enquanto voluntariava na Guerra Civil Espanhola alguns anos antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Erich sempre tentou ser o monolito de homem que seu avô sempre foi.
Mas agora… Agora ele expressava o contrário; dizia que odiava guerra… E isso levantava uma única questão.
"Então por que continuar lutando?"
As palavras escaparam dos lábios de Erika antes mesmo de ela perceber o que tinha dito. Instintivamente, colocou a mão nos lábios, como se quisesse silenciar-se para não falar mais bobagens.
Porém, Erich parecia ter pensado até sua conclusão amarga e lógica.
"Porque alguém precisa lutar pela paz… se ela existir neste mundo. Alguém tem que guardar o reino; meu avô finalmente decidiu abaixar a espada. Heinrich vai se juntar a ele, levando a espada quando o portador dela não estiver mais aqui e nossos inimigos estiverem às portas? Dietrich? Rommel? Goering? Ou eu?"
De repente, Erika percebeu que seus piores temores não a atormentavam mais. Erich não virou um homem como seu avô, nem voltou para casa um monstro como seu pai anos antes dela nascer.
Ao contrário, escolheu um caminho semelhante, porém diferente. Um que seguia na mesma direção que Bruno durante toda a vida, mas com uma jornada muito menos árdua ao longo do caminho.
Erika se inclinou para ele, abraçou-o, beijando seus lábios suavemente, enquanto sussurrava no ouvido dele.
"Parece que você já escolheu seu caminho… Então, o que mais há para pensar, seu idiota?"
Erich não respondeu de imediato, não por duvidar da sua escolha, mas porque finalmente entendeu o custo dela.
No fim, só pôde rir, apoiando a cabeça da esposa no ombro, com um sorriso agridoce nos lábios de ambos.
Os fantasmas do passado, que assombraram corações por tanto tempo, de repente foram exorcizados.
Erich buscaria suceder seu avô como a espada que protege o Reich de seus inimigos. Enquanto rejeitava a preocupação incessante do homem sobre quando e onde esses inimigos atacariam.
E, ao invés disso, aproveitaria o momento, preparado e esperando por aqueles que desafiassem a autoridade da pátria e de seu Kaiser.