Re: Blood and Iron

Capítulo 807

Re: Blood and Iron

O sol mal tinha aparecido acima do horizonte quando a última resistência organizada em Guam terminou.

Não terminou com uma defesa final, nem com uma carga dramática, nem com qualquer ato que mais tarde fosse elevado à condição de lenda.

Terminou do jeito que a maioria das guerras acaba uma vez que a superioridade é estabelecida: silenciosamente, de forma desigual, e sem cerimônia.

Um rádio crepitou, um pelotão se rendeu, uma bateria ficou em silêncio. Em algum interior, um oficial amedrontado queimou documentos em um tambor de aço e fugiu para a selva, esperando que o anonimato pudesse dar conta do recado onde as armas falharam.

Seis horas.

Foi tudo o que levou desde os primeiros desembarques até o controle efetivo da ilha.

Generaloberst Josef "Sepp" Dietrich estava na varanda do antigo quartel-general naval americano, mãos dadas atrás das costas, olhos fixos no porto abaixo.

Fumaça há muito tempo engolida pelo mar, junto com as carcaças de navios que nunca saíram de suas amarras.

Na Alemanha, era véspera de Natal, e ele estava ali, nesta ilha longe de casa, ajudando na limpeza de uma operação que durou menos de meio dia.

Semanas depois, pouco mais tinha para fazer, senão ficar sob o pôr do sol e desejar estar em casa.

Dietrich não se entregava à sentimentalidade. Haviam aprendido há muito tempo que nostalgia era um luxo concedido aos homens que não comandavam.

No entanto, o sentimento permanecia lá no fundo, na lembrança de que, enquanto famílias se reuniam em lares aquecidos na Alemanha, ele estava numa margem conquistada, na beira do mundo.

Sabia que Bruno estaria na Tirol. Conseguia imaginar com facilidade: o velho sentado confortavelmente, com um copo na mão, cercado por filhos e netos que haviam crescido sob a paz que suas vitórias haviam comprado.

Dietrich não ressentia isso. Aceitava.

Bruno havia servido como comandante de campo bem além da época em que era seguro fazer isso. E muito acima da patente que deveria ter cessado.

Era uma lenda viva. Um homem que liderou homens na batalha durante a Grande Guerra. E Dietrich sabia que Bruno ainda estaria por aí hoje, se não fosse pelo Kaiser exigir que ele se sentasse atrás de uma mesa e comandasse a guerra de longe.

Este não era mais uma época em que cavaleiros e reis cavalgavam para a batalha. Desafiando perigos e buscando glória ao mesmo tempo.

Não, agora era uma era em que uma obus perdida ou uma emboscada bem planejada podiam acabar com um monarca ou um general antes que eles sequer percebessem o que tinha acontecido. Assim como aconteceu com Patton em Argel.

Ninguém pediria a Bruno que arriscasse a vida no campo. Nem hoje. Mesmo para homens como Dietrich, a vida de Bruno valia demais para se imaginar algo assim.

No entanto, ele não podia deixar de sentir que tinha perdido algo por não ter servido sob o comando de Bruno mais cedo na vida, testemunhado suas histórias. Para ver a verdade delas e talvez entender o que foi real e o que foi exagero ao longo dos anos; e o que de fato aconteceu.

Ao seu fundo, o som de botas reverberava contra o piso polido.

"Generaloberst", disse um jovem oficial, atento à atenção. "Seu ajudante, como ordenado."

Dietrich virou lentamente. O oficial era jovem, mas não inexperiente, por volta dos vinte e poucos anos, com a postura de alguém que já sabe quando falar e quando esperar. Sua farda carregava a poeira do trabalho matinal, não as do desfile.

"Fique à vontade", disse Dietrich. "Venha comigo."

Eles caminharam pela varanda, passando por janelas depredadas, apressadamente tapadas, em direção à borda sombreada que dava vista para o porto interno.

"Quanto tempo faz desde o último combate?" perguntou Dietrich.

"Quase uma semana, senhor. Um destacamento de companhia tentou recuar em direção às colinas do sul. Foram interceptados e desarmados. Nenhum tiro foi disparado."

Dietrich assentiu com a cabeça.

"E baixas?"

"Mínimas do nosso lado. Principalmente das operações iniciais de desembarque e de alguns contra-ataques mal coordenados. Perdas do inimigo… leves, considerando. A maioria se rendeu assim que as comunicações foram derrubadas."

"Muito bem", disse Dietrich. "Então, conseguimos o que viemos fazer."

O ajudante hesitou, depois aventurou-se: "Senhor… a velocidade da operação, seis horas, será registrada. Tudo o que temos feito desde então não chega a esse padrão."

Dietrich permitiu-se um sorriso estreito, sem humor.

"Sim. Será mal interpretado."

Pararam na grade de proteção. Abaixo deles, engenheiros alemães já trabalhavam. Guindastes se posicionavam no local.

Amarras estavam sendo limpas, reparadas, reforçadas. Cozinhas de campanha exalavam vapor. Estações médicas estavam sendo estabelecidas à sombra. A ilha não estava sendo ocupada; estava sendo assimilada.

"Nunca se tratou de heroísmo", continuou Dietrich. "Os americanos achavam que distância era defesa. Achavam que o Pacífico era um fosso."

Ele indicou o mar aberto.

"Esqueceram que fosso só funciona se você vigiar as muralhas."

O ajudante assentiu, anotando coisas que provavelmente nunca precisariam ler novamente.

"As ordens já foram enviadas", disse o ajudante. "Aeroportos garantidos. Posicionamentos antiaéreos realocados. Recursos navais a caminho."

"Ótimo. Guam não é um troféu. É uma dobradiça."

Dietrich inclinou-se um pouco, apoiando as mãos na grade.

"Seis horas para tomar a ilha", disse baixinho. "Semanas para torná-la inatacável. Anos para torná-la irrelevante para qualquer contestação."

O ajudante fez uma expressão de dúvida. "Irrelevante, senhor?"

Dietrich virou a cabeça na direção do jovem, só o suficiente para olhar nos olhos dele.

"Uma vez fortificada, Guam deixa de ser alvo. Torna-se uma realidade. Uma lembrança permanente de que o Pacífico não é mais um espaço sem contestação."

Continuaram andando.

"Alguns em Berlim", disse Dietrich, "perguntarão por que paramos aqui."

O ajudante olhou para cima. "Parar, senhor?"

"Havaí", disse Dietrich, de forma direta.

A palavra ficou no ar entre eles.

"Estamos mais próximos do que qualquer potência hostil esteve há gerações. Um posto avançado. Uma pedra no caminho. A tentação será forte."

Ele fez uma pausa na entrada de uma porta que levava de volta ao centro de comando.

"Mas não avançaremos."

O ajudante hesitou. "Posso perguntar por quê, senhor?"

Dietrich o observou por um longo momento, avaliando não a patente, mas o feitio.

"Porque movimento nem sempre é progresso", disse. "E porque uma guerra não se vence fazendo tudo o que se pode, mas fazendo apenas o necessário."

Entraram na sala de comando. Mapas cobriam as paredes: Guam, as Marianas, o Pacífico central. Marcadores vermelhos e azuis já tinham sido substituídos por sobreposições limpas, zonas de controle atualizadas, círculos de ameaça recalculados.

"Havaí continuará sendo americano", prosseguiu Dietrich, com a voz firme. "Por enquanto. Enquanto servir melhor como uma ameaça do que como uma conquista. Enquanto os Estados Unidos persistirem… talvez."

O ajudante franziu a testa. "Uma ameaça, senhor?"

Dietrich tocou o mapa, bem a oeste da cadeia de Havaí.

"De Guam, podemos projetar presença. De Guam, podemos lembrá-los, todo santo dia, que distância não é mais segurança."

Ele se endireitou.

"Uma invasão força unidade. Uma ameaça constante gera dúvida."

O ajudante calou-se, absorvendo as palavras.

"A América já está fragmentada", continuou Dietrich. "Internamente, politicamente e culturalmente. O Comando do Pacífico existe para se defender de algo que não acontece há décadas. Agora, eles precisam olhar para o oeste e perguntar se isso acontecerá."

Ele sorriu levemente, com um sorriso fino.

"Essa incerteza vale mais do que qualquer ilha."

Um mensageiro entrou, cumprimentou-se com a mão e entregou um relatório a Dietrich. Ele o leu rapidamente.

"Operações de limpeza adiantadas", disse Dietrich. "Infraestrutura civil intacta. Sabotagem mínima."

"Senhor", disse cuidadosamente o ajudante, "alguns oficiais expressaram… surpresa com a contenção."

Dietrich dobrou o relatório e devolveu.

"Contenção não é misericórdia", disse. "É eficiência."

Virou-se de volta para a varanda.

"Ao mostrar contenção na nossa invasão aqui, evitamos uma escalada por parte dos locais para algo muito mais perigoso e de longo prazo", continuou. "Evitar outra Filipinas…"

"E permaneceremos", disse o ajudante.

"Sim", respondeu Dietrich. "Permaneceremos. Permaneceremos em Guam pelo tempo que o Reich precisar de nós. Pode ser um ano, pode ser dez, pode até um século."

Do lado de fora, a bandeira do Reich já estava hasteada sobre o porto: sem cerimônia, sem hino, apenas a estelada de aço do Paihrama ondulando graciosamente, triunfante ao vento.

"Generaloberst", disse o ajudante após um momento. "Se me permite… o que vem a seguir?"

Dietrich observou a bandeira se acomodar na brisa.

"Agora?" ele respondeu. "Agora vamos tornar este lugar entediante."

O ajudante piscou, surpreso.

"Entediante?"

"Previsível", esclareceu Dietrich. "Seguro. Sem novidades. Um lugar onde nada acontece porque nada pode acontecer."

Ele se virou, afastando-se da janela.

"A história lembra das batalhas", disse. "Mas os impérios são construídos nas semanas seguintes."

Eles voltaram ao centro de planejamento, onde oficiais já coordenavam cronogramas, rotações, cadeias de suprimentos.

Conforme a noite caía sobre o porto, luzes acendiam-se nos cais. O trabalho continuava sem pressa. Navios eram descarregados. Patrulhas rotacionavam. Relatórios eram enviados e assinados.

Guam já não parecia mais um campo de batalha. Sentia-se como uma responsabilidade.

E isso agradava a Dietrich.

"Seis horas para tomar Guam", disse finalmente, quase para si mesmo. "E o Pacífico nunca se sentiu tão pequeno em um século."

Colocou a mão plana sobre o mapa.

"Que olhem para o oeste", afirmou. "Que imaginem."

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