
Capítulo 842
Re: Blood and Iron
William Lyon Mackenzie King estava em seu escritório na capital do Canadá. Suas mãos tremiam enquanto servia uma dose forte de bebida para aliviar seu medo.
Os Estados Unidos estavam praticamente em estado de caos. Poucos, se é que restava algum, de suas supostas repúblicas se atreviam a se autodenominar sucessoras do regime fracassado de Roosevelt.
E embora tivesse recebido algumas palavras de «garantia» de Delaware, onde Roosevelt havia transferido seu governo, a realidade era que o que restava dos Estados Unidos propriamente ditos agora existia apenas como um Estado residual no Nordeste.
Aliás, o último relatório recebido diretamente de Roosevelt já tinha passado de um mês. King só podia acreditar que Roosevelt estivesse morto, morrendo ou incapacitado de alguma forma. E seu Estado residual não viveria tempo suficiente para cumprir as promessas de restabelecer a autoridade federal sobre a nação.
Vamos lá, ainda pior: agora o Canadá tinha que se preocupar com os russos na sua fronteira. Após invadir e anexar o Alasca sem ninguém perceber, o «referendo» realizado pelo território americano não passou de uma formalidade para obter alguma legitimidade internacional para seu ato.
O Canadá se encontrava numa posição única. Entraram na guerra porque Roosevelt garantira que sairiam vitoriosos, e agora os Estados Unidos — maior apoiador dos Aliados — tinham simplesmente implodido.
Os países da América Latina acabaram de anunciar sua rendição incondicional ao Império Alemão e às Potências Centrais.
O único capaz de resistir de verdade eram o Dominío do Canadá, que abrigava os governos exilados da Grã-Bretanha e França, além da Austrália e Nova Zelândia.
E, para ser sincero, as chances de defender seus próprios países — muito menos vencer a guerra —, em seu estado atual, eram praticamente nulas.
Mesmo assim, ele não podia simplesmente abandonar seus aliados restantes. Embora soubesse que o Canadá nunca deveria ter se envolvido nesta guerra, tinha uma responsabilidade com Austrália e Nova Zelândia.
Assim, após acalmar seus dedos, discou o número do primeiro-ministro australiano. John Curtin atendeu quase que instantaneamente, e, ao fazer isso, sua voz soava bem longe de animada.
"Ora, veja só, que confusão enorme, hein? Esses cabras em Berlim realmente botaram nossas bolas numa pinça, não acha?"
Ignorando a clara diferença de sotaques e maneiras, King se recompôs antes de expressar sua opinião sobre o assunto.
"Não poderia ter dito melhor… Os únicos que ainda temos são nossos países, além dos seus vizinhos na Nova Zelândia. E, temo, que nós sozinhos não temos força suficiente para continuar nessa luta."
John Curtin falou de novo, sua língua grosseira fazendo King estremecer.
"Acho que você tem razão. Nem tanques nem aviões suficientes pra proteger nossas costas, e você já viu o que os Kiwis estão usando? Aquilo é um trator com chapa de ferro zincado, meu amigo, não é um tanque de verdade."
King só conseguiu esfregar a ponte do nariz ao ouvir aquilo. Sim, ele conhecia bem o famigerado «tanque Bob Semple».
Nova Zelândia tinha… talvez por medo ou desespero, adotado aquele veículo como seu principal blindado.
Mas King sabia que era uma ilusão. Tendo observado a Primeira Guerra de longe, viu as primeiras tentativas da Grã-Bretanha de equiparar os Panzer I alemães, e eram consideravelmente simples comparadas ao que a Nova Zelândia tinha agora em campo.
Em 1915, os «tanques» britânicos foram destruídos pelos alemães. E os Panzers atuais eram apenas versões maiores, melhor blindadas e com canhões maiores do que os originais British Mk I de então.
Mesmo assim… King entendia a necessidade de produzir algo — qualquer coisa — para acalmar o medo da população.
Com os russos na fronteira noroeste, alegando, oficialmente, que estavam reunindo tropas para grandes obras de infraestrutura, os canadenses exigiam respostas de como King e seu governo planejavam agir.
Enquanto pensava sobre a situação, John seguia a falar sobre como os neozelandeses eram inúteis e incapazes, quase como se tentasse se convencer de sua própria impotência em defender a Austrália.
No final, King finalmente cedeu, pronunciando as palavras que ambos vinham evitando a algum tempo.
"Acho que não temos escolha senão seguir os países latino-americanos e negociar uma rendição. Se isso continuar… os russos vão avançar pelos Territórios do Noroeste como uma horda mongol, e Ottawa cairá em semanas, não em anos."
John não disse nada por um momento… Ele finalmente cessou sua conversa, absorvendo o verdadeiro peso do que King tinha acabado de lhe falar. Quando resolveu responder, a sua voz quase carregava um toque de alívio.
"Muito bem, vou passar seu recado aos neozelandeses. Sinceramente, nunca devíamos ter nos envolvido nessa porra de guerra desde o começo. Roosevelt, porra…."
A linha ficou muda, e King não pôde deixar de servir-se de mais uma dose de bebida, consumindo toda a garrafa de um só gole antes de pegar o telefone novamente. Desta vez, discou um número bem diferente.
Seu dedo indicador hesitou na discagem ao chegar ao último dígito, como se seu corpo estivesse lutando contra sua mente na decisão do que fazer.
Suou começou a se acumular na testa, enquanto sua visão focava tanto no número que parecia não existir mais nada além dele e do último dígito. Então, virou a rosca em seu devido lugar.
Não por pensamento racional, mas por alguma força sobrenatural que o obrigou a agir sem seu controle.
Depois de conectar-se com um operador para o lado alemão, a linha tocou uma vez, depois duas, depois três.
E, na quarta tentativa, uma voz veio do outro lado. Era suave, cristalina e fria. Mas, mais importante, as palavras em inglês soavam tão perfeitas que King quase não percebeu com quem estava falando.
"Estava me perguntando quanto tempo levaria para você reunir coragem para me ligar. Devo dizer que acho estranho ter sido meu número que você escolheu, ao invés do do Kaiser. Afinal, é um pedido de rendição, não é?"
Levar algum tempo até que King percebesse que quem falava era Bruno. Ele nunca tinha encontrado Bruno pessoalmente. Em anos passados, ouvira discursos gravados de Bruno dirigidos ao mundo e ao público alemão.
Porém, esses discursos sempre tinham sido em alemão. Ouvir o homem falar inglês perfeito, no inglês do rei, era algo inquietante…
"Nunca imaginei que você falasse inglês."
A resposta de Bruno surpreendeu King, pois não veio como ele esperava. Bruno gargalhou, não de forma ameaçadora ou sádica, mas de modo genuinamente divertido, quase amistoso.
"Desde antes de você nascer, falo com a pronúncia padrão do Reino Unido, William. Você não vai acreditar no número de idiomas que domino, nem nos sotaques que aperfeiçoei. É uma característica que também passei para meus filhos. Meus filhos — meninos e meninas — conseguem se integrar perfeitamente, seja nos tribunais de Windsor, Versalhes, na Hofburg ou no antigo Palácio."
King refletiu sobre as palavras de Bruno e se surpreendeu. Não apenas sua família era escolarizada em três idiomas, mas todos podiam falar com uma prose refinada, adequada a diferentes dialetos e ambientes de corte.
Porém, havia uma coisa que chamou a atenção de King, e ele não sabia se era mera hipérbole ou se Bruno errou em algo. De qualquer modo, sentiu necessidade de colocar aquilo em palavras.
"Desculpe, você disse que falava o inglês do rei desde antes de eu nascer. Mas, se minha memória não me trai, tenho cinco anos a mais que você…"
Bruno não hesitou em responder e, ao fazê-lo, suas palavras só aumentaram a confusão de King.
"Se você contar só esta vida, aí sim, você está certo."
King ficou quieto, encarando seu telefone como se tivesse acabado de ouvir algo revelador ou completamente enlouquecedor. Queria insistir com Bruno sobre o que ele acabara de dizer, mas foi interrompido antes.
"Agora, é isso mesmo que você queria conversar? Não ia se render formalmente? Estou esperando suas condições."
King, enfim, lembrou do motivo da ligação ao ouvir a perfeição na fala de Bruno, quase esquecendo sua intenção inicial. Tossiu rapidamente, forçando-se a encontrar coragem para dizer o que já havia decidido há tempos.
"Eu, William Lyon Mackenzie King, décimo primeiro primeiro-ministro do Canadá, venho solicitar um armistício para que possamos nos reunir e discutir o fim formal deste conflito."
King não declarou oficialmente a rendeção do Canadá, mas também não precisava. E Bruno respondeu prontamente.
"Muito bem… Como seus aliados na Austrália e Nova Zelândia vão participar desta reunião, vou facilitar as coisas para ambos. Nos encontraremos em Hanseong para tratar dessas questões com mais detalhes. Meu assistente enviará o horário e a dia. Certifique-se de transmitir minha mensagem aos seus aliados."
Depois, Bruno desligou, deixando King desabar na cadeira, suando copiosamente e ofegando por ar. Como se tivesse acabado de correr uma milha, mesmo sentado o tempo todo.