
Capítulo 843
Re: Blood and Iron
Heidi estava sentada em um sofá de couro, enlevada a Bruno, com a mão entre as dele e a cabeça repousando no seu ombro.
Os dois estavam diante de uma lareira em um canto isolado do palácio. Ficaram em silêncio por um longo tempo entre eles.
Nenhum deles sabia exatamente o que dizer, e ainda assim, ambos tinham consciência de que não precisavam dizer uma palavra sequer.
Porque, no fim das contas, tinham passado toda a vida juntos, e, após tantos anos de convivência, a comunicação entre eles passava a existir na certeza, mesmo sem o uso das palavras.
Por fim, Bruno soltou um suspiro enquanto girava o vinho no copo antes de prová-lo.
"A guerra está quase no fim... Os países da América Latina já se renderam, como certamente você já sabe. E o que sobrou dos aliados já começou a correr para se juntar a eles. O único objetivo estratégico restante é garantir que a Nova Guerra Civil Americana seja contida dentro de suas próprias fronteiras e que queime até o fundo qualquer traço de uma nação americana unificada com sua fúria."
Bruno sabia quais palavras vinham da esposa sem ela precisar expressá-las em voz alta. E, mesmo assim, ela sentia a necessidade de fazê-lo.
"E então, depois que os Estados Unidos garantirem sua própria destruição, podemos finalmente ter paz?"
Bruno pensou na questão com calma, sua mente quase ausente... não, isso não era exatamente correto. Presente... mas em um plano totalmente diferente de existência.
Depois de refletir por um tempo, só conseguiu responder de forma vaga e sem certeza.
"Essa, sem dúvidas, é a grande questão filosófica de nossas vidas, não é mesmo?"
Heidi só conseguiu franzir a testa ao olhar fixamente em seus olhos; não havia julgamento neles. Mas seus olhos mandaram Bruno rir de seus próprios comentários, mesmo assim.
"Certo, desculpe. Acho que estou pensando demais, só isso. Sim, vou me aposentar do cargo de Reichsmarschall assim que as últimas brasas da América forem por completo apagadas."
O olhar de Heidi suavizou ao ouvir Bruno reafirmar a promessa que uma vez fez a ela. Ela puxou a coberta um pouco mais para cima, para que ambos ficassem bem confortáveis sob seu calor.
Então ela começou a adormecer em seu ombro.
"Vou cobrar isso de você..."
Bruno não dormiu; permaneceu olhando para o fogo em silêncio por um longo tempo.
Cada explosão, cada estampido de morteiro, cada eco de tiros e sofrimento humano que presenciara se repetia em sua mente como um filme de suas maiores e mais brutais realizações, não como o homem responsável por tais feitos, mas como um espectador.
Desde o dia em que foi recomposto neste mundo, passou cada momento de vigília que pôde, preparando-se para a guerra ou travando uma.
Viu de perto, como participante ativo, como a era dos cavaleiros e da cavalaria finalmente chegou ao fim; sua forma final não entrou silenciosamente na noite.
Ao contrário, foi brutal e rapidamente eliminada numa carnificina industrial que ceifou milhões de homens na morte.
Viveu, suportou e sobreviveu a uma vida de guerra. E logo, essa vida chegaria ao fim.
E isso deixou uma questão ardente gravada na sua mente. Dormindo, mas sempre presente.
Se ele pensasse nela, realmente pensasse, começaria a sentir seu esqueleto arrepiar de medo.
Não eram memórias do que fez, do que ordenou que outros fizessem sob seu comando que o assombravam.
O que realmente fazia um homem como Bruno sentir medo era uma pergunta simples. O que é a vida para um homem que não fez nada além de empunhar a espada e a baioneta durante toda a sua existência?
Existe uma vida além disso que ele seria capaz de viver? A paz realmente existe, ou seria apenas uma pausa entre os tiros de metralhadora?
Ele já não sabia as respostas dessas perguntas. Na verdade, nem tinha certeza se alguma vez as teve.
Tudo o que sabia é que sua história estaria se aproximando rapidamente do fim. Como soldado, como oficial, como Reichsmarschall…
Mas ainda havia muitos anos pela frente para escrever uma nova história, como Chanceler. Não tinha dúvida de que, ao decidir se aposentar, o Kaiser dispensaria Kurt von Schleicher. E o nomearia para o cargo no lugar.
No entanto, Bruno não sabia o que o resto de sua vida nesse cargo traria. Na verdade, se fosse honesto consigo mesmo, tinha medo disso.
Desde que se conhecia por gente, havia sempre alguma batalha a ser travada, ou outra para se preparar.
Mas agora, sua última campanha estava chegando ao fim. E o que o assustava não era a ideia de guerras ainda por vencer, mas a paz que surgia quando o tiroteio silenciava, e o conhecimento de que ele não estava mais se preparando para os estrondos que virariam sua rotina.
Como ele viveria consigo mesmo então? Como viveria com tudo que fez, quando não restasse mais um inimigo a combater e desmontar? Quando tudo que sobrasse fosse um mundo para construir, e não destruir?
Esses eram os últimos pensamentos em sua mente enquanto se deixava levar pelo sono, deitado ao lado de sua esposa, que esteve ao seu lado na alegria e na tristeza, em tudo até aqui.
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Bruno sonhava, embora o sonho fosse fragmentado e difuso. Não era uma única lembrança, nem uma sequência coerente de acontecimentos, mas sim impressões que se sobrepunham como fumaça.
Um campo de desfile se misturava a uma trincheira lamacenta. O barulho de botas no chão se dissolvia na batida rítmica de motores e artilharia.
Rostos passavam por ele sem nomes, alguns familiares, outros há muito perdidos no tempo, homens que o seguiram, confiaram nele, e morreram ao seguir para a batalha.
Em outra vida, esses rostos eram mais nítidos, mais jovens, mais duros. E os inimigos eram mais fracos.
Naquela época, a morte era rápida, impessoal, distante. Um ataque de cima, uma incursão à noite. Violência atingida com uma superioridade tão avassaladora que mal parecia guerra.
Aqui, era diferente.
Aqui, os mortos vestiam uniformes. Escreviam cartas para casa. Marchavam sob bandeiras, acenavam para oficiais, cantavam canções sobre dever e pátria.
Eles morriam asfixiados por gás, gritando dentro de cascos ardentes, ou congelados na lama enquanto as explosões destruíam a terra ao redor. Nada era cirúrgico. Nada limpo.
Apenas escala.
Bruno mexeu-se um pouco, sua mão se apertando inconscientemente ao redor da mão de Heidi. Mesmo enquanto dormia, alguma parte dele parecia reconhecer sua presença, que ela sempre estivera ali.
Ela tentou se mexer em resposta, mas não acordou, apenas se aproximou mais dele, como se fosse instinto.
Por um breve momento, os sonhos aliviaram.
Ele viu Berlim ao invés disso.
Não a Berlim de desfiles e uniformes, de acenos e bandeiras, mas os vales silenciosos do interior, da juventude, bem fora das bordas da cidade.
O som do vento passando por pedra e madeira. Uma casa que exalava cheiro de fogo e pão. Um mundo pequeno o bastante para caber na cabeça, sem mapas ou números de vítimas.
Assustou-o o quão distante aquilo parecia.
Quando finalmente acordou, não foi ao som de alarmes, mensageiros ou o zumbido de máquinas, mas ao silêncio. Verdadeiro silêncio.
O fogo tinha arrefecido, reduzido a brasas que lançavam um brilho laranja opaco pela sala. O palácio dormia ao seu redor, vasto e imóvel, como um monumento já meio abandonado pelo tempo.
Bruno não se moveu inicialmente. Ficou ali, acordado, olhando para a escuridão.
Foi a primeira vez em décadas que nada exigia sua atenção imediata. Nenhuma frente para reforçar. Nenhuma decisão que pudesse determinar a vida de milhares até o amanhecer. Nenhum mapa por desenrolar, nenhum relatório para assinar.
A ausência de tudo aquilo parecia… errada.
Percebeu, então, que aquele era exatamente o momento pelo qual marchara toda sua vida. Não a vitória, nem a conquista. Mas depois. A parte que ninguém nunca te ensina a sobreviver. E, de alguma forma, tinha a sensação de que tinha chegado tarde demais.
Devagar, com cuidado, ajustou-se para não acordar Heidi, colocando sua cabeça de modo mais confortável contra seu peito e puxando a coberta ao redor dos ombros dela.
Ela murmurou algo indiscernível em sonho e se relaxou novamente. E naquele instante, ao contemplar o rosto tranquilo de sua esposa enquanto ela dormia, Bruno percebeu algo.
Algo tão precioso e óbvio que se achou um tolo por nunca ter visto antes. Durante todo esse tempo, ele temia a ideia de pendurar a espada e perder seu propósito. Sua razão de lutar.
No entanto, na verdade, ela estivera ao seu lado o tempo todo. O que lhe faltou por completo na primeira vida, ele construiu cedo nesta. Um lugar para pertencer, e um motivo para lutar por ele.