Re: Blood and Iron

Capítulo 805

Re: Blood and Iron

Elsa e Eva trocavam comentários entre as rodadas, ambas apostando de forma moderada, mas constante, em cada luta e em quem achavam que venceria.

Enquanto isso, Bruno observava sua família tão intensamente quanto o torneio em andamento.

Tanta gente reunida que, se não fosse pelo fato de todos estarem vestidos de maneira casual e confortável, poderia-se pensar que se tratava de um encontro dos reis e imperadores mais importantes da Europa.

Havia uma razão para Bruno celebrar o Natal na Véspera e não no dia de Natal. Suas filhas eram casadas com homens que, no papel, eram mais importantes do que ele.

Porém, Bruno não era um homem condescendente, e queria que toda a família, não só a maior parte, estivesse presente nas festas. Por isso, até mesmo seus familiares por afiliação, incluindo o Kaiser Wilhelm II, estavam presentes.

O envelhecido imperador permanecia de pé, firmemente, embora com uma bengala para se apoiar, observando a reunião de reis e nobreza elevada, todos vestidos como plebeus, aproveitando as festividades sem política entre eles. Ele sorriu.

Ele deu um tapinha no ombro de Bruno, que continuava assistindo às lutas, chamando a atenção do homem, e fez um gesto silencioso em direção à porta.

Bruno colocou sua xícara sobre o descansador na mesinha ao lado da cadeira e se levantou para atender ao chamado, seguindo o Kaiser até um lugar mais tranquilo e confortável.

"É um milagre, não é?" Wilhelm disse suavemente. "Em qualquer outro momento da história, esta sala estaria repleta de discussões e exibições de poder. E, no entanto, você fez o que Nicky, George e eu sempre sonhamos, sempre acreditamos ser possível, mas no final não conseguimos. Você usou os laços familiares como arma para unir a Europa sob uma bandeira..."

Bruno riu discretamente, lançando ao Kaiser um olhar sutil de compreensão.

"Você é uma raposa astuta, não é?" ele respondeu.

"Para falar a verdade, seu plano tinha mérito. Mas você não cultivou esses laços adequadamente, não só entre vocês, mas também entre seus filhos. E não considerou a necessidade de criar um inimigo externo que suas três nações precisariam enfrentar juntas."

Bruno olhou pela janela, fez uma pausa profunda e, então, continuou.

"Os Estados Unidos eram o inimigo perfeito para nos unir: distante, estranho e filosoficamente oposto a todos nós. Quando esta guerra terminar, o sangue que nossos reinos e impérios derramaram juntos criará um mito comum, uma moral que beira a religião. Uma que unirá nossas nações, espero, por muito tempo."

O Kaiser assentiu, compreendendo. Ele tinha mais ou menos entendido os planos de longo prazo de Bruno, mesmo que o homem raramente falasse abertamente sobre o que planejara para o período após a guerra.

Mesmo assim, olhou para Bruno com um leve hesitante, algo que Bruno percebeu imediatamente.

"Vai em frente", disse Bruno. "Pergunte."

Wilhelm suspirou e balançou a cabeça, olhando pela janela para as majestosas montanhas nevadas além do vitral.

"Não é nada," disse ele. "Às vezes me pergunto quanto tempo essa paz que você construiu vai durar. Você planeja se interiorizar depois que o mundo terminar, focando no nosso próprio desenvolvimento, enquanto o restante do mundo luta pelo que sobrou, não é? É por isso que você manda mais e mais foguetes ao espaço a cada ano? O que há lá em cima, Bruno, que vale tanto assim?"

Bruno não respondeu inicialmente, seja por efeito dramático ou por estar escolhendo suas palavras com cuidado.

No final, olhou na mesma direção que o Kaiser, não para os campos abaixo, mas para o céu acima e o que há além dele.

"Tudo de que precisamos..."

Wilhelm não respondeu de imediato.

Ele ficou ali mais tempo do que pretendia, a bengala descansando levemente na mão, os olhos fixos no céu noturno além do vidro.

Durante maior parte da vida, o poder tinha sido algo tangível. Limites em mapas, homens de fardas, frotas contadas em tonelagem e armas. Até impérios tinham suas fronteiras que se podiam tocar.

Mas o que Bruno descrevia não tinha fronteiras.

Um futuro em que a Alemanha não precisasse disputar colônias, não se exaurisse policiando o mundo, não sangrasse geração após geração na terra alheia.

Um futuro em que o domínio não fosse imposto por guerras intermináveis, mas por pré-empção, vendo ameaças antes mesmo de nascerem e as sufocando silenciosamente na fase embrionária.

Wilhelm sentiu uma sensação desconhecida despertar em seu peito.

Alívio… e uma sensação de irrelevância.

Não amargura. Não, ele viveu demais, viu sangue demais derramado em nome do orgulho para ressentir-se com isso.

Mas havia uma tristeza quieta ao perceber que o mundo que Bruno estava construindo não se pareceria nada com aquele que ele nasceu para habitar. Aquele em que viveu toda sua vida.

Era algo completamente diferente. Bruno não buscava dominar o mundo. Ele pretendia transcendê-lo.

Wilhelm exalou lentamente.

Talvez, pensou, seja essa a verdadeira vitória: quando alguém vive bastante para vê-la acontecer.

Não com bandeiras sobre capitais.

Mas com silêncio. Estabilidade. Distância.

E um futuro já não mais preso à Terra.

No entanto, uma parte persistente da alma antiga do Kaiser sentia que o que ouvira era pouco mais do que superstição.

Sua voz ficou mais fria, mais severa, quase como se estivesse exigindo uma confirmação antes que seu tempo finalmente chegasse para deixar este planeta e seu império para trás.

"E como você sabe, exatamente?"

Bruno virou-se imediatamente, com um sorriso muito mais gentil do que o de Wilhelm costumava exibir em seu rosto envelhecido. Começou a passar por ele, dando-lhe um leve tapinha no ombro enquanto seguia adiante.

"Porque meus satélites não existem apenas para monitorar a Terra," disse Bruno.

"Eles existem para penetrar profundamente no espaço, espiar um universo além da nossa compreensão limitada. Não entrarei em muitos detalhes, Sua Majestade. Mas fique tranquilo, confirmamos que há pelo menos duzentos bilhões de planetas — não milhões, bilhões — na nossa galáxia sozinhos, muitos deles exploráveis. E, antes que a morte me leve de vez, verei o dia em que o grande desvio da humanidade será resolvido de forma definitiva. Essa é minha promessa a você e às nossas famílias."

Ele fez uma pausa, olhando para trás com um sorriso suave.

"Agora, vamos retomar as festividades, não é mesmo? Não é todo dia que podemos celebrar uma paz assim em tempos de guerra."

O Kaiser permaneceu onde Bruno o deixara, observando primeiro o espaço que o homem ocupara, depois voltando seu olhar para o universo acima — não mais para o mundo abaixo, mas para o cosmos além.

Seus olhos não estavam cheios de descrença, mas de incerteza… e talvez de reverência.

"Cem bilhões…" murmurou. "Deus do céu…"

Quando Bruno e Wilhelm retornaram ao cinema doméstico, uma mesa de lanches já tinha sido montada, e Elsa e Eva haviam se tornado o centro das atenções, mais do que o próprio torneio.

As duas estavam no meio de uma briga de gatas sobre se Eva precisava pagar, já que sua lutadora favorita desistira da terceira rodada devido a uma lesão na segunda, mesmo tendo tecnicamente vencido a luta.

Wilhelm olhou para Bruno com um sorriso malicioso e zombeteiro. Bruno suspirou, anunciando sua presença e encerrando o debate.

"Já chega, vocês duas," disse. "Como a luta foi interrompida e o adversário dela deu bye, isso será considerado nulo. Qualquer aposta boba que vocês fizeram está anulada. Vocês sabem disso. Pelo amor de Deus, vocês duas estão na faixa dos quarenta. Preciso mesmo que o pai intervenha como criança birrenta?"

Eva ficou boquiaberta, silenciando-se de cara fechada. Elsa a olhava com olhos de pêssego, fazendo biquinho.

"Tenho trinta e oito anos!"

O grito quase infantil, vindo da czarina do Império Russo, fez rir toda a sala, inclusive Eva, que pouco antes brigava com a irmã.

No final, até Elsa não conseguiu segurar o riso, mesmo sendo o alvo da piada.

E assim, o torneio continuou, assim como as festividades natalinas.

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