Re: Blood and Iron

Capítulo 812

Re: Blood and Iron

A reunião aconteceu após a meia-noite.

Não em um palácio ou ministério, mas em uma residência privada com vista para as colinas ao redor de Santiago.

As luzes da cidade brilhavam lá embaixo como um campo de estrelas distantes, belas e indiferentes às decisões que eram ponderadas acima deles.

O ministro das Relações Exteriores, Alejandro Fuentes, estava perto da janela, com as mãos cruzadas atrás das costas, olhando para fora sem realmente ver.

Por trás dele, o ambiente permanecia silencioso, excessivamente silencioso.

Dois homens estavam sentados na longa mesa: um, um conselheiro militar sênior; o outro, um diplomata de carreira que tinha servido em três capitais e sobrevivido a quatro governos diferentes.

Ambos tinham prestado juramento de confidencialidade. Ambos compreendiam a gravidade do motivo de estarem ali.

O quarto homem não pronunciou uma palavra.

Ele não usava uniforme. Sem insígnias. O terno dele não chamava atenção, sua postura era precisa, sua presença claramente estrangeira.

Um representante do Reich alemão.

Claro que não oficialmente.

Fuentes virou-se por fim.

"Esta reunião não existe," disse calmamente. "Nunca aconteceu."

O alemão inclinou a cabeça levemente.

"Claro."

Fuentes fez um gesto em direção à mesa e assumiu seu assento.

"Você pediu esta conversa," continuou Fuentes. "Você entrou em contato por canais que foram… difíceis de rastrear. Concordei em ouvi-lo porque meu país se encontra em uma posição cada vez mais precária."

O alemão cruzou as mãos.

"Assim como todo mundo," respondeu.

O conselheiro militar ficou tenso com o tom casual, mas Fuentes levantou a mão.

"Você não está aqui para nos ameaçar," disse Fuentes. "Se estivesse, esta reunião não seria tão discreta."

"Não," concordou o alemão. "Estamos aqui porque a Alemanha acredita que sua nação deseja sobreviver ao término desta guerra intacta."

Assim, o peso da frase caiu pesado no ambiente; os homens se olharam cautelosamente em silêncio, enquanto o diplomata esclarecia a garganta.

"O Chile cumpriu seus compromissos," disse cuidadosamente. "Não estamos oficialmente em guerra com o Reich, mas estamos alinhados com as Potências Aliadas."

O alemão assentiu novamente.

"Alinhados," repetiu. "Não obrigados."

Fuentes o estudou.

"Vocês falam como se o resultado já estivesse decidido."

O alemão permitiu-se um sorriso estreito.

"O Generaloberst Dietrich dizia que as guerras são decididas muito antes de serem resolvidas. O resto é administração."

Silêncio se estabeleceu e Fuentes recostou-se um pouco.

"Muito bem," disse. "O que a Alemanha quer?"

O alemão não respondeu imediatamente. Em vez disso, alcançou sua pasta e colocou uma pasta fina sobre a mesa, sem abri-la.

"Não queremos suas terras," disse. "Não queremos seus portos, seus recursos ou sua bandeira."

O conselheiro militar franziu a testa.

"Então por que vocês estão aqui?"

"Porque vocês estão dentro," respondeu o alemão.

O ambiente ficou mais tenso.

"Dentro do quê?" perguntou Fuentes.

"Do sistema aliado," respondeu o alemão simplesmente. "Dentro das reuniões, das comunicações, das suposições deles."

Fuentes sentiu um calafrio se instalar atrás dos seus olhos.

"Vocês querem inteligência."

"Sim."

Fuentes franziu a testa, já suspeitava da resposta, mas queria ouvir de forma direta.

"De que tipo?"

O alemão finalmente abriu a pasta.

Dentro havia mapas. Rotas marítimas. Nomes. Organogramas das estruturas de comando aliadas, incompletos, anotados com caligrafia cuidadosa.

"Queremos o que não podemos observar de fora," disse o alemão. "Intenções. Fraturas. Cronogramas. Quem está considerando a paz, e quem está apegado aos custos irrecuperáveis. Quem é leal a Washington, e quem finge ser."

O diplomata engoliu em seco.

"Isso seria uma traição."

O alemão olhou para ele de forma firme.

"Isso seria realismo."

O conselheiro militar se inclinou adiante.

"E em troca?" exigiu.

O alemão fechou a pasta.

"Em troca," disse, "a Alemanha lembrará quem escolheu estabilidade ao invés de espetáculo."

Fuentes estreitou os olhos.

"Defina 'lembrar'."

O alemão cruzou o olhar com ele.

"Quando a guerra acabar," disse, "haverá novos marcos comerciais. Novos acordos de segurança. Novas premissas sobre quem importa nas Américas."

Ele fez uma pausa.

"A Alemanha não pune a contenção, mas recompensa a visão de futuro."

Ninguém falou mais.

Do lado de fora, um carro distante passava pela estrada da encosta.

Fuentes respirou lentamente.

"Você está nos pedindo para enfraquecer nossos aliados."

"Eu estou pedindo que você proteja sua nação," respondeu o alemão. "Os dois não são mais sinônimos."

O conselheiro militar levantou-se abruptamente.

"Isso é loucura," disse. "Se descobrirem…"

"Você não será," interrompeu o alemão de forma calma. "Porque os Estados Unidos não estão mais de olho."

Essa frase doeu mais do que qualquer ameaça.

Fuentes sentiu, então, o peso da verdade por trás das palavras. Washington estava distraído, fragmentado por uma guerra civil que se recusava a nomear, consumido pelas próprias chamas.

"E se recusarmos?" perguntou Fuentes em voz baixa.

O alemão o considerou por um momento.

"Então nada acontece," disse. "Este canal será fechado. E a Alemanha prosseguirá sem vocês."

Fuentes olhou fixamente para o representante alemão. Mas sua postura entregava sua verdadeira disposição antes mesmo de falar.

"Isto parece uma ameaça."

"Não," disse o alemão. "Isto é a ausência de oportunidade."

O diplomata se voltou para Fuentes.

"Ministro," disse suavemente, "se a América cair… eles não nos perdoarão por ajudá-los. Mas a Alemanha vai lembrar se não fizermos."

Fuentes fecho os olhos por um instante.

Pensou na reunião na Cidade do México, na cadeira vazia de americano, e nos argumentos que, no final, não levaram a lugar algum.

Pensou nas taxas de seguro de transporte subindo, nos mercados ficando nervosos, e numa guerra que já não parecia tão distante.

Quando abriu os olhos, o alemão o observava paciente.

"O que você está pedindo," disse Fuentes, "colocaria sangue em nossas mãos."

O alemão balançou a cabeça.

"Não," respondeu. "Sangue já está no chão. Eu estou pedindo que você decida se ele vai se acumular aos seus pés."

O silêncio voltou, agora mais longo. Por fim, Fuentes avançou um pouco a mão e tocou a pasta.

"Informação," disse cuidadosamente. "Sem operações, sem sabotagem, sem ação direta."

O alemão assentiu.

"Isso é suficiente."

"E isso não significa alinhamento."

"Claro que não," respondeu o alemão.

Fuentes recostou-se.

"Significa," disse, "que estamos escolhendo não afundar com um navio que se recusa a admitir que está afundando."

O alemão levantou-se, pegando sua pasta.

"A história," disse ele, "é mais gentil com aqueles que saem de cena cedo."

Pausou na porta.

"Mais uma coisa," acrescentou. "Se optar por esse caminho… escolha silenciosamente."

A porta se fechou atrás dele.

Fuentes permaneceu sentado por bastante tempo após isso.

Do lado de fora, as luzes da cidade continuavam a brilhar, sem notar que, em algum lugar na escuridão, uma linha havia sido cruzada e que não poderia ser desfeita.

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