
Capítulo 811
Re: Blood and Iron
A reunião na Cidade do México começou sem a presença dos Estados Unidos. Essa simples ausência pesou mais do que qualquer declaração de abertura poderia ter pesado.
O salão havia sido preparado para uma delegação americana que nunca chegou. Uma placa com as estrelas e listras permaneceu posicionada na mesa central, intocada, sua cadeira visivelmente vazia.
Ninguém apresentou desculpas. Nenhuma explicação foi dada além de assurances vagas de que "circunstâncias internas" tornaram a participação impossível.
Ninguém na sala acreditava nisso.
Delegações de várias regiões das Américas e os remanescentes das Potências Aliadas se reuniram, sentadas em grupos desiguais em vez de filas formais.
Alguns chegaram acompanhados por oficiais militares. Outros vieram com economistas, ou assessores jurídicos, ou sem ajudantes nenhum. A guerra começava a despir as nações até o que realmente valorizavam.
Mexico sediava, mas não presidia.
Não havia uma autoridade presidiendo.
A ausência de Washington dissolveu completamente esse papel.
Por vários minutos após o fechamento das portas, ninguém falou.
Foi o representante do Canadá quem finalmente quebrou o silêncio.
"Então," disse, cruzando as mãos sobre a mesa, "estamos aqui para discutir uma guerra travada em nome da América... sem a América."
Um arrepio de desconforto percorreu o ambiente.
O enviado brasileiro se ajustou na cadeira. A delegação chilena trocou olhares. O representante da Argentina fixou o olhar na cadeira vazia marcada Estados Unidos, com desprezo aberto.
"Isso era inevitável," disse calmamente o ministro das Relações Exteriores do Peru. "Um império não se desintegra de forma cordial."
"Cuidado," retrucou o representante boliviano. "Os Estados Unidos ainda são nossos aliados."
"Sério?" perguntou o enviado colombiano. "Porque aliados costumam estar presentes às reuniões."
Isso recebeu alguns acenos de cabeça sombrios.
Um diplomata cubano se inclinou para frente, com a voz carregada de fadiga.
"Perdemos rotas marítimas. Perdemos bases. Perdemos credibilidade. E agora nos dizem que a nação que arrastou metade de nós para essa guerra não consegue enviar uma delegação?"
O representante da Bolívia ficou irritado.
"Washington está lutando sua própria batalha," disse ele. "Revoltas internas, desordem civil..."
"...guerra civil," interrompeu a Argentina de forma seca. "Vamos deixar de fingir que é diferente."
Aquela palavra caiu como cinzas.
Várias nações presentes vinham acompanhando de perto a situação americana. Relatórios chegavam diariamente, descrevendo greves que se tornavam violentas, governos estaduais desafiando a autoridade federal, milícias armadas confrontando as forças federais.
A imagem de estabilidade americana que outrora sustentou a ordem hemisférica desaparecera.
"Não estamos aqui para zombar deles," disse o Canadá de forma equilibrada. "Estamos aqui porque a fraqueza deles coloca todos nós em perigo."
Um oficial mexicano esclareceu a garganta.
"O México concordou em sediar esta reunião," afirmou, "porque o equilíbrio de poder nas Américas mudou. Fingir que não, não beneficia ninguém."
Mapas foram espalhados pela mesa.
Não planos de vitória, mas avaliações de perdas.
"Os alemães tomaram Guam em seis horas," disse o enviado brasileiro, com a voz tensa. "Seis horas."
"E não avançaram mais," acrescentou o oficial boliviano. "E é exatamente isso que torna tudo pior."
Vários olhares se voltaram.
"Eles não precisaram," continuou ele. "Demonstraram alcance, moderação e, acima de tudo, controle. O Pacífico deixou de ser uma barreira. Agora é um corredor."
A delegada argentina zombou.
"E a América nem consegue fingir que vai defendê-lo."
Essa observação levou a murmúrios, alguns irritados, outros resignados.
"Precisamos ser pragmáticos," disse o Chile. "As Potências Centrais estão unificadas. Sua estrutura de comando permanece intacta. Seus líderes políticos falam com uma só voz."
Ele gesticulou ao redor da sala.
"Nós não."
Silêncio seguiu-se.
Finalmente, uma das menores nações da América Central falou, seu representante visivelmente nervoso.
"Se os Estados Unidos entrarem em colapso internamente," perguntou, "o que será da Doutrina Monroe?"
Ninguém respondeu de imediato.
Porque a verdade era desconfortável.
A Doutrina Monroe sempre foi aplicada pelo poder americano, não por lei nem por consenso, mas por força. E essa força estava desaparecendo.
"Ela se torna irrelevante," disse, por fim, o diplomata cubano. "Assim como todas as garantias que dependem de uma força que já não existe."
O representante da Bolívia bateu a palma da mão na mesa.
"Não podemos simplesmente abandonar a guerra," afirmou. "Muita coisa foi gasta. Muita sangue foi derramado."
"Custos irrecuperáveis," respondeu com dureza o Brasil. "Não somos contadores, somos estadistas. A questão não é o que perdemos; é o que estamos dispostos a perder a seguir."
Argentina recostou-se na cadeira.
"E pra quê?" perguntou. "Pra sustentar um aliado que nem manda um embaixador?"
Isso pegou mais forte do que o esperado.
Várias delegações começaram a falar ao mesmo tempo.
Alguns defendiam seguir em frente, argumentando que as Potências Centrais eventualmente exagerariam, que o alcance da Alemanha provocaria resistência, que a América ainda poderia se estabilizar.
Outros mencionaram uma saída silenciosa, de cessar-fogos bilaterais. De garantias territoriais em troca de neutralidade.
Alguns disseram a palavra que ainda não havia sido oficialmente formalizada.
Paz, não vitória, nem derrota, mas paz.
O México ouvia, enquanto o Canadá ponderava cuidadosamente cada palavra. Enquanto isso, Cuba defendia a segurança continental em detrimento da lealdade transatlântica.
E a Bolívia ficava cada vez mais isolada, presa a compromissos agressivos que já não conseguia sustentar sem a indústria americana.
Porém, sobre tudo isso pairava uma realidade não dita: os Estados Unidos deixaram de ser o centro de gravidade no hemisfério ocidental.
"Se Washington busca paz," disse cautelosamente o colombiano, "irá fazê-lo sem nos consultar."
"E se não fizerem?" perguntou o peruano.
Aexalou lentamente o ar.
"Então nos arrastarão com eles."
A sala ficou silenciosa novamente, não porque um consenso tivesse sido alcançado, mas porque todos entenderam o que acabara de ser dito.
Essa reunião não tratava mais de estratégia. Era uma questão de sobrevivência.
Quando a conferência foi encerrada horas depois, nenhuma declaração foi emitida. Nem uma posição unificada foi anunciada.
Apenas acordos silenciosos, canais privados abertos, planos de contingência traçados às margens dos mapas.
A cadeira americana permaneceu vazia até o fim.
E, enquanto as delegações partiam à noite quente na Cidade do México, uma verdade permanecia não dita, mas inegável:
As Potências Aliadas não estavam mais esperando por uma liderança de Washington. Estavam esperando para ver quão forte ela cairia, e com que rapidez poderiam se afastar quando isso acontecesse.