Re: Blood and Iron

Capítulo 813

Re: Blood and Iron

Bruno se encontrava na academia de seu Palácio Real, levantando pesos, correndo voltas na pista, fazendo exercícios de calistenia e, como sempre, dando uma aperfeiçoada no seu treino de luta.

Como um homem com mais de sessenta anos parecia ter dez anos a menos? Seria mentira dizer que a genética não tinha uma parcela importante nisso. Mas a verdade é que o estilo de vida de Bruno era todo planejado para a otimização da saúde.

Sua alimentação era cuidadosamente acompanhada por especialistas de classe mundial. Seus sinais vitais e análises de sangue eram feitos mensalmente pelos médicos reais, e ele continuava treinando como um atleta universitário, até o limite do que seu corpo permitia.

O único hábito que ele realmente tinha e que não era favorável à saúde a longo prazo era o consumo de álcool. Mas mesmo assim, era praticado com moderação.

No momento, ele estava "rolando" com seu filho mais novo, Josef. Um homem que, assim como muitos na casa, seguia à risca o rígido regime de treino do patriarca. Outros homens da família estavam próximos, assistindo e esperando sua vez.

Era um exercício chamado Rei do Tatame. Basicamente um torneio de todos contra todos, onde quem vencesse permanecia na luta até perder. O objetivo era simples: derrubar o adversário e imobilizá-lo.

Hoje, eles não estavam focando em finalizações, e por isso Bruno podia se permitir ser um pouco mais ousado.

Na sua idade, mesmo com um condicionamento de elite, certos riscos eram inevitáveis, e ele preferia evitar colocar os joelhos em risco.

Assim, ao lutar com seu filho, que tinha mais de vinte anos a menos, Bruno concentrava-se em contra-atacar as investidas sem fazer sprawls completos, antecipando a penetração com movimentação de pés e punindo as tentativas de controle.

Ao pegar um whizzer na tentativa de dupla-perna de Josef, Bruno saiu do eixo e empurrou o filho para o lado, criando espaço. Imediatamente, passou a uma queda de alta perna, levantando Josef no ar e derrubando-o no tatame com um arco suave.

Bruno rapidamente passou para o controle lateral, imobilizou o filho, levantou-se e ajudou Josef a se levantar.

O suor escorria pela testa de Bruno, que se enxugou com a mão. Apesar do ambiente controlado para treinamento intenso, seu corpo envelhecido, ainda tonificado como de um atleta de verdade, brilhava sob a luz do sol que entrava pelas janelas.

Josef se escorou, encarando o pai com incredulidade total.

O homem tinha mais de sessenta anos e ainda era capaz de jogá-lo ao chão como se fosse uma criança.

Não era tanto a derrota em si que o ofendia. Era a facilidade com que ela tinha acontecido. Desdenhando, Josef saiu do tatame para abrir espaço ao próximo desafiante.

"Inacreditável! Que tipo de monstro você é, que mesmo na velhice ainda luta como Hércules?"

Bruno sorriu de canto para seu filho machucado.

"Não me culpe por você não conseguir vencer um velho. Talvez devesse treinar mais."

Erwin entrou na luta, vestido com pouco mais do que uma rash guard e uma bermuda de compressão. Como o pai, parecia dez anos mais novo do que realmente era e tinha força e resistência à altura.

Mas, diferentemente de Josef, ele não subestimava o velho monstro ao qual toda a família reverenciava como patriarca. Pelo contrário, aproximou-se com cautela.

Essa timidez foi logo perceptível.

Bruno travou com uma pegada de colarinho e o derrubou para baixo. Erwin resistiu, avançando e colocando o pé de modo a fazer Bruno baixar a guarda, agarrar seu tornozelo e se posicionar de forma a proteger a cabeça e o ombro.

Com um rápido movimento de pé, Bruno pegou seu tornozelo e o derrubou ao chão.

Antes que Erwin pudesse se recuperar ou montar uma defesa, seu pai já havia passado por sua guarda, assumindo novamente o controle lateral e deixando-o deitado de costas.

Bruno se levantou de novo, ajudou seu filho a se pôr de pé e o cumprimentou na cabeça, zombando dele sem misericórdia.

"Ainda bem que você nunca entrou para o exército", disse Bruno. "Você não tem coragem de agir com agressividade quando a situação exige."

Erwin sorriu de forma amarga enquanto saía do tatame e pegava uma garrafa de água bem gelada. Ele olhou para trás na hora certa e viu seu pai dominar outro filho com facilidade, agarrando-o e jogando-o de lado com um movimento de quadril.

Balançando a cabeça, desdenhou.

"Obrigado, pai…."

Logo depois, Bruno encerrava sua sessão diária de treino.

Ele encontrou seu caminho de volta às câmaras, onde um banho já havia sido preparado e uma roupa nova, limpa, aguardava por ele.

Normalmente, isso seria o fim da rotina. Uma transição tranquila. Uma rotina estabelecida. Ordem. Mas hoje tinha algo diferente.

Uma nota dobrada descansava sobre as roupas dobradas, colocada de propósito onde ele não pudesse não notar. Ele não precisou levantar para saber de quem era. A caligrafia sozinha bastava.

Precisamos conversar…

Com amor,

Sua única e verdadeira, Heidi.

Bruno exalou lentamente pelo nariz enquanto se vestia.

Ele sabia que esse momento chegaria. Sabia há anos, do mesmo jeito que um soldado sabe que a artilharia eventualmente cairá, sem saber quando, nem como, apenas que deve acontecer.

A guerra já tinha durado tempo demais. As ameaças ao Reich estavam diminuindo. As desculpas estavam se esgotando.

E Heidi tinha sido paciente por mais tempo do que qualquer um tinha direito de esperar.

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Bruno entrou em seu gabinete particular e a viu lá, já esperando por ele.

Ela estava sentada na sua cadeira, não atrás da mesa, mas de frente para ela, uma distinção silenciosa que dizia que ela não tinha vindo desafiar sua autoridade, apenas confrontar o homem por baixo dela.

Um copo de cerveja repousava em suas mãos. Outro, intacto, estava sobre a mesa diante dela. Ela violara uma regra que ele estabelecera décadas atrás: ninguém entrava em seu espaço privado sem permissão.

Mas ele não comentou nada. Em vez disso, cruzou a sala, sentou-se de frente para ela e pegou o copo que ela tinha deixado de lado, para ele.

Eles beberam em silêncio. Não o silêncio confortável da rotina, nem o silêncio amigável da antiga familiaridade.

Era um peso maior. Um silêncio que pressionava por dentro. Que exigia uma resolução. Ficou tempo demais, de modo que Bruno, lentamente, percebeu que ela esperava ele falar primeiro.

Então ele falou.

"Então," disse por fim, com a voz calma, firme. "Agora que a guerra parece estar chegando ao fim… você quer saber o que vem depois. É isso?"

Heidi não desviou o olhar. Sua expressão não se tornou dura, mas também não amoleceu.

Se algo, ela se resolveu.

"Você uma vez me disse," ela falou baixinho, "que quando essa guerra acabasse, quando as ameaças ao Reich fossem resolvidas, você teria terminado de lutar."

Ela tomou um gole controlado do copo.

"Esse momento está se aproximando," ela continuou. "E, mesmo assim, você ainda treina como um homem com metade da sua idade. Joga nossos filhos como se fossem crianças. Prepara armas como se fosse chamado de volta à linha de frente."

Ela colocou o copo na mesa.

"Preciso saber, Bruno," ela falou. "Depois de tudo… quando você finalmente vai ter paz?"

Ele não respondeu de imediato. Não porque não tivesse pensado nisso, mas porque a resposta merecia mais do que um reflexo imediato.

Ele bebeu, e ela também, enquanto seus olhos nunca se desgrudavam.

Anos passaram entre eles naquele silêncio. Campanhas, perdas, vitórias. Longas noites separados, cartas escritas e não enviadas, filhos crescidos.

Finalmente, quando a paciência de Heidi começou a se esgotar, não com raiva, mas com expectativa, Bruno falou.

Não havia sarcasmo na sua voz, nem gravidade teatral, apenas honestidade.

"Acho que vou me candidatar a Chanceler."

Num instante, Heidi apenas o encarou. Depois, riu. Não uma risada educada. Nem um sorriso contido.

Uma risada que escapou antes que ela pudesse controlá-la. Áspera, repentina e completamente à mostra.

"Chanceler?" repetiu, incrédula. "Você?"

Ela ria mais ainda, balançando a cabeça.

"O Lobo da Prússia. A Mamushi. A Praga Vermelha. O Carcereiro de Belgrado, e o Leão do Tirol." Ela fez um gesto vago em sua direção com a mão livre. "Um homem que moldou o mundo com aço e diesel, não com canetas e discursos… E você pretende concorrer a Chanceler? Eu achava que você odiava políticos?"

Bruno deu uma risada suave.

"Eu odeio…", admitiu com suavidade. "E, dito assim, realmente parece um pouco ridículo."

Ele estendeu a mão sobre a mesa, pegando a dela. O aperto foi firme, familiar, e aquecido de uma forma que só ela conseguia fazer com ele.

"Mas é o caminho que escolhi."

A risada de Heidi se transformou em uma longa exalação, não de medo; mas de alívio.

"Bom," ela falou por fim, levantando seu copo mais uma vez, "então acho que não tenho muita escolha a não ser te seguir, né?"

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dela.

"Vamos brindar," ela acrescentou, "ao Excelentíssimo, Chanceler Bruno von Zehntner."

Ela fez uma pausa, pensando.

"…Tem um som bonito, agora que falo em voz alta. Não tem?"

Bruno riu, levantando o copo para brindar com ela.

"Tem sim," concordou calmamente.

Os dois continuaram a beber até tarde da noite, conversando sobre a vida vivida e a vida que ainda estava por vir. Uma vida que sempre compartilharam, e que sempre compartilharão.

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