
Capítulo 819
Re: Blood and Iron
O pátio estava silencioso quando o último disparo ecoou. Não porque a batalha tivesse acabado, mas porque ela nunca tinha realmente começado.
O palácio presidencial jazia sob uma nova bandeira, um novo símbolo, uma nova promessa. A bandeira cubana não foi substituída; foi rasgada e incendiada. suas cinzas dispersas ao vento.
Um último ato de sabotagem por parte de um teatro de revolução que havia sido pré-aprovado, financiado e calculado por uma divisão de inteligência do Reich, que preferia revoluções ardentes e breves.
Batista estava morto, e a revolução tinha declarado sua vitória. Tudo isso enquanto a luta do Exército Cubano continuava contra soldados alemães regulares e seus aliados nas praias fora de Havana.
Kurt caminhava pelos corredores do palácio como quem inspecciona um quebra-cabeça já resolvido. Os rebeldes celebravam. O que era esperado, revolucionários sempre comemoram cedo.
Mas, como um homem que conquistou sua experiência ao longo de décadas de serviço no infame Grupo Werwolf, Kurt não. Kurt só avançava sempre.
A sala principal estava densa de fumaça de charutos, odor de rum e celebração. Homens reclinados em cadeiras de veludo saqueadas do próprio interior do palácio, com as botas apoiadas em mesas de mármore que antes só acolhiam generais, ministros e representantes coloniais.
O próprio rum de Batista estava sendo servido sem cerimônia. Seus charutos eram cortados com cortadores de ouro que sua guarda nunca mereceu. Bebiam como homens que herdaram um futuro ao invés de pagá-lo.
José ergueu um copo, sorrindo para Kurt.
"Conseguimos, chefe! O tirano está morto! A Cuba é nossa de novo!"
Kurt olhou para o copo, depois para José, e então aos homens reunidos ao redor dele. Não com desprezo, nem com raiva, nem mesmo com decepção, apenas com neutralidade. Como quem olha uma lenda de um mapa que já memorizou.
"Ele nunca foi dele, José," disse Kurt de forma séria. "Foi sempre apenas provisório."
José piscou, confuso, ainda com o copo na mão.
"O quê?"
Kurt exalou pelo nariz, o fumaça escorrendo à força pela ponte do óculos de sol.
"Você acha que matou um tirano e ganhou um país," disse Kurt. "Mas países não pertencem a homens que planejam assassinatos em bares e comemoram em palácios que não construíram."
Os rebeldes se mexeram, trocando olhares. Começavam a suspeitar de algo. Mas a suspeita exige tempo, e o tempo já tinha acabado.
Kurt ergueu a Thompson de sua cintura e a descansou no ombro. Parecia relaxado para um olhar não treinado, mas seus dedos latentes quase tremiam ao redor do guarda-mato.
José colocou o copo lentamente no chão.
"Você não está comemorando com a gente, chefe?"
Kurt balançou a cabeça uma vez.
"Não", disse ele. "Estou contando minhas saídas."
Os rebeldes riram nervosamente, ainda sem perceber que o riso era a última moeda que a maioria dos revolucionários cunhara antes de seu colapso.
Um jovem rebelde chamado Esteban bateu no ombro de Kurt, rum na mão, olhos brilhantes.
"Vamos lá, chefe! Beba! Fume! Os alemães vão pagar por isso! Você ouviu a transmissão! Eles querem caos. Nós lhes entregamos caos!"
A cabeça de Kurt virou alguns graus, seu olhar lento, firme, vazio.
Foi só agora que os rebeldes começaram a suspeitar que algo estava errado. José tentou pegar sua arma, mas conseguiu só afastá-la três polegadas da correia.
Então Kurt atirou primeiro.
A boca da Thompson se moveu em um movimento preciso, disparando uma resposta curta e ensurdecedora contra o peito de José.
O estalo ecoou pelos salões de mármore como um veredicto da física. Esteban deixou cair seu rum enquanto desesperadamente alcançava sua própria espingarda. Mas a arma de Kurt também respondeu, triturando o torso bronzeado do jovem rebelde antes que seus dedos pudessem formar sua determinação.
Os demais rebeldes se levantaram em pânico, a celebração se dissipou em tiros que Kurt disparou com uma indiferença mecânica. Não era uma batalha, era uma execução.
Um serviço de limpeza deixado a homens cujos nomes não estavam nos registros. E cuja existência só era conhecida ao mundo pelos corpos que enterravam após suas operações.
Os alemães queriam caos, e Kurt era um agente do caos. Ele cultivava, moldava, e depois apagava o arquivo fonte antes que pudesse se voltar contra seu mestre.
Kurt disparou por toda a sala, varrendo os rebeldes em uma espiral de flashes de saída de fogo que não deixava espaço para hesitação, emoção ou mito.
Nem uma única vez seu coração acelerou, nem suas mãos tremeram. Sua mente nem sequer registrou consequências além do que já tinha na sua rotina planejada.
O rum de Batista derramou-se pelos pisos de mármore, e seus charutos queimaram ainda acesos nas mesas. Os rebeldes caíram de morte, assim como o ditador que depuseram.
Uma revolução declarada viva por tempo suficiente para que sua liderança fosse executada antes que se tornasse um estado.
Kurt passou por cima dos corpos, com as botas silenciosas no mármore, olhos fixos à frente. Ele alcançou uma garrafa de rum cubano apodrecida, cujo conteúdo restante não tinha sido contaminado pelas duas carnificinas que a sala havia sofrido.
Ele deu um gole e saiu. O pátio ainda queimava pelos ataques aéreos que já tinham sido entregues horas antes.
Fogo, não caos, agora era a lembrança duradoura do teatro caribenho.
Kurt desapareceu na multidão civil que já tinha sido forçada a se refugiar em suas casas pelos fuzileiros alemães, que controlavam os bairros como uma maré lentamente avançando. Ele sumiu não como relâmpago, mas como papelada trancada em um cofre e esquecida.
Guantánamo permanecia quieta ao longe. Seu centro de comando zumbia com rádios alemães transmitindo em operação disciplinada.
A voz de Kurt transmitia por um canal seguro somente o tempo suficiente para entregar um veredicto e um relatório de status.
"Aqui é o Agente Charon, da Brigada Cérbero… A Operação Derrocada está concluída," disse Kurt. "Batista está morto. A liderança revolucionária está extinta. O Exército Cubano foi neutralizado, e a cidade está indefesa. A capital está pronta para ser tomada, e toda Cuba junto com ela…"
O almirante alemão na outra ponta da linha não pediu mais detalhes. Mesmo ele não tinha autorização para saber as identidades da operação mais sigilosa do Grupo Werwolf.
Tudo que sabia era que, ao ouvir as palavras 'Brigada Cérbero', uma sensação de frio percorria sua espinha. Algo que não conseguia explicar. Demorou um momento para recuperar o composure antes de ativar o rádio.
"Confirmado," disse o Almirante. "Proceda para a base segura Bastion-7. Mantenha silêncio rádio, a menos que seja chamado. Forças de ataque anfíbio já estão entrando nos arredores de Havana enquanto falamos."
Kurt encerrou a transmissão sem dizer mais uma palavra.
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Bastion-7 era uma base segura que só Kurt conhecia, fora do livro, fora dos mapas, fora dos informes de inteligência de quem acreditava que revolucionários eram mais do que ativos descartáveis do campo de batalha.
O Almirante só sabia o nome porque teve que passar ordens do próprio Reichsmarschall.
Era um bunker de concreto situado no bairro industrial de Havana, construído anos antes, durante os esforços de ajuda americana entre guerras, nunca inspecionado por eles.
Na preparação para a guerra, os americanos financiaram e construíram muitos projetos. E, com os operativos de Bruno tendo infiltrado profundamente o governo americano e seus contratantes, era fácil para ele criar locais como esse, que ninguém se lembrava de que existiam.
Kurt entrou por uma porta lateral escondida atrás de uma unidade de refrigeração que há tempos não refrigerava nada.
Dentro, Kurt acendeu um cigarro. O rádio emitiu novamente, assinatura de criptografia alemã limpa, segura, procedimental.
"Aqui é Hades…" uma voz falou. "Status."
Kurt expirou a fumaça do cigarro, rosto neutro, tom sem expressão.
"Batista está morto," disse. "E a liderança da revolução. Eles cumpriram seu papel. Não irão interferir na logística de invasão, na administração ou na política de reintegração continental."
A voz na outra ponta fez um clique, não por revolta, mas por precisão.
"Então você apagou o arquivo?"
Kurt assentiu, embora a voz do outro lado não pudesse vê-lo.
"Eu apaguei o arquivo," respondeu Kurt.
Houve uma pausa antes que a voz voltasse a falar.
"A Cerberus quer suas cabeças restantes de volta inteiras. Siga para a exfiltração pelos canais preparados. Ainda há outras hidras para serem abatidas."
A linha caiu antes que Kurt tivesse chance de responder. Por anos, ele tinha vivido em Havana, usando um nome falso, uma aparência falsa, enquanto levava uma vida falsa.
E, ao olhar ao redor do bunker — tudo que restava para provar que ele realmente esteve em Cuba — ele observou os detalhes e os cheiros uma última vez antes de preparar a explosão.
Para quem via pela rua, a explosão parecia apenas mais uma entre muitas na periferia de Havana, enquanto a batalha continuava. Ninguém viu a sombra que desapareceu da cidade naquela noite.
Nem perceberam o espectro que causou o fim do regime Batista, e a morte da Revolução antes que ela pudesse realmente respirar.
Aqui em Havana, como em meia dúzia de outras cidades latino-americanas na última década, revoluções surgiram e terminaram. E poucos conheciam os nomes daqueles que as inspiraram e os eliminaram, todos do mesmo jeito.
Poucos diriam o nome da Brigada Cérbero… Mas todos sentiram seu alcance de alguma forma.