
Capítulo 783
Re: Blood and Iron
O vento na ponta norte de Delaware era brutal, cortante como lâmina, metálico, cheio do cheiro de terra cortada e diesel.
Roosevelt estava sentado no banco de trás do carro blindado do estado-maior, apoiado por braços que tremiam, observando o exército de operários que se acumulava pela paisagem congelada como formigas construindo uma cidadela para uma rainha moribunda.
Holofotes cortavam a neve. Andaimes de aço rangiam. Trilhos batiam enquanto comboios atravessavam lama que virou gelo. O "enclave", ainda recusando-se a chamá-lo oficialmente assim, crescia dia após dia, tornando-se algo grande o suficiente para engolir condados inteiros.
Fileiras de bunkers pré-fabricados. Blocos de moradia em massa. Depósitos de combustível em construção. Silos reforçados destinados a grãos, depois silenciosamente reclassificados para "armazenamento de materiais estratégicos". Linhas férreas redirecionadas. Redes de alta tensão erguidas como torres esqueléticas.
Uma América paralela sendo forjada às escondidas.
Roosevelt deu uma respirada trêmula. Seus pulmões se sentiam mais pesados que o ar congelado.
"Isso não está rápido o suficiente," ele cuspiu.
Atrás dele estavam os únicos homens em quem ainda confiava: o general Lansing, o secretário do Tesouro Horter e seu assessor mais próximo, Markham. Três homens que não tinham tentado traí-lo. Ou pelo menos, ainda não.
"Senhor," disse Lansing com cuidado, "já aceleramos a produção duas vezes. A força de trabalho está no limite máximo. Estamos puxando equipes e materiais de cinco estados."
O maxilar de Roosevelt se apertou.
"Não rápido o suficiente," repetiu, como se as palavras fossem um feitiço que pudesse dobrar a realidade.
Horter tossiu, olhando para o vale onde guindastes se erguiam como garças mecânicas congeladas.
"O orçamento para este trimestre…"
"Dane-se o orçamento," Roosevelt interrompeu, com a voz rouca. "Imprima o que tiver que imprimir. Confisque a tesouraria se precisar. Não sobrarão dólares valendo a pena se perdermos essa linha do tempo."
A respiração dele ficou curta. Ele colocou uma mão no peito; a outra segurou a grade com força suficiente para embranquecer os nós dos dedos.
Markham lançou um olhar assustado para Lansing. Lansing deu um leve movimento de cabeça, quase imperceptível. Nada, não reaja, não entre em pânico, pense no presidente.
O rosto de Roosevelt se contorceu com algo parecido com dor… ou medo.
"Olhe para isso," ele sussurrou. "Olhe para o que sobra do nosso futuro. Aço e concreto. Muros e abrigos. É tudo que temos. O resto do país vai queimar, mas isso, isso precisa sobreviver."
Neve soprava de lado, picando cada pedaço exposto de pele. Ainda assim, Roosevelt não tremia. Sua imobilidade era pior que o tremor.
"Isso será a América," ele murmurou. "A verdadeira América. A semente. A chama."
Engoliu em seco, a respiração presa na garganta. "Os alemães não vão tirar isso de nós… não isso."
Lansing deu um passo à frente, com as botas cravando na gravelada recém colocada.
"Senhor presidente… as pessoas que trabalham aqui sabem que algo está acontecendo. Não sabem exatamente o quê, mas sentem. O moral está… tenso."
Roosevelt virou lentamente a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos e fundos, com o branco amarelecido por uma doença que ele se recusava a admitir.
"Então eles vão trabalhar mais rápido," ele disse.
Horter tentou novamente, com a voz mais suave.
"Senhor… mesmo que o enclave fique pronto a tempo, precisamos pensar no resto do país. As faltas começam a ficar impossíveis de esconder. Governadores estão ficando desesperados."
"Deixem que fiquem," disse Roosevelt. "Deixem gritar. Deixem passar fome se precisarem."
Seu tom era gelo. "Melhor ficarem com fome do que se separarem."
Markham se aproximou, abaixando a voz.
"Senhor… se houver outra revolta—"
"Vai acontecer," interrompeu Roosevelt. "E quando acontecer, o Exército vai esmagá-la novamente. Com mais força. Mais rápido. Desta vez, não iremos hesitar."
Seus dedos tremeram. Ele puxou uma pequena vasilha da jaqueta, remédio cardíaco, e Markham, instintivamente, moveu as mãos como se fosse ajudar.
Roosevelt gesticulou para que ele parasse, com um rugido quase feral.
"Eu dou conta."
Porém, sua mão tremia tanto que os comprimidos quase escorregaram. Lansing finge que não percebe, por piedade ou medo.
Roosevelt os engoliu secos e respirou com dificuldade.
Logo abaixo, o som das máquinas não parava. Trabalhadores martelavam aço no lugar, sem imaginar a magnitude da tempestade que se formava acima – não na neve, mas na política, na guerra, nos ossos da república.
Markham falou novamente.
"Há rumores no Congresso, senhor."
"Claro que há," respondeu Roosevelt. "Eles sussurram como crianças assustadas no escuro."
"Rumores de que você… está construindo uma divisão."
O maxilar de Roosevelt se contraiu. Uma sombra cruzou seu rosto, e por um momento o homem pareceu vinte anos mais velho.
"Não estou construindo uma divisão," disse. "Estou construindo uma arca."
Os outros trocaram olhares tensos. Lansing aclarou a garganta.
"E quando o resto do país perceber isso… essa arca não servirá para todos eles?"
A resposta de Roosevelt foi vazia.
"Então eles irão se afogar."
Um vento gélido o atingiu e ele começou a tossir violentamente. Quando se endireitou novamente, havia sangue no canto da boca. Horter olhou horrorizado.
"Senhor… você precisa de assistência médica."
Roosevelt enxugou o sangue com o dorso da luva, como se estivesse limpando lama de uma bota.
"Não," ele sussurrou. "Preciso que isso seja terminado."
Ele olhou para o vale, para os andaimes, as paredes, as luzes brilhando através da tempestade de neve. Sua voz tremia, não por causa da doença, mas por uma urgência que beirava a loucura.
"Não morrerei antes de terminar isso. Não deixarei este país ao seu destino. Se a União tiver que colapsar… então esse enclave será seu herdeiro."
Sua respiração formava névoa, como fumaça de um motor moribundo.
"Tudo depende disso. Tudo."
Por trás dele, Lansing discretamente colocou as mãos nas costas para esconder o tremor.
Porque, pela primeira vez, ele entendeu a verdade:
Roosevelt não tinha medo da Alemanha.
Ele tinha medo do tempo.
E estava perdendo essa guerra mais rápido que qualquer batalha na Europa ou no Pacífico.
Lá do outro lado do Atlântico, sob o brilho tranquilo da aurora tirolesa, Bruno von Zehntner estava em seu estudo, com um cigarro entre os dedos.
Do lado de fora, os Alpes estavam serenos, intocados pelo caos que devorava nações mais fracas.
Dentro, seu palácio vibrava com uma atividade silenciosa.
Um oficial de inteligência estava na sua frente, pálido de nervoso. A pasta nas mãos era densa de fotos, diagramas e transmissões decifradas.
Bruno apagou cinzas no cinzeiro e finalmente falou.
"Relatório."
O oficial engoliu em seco.
"Senhor… a construção americana no Corredor Noreste acelerou além das estimativas anteriores. Começaram a fortificar em grande escala. Bunkers. Reservas de combustível. Consolidação das ferrovias. Infraestrutura sólida."
Bruno levantou uma sobrancelha.
"Uma fortaleza?"
"Um… santuário, senhor. Eles chamam de 'Distrito de Continuidade Número Um' nos documentos internos. Nossos analistas acreditam que Roosevelt está se preparando para o colapso da União mais ampla."
Bruno pegou a pasta e a abriu. Estudou as fotos uma a uma, por um longo e silencioso momento de contemplação.
Bunkers reforçados gigantescos. Silos de grãos ao estilo militar disfarçados de "armazém agrícola". Junções ferroviárias soldadas em novos padrões. Blocos de moradia construídos em vales isolados.
Seu lábio se curvou em um sorriso de diversão, sem surpresa.
"Então," murmurou, "o velho touro gordo finalmente admitiu que está fazendo sua própria casa pegar fogo."
O oficial hesitou.
"Tem mais, senhor. Sua saúde está se deteriorando rapidamente. Nossos médicos estimam que ele tem menos de um ano."
"Humm."
Bruno exalou uma linha tênue de fumaça. "Um homem morrendo construindo um futuro que nunca verá. Que poético."
Virou uma página.
"Ah," disse Bruno suavemente, "e aqui estamos nós. A força de trabalho. A escassez de aço. As reservas de combustível. O colapso da produção no Meio-Oeste."
Ele tocou na foto de um dos bunkers com o dedo.
"Isso não é um santuário," disse. "É um mausoléu."
O oficial piscou.
"Um… mausoléu, senhor?"
Bruno fechou a pasta suavemente.
"Roosevelt está construindo uma tumba para a ideia da América. Uma concha onde uma nação moribunda pode se esconder na escuridão e fingir que ainda respira."
Deixou a pasta de lado.
"Não vai salvá-los."
O oficial ficou rígido, incerto se deveria falar mais.
Bruno apagou o cigarro na bandeja e se recostou na cadeira de couro, com a luz do fogo refletindo em seus olhos.
"Eles sabem?" perguntou Bruno. "Os governadores? Os senadores? O povo?"
"Nossos analistas acreditam que a maior parte desconfia que algo está errado. Mas Roosevelt controla as redes. A narrativa vai se sustentar um pouco mais."
Bruno sorriu com maldade.
"Não por tempo suficiente."
Levantou-se da cadeira.
Dirigiu-se à janela.
Os Alpes se estendiam antes dele, eternos, imunes à tolice humana.
"Viu," ele disse calmamente, "Roosevelt acha que está comprando tempo. Mas o tempo é a única coisa que nenhum de nós possui."
Uma pausa.
"Ele está morrendo. E a América morre com ele."
A voz do oficial vacilou.
"O que faremos, senhor?"
Bruno virou-se, olhos afiados como lâminas.
"Nada."
O oficial parou, intrigado.
"Nada, senhor?"
"Deixe-os construir," Bruno disse. "Deixe que entreguem toda a força deles naquele enclave. Deixe que desmantelarem seus exércitos, suas fábricas, seus estados."
Passou ao lado do oficial e apagou a última brasa do cigarro.
"E quando a edificação estiver completa, quando a nação estiver exausta e esgotada, quando Roosevelt finalmente colapsar e a União se fragmentar…"
Ele se permitiu um sorriso frio, satisfeito.
"…então, as paredes do enclave dele se tornarão as paredes do túmulo dele."
Pegou novamente a pasta de inteligência.
"Informe o Estado-Maior. Mantemos o curso. Sem interferências."
O oficial estendeu o braço, visivelmente abalada.
Bruno despediu-o com um gesto de mão. Ele ficou sozinho novamente, com a luz fria dos Alpes refletindo no chão.
Sua voz saiu quase um sussurro.
"Um império morrendo… construindo um bunker para fugir do inevitável."
Ele balançou a cabeça.
"Que americano."
E acrescentou, ainda mais baixo…
"Acham que estão se preparando para o colapso."
Uma pausa.
"Mas eles não percebem que isso já aconteceu."