
Capítulo 782
Re: Blood and Iron
Neve castigava Washington como estilhaços de artilharia amaciados em água.
Pesada. Implacável. Acumulando-se no mármore e no granito, até que a cidade parecesse menos uma capital e mais um mausoléu dedicado a uma nação tentando convencer a si mesma de que ainda está viva.
Dentro do Capitólio, em uma sala de comitês sem janelas, sob a ala oeste, uma dezena de homens se sentava em silêncio rígido.
Governadores, senadores, altos funcionários que outrora se portavam como se os Estados Unidos fossem algo imutável.
Nesta noite, pareciam homens participando da leitura de um testamento. Um testamento para um país ainda não oficialmente morto.
Finalmente, o senador William Carter da Virgínia quebrou o silêncio.
"Vamos começar", disse calmamente, "com a continuação do desvio de recursos pelo Presidente. A… iniciativa."
Ninguém usava mais o título oficial, todos temiam que isso tornasse a mentira demasiado real.
O governador McKenna do Colorado abriu a pasta à sua frente.
"Três setores de construção adicionais foram abertos em Delaware nesta semana. As equipes de trabalho estão sendo ampliadas novamente. E os envios de materiais já não são mais um fio de esperança."
Ele fez uma pausa. "São uma enxurrada."
Colocou uma lista de requisições na mesa.
"Aço. Cobre. Reservas de diesel. Geradores. Bombas. Equipamentos de escavação. Até mesmo recipientes de armazenamento de alimentos a longo prazo. Tudo direcionado para o norte de DC."
Uma onda de alarme percorreu a sala.
O senador Blake se inclinou à frente.
"Você está nos dizendo que ele ainda está acelerando?"
McKenna exalou lentamente.
"Ele não está acelerando. Está esvaziando o restante da União para alimentá-la."
Sussurros silenciosos, seguidos de algumas maldições baixas.
O deputado Donnelly balançou a cabeça.
"Isso não é planejamento de continuidade", sussurrou. "É triagem. Para um país que não admitiu que está morrendo."
Todos sabiam o que Roosevelt estava construindo, ou ao menos suspeitavam.
Apesar das transmissões oficiais mostrarem diariamente uma América forte e unida que derrotava os alemães, poucos nos sagrados corredores do Congresso acreditavam nisso.
Eles tinham visto os relatórios, a guerra era um desastre sem precedentes, que de alguma forma piorava a cada dia.
Embora Roosevelt lhes tivesse prometido vitória, era uma mentira que só os fora da alta cúpula de poder realmente acreditavam.
E enquanto Roosevelt mentia para o público, desviava fundos americanos para um enclave criado por ele próprio.
Um estado-fantasma ao norte de DC, com a finalidade de preservar a fração da América que ele pretendia salvar.
Não o país inteiro… Apenas a parte que ele achava que valia a pena levar para o que quer que venha a seguir.
Carter virou uma página.
"Os comandos do Pacífico relatam escassez. Transferências de munição atrasadas. Combustível racionado para a Marinha. Deslocamentos cada vez mais erráticos. Algumas divisões estão mal equipadas."
"Como assim estamos sem munição?" reclamou Blake. "Enquanto as baixas aumentam, ainda deveríamos estar produzindo o dobro do que perdemos."
A resposta de McKenna foi simples.
"Não quando as fábricas estão fechando devido à falta de aço."
O silêncio se fechou ao redor como uma tolha de ferro.
Finalmente, Donnelly sussurrou a frase que pairava na cabeça de todos:
"…Ele está mudando para um cronograma de derrota."
O ar enrijeceu.
Pois, se o presidente dos Estados Unidos planejava a derrota, os demais simplesmente estavam na rota de um império que desmoronaria.
Carter abaixou a voz.
"Não podemos esquecer o que aconteceu da última vez…"
Ninguém podia. O estado atual da União era uma que se mantinha pela força do Exército e do comandante-em-chefe. E isso tinha sido alcançado por meio da tirania.
Roosevelt discursou na rádio descrevendo os manifestantes que foram mortos nas ruas, e políticos que conspiraram contra a União como subversivos que "tentaram fraturar a nação durante a guerra."
Desde então, até falar abertamente em uma sala fechada parecia perigoso.
Blake esfregou a testa.
"Os generais estão nervosos", disse. "Alguns são leais a Roosevelt. Outros estão com medo dele. E os demais estão ocupados demais tentando segurar o Pacífico com sobras e orações."
"Quer dizer?" perguntou Carter.
"Quer dizer", respondeu Blake, "que ninguém sabe em quem confiar."
McKenna fechou a pasta.
"Vamos ser claros. Roosevelt não está preservando a União. Ele está preservando uma imagem dela. Uma fração. Uma casca."
"E o que acontece com o resto de nós?" perguntou Donnelly, com amargura.
"Seremos sacrificados", respondeu McKenna sem hesitar. "Somos lastro. Descartáveis assim que o bote salva-vidas estiver seguro."
Carter inclinou-se à frente.
"Então, a questão é: o que fazemos agora?"
Ninguém respondeu.
Pois a resposta era traição, ou morte.
Finalmente, Blake ousou falar.
"Se nos levantarmos contra ele agora, ele vai nos apagar. O Departamento de Justiça já funciona como sua guarda pessoal. O Congresso está acuado. Os governadores estão intimidadose os tribunais, paralisados."
Donnelly concordou severamente.
"E se divulgarmos alguma coisa para a imprensa, ele nos crucificará no mesmo dia. Ele controla as redes. Os jornais. A opinião pública não é nada para ele, já enfrentou coisas piores."
As mãos de Carter tremeram um pouco.
"Então, o que fazemos? Aguardamos a dissolução da União?"
A voz de McKenna caiu para um tom calmo e firme.
"Não. Esperamos."
Blake fez cara feia.
"Esperar o quê?"
McKenna olhou ao redor da sala, encarando cada par de olhos assustados.
"Pelo inevitável. Roosevelt não consegue esconder o colapso para sempre. O Pacífico está se desintegrando. Sicília virou uma farofada, e a produção está falhando. Os estados estão cedendo sob a escassez. Mais cedo ou mais tarde, a ilusão vai se quebrar."
"E depois?" questionou Carter.
McKenna ficou sério.
"Então, o presidente não poderá mais nos silenciar. Quando a nação perceber que ele só estava preparando para salvar a si mesmo e a alguns escolhidos, seu mandato vai desaparecer. E quem sobrar capaz de manter os pedaços unidos…"
Deixou a frase no ar.
"…vai moldar o que sobrar dos Estados Unidos."
Uma compreensão sombria instalou-se na sala como poeira.
Eles não planejavam uma rebelião, mas sim a sobrevivência. Estavam se preparando para o momento em que o orgulho de Roosevelt finalmente excedesse a paciência da nação.
Porém… Talvez por essa miopia, Roosevelt não incluíra esses homens em seus planos de construir um estado-fantasma.
Pois eles não eram os únicos a perceber a tempestade que se aproximava. E diferentes facções começavam a se formar fora do controle de Washington. Incentivadas por poderes além do Atlântico. Apenas esperando o momento de explodir a bolha.