Re: Blood and Iron

Capítulo 772

Re: Blood and Iron

As ordens chegaram na manhã seguinte, lacradas com cera vermelha e carimbadas com a águia heráldica da Luftstreitkräfte.

Eles foram deslizados por baixo da porta de Heinrich antes do amanhecer, como de tradição, sem trombetas, sem cerimônia, apenas a quieta inevitabilidade do dever.

Heinrich acordou antes do sol, como sempre fazia. Um hábito que Erwin lhe ensinara anos atrás:

Acordar com o mundo, não atrás dele.

Ele se ajoelhou, pegou o envelope, quebrou o selo e leu.

DESTINAÇÃO: 3ª Ala Aérea, Jagdgruppe 11

LOCALIZAÇÃO: SICÍLIA

RELATÓRIO: IMEDIATAMENTE

Ele segurou o papel entre os dedos por um longo momento, deixando o peso se assentar.

Não era medo que se infiltrava nele, era a sensação de atravessar um limiar.

Berlim estava segura, até mesmo a escola de aviação, por mais rigorosa que fosse, tinha sido segura. A Sicília, não.

Ele se levantou, vestiu seu uniforme de voo, abotoou o arnês, e colocou sua arma de lado com um movimento treinado. Cada peça de equipamento de repente parecia mais pesada do que no dia anterior.

Saiu de seu dormitório com passos silenciosos, carregando apenas sua mala de viagem e suas insignias de piloto.

A brisa da manhã sobre a capital carregava um frio que se infiltrava pelas luvas de Heinrich.

A cidade começava a despertar, padarias abrindo cedo, policiais patrulhando ruas enreguescidas de névoa, trens ecoando pelos túneis.

Uma manhã comum em um mundo que tinha esquecido o distante trovão do fogo de artilharia. Heinrich passou pelo pátio da academia, cruzando outros formandos indo para suas próprias missões.

Alguns rumavam para a França, outros para Escandinávia, outros ainda para esquadrões de treinamento.

Heinrich recebeu acenos, cumprimentos, sorrisos breves, mas ninguém o parou.

Ninguém ouse interromper um homem que caminhava rumo à guerra pela primeira vez.

No portão, um velho zelador parou de varrer para olhá-lo.

"Jovem Zehntner?", perguntou, com voz áspera como pedra britada.

Heinrich assentiu.

O zelador engoliu em seco uma vez, depois ajustou o chapéu.

"Deus te acompanhe, filho… Deus te acompanhe…."

Heinrich sentiu algo frio torcer no peito, e ainda assim forçou-se a retornar o cumprimento silenciosamente, com um olhar de convicção estampado no rosto.

O homem acenou, satisfeito, e voltou a cumprir suas próprias tarefas.

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O trem rumo à base aérea cortava a Alemanha como uma veia de aço. Heinrich estava sozinho em seu compartimento, observando a paisagem passar.

Florestas de pinheiros, rios inchados pelo derretimento da primavera, vilarejos tão pacíficos que pareciam irreais.

Ele mantinha suas ordens no colo, abertas, como se a tinta pudesse mudar se ele desviasse o olhar.

Sicília.

Erich tinha sangrado em Manila. E seu primo distante, Konrad, sofrera com o calor e o fogo de Palawan.

Agora Heinrich iria sofrer no Mediterrâneo defendendo as forças no solo, onde seu primo e o futuro Kaiser estavam lutando com sangue, suor e lágrimas.

Na próxima parada, um grupo de infantaria embarcou e passou pelo compartimento de Heinrich.

Eles olhavam para sua insignia de piloto com algo entre admiração e inveja.

Um parou e fez continência.

"Boa sorte lá em cima, senhor."

Heinrich retribuiu o gesto com firmeza.

"E você aí embaixo."

O soldado sorriu. "Vamos tentar não deixar os italianos nos alvejar antes que você tenha chance de revidar."

Heinrich quase sorriu.

Quase.

A viagem para o sul durou horas, entre paradas para reabastecimento e mensageiros levando despachos lacrados.

Quando a aeronave de Heinrich cruzou o Mediterrâneo, o mar se estendia abaixo como uma chapa de cobre martelada.

Ele viu Sicília antes de senti-la.

Uma ilha acidentada de falésias, poeira e montanhas irregulares, coroada por nuvens de fumaça onde o artilharia e baterias navais trocavam brindes com posições americanas.

O aeródromo entrou em vista, uma cicatriz esculpida no terreno alto, cercada de bunkers, torres anti-aéreas e sites de mísseis superfície-ar.

Aeronaves destruídas jaziam na extremidade da pista, restos esqueléticos de combates aéreos que aconteceram há poucas horas.

Os pneus bateram com força no pavimento.

No instante em que o avião parou, a escotilha se abriu, e o calor bateu na face de Heinrich como uma explosão de fornalha. O cheiro de combustível de aviação misturava-se ao solo queimado e ao aroma do vento marítimo.

Um homem de uniforme de oficial, manchado de areia, avançou em sua direção, com uma prancheta sob o braço.

"Leutnant Heinrich von Zehntner?"

"Sim."

"Sou Oberleutnant Krüger, oficial executivo da Jagdgruppe 11. Bem-vindo à Sicília."

"Seu equipamento vai para a instalação ao lado do alojamento três. Sua aeronave está no hangar sete. A instrução começa em trinta minutos."

Heinrich fez a saudação.

Krüger olhou-o com o olhar de um veterano, avaliando não a patente, mas o aço.

"Você voa bem?" perguntou simplemente.

Heinrich apertou a mandíbula.

"Se eu não voasse bem, não estaria aqui."

Um sorriso sutil passou pelo rosto de Krüger.

"Boa resposta."

O calor dentro do hangar era pior do que lá fora, aprisionado sob chapas de metal e fumaça de diesel. Mecânicos se agitavam como formigas sobre uma linha de aeronaves sendo rearmadas e reabastecidas.

Ele se aproximou de sua máquina designada, uma caçadora elegante e angular, com nariz reforçado e asas varridas.

A aeronave era diferente de tudo que ele já tinha visto antes, e ele chamou o Oberleutnant em choque:

"Como é que essa coisa voa? Não tem hélice!"

O Oberleutnant riu e, passando a mão pelo fuselagem, comentou:

"Você acertou. Ela funciona com um turbojato. Sua designação oficial é Me. P-110, mas a gente chama de Hündin. Porque ela voa duro, rápido, e você não quer ver quando ela está toda incendiada…."

Um mecânico levantou o olhar enquanto calibrava o sistema de armas.

"Você deve ser o novo substituto…"

"Isso mesmo…." Heinrich assentiu levemente.

O mecânico sorriu de lado. "Certo… Antes de você dar a primeira volta, deixa eu te explicar uma coisa. Você vai atingir velocidades que os nerds de Berlim que criaram isso aqui chamam de 'transônica.' Traduzindo: a velocidade máxima dessa coisa é cerca de mil quilômetros por hora. Então, lembre-se disso antes de se precipitar no chão. Porque não vou limpar sua bagagem destruída. Entendido?"

O pulso de Heinrich parou.

Mil quilômetros por hora? Era quase o dobro da velocidade de um PTL-8 comum. E parecia que outros benefícios estavam sendo concedidos à plataforma enquanto ele se acomodava na cabine, encaixando-se na cadeira de couro.

Os controles pareciam mais pesados do que os modelos de treinamento. Os instrumentos vibravam levemente, vivos de energia estática. Era uma máquina feita para matar, e para resistir às tentativas de matá-la.

E havia outras coisas que ele notou instantaneamente: aviônicos, radar embutido, e claro, os mísseis de acerto infravermelho recém-emitidos, que podiam ser acionados com um simples botão no manche.

Ele descansou as mãos no manche, exausto pelo peso da responsabilidade, pelos desenvolvimentos contínuos no campo de batalha, e pelo puro espanto de estar presenciando tudo aquilo.

Este era o seu novo lar.

Ou seu túmulo.

Ele inspirou lentamente e saiu novamente.

Não tinha mais tempo para se familiarizar com sua nova nave, pois uma instrução o aguardava.

Dentro da cabana de comando, um mapa da Sicília dominava a parede. Linhas de setas vermelhas e azuis se chocavam como ondas opostas. Zonas de desembarque americanas. Corredores de contra-ataque alemães. Áreas de espaço aéreo marcadas com canetas pretas grossas.

O comandante da esquadrilha, Hauptmann Friedrich Albrecht, estava na frente, com a presença de um homem que há muito aceitou a morte e decidiu fugir dela.

Ele falou aos pilotos reunidos sem floreios.

"Senhores," disse, "a situação é simples."

Apontou para a costa.

"Os americanos desembarcaram aqui e aqui. O objetivo deles é estabelecer uma cabeça de ponte e avançar para o interior. Nosso é garantir que isso não aconteça, e que eles continuem a sangrar nas praias. Vocês farão missões de interdição, interceptação e superioridade aérea. Esperem resistência pesada de artilharia antiaérea e caças."

Ele varreu o olhar pela sala.

"Se forem abatidos, rezem para cair do lado de cá. Os americanos não fazem prisões facilmente."

Um sussurro percorreu o ambiente.

Heinrich não pisqueu.

Os olhos de Albrecht se fixaram nele.

"Você é o novo substituto?"

"Sim, senhor."

"Ótimo," disse Albrecht. "Precisamos de todos os homens possíveis no ar. Faça seu trabalho, e bem feito, e pode ser que tenha sorte de ver uma cruz de ferro antes de partir. Se não… Bem, boa sorte…."

Heinrich manteve o rosto impassível, mas as palavras gravaram algo cortante em seu peito.

A instrução seguiu com sinais de chamada, frequências de rádio, procedimentos de emergência, limites de combustível. Os mecânicos distribuíram mapas e registros de missão.

Quando terminou, Albrecht falou novamente, em tom mais suave.

"Alguns de vocês não irão sobreviver à primeira semana. Outros não passarão de amanhã. Mas se vocês manterem essa ilha… o Reich manterá o Mediterrâneo. E se mantivermos o Mediterrâneo… decidiremos o destino da Europa."

Sua voz se elevou.

"Vocês são guerreiros do céu. Actuem como tal."

Heinrich se levantou, fez a saudação, e a sala ecoou com o som das botas se ajustando em atenção.

A noite caiu rapidamente sobre a Sicília, quente e úmida, carregando o trovão distante do artilharia.

Heinrich sentou-se na beira de sua cama, limpando a pistola P35 que lhe fora concedida. O metal clicava suavemente, firme, ritmicamente, o som de preparação.

Amanhã ele voaria.

Amanhã ele entraria no céu sobre o campo de batalha. Onde toda sua família lutara no chão, no meio das trincheiras e colunas blindadas. Ele seria o primeiro cavaleiro do céu a carregar o sobrenome von Zehntner.

Ele olhou para as asas douradas na tala de seu uniforme.

Deus conosco.

Ele respirou fundo.

"E se Deus não vier," sussurrou, "então eu irei sem Ele."

Ele guardou a pistola na cinta.

Sicília logo aprenderia seu nome.

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