
Capítulo 796
Re: Blood and Iron
Erich mal havia terminado seu cigarro quando o rádio na cintura mugiu.
"Falke-Actual, aqui é o Comando de Mindanao. Você me ouve?"
Ele destravou o fone, já irritado.
"Comando de Mindanao, aqui é Falke-Actual. Pode falar."
Ouviu-se o sussurro tênue de um relé criptografado que subia ao céu e retornava.
"Pacote de reconhecimento de inteligência visual completo," disse a voz. "Reconhecimento orbital e aéreo confirma sua avaliação preliminar. Repita: forças regulares americanas evacuaram totalmente Mindanao. Elementos hostis remanescentes são identificados como batalhões expedicionários cubanos, milícias leais às Filipinas e partidários irregulares de aldeia. Nenhuma formação de combate significativa dos EUA permanece na ilha."
Erich fechou os olhos por um instante.
Claro.
"Entendido," disse com tom monótono. "Há quanto tempo vocês têm essa confirmação?"
Uma pausa.
"Indicadores de movimento inicial foram sinalizados há trinta e seis horas. Confirmação do padrão completo… aproximadamente oito horas."
O maxilar de Erich contraíu-se.
"E quando," perguntou, com a voz bem calma, "vocês pretendiam compartilhar isso com a brigada que está sangrando?"
Outra pausa. Dessa vez, mais longa.
"Aguarde pelo enlace superior," disse rapidamente o operador.
A linha fez um clique e foi reconfigurada. Uma nova voz entrou, mais velha, mais suave, o tom de alguém que passa mais tempo atrás de mesas do que atrás de rifles.
"Oberst von Zehntner," começou a voz. "Aqui é o Oberst i.G. Reinhardt, ligado ao staff do Generaloberst von Witzleben. Você está falando com a seção de operações do comando de teatro. Seu relatório foi recebido e confirmado. Bom trabalho."
Erich encarou a selva por um instante, depois cerrando os dentes.
Então é isso.
"Entendido," disse de forma seca. "Quanto tempo faz que vocês têm essa confirmação?"
Mais uma pausa.
"Os sinais iniciais de movimento foram detectados há trinta e seis horas. Confirmação completa do padrão… aproximadamente oito horas."
O queixo de Erich travou.
"E quando," insistiu, com uma calma que quase parecia gelada, "vocês planejavam compartilhar isso com a brigada que está na linha de fogo?"
Outra pausa, mais longa ainda.
"Aguarde pelo enlace com o oficial de ligação sênior," respondeu rapidamente o operador.
O som do clique voltou, seguido por uma troca de voz. Uma voz mais antiga, mais suave, o tom de alguém que já passou mais tempo em escritórios do que em combate.
"Oberst von Witzleben," começou a voz, "Aqui é o Oberst i.G. Reinhardt, ligado ao staff do Generaloberst von Witzleben. Você está falando com a seção de operações do comando de teatro. Seu relatório foi recebido e confirmado. Boa iniciativa."
Erich encarou a mata por um instante, depois rangeu os dentes.
"Então," disse, "você reconhece que tudo que eu arrisquei homens para verificar já estava na sua mesa."
Reinhardt não elevou o tom.
"Coronel," disse, "os dados de reconhecimento visual são filtrados com base na necessidade de todo o teatro. O objetivo da sua brigada não mudou. Vocês deviam localizar e destruir formações inimigas no seu setor. Se essas formações forem americanas ou cubanas, isso não altera substancialmente a instrução. Eles usam as mesmas rifles, as mesmas metralhadoras, a mesma artilharia. Eles morrem do mesmo jeito."
"Essa é sua justificativa?" Erich rosnou. "Estamos aqui passando por selva e armadilha, e você decidiu que não era 'relevante o suficiente' nos informar que a principal ameaça já virou as costas e fugiu?"
Um cabreneralinho perto tentou ao máximo não ouvir. A voz de Reinhardt permanecia insuportavelmente neutra.
"Do ponto de vista do planejamento operacional, a diferença é pouca. A capacidade de combate inimiga na ilha continuava alta, independentemente da nacionalidade. Suas regras de engajamento, sua missão e seu ritmo permaneceram os mesmos."
Erich riu uma vez, sem humor.
"Ritmo," repetiu. "Quer falar de ritmo do seu bunker com ar-condicionado?"
Ele virou-se, olhando de volta para as árvores em chamas onde suas companhias avançadas estavam se reagrupando.
"Ouça bem, Oberst," disse. "Se eu soubesse que estávamos enfrentando amadores de segunda linha, não armados, e não forças americanas de verdade, eu teria avançado duas vez mais rápido, duas vezes mais forte. Passamos as últimas quarenta e oito horas tratando cada confronto como se estivéssemos enfrentando o melhor deles. Cautelosos, metódicos, conservadores."
Cuspi na lama.
"Se eu soubesse que eram apenas cães vadios, tinha passado por cima deles ontem mesmo."
Reinhardt suspirou, com uma rachadura sutil na fachada.
"Sua cautela manteve suas perdas ao mínimo, coronel," disse. "O Comando de Mindanao não é habitual reclamar quando uma brigada alcança seus objetivos sem jogar corpos na máquina de destruição."
"Meus homens não precisam que vocês os protejam de mim," replicou Erich. "Precisam que vocês forneçam informações precisas para que possam concluir a missão dentro dos parâmetros ideais."
Ele respirou fundo, tentando relaxar a mandíbula.
"Vocês guardaram para si informações de que os americanos já tinham passado por cima. Nos robbed de aproveitar o colapso no auge. Cada hora que eles precisaram reforçar com novos soldados, montar novas armadilhas, envolver mais aldeias na luta, é sangue que pago agora porque vocês não quiseram ajustar seus malditos slides de briefing."
Pelo menos essa parte pareceu doer.
"Coronel," disse Reinhardt após um instante, "com todo respeito, você não é a única unidade na ilha. O fluxo de informações deve ter prioridade."
"Não estou pedindo toda a sua inteligência," disse Erich. "Quero uma frase: 'Americanos derrotados. Apenas oficiais auxiliares permanecem.' É só isso. Dez palavras. Você poderia ter dito entre uma rodada de café."
Um chiado de interferência preencheu o silêncio que seguiu.
"Você está emocional, Oberst," disse Reinhardt com firmeza. "Compreensível. Você esteve em rotação contínua de combate. O comando de teatro avalia a necessidade em um nível estratégico. Nesse nível, quem empunha uma rifle em Mindanao importa menos do que o fato de alguém ainda estar lá."
Erich sorriu, mas não havia calor na expressão.
"E é isso," murmurou. "Necessidade estratégica."
Ele ajustou o fone.
"Me diga uma coisa, Reinhardt. Quando você voltar pra casa e escrever suas memórias sobre como ajudou a 'coordenar a campanha do Pacífico de uma sala de mapas', vai mencionar a parte em que considerou uma evacuação de forças americanas uma mera nota de rodapé? Ou isso vai ser um anexo?"
"Oberst…"
"Não," interrompeu Erich. "Preste atenção. Não estou pedindo um favor. Estou dizendo como isso parece do chão de guerra."
Ele fez um gesto vago para a selva ao redor, embora o homem não pudesse vê-la.
"Aqui fora, suas 'pequenas distinções' são a diferença entre uma luta dura e uma retirada desordenada. Entre risco calculado e cautela desperdiçada. Se eu soubesse que estava lutando contra marionetes com os fios cortados, poderia ter avançado reto até a costa. Talvez cortando mais alguns navios antes que deixassem o porto. Isso é efeito estratégico."
Reinhardt ficou em silêncio por um longo momento.
"O Generaloberst não vai considerar uma queixa com esse tom, coronel," finalizou.
"Ainda bem que não planejava reclamar," respondeu Erich. "Planejei ajustar minhas ações."
"…Explicite."
Os olhos de Erich se arregalaram.
"Você confirmou minha avaliação. Era tudo que eu precisava de você. A partir de agora, minha brigada não vai tratar esses engajamentos como se estivéssemos lutando contra o melhor dos americanos. Vamos explorar as fraquezas. Vamos assumir que suas reposições não têm disciplina, resistência ou doutrina. Vamos avançar cada centímetro. Espero que o Comando de Mindanao acompanhe."
A voz de Reinhardt ficou fria.
"Você está insinuando que vai ignorar futuras ordens?"
"Cumprirei minhas ordens," disse Erich. "Mas as interpretarei com o entendimento de que o alto escalão costuma subestimar o quanto podemos avançar quando vocês nos deixam soltos."
Deixou a frase no ar.
"Mais alguma coisa, Oberst?"
Reinhardt respirou fundo lentamente.
"…Negativo. As atualizações de reconhecimento visual serão enviadas ao seu quartel assim que disponíveis."
"Ótimo," disse Erich. "Tente enviá-las antes que se tornem notas históricas na próxima."
Ele fechou a conexão sem esperar resposta.
Por um instante, ficou ali parado, com o fone ainda na mão, ouvindo o trovão distante de artilharia e o crepitar de tiros dispersos.
Um de seus capitães aproximou-se, com lama até os joelhos.
"Problemas lá de cima, senhor?"
Erich colocou o rádio de volta no arnês.
"Nada que a gente não possa resolver sozinho," disse. "Passe a mensagem: os americanos já se foram. O que resta são cubanos, milícias leais e aqueles pobres desafortunados que colocaram uma farda depois do café da manhã."
As sobrancelhas do capitão se franziram.
"Confirmado?"
"Dos próprios idiotas que não nos disseram na primeira oportunidade," respondeu Erich. "Então, sim. Confirmado."
Sorriso afiado do capitão.
"Nesse caso, senhor… peço permissão para parar de tratar eles como se soubessem o que estão fazendo."
Erich chegou a rir baixinho.
"Permissão concedida. Aumente o ritmo. Noite adentro, reconhecimento agressivo, nada de ficar cuidando das linhas laterais como se fosse fazer um contra-ataque milagroso. Se quebrarem, não vamos deixá-los se recompor. Vamos acabá-los."
"Sim, senhor."
O capitão saiu correndo, já gritando ordens.
Erich acendeu outro cigarro, a chama iluminando brevemente a expressão dura de seus traços.
Mais acima, um avião de reconhecimento zumbia invisível na escuridão. Ainda mais alto, um satélite percorria sua órbita, observando tudo com lentes indiferentes.
Eles viam tudo.
Sempre viam.
O problema nunca era o que eles assistiam.
Era quem eles se esforçavam para contar.
Erich deu uma tragada e começou a caminhar em direção à linha de frente.
"Tudo bem," murmurou. "Você guarda seu valioso intel. Nós nos viramos com o que temos."
A brasa do cigarro brilhava enquanto ele exalava.
"E quando esta ilha finalmente ficar silenciosa," acrescentou baixinho, "eles podem colocar isso nos relatórios também."