Re: Blood and Iron

Capítulo 797

Re: Blood and Iron

Os telegramas chegavam um após o outro, empilhados tão altos na mesa de Roosevelt que sua mão tremia e não conseguia mais afastá-los.

Assistentes iam e vinham como fantasmas, deixando novas pastas, novos relatórios, novas estimativas de baixas.

As lâmpadas queimavam fracas na vila de comando de Delaware, lançando uma luz amarelada por toda a sala e fazendo a fadiga marcada no rosto de Roosevelt parecer quase de cadáver.

Ele não dormia há trinta e seis horas, duvidava que fosse dormir novamente.

Uma batida suave na porta.

— Senhor presidente? — Era o Subsecretário Hall. Sua voz carregava aquela ponta dura que Roosevelt passara a temer. — As últimas informações do Ministério da Guerra. Sicília… Norte da África… Filipinas…

Roosevelt não levantou o olhar. — Deixe-os aqui.

Hall colocou a pasta cuidadosamente na mesa, como se seu conteúdo fosse algo venenoso.

Um momento passou.

Então Hall sussurrou, como se dizer as palavras alto demais pudesse desmoronar o que restava da nação:

— Senhor… eles sabem.

Roosevelt teve a mão parada no ar, congelada.

— Quem?

— O povo americano.

Um fraco rugido veio de fora, gritos, buzinas, o murmúrio indistinto de milhares. Os protestos começavam duas horas antes em Wilmington.

Agora se espalhavam por Filadélfia, Nova York, Chicago e St. Louis.

Pessoas lotando as ruas, exigindo respostas, agitando fotos de filhos que não escreviam há meses. Estavam exigindo a verdade.

Roosevelt sentiu uma dor terrível no peito.

— Controlávamos os jornais — ele conseguiu gaguejar — geríamos as transmissões de rádio. suprimíamos os números de baixas. Como eles descobriram?

Hall engoliu em seco.

— Senhor… muitos homens não voltaram — ele disse com dificuldade — muitas telegramas marcaram ‘desaparecido’, ‘não confirmado’ ou simplesmente não foram enviadas. Quando a Sicília caiu, emitimos uma nota falando em ‘reposicionamento estratégico’… mas os navios chegaram a Nova York com uma fração das tropas que deveriam estar a bordo. Centenas de esposas aguardavam nos cais e viram vagões vazios, berços vazios. Alguns soldados começaram a falar. E esses infiltrados do Werwolf amplificaram tudo. Rumores se tornaram verdades muito mais rápido do que conseguimos censurar.

Roosevelt recostou-se, a dor no estômago se torcendo como uma faca.

O Grupo Werwolf fora uma preocupação no ano passado. Agora era gasolina numa floresta seca de incêndio.

Ele abriu a pasta.

A primeira manchete de um jornal underground interceptado bateu nele com mais força do que qualquer bomba alemã poderia:

— SICÍLIA PERDIDA — 600.000 MORTOS? CASA BRANCA SILENCIOSA.

Outra:

— RETROCESSO NAÁFRICA: APENAS UM EM CADA DEZ RETORNAM.

Uma terceira:

— FILIPINAS CAÍRAM — FAMÍLIAS EXIGEM RESPOSTAS.

Sua visão turvou, e Hall permaneceu em silêncio. Lá fora, o barulho aumentava.


Em outros lugares na América, o caos começava a se espalhar.

Em Detroit, multidões invadiram o prédio federal, apedrejando-o com pedras e garrafas quebradas.

As barricadas policiais resistiram poucos minutos; após tudo o que aquela cidade tinha passado na última década — tumultos, escassez, purgas políticas — ninguém tinha mais vontade de lutar.

Em Kansas City, uma coluna de fazendeiros enfurecidos derrubou caminhões do exército carregados de grãos racionados, gritando que seus filhos “estavam apodrecendo na Sicília à toa.”

Em Dallas, um apresentador de rádio local desobedeceu ordens federais, lendo ao vivo números vazados de baixas.

A estação foi invadida dez minutos depois, mas a mensagem já tinha sido espalhada. Pessoas se reuniam nas ruas com rifles, desafiando os agentes federais a tentarem de novo.

Na Califórnia, os estivadores abandonaram os cais de uma vez.

— Chega de navios — disseram — até que saibamos a verdade.

A propaganda do Werwolf, misturada a verdades desconfortáveis, se espalhava como fogo em meio a essas fraturas.

Panfletos escorriam por baixo das portas, transmissões em bandas não autorizadas, homens com inglês perfeito e origens suspeitamente vagas sussurrando que Washington havia traído seu próprio povo.

E em cinco estados, o ponto de ruptura finalmente se abriu.

Hall entregou a Roosevelt mais um telegrama, agora com selo vermelho e urgência evidenciada.

As mãos de Roosevelt tremiam ao desdobrá-lo.

— Alabama, Geórgia, Mississippi, Arkansas e Carolina do Sul declararam uma suspensão coordenada da autoridade federal. Guardas estaduais foram mobilizados.

Movimentos de milícia estão formando anéis defensivos ao redor de infraestruturas estratégicas.

Louisiana e Tennessee ‘estão considerando ações similares’.

Roosevelt sentiu seu pulso disparar irregularmente. A visão se escureceu nas pontas.

— Cinco estados… — ele tossiu rouco — se separando?

Hall manteve a expressão implacável.

— Eles não usam essa palavra, senhor. Chamam de ‘soberania temporária’ até que o governo prove que não mentiu sobre a guerra.

Roosevelt fechou os olhos.

Mas a voz do passado, a sua própria voz, insistia em sussurrar em seus ouvidos:

Precisamos entrar na guerra para manter a estabilidade. Não podemos revelar as perdas. O povo deve acreditar que a vitória é inevitável.

Que tolo tinha sido.

Roosevelt se levantou lentamente.

As pernas tremiam sob o peso das verdades que passou dois anos tentando evitar.

— Precisamos falar ao país — disse.

Hall e Marshall trocaram um olhar.

— Senhor — disse Hall com cuidado — se você aparecer na rádio admitindo essas perdas… os demais estados podem seguir os cinco primeiros. O estado de sítio será impossível de impor. As cadeias de suprimentos podem colapsar. As cidades podem se revoltar.

— E se eu não fizer? — sussurrou Roosevelt.

Marshall respondeu sério:

— Então a multidão lá fora vira o país todo.

Roosevelt caminhou com dificuldade até a janela que dava para Wilmington. As ruas abaixo fervilhavam de gente — irritada, enlutada, traída. Alguns carregavam cartazes. Outros, rifles. Todos carregavam perdas.

Por um momento, sentiu algo se quebrar dentro de si, o fio final de esperança se rompendo sob uma tensão impossível.

— Essa guerra… — ele exalou tremendo — era pra unir a nação. Restabelecer a fé. Reconquistar o futuro.

A voz de Marshall foi carregada de pena.

— Guerra nunca faz o que queremos, senhor presidente.

Roosevelt fixou o olhar na luz tremulante dos carros virando na distância.

— Quanta nossa força militar restante? — perguntou.

Marshall deu de ombros, sem esperança.

— Ainda temos a Frota do Atlântico, embora maltratada. Alguns poucos Divisões ainda estão nos estados. A Guarda Nacional. Mas o apoio público a novas convocações acabou. As fábricas entram em greve. A produção de munições diminuiu quarenta por cento. Até a campanha de Selos de Guerra colapsou — estão queimando pôsteres na rua.

Uma pausa.

— E a propaganda do Werwolf só acelera tudo. Alimentam cada medo, cada rumor. Incentivam os estados a se separarem. Sugerem que a Alemanha ‘vai poupar’ qualquer região que se afaste de Washington.

Roosevelt teve a respiração prendida.

— Temos leais nesses estados — tentou desesperado.

— Sim — respondeu Marshall — mas cada hora são menos.

De repente, o rádio chiarrou.

Um assistente entrou na sala, rosto vermelho.

— Senhor presidente! Uma transmissão de emergência percorrendo o país, parece uma frequência pirata.

Ele colocou o rádio na mesa e aumentou o volume.

Uma voz calma, confiante, ecoou pelo som ambiente — alemã, mas falando inglês sem sotaque.

— Povos da América, vocês foram enganados. Seus filhos foram enviados à Sicília, Espanha, Norte da África e Filipinas para morrer por políticos que nunca tiveram intenções de dizer a verdade. Mas as Potências Centrais não têm disputa com o povo, apenas com aqueles que mais uma vez trouxeram o mundo à guerra. Seus filhos não morreram para libertar a Europa da tirania. Mas para defender aliados que provocaram uma guerra que não poderiam vencer sozinhos. Ofereço minhas condolências e sabedoria neste momento sombrio. Saíam deste regime colapsado, exijam soberania, exijam paz.

Roosevelt bateu o punho na mesa.

— Desligue isso! Agora!

O assistente desligou rapidamente o sinal.

Roosevelt recuou, o rosto pálido como fantasmas.

— Estão incentivando a secessão — ele sussurrou — por ondas de rádio abertas.

— Não é só incentivo — acrescentou Hall — estão coordenando tudo. Xefes de polícia na Alabama e Mississippi receberam ‘orientações’ anônimas de operativos alemães. Arsenal da Guarda Nacional já foi invadido. Senhor… podemos estar enfrentando rebelião interna e invasão externa ao mesmo tempo.

O peito de Roosevelt apertou-se. Agarrava-se à parte de trás da cadeira para não desabar.

— O que fazemos? — perguntou suavemente Hall.

Roosevelt fechou os olhos.

Por um momento, permitiu-se imaginar um mundo diferente, um mundo onde os desembarques deram certo, onde a Sicília resistiu, onde os meninos americanos voltavam como heróis, não como nomes nos telegramas.

Uma fantasia. Nada mais.

Abriu os olhos, mais velho, mais brilhante, mas decidido.

— Resistiremos — afirmou. — Os estados do Nordeste permanecem fiéis. Vamos consolidar. Vamos suprimir as células do Werwolf. Cortaremos laços federais com os estados rebeldes até que as negociações sejam abertas.

— E se as negociações nunca acontecerem? — perguntou Marshall.

Roosevelt se equilibrou na mesa.

— Então, encontraremos uma forma de manter a União viva — respondeu com amargura — mesmo que precise reconstruí-la das cinzas. Mesmo que leve cem anos para isso!

Do lado de fora, a América ardia. Mas, dentro do bunker escuro, Roosevelt encarou finalmente a verdade que passou dois anos evitando:

A América estava morrendo, não pelos canhões alemães, mas pelo peso de suas próprias mentiras, suas vitórias vazias e suas ilusões destruídas.

E, em algum lugar do outro lado do oceano, as Potências Centrais observavam com frieza a República se desfeitar.

Roosevelt afundou na cadeira, encarando a escuridão. Quase podia sentir a sombra de Bruno se estendendo pelo continente como um eclipse.

A guerra tinha acabado... Bruno sabia — o mundo também. E, bem no fundo, na escuridão corroída de sua alma… Roosevelt também sabia.

Mas saber não mudava nada.

Mesmo enquanto a União se desintegrava, enquanto os estados se separavam, enquanto os mortos voltavam em silêncio, Roosevelt sentia a faísca teimosamente morta de resistência arder mais forte em seu peito.

Ele iria lutar até o fim. Se não para vencer, ao menos para impedir que Bruno conquistasse uma vitória limpa, incontestada, que ele mesmo havia esculpido no mundo.

Uma última mentira, uma última luta.

Um presidente governando cinzas, relutante em abandonar uma guerra que já consumira sua nação.

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