Re: Blood and Iron

Capítulo 757

Re: Blood and Iron

O mar era um vidro preto, ondulando sob um céu azuredado. A chuva caía em cortinas inclinadas, picando os homens agachados de ombro a ombro na lancha de desembarque.

O motor a diesel rangia como um animal enjaulado sob aço, sua respiração misturando-se com sal e medo.

O soldado Miller segurava sua espingarda Garand até as mãos ficarem brancas. Ele mal conseguia ouvir o sargento acima do barulho.

"Dois minutos! Verifiquem o equipamento! Mantenham a cabeça baixa quando a rampa abrir!"

Algum lugar lá fora, além da névoa cinza, a Espanha do Sul esperava. A sombra de Gibraltar surgindo como a fortaleza do próprio mundo.

O plano era simples: desembarcar, conquistar a cabeça de praia, avançar pelo interior. Mas os planos morriam rápido assim que as balas começavam a voar.

E voaram mesmo.

Os tracers rasgavam o horizonte, âmbar e verde, deliberados e espaçados. Alguém sussurrou,

"Já estão nos vendo."

Os tiros cortavam a neblina, linhas vermelhas atravessando a água em chicotes.

Um instante depois, veio o som, o grito profundo e retumbante das MG-38Es começando a abrir fogo vindo dos penhascos.

Era um barulho que nenhum homem poderia confundir, uma sinfonia de ódio mecânico, mais afiada e rápida do que tudo que os Yankees tinham enfrentado na África.

"Abaixem! Mantenham-se no chão!"

A primeira onda desapareceu em segundos. Os barcos sumiram em colunas de jato d'água; homens gritavam enquanto fragmentos rasgavam capacetes e carne.

O estômago de Miller despencou quando o cocheiro gritou, "Ramp em cinco, quatro, três…"

A rampa se abriu com um cado metálico, e a luz do dia entrou junto com o fogo de armas.

Homens saíram escorregando até a cintura na água que já começava a ficar rosada. Miller correu, com a espingarda acima da cabeça, tropeçando em corpos e caixas quebradas.

Os espanhóis seguravam a primeira linha, enfiados nas dunas, com MG-34s batendo como máquinas de escrever da morte.

Seus uniformes caqui de lã estavam encharcados de escuro, capacetes de aço brilhando opacos na garoa. Atrás deles, equipes de morteiros gritavam em espanhol, suas rajadas cruzando a praia.

"Move! Move!"

Ele caiu na areia, rastejou, com a boca cheia de areia úmida. À frente, uma equipe de lança-chamas não chegou a tempo, um disparo do cume do penhasco atravessou os dois homens, incendiando os tanques carregados nas costas deles.

O fogo os consumiu em segundos, junto com os soldados ao lado, o cheiro de cabelo queimado era forte o suficiente para saborear.

Miller arriscou um olhar para cima. No cume, figuras sombrias se movimentavam como fantasmas, russos com uniformes de algodão padrão TTsMKK, capacetes de aço escorrendo com chuva.

Eles atiravam em duplas, disciplinados, implacáveis. Para cada homem que caía, outro avançava.

Mais alto ainda, acima deles, os verdadeiros monstros trabalhavam.

Então veio o próximo ritmo: o rosnar mais rápido e profundo das MG-38Es, as novas metralhadoras do Reich, descendentes do design dos Fantasmas de Argel, agora aprimoradas para uso de infantaria.

As armas cruzavam pelo fogo com cadência perfeita, rasgando homens em rajadas tão curtas que pareciam cirúrgicas.

Infantaria alemã com uniformes Blumentarn, capacetes de aramida e coletes à prova de balas grudados ao peito, deitou-se atrás de sacos de areia entrelaçados.

As MG-38Es martelavam de tripés, enquanto rifles StG-35 disparavam em rajadas políticas e eficientes.

Pela névoa, pareciam inumanos, sem cor, deliberados, fantasmas esculpidos de terra e aço.

Miller atirou de volta, suas balas se perdendo na tempestade. "Jesus Cristo, eles têm armadura!"

Ele viu uma rodada acertar um alemão no peito, e nada acontecer.

"Armadura?" o sargento cuspiu. "Que tipo de…" Sua voz desapareceu com a explosão de artilharia que o apagou da existência.

O próprio ar se rasgou.

Um barco de desembarque de tanques conseguiu chegar à praia, mas explodiu quando uma granada russa de 7,5 cm achou seu alvo.

A torre virou uma roda de carroceira a cinquenta metros, jogada pelo fogo na chuva.

Miller se jogou no chão, tremendo, contando respirações. Ao seu redor, homens gritavam por médicos, por munição, por Deus.

A praia virou um mar de sangue e aço.

O esquadrão de Miller rastejou até a carcaça de um meia-trilha, cujo casco fumegava na chuva. Ele enfiou um carregador novo. "Onde está o comando?"

"O comando sumiu," murmurou um cabo, com sangue escorrendo pelo queixo. "Agora somos nós."

Uma onda de espanhóis surgiu das trincheiras à frente, baionetas firmes, rezando em voz alta.

Miller atirou até que o estalo do carregador vazio da sua espingarda ecoasse na cabeça dele. Tirou a pistola e continuou disparando até que a linha de ataque se rendesse.

Os espanhóis caíram um a um, com coragem arrastando-os vinte metros do mar antes de serem abatidos.

A chuva virou vapor onde as explosões atingiam. Fumaça pendia como pano úmido, e Miller conseguiu sentir o gosto de cobre na garganta.

Tentou rastejar em direção a um crater, mas o mundo explodiu ao seu lado. A explosão o jogou de cara no chão de areia.

Quando sua audição voltou, tudo que conseguiu captar foi o trovão monótono, constante, das MG-38Es no cume, paciente, implacável.

Ele olhou para cima e os viu claramente pela primeira vez: soldados alemães, deliberados, com os rostos pintados com faixas para se camuflar no solo.

Um deles se levantou para ajustar seu visor ótico, o colete ensopado de chuva, puxando um carregador de trinta tiros do cinturão feldgrau pendurado sobre seu colete de placas.

Ele encaixou uma munição, disparando curtas rajadas na direção, cada uma precisa, definitiva. O homem poderia muito bem ser de outro século.

Ao cair da noite, o mar virou um cementário de aço. Óleo queimado flutuava na maré, como vidro derretido.

Aqui e ali, estalos de rifles indicavam onde sobreviventes eram caçados por patrulhas espanholas ou por blindados russos em movimento pelas dunas.

Miller rastejou em direção à água, puxando o que restava do seu operador de rádio. O homem desapareceu antes mesmo da próxima onda chegar.

Acima, os penhascos brilhavam com fogo de metralhadoras alemãs, controlado, cirúrgico, absoluto.

O império de aço resistia.

Ele sussurrou uma oração que já não acreditava mais, e colou o rosto na areia molhada enquanto uma nova granada rasgava o céu.

No cume, o Generalfeldmarschall Heinrich von Koch observava a batalha se desenrolar por binóculos, as lentes refletindo fogo.

A batalha parecia quase bonita de tão perfeita, uma coreografia de fogo e futilidade.

"Baterias alternadas," ordenou. "Mantenham a ilusão de brechas. Façam-nas pensar que há falhas. Encaminhem-nas ao centro."

Um oficial russo ao lado dele, com o sobretudo encharcado de chuva, disse com sotaque alemão, "Seus homens lutam como máquinas."

Heinrich não respondeu. Conhecia bem todos os sons: MG-34 dos espanhóis, puxando e irregular, o som do esforço.

As MG-42 russas, mais constantes, famintas, velhes de guerra que se recusavam a morrer.

Mas as MG-38Es… essas cantavam com precisão mecânica perfeita.

Heinrich acendeu um cigarro, a brasa tremulando ao vento. "Eles estão aprendendo o preço da impaciência," murmurou.

Um ajudante correu até ele, sem fôlego. "Senhor, os Aliados estão tentando flanquear pelas dunas!"

Heinrich assentiu. "Deixe-os. As minas vão recebê-los adequadamente. E, se sobreviverem, encontrarão a Primeira Divisão Blindada Espanhola."

O contato russo fez o sinal da cruz enquanto rajadas brilhantes avançaram pela cabeça do desembarque.

Uma corrente de detonamentos apagou o flanco esquerdo americano. Corpos e areia se erguiam juntos numa única onda monstruosa.

"Meu Deus misericordioso," sussurrou o russo.

Heinrich exalou fumaça. "Deus deixou este lugar horas atrás."

O silêncio seguiu-se, quebrado apenas pelo sussurrar do calor das armas. A chuva havia diminuído, deixando no ar o cheiro metálico de sangue e ozônio.

Ele deu um passo à frente, com botas afundando na areia molhada, passando por umgrenadier fallen, o colete rasgado, olhos ainda fixos no mar.

"Recuperem as armas," disse Heinrich. "Primeiro as espingardas. O Reich quer cada carga contabilizada."

O ajudante deu a saudação e partiu para obedecer.

Abaixo, as fogueiras iluminavam as ondas com dourado e vermelho. Do outro lado do estreito, relâmpagos iluminavam Gibraltar, onde a próxima onda se formava.

Heinrich acendeu outro cigarro, sua silhueta se destacando contra o brilho do campo de batalha.

"Sinal para Berlim," falou suavemente. "A primeira onda foi destruída. Diga a eles…" Ele fez uma pausa, observando o horizonte em chamas.

"…Diga que o Portão Oeste segura."

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