
Capítulo 794
Re: Blood and Iron
A noite sobre o Mar Mediterrâneo era aveludada e negra, perfurada apenas pelo brilho distante das estrelas e pelos tênues fios prateados de seis bombardeiros traçando um arco elevado em direção ao Norte da África.
O Oberleutnant Keller estava no cockpit da aeronave líder, mãos levemente descansadas sobre os controles enquanto a máquina de asa delta zumbia ao seu redor.
A sensação era de que a aeronave era menos um metal e mais um ser vivo, um predador deslizando pelos céus.
Seu headset crepitou.
"Águia Um, aqui é Falcão Seis. Esquadrão de caças chegando pelo noroeste. ETA trinta segundos."
Keller ajustou o ganho. "Entendido, Falcão. Aproximem-se bem. A capacidade de interceptação inimiga é baixa, mas não arriscamos."
Abaixo deles, o brilho tênue do porto de Oran se misturava ao deserto como uma brasa morrendo.
Mesmo em altitude, Keller podia perceber o movimento: navios amontoando-se nos cais, caminhões enfrentando engarrafamentos, homens se aglomerando em direção aos píeres.
"Parece movimentado lá embaixo," sussurrou seu copiloto.
"Desespero costuma ser assim," respondeu Keller.
O navegador, Klaus, se inclinou para frente, apontando uma grade de coordenadas.
"Todos os alvos confirmados. Depósitos de combustível, junctions ferroviários, centro de comando e zonas de concentração no porto. O comando superior autoriza utilização total das cargas."
Keller assentiu uma vez. "Então, o comando vai ter o espetáculo que pediu."
O esquadrão de caças saiu em formação, interceptores de ponta fina, com ponta de agulha, asas varridas e escapamentos brilhantes.
Entraram na cortina protetora ao redor dos bombardeiros, sombras quase invisíveis que guardavam os anjos de aço.
Uma voz nova entrou na comunicação, clara, confiante, inconfundivelmente superior.
"Esquadrão Adler, aqui é o Generaloberst Kesselring a bordo da unidade de comando. Ordem final: sem meias-medidas. Norte da África deve ser tornada inutilizável para operações aliado. Confirma a prontidão."
Keller respondeu imediatamente.
"Esquadrão Adler pronto com carga termobárica completa. Iniciaremos o padrão de saturação assim que receber seu comando."
Pausa.
Depois:
"Marca."
Os bombardeiros inclinaram um pouco seus bicos, iniciando a longa descida até a altitude ideal para a liberação.
O solo se aproximava, ainda distante, ainda abstrato, mas logo se tornaria algo completamente diferente.
"Porta- cargas armados," anunciou Weiss, o bombardeiro. "Clusters termobáricos estabilizados. Vento de deriva nominal."
Keller respirou lentamente.
Nesta noite, ela seria lembrada… não como uma batalha, mas como uma purificação.
"Estamos nos corredores de liberação," disse Klaus. "O radar americano continua cego."
"Claro que sim," respondeu Keller. "Uma vez que cortam os olhos, a fera só consegue gritar."
A costa se estendia à sua frente, mais escura pela ordem de blackout, mas cheia de movimento, assinaturas de calor, pânico — tudo o que os homens abaixo achavam que era invisível.
Weiss se inclinou na luneta de observação.
"Tenho o porto. Cheio de navios, apertados demais. Muito apertados."
Keller não precisava ver. Sentia a densidade dos alvos. Quando você já soltou tantas cargas ao longo da carreira, essas coisas se tornam instintivas.
"Portas abertas," ordenou.
O avião vibrou enquanto o compartimento de bombas se abria, expondo as cargas ao ar rarefeito.
Um sino suave soou.
"Clusters lançados."
Weiss puxou a alavanca, e as bombas caíram como sementes negras na cidade adormecida.
Por um instante sem movimentos… Então, a luz nasceu.
Uma cadeia de tempestades de fogo rolou pelas bordas da cidade, flores laranja surgindo em pesadas hastes de fumaça, cada uma achatando blocos inteiros sob punhos invisíveis de sobrepressão.
"Impacto acima das projeções," murmurou Weiss. "Refúgios do porto desabando. Detonações secundárias… por toda parte."
Uma segunda esquadrilha de bombardeiros se comunicou.
"Refino destruído."
Outro:
"Linhas férreas evaporadas. Múltiplas concentrações de tropas dizimadas."
Keller observava o horizonte se inflar com fogo.
"Comece a segunda rodada," disse calmamente. "Varra o porto."
Fechou os olhos por um segundo, apenas um, para reconhecer que, lá embaixo, milhares de homens olhavam para as mesmas estrelas que ele.
Quando abriu novamente, havia apenas a missão.
"Esquadrão Adler," transmitiu. "Execute o segundo padrão."
Keller manteve o olhar fixo no horizonte cintilante, assistindo às colunas de chama subirem uma sobre a outra, como espinhas de grandes serpentes ardentes.
Mesmo dentro da cabine hermética, sentia o calor irradiando para cima, através da fuselagem, algo impossível a trinta mil pés de altitude, mas inconfundível.
"Relatório da Asa Falcão: sem oposição aérea," disse Klaus, em tom calmo. "É… estranho. Eles nem tentam enviar caças."
"Você faria isso?" murmurou Keller. "Se visse isso vindo na sua direção?"
Weiss se fez ao signo da cruz — um gesto pequeno, involuntário.
"Senhor… acha que alguém sobrevive a isso?"
Keller não respondeu. Simplesmente acelerou o propulsor para a próxima missão.
"Sobrevivência," disse, finalmente, "não é mais nosso objetivo. Apenas o fim."
Pouco antes das bombas atingirem Oran, Argélia, o cabo Anthony Reyes empurrou-se por uma multidão de soldados que inundava o cais, respirando com dificuldade ao tentar acompanhar a torrente de corpos.
"Prioridade de evacuação! Sigam em direção ao Cais D!" gritou um MP sobre o caos. "Não parem! Não voltem atrás!"
O porto era um pesadelo de barulho, motores rugindo, marinheiros berrando, guindastes balançando descontrolados enquanto as equipes tentavam lançar as últimas embarcações de socorro e carregar os últimos caminhões.
Para Reyes, parecia que todo o VIII exército tentava escapar pelo buraco de uma agulha.
Um tenente puxou seu ombro.
"Você! Seção de rádio! O comando quer uma atualização sobre as ameaças aéreas!"
Reyes levantou seu fone quebrado.
"Nada, chefe! Radar está cego, os mísseis alemães derrubaram metade das torres!"
O tenente xingou e empurrou-o adiante.
Bem acima, rastros tênues brilhavam no céu.
Um soldado apontou. "Olha! Estrelas cadentes!"
"Não," sussurrou Reyes. "Aquelas não são estrelas."
O alto-falante da base piscou.
"Ataque aéreo! Ataque aé…"
As palavras foram cortadas no meio do grito e substituídas apenas por estática.
Alguém gritou: "Corra para o abrigo!" Enquanto outro berrou: "Já era tarde!"
Reyes correu em direção a um barricada de sacos de areia quando a primeira explosão soou a quilômetros de distância, tão profunda e retumbante que vibrava em suas costelas.
"O que foi isso?" gritou um médico.
Reyes não respondeu.
Porque de repente, o horizonte se iluminou. Um anel de fogo subiu como um nascer do sol feito de gasolina. A onda de choque atingiu uma fração de segundo depois.
Ele foi lançado ao chão, batendo contra um muro de esgoto de concreto, e engolido por poeira e vento quente.
Levantar-se foi difícil, os ouvidos zumbiam.
Chamas avançavam famiosamente pelos bairros leste.
"Jesus…" gaguejou um sargento, encarando. "Estão queimando toda a cidade."
Uma segunda onda de explosões de concussão rugiu mais próxima, apagando estradas, depósitos, quartéis, tudo que um dia foi uma base militar operacional.
Reyes cambaleou adiante.
"Precisamos chegar aos navios… agora!"
Mas os píeres já desmoronavam.
Ondas dançavam na água, sem dúvida causadas pela pressão esmagadora de detonações termobáricas repetidas e constantes.
Levantavam embarcações ancoradas como brinquedos e as jogavam uma contra a outra. Enquanto isso, cargueiros se partiam ao meio, e peixes mortos saltavam à superfície em água fervente.
Homens saltaram no mar, apenas para encontrarem a superfície escorregadia com combustível em chamas.
Reyes viu um oficial acenando freneticamente em cima de um Jeep parcialmente derretido.
"Todas as unidades! Casablanca reporta bombardeio! Estão limpando a África do Norte…"
Outro impacto o engoliu.
Reyes cambaleou pela fumaça, tossindo sangue.
Ao redor, soldados lutavam entre si por espaço em botes salva-vidas já em chamas. Alguns tentavam nadar em direção a navios mais distantes. Outros simplesmente ajoelhavam-se e rezavam.
Um som novo cortou o caos, um assobio metálico crescente.
Reyes congelou.
Todos congelaram.
Uma constelação de silhuetas negras caiu do céu naquela noite.
"Não…" sussurrou Reyes. "Mais uma passagem…"
Por mais que rezasse, seu Deus não respondeu. Pelo menos, não da maneira que ele esperava.
Ele se jogou atrás de um caminhão tombado justo quando a segunda onda atingiu, e o mundo voltou a queimar.
O calor o atingiu com tamanha intensidade que seu uniforme começou a pegar fogo. O caminhão levantou voo, virou-se e se abriu como uma lata de conserva.
O ar desapareceu, sugado por um pulso de vácuo, retornando depois como uma parede de poeira em chamas que dilacerou carne e aço.
Reyes encolheu-se, gritando silenciosamente, com os ouvidos zumbindo pelo rugido.
Quando finalmente olhou para cima, o porto tinha desaparecido.
Navios afundaram de popa; os píeres desabaram; a zona de evacuação virou uma crematório a céu aberto.
E as explosões continuavam sem parar.
Em algum lugar atrás dele, um major gritou para um grupo de sobreviventes:
"Recue ao oeste! Casablanca ainda está de pé, podemos nos reagrupar lá!"
Reyes se virou.
Conseguiu enxergar, ao longe, vestígios tênues de novas explosões ao oeste.
Casablanca já estava morrendo… não havia mais para onde correr. Os alemães haviam lançado um inferno por toda a cabeça de ponte dos Aliados na África do Norte. Cortando sua fuga, após massacrar as forças em Sicilia.
E só agora Reyes compreendeu por que a ordem de evacuar a África do Norte havia sido dada. A destruição das forças aliadas não foi causada por um erro tático grave.
Era um confronto civilizacional esmagador. Como mortal provocando uma deidade lá no alto do Monte Olimpo. Os Estados Unidos tinham provocado uma força tão vasta e furiosa que eles nunca tiveram chance.
Ele caiu de joelhos, encarando o fogo refletido nas ondas, como se assistisse ao fim do mundo e à realização da revelação.
Acima da fumaça, lá no alto, seis silhuetas se dirigiam para o norte, intocadas, invencíveis, deslizando para casa.
Os alemães lançaram seu ataque e sumiram, tudo sem que um tiro tivesse sido disparado na direção deles.