
Capítulo 799
Re: Blood and Iron
A guerra havia começado em 1938, e agora, enquanto o inverno de 1941 se aproximava do fim e o Natal se aproximava, Erich se encontrava mais uma vez longe de casa, em uma selva que parecia mais um planeta desconhecido do que qualquer canto do Reich alemão.
Três anos… Três anos sem sua esposa, sem seus filhos, sem o calor do abraço da mãe ou a ironia seca do pai.
Três anos desde que ouviu pela última vez a voz da avó, uma mulher que praticamente o criou.
Ele tinha visto o avô apenas uma vez, e mesmo assim foi um encontro de dever, não de afeto.
Há muito tempo, quando ainda era um jovem, descartaou o aviso do homem, de que o caminho do soldado era longo, brutal e implacável. Naquela época, pensava que era teimoso demais para ser quebrado.
Mas a Espanha o deixou exaurido, Dunkirk moldou o homem do que restou. E agora, na fervente podridão das periferias sul de Mindanao, cercado por mosquitos, terra molhada e raízes que pareciam ansiosas para estrangular os vivos, Erich se perguntava se esse caminho tinha valido o custo.
Em algum lugar, no conforto do Tirol, seus irmãos provavelmente estavam sentados perto de uma lareira, bebendo achocolatado quente e Eierlikör. Mas aqui na selva, a única sensação de calor era a febre.
Um estalo de alguém aclarando a garganta o trouxe de volta ao presente.
Erich piscou as memórias para longe e focou na mesa longa à sua frente, onde os representantes do Conselho de Transição Filipino estavam murchos como homens que envelheceram dez anos em duas.
Eles pareciam ocos, esgotados, as linhas nos rostos mais profundas pela fome, pelo medo e pelo lento colapso do mundo deles.
Na cabeceira da delegação, sentava-se o presidente Manuel L. Quezon, com as costas retas apesar de tudo. Sua dignidade ainda não havia se rendido, mesmo que seus exércitos tivessem.
Como coronel do Reichsheer, Erich tinha o direito de participar das negociações de cessar-fogo. Um direito do qual não tinha plena certeza se desejava usar.
O generaloberst Josef "Sepp" Dietrich descansava as mãos entrelaçadas diante de si, olhos afiados, postura impecável, um homem que emanava comando apenas pela presença física.
Ele falou primeiro.
"Antes de começarmos essas negociações terríveis, ofereço a todos uma última cortesia," disse Josef, com voz suave, mas com peso suficiente para congelar a sala.
"Se houver algo, qualquer coisa mesmo, que queiram confessar, revelar ou esclarecer antes de prosseguirmos, este é o momento. Cooperação pode garantir clemência. Silêncio, não."
Um silêncio de medo se instalou na delegação filipina. Olhares baixaram, mãos se apertaram, e Manuel olhou para a esquerda, depois para a direita, procurando respostas entre homens que não ousavam encará-lo.
Finalmente, ele suspirou.
"Generaloberst… receio ter compartilhado tudo que poderia compartilhar."
Josef sorriu de volta, embora seu sorriso não carregasse a exaustão do outro homem, apenas a atuação.
"Uma pena," disse com um tom que fazia a pele de Erich se arrepia. "Eu esperava mais. Mas tudo bem."
Ele ajustou as luvas, levantou levemente o queixo e deixou o silêncio se aprofundar… denso, sufocante, carregado.
Erich sentiu a temperatura na sala cair. Até as cigarras lá fora pareciam perceber a mudança.
Josef se inclinou para frente.
"Sob tais circunstâncias," ele disse, prendendo todos os olhares, "creio que não tenho escolha a não ser…"
A sala parou de respirar.
"… retirar nossas forças completamente."
As palavras explodiram mais forte do que o bombardeio.
Cabeças ergueram-se, cadeiras arranharam o piso, e até o pulso de Erich vacilou. A vida voltou à delegação filipina; primeiro o choque, depois a incredulidade, e então algo desesperado e trêmulo.
Manuel mesmo piscou surpreso, quase gaguejando enquanto buscava clareza.
"Eu… Não entendo. Vocês vão se retirar?"
Josef estalou a língua, numa repreensão suave.
"Não imediatamente," respondeu. "Devemos garantir que os americanos não reivindiquem essas ilhas enquanto nos preparamos para partir para Guam. Mas dentro de um ano? Sim. O Reich vai se retirar por completo."
Ele recostou-se com um sorriso malicioso.
"Como dissemos desde o começo, nunca tivemos a intenção de ocupar permanentemente suas terras. Se vocês tivessem cooperado desde o início, toda essa conversa macabra poderia ter acabado bem mais cedo."
Erich quase gemeu. Conhecia o plano, o plano do seu avô. Era bem simples, quando se pensava bem.
Expulsar os americanos do Pacífico, punir os que resistissem, redesenhar a região e depois partir.
Mas, após todas as perdas de sangue, todas as noites lutando na chuva, todos enterrando amigos na terra que devora os mortos sem cerimônia… Ainda parecia um soco nas costelas.
Manuel engoliu em seco.
"Supõe-se… que há condições?"
O sorriso de Josef se agudizou.
"Claro. O Reich alemão exige que as Filipinas paguem indenizações às famílias daqueles que tombaram lutando pela sua ‘independência’. Vocês irão compensar o Reich, o Japão e a Tailândia por seus serviços na libertação dessas ilhas."
Manuel quase fez uma careta diante da ousadia.
Libertação? É assim que chamavam os dois anos de destruição?
Mesmo assim, ele conhecia o histórico da Alemanha. Mittelafrika, as Caroline, Samoa, Tahiti, Berlim cumpria suas promessas de colonização quando era conveniente. E Manuel sabia quando a derrota vinha na cara.
Ele respirou lentamente.
"Se aceitarmos cessar as hostilidades e pagar essa… remuneração… preciso saber o valor exato. O que vocês estão exigindo?"
Josef levantou-se, fazendo com que Erich e os outros oficiais alemães se levantassem também.
"Isso, senhor presidente, é uma questão para os bureaucratas em Berlim," disse Josef com suavidade. "Forneceremos o número em breve. Até lá, vocês irão se abster de qualquer ação hostil. Considerem este cessar-fogo como obrigatório."
Embora parecesse um pedido, seus olhos o tornavam uma ordem.
Manuel cedeu sob a pressão.
"…Sim."
O sorriso de Josef se alargou.
"Ótimo."
Ele se virou e saiu da sala, deixando apenas o eco das botas e o leve aroma de charuto.
Erich e os demais o seguiram, esperando ficarem longe do alcance do ouvido antes que alguém ousasse falar.
Josef quebrou o silêncio com uma exalação de alívio.
"Bem, isso foi bastante satisfatório, não foi?"
Os oficiais trocaram risadas silenciosas, a tensão desaparecendo lentamente.
Então, Erich murmurou, meio divertido, meio exasperado:
"É um verdadeiro milagre de Natal, não é?"
A risada aumentou.
Mas, quando Josef virou as costas, Erich deixou sua expressão se apagar.
Tudo que conseguia pensar eram os túmulos espalhados por Luzon, Palawan e Mindanao.
Túmulos alemães, túmulos tailandeses, até de japoneses que lutaram e morreram ao seu lado nos últimos dias da guerra.
Lembrou das brincadeiras, das piadas sobre cerveja e mulheres em alemão falho sob a noite escaldante.
Tudo por uma terra que abandonariam em um ano.
Erich expirou um longo e cansado suspiro, como se saísse do fundo dos pulmões.
"Dois anos," sussurrou para si mesmo. "Dois anos de inferno… por liberdade de outra pessoa."
Uma liberdade que não era dele, uma guerra que ele não escolheu, e uma vitória que tinha gosto de cinza.
Ele seguiu adiante pela noite úmida, os botes afundando na terra macia, as cigarras, como canhões distantes, zumbindo ao longe.
À sua frente marchavam homens que nunca conheceriam outro Natal em casa.
E atrás dele, naquela sala sombria, estavam os fantasmas de uma nação que apostou tudo e perdeu tudo em poucos meses.
Erich acendia um cigarro, as mãos firmes apesar do tremor no coração.
A brasa brilhava intensamente na escuridão.
"Um milagre," murmurou. "Algum maldito milagre."