
Capítulo 760
Re: Blood and Iron
O frio da manhã persistia em Innsbruck como uma presença espectral, ainda não inverno, mas próximo o suficiente para que a respiração se transformasse em névoa branca dispersa no ar.
As montanhas estavam envoltas em uma névoa azul suave, as últimas folhas se enrolando nas largas avenidas a cada rajada de vento.
A cidade havia crescido nas décadas sob seu comando, mas as ruas pareciam as mesmas de sempre, numa manhã rara e tranquila, antes que o dia despertasse para o século em que realmente viviam.
Bruno caminhava com um ritmo lento e tranquilo, com as mãos nos bolsos de uma jaqueta simples de operário.
Não era traje princípico, nem uniforme militar, apenas lona, lã e conforto. O tipo de roupa que usava quando menino, na sua vida passada, antes de tudo o mais ter acontecido.
Antes dos impérios. Antes da reencarnação. Antes de embarcar numa cruzada de toda a vida para proteger a civilização de si mesma.
Parece, à primeira vista, um qualquer idoso tirolês indo tomar café da manhã. O cabelo já encaracolado há tempos virou prateado, combinando com a barba aparada que agora ostentava mais por preferência do que por necessidade.
Linhas marcadas no rosto como suaves gravuras, esculpidas por uma vida vivida duas vezes. Seu andar era firme, embora mais pesado agora, como se cada memória tivesse sua própria gravidade.
Poucas pessoas lhe lançavam mais que uma olhada passageira.
Ótimo.
Ele preferia assim.
À frente, o calor de um café se espalhava pela rua, uma luz dourada, vidraças levemente embaçadas pelos aromas de café, manteiga e castanhas assadas de uma carroça de vendedor ambulante.
As mesas estavam quase lotadas: trabalhadores de roupa grossa, empregados em camisas limpas e suspensórios, um grupo disperso de estudantes em uniformes, que murmuravam nervosamente sobre livros.
Bruno escolheu a área ao ar livre, sob a lona listrada que tremia suavemente com o vento fresco.
Ele deixou o jornal dobrado sob o braço e acenou para a garçonete, uma menina de não mais que dezesseis anos.
Ela o reconheceu apenas como outro cliente; sorriu do mesmo jeito que sorria para todos os outros.
Gosto disso.
“Café preto...” disse suavemente. “E... ovos com pão, por favor.”
“Certamente, senhor,” respondeu ela, e se apressou para dentro.
Ele se acomodou na cadeira, ajustou o casaco e deixou o olhar vagar pela rua.
Uma fila de estudantes marchava passando, uniformizados, meninos à esquerda, meninas à direita, acompanhados de dois professores e três freiras católicas de hábito branco com detalhes verdes tiroleses.
Os meninos exibiam suas faixas de cadetes orgulhosamente, botas brilhando, ombros retos, vozes baixas. Ainda não eram soldados. Ainda não. Mas carregavam uma disciplina embrionária que sempre trouxe uma satisfação silenciosa a Bruno.
As meninas marchavam em sintonia com eles, com cestas na mão. Cada uma ostentava o emblema da ordem beneficente de Heidi bordado na manga: A Ordem de Santa Notburga.
Distribuíam alimentos enlatados, mantas e pequenos pacotes de roupas de inverno para os poucos pobres e vadios que permaneciam às margens do bairro.
Um policial se aproximou de um desses andarilhos, magro, envolvido num sobretudo esfarrapado, e, ao invés de gritar ou exigir documentos, colocou uma mão tranquilizadora no ombro do homem e o guiou até as estudantes.
Uma garota entregou uma lata de sopa. Outra deu luvas que ela mesma havia tricotado. Sem prisões. Sem gritos. Sem bastões. Apenas cuidado, ordem e competência.
Exatamente como Bruno desejava que o mundo fosse.
Deu novos retoques ao olhar na reportagem dobrada. A manchete era sombria:
COMBATES INTENSOS CONTINUAM AO REDOR DE MANILA… FORÇAS DAS POTÊNCIAS CENTRAIS CERCO À CAPITAL
Outra coluna menor informava:
BAIXAS AMERICANAS CRESCEM NA SICÍLIA… ESTADO-MAIOR PEDE REFÓRÇOS
Ele folheou o texto, olhos calmos, distantes. Há muito aprendera a ler os informes de baixas sem deixar os números invadirem sua alma. Emoção era um luxo que generais não podiam se dar. Impérios, ainda menos.
A garçonete voltou com seu café da manhã, colocando delicadamente o prato e a xícara à sua frente.
“Obrigado, moça,” disse ele.
“De nada, senhor.”
Enquanto bebia o café, alguns garotos passavam trotando na rua, rindo. Um carregava uma espada de madeira; outro, um livro rasgado com uma ilustração heroica do 8º Exército alemão na capa.
Uma menina os repreendia por correrem tão rápido. A freira repreensora suspirou, murmurando algo como “diabinhos enérgicos,” mas até sua frustração tinha um toque de afeição.
Bruno deixou a sons a se acomodarem ao seu redor: o murmúrio dos clientes, o tilintar das bicicletas, o zumbido distante dos bondes elétricos deslizando pelos trilhos.
Acima, a tênue cintilação da torre de ressonância Tesla no topo do instituto de engenharia piscava, seu halo em forma de teia transmitindo energia invisível pela cidade.
Dirigíveis pairavam no céu além dos telhados, magros, elegantes e silenciosos como sussurros.
Trens de alta velocidade assobiavam ao longo dos trilhos elevados ao longe, levando trabalhadores às fábricas e fundições que operavam com uma limpeza que Bruno jamais imaginara décadas atrás.
Painéis solares refletiam um brilho tênue nos telhados; turbinas eólicas giravam preguiçosamente, integradas à arquitetura, sem parecerem invasoras.
A Alemanha havia modernizado mais rápido do que o mundo conseguia entender, mas ainda preservava sua essência, suas igrejas cheias, suas famílias completas, suas tradições vivas.
Uma coisa rara… uma coisa frágil.
Ele deixou a xícara de café de lado e murmurou as palavras antes de perceber que as tinha dito em voz alta:
“Eu costumava governar o mundo...”
A frase saiu de seus lábios como um eco de um sonho. Ele sorriu, com uma expressão amuada, quase juvenil, que não usava há anos. Uma canção que ninguém aqui ouvira nesta vida.
Ele riu levemente da absurdo e voltou a comer seus ovos.
Dois velhos no mesa ao lado discutiam acaloradamente sobre a eficiência das linhas de bonde de carregamento sem fio.
Uma mulher de vestido azul ajeitava as botas do filho pequeno. Em algum lugar, um sino de igreja tocava, convocando a missa matinal para os bancos.
O mundo seguia em frente, incólume ao medo.
Uma paz paga pelo sangue de estranhos em lugares que a maioria dos tiroleses nunca veria.
Bruno terminou seu café e abriu o jornal novamente. Um pequeno artigo na segunda página chamou sua atenção:
REI WILHELM DIRIGE O REICHSTAG… “O IMPÉRIO NÃO SERÁ PROVOCADO À LOUCURA”
Ele leu a frase duas vezes. Depois balançou a cabeça.
Ao dar mais um gole no café, alguém acidentalmente empurrou sua mesa. Ele levantou o olhar, esperando um pedido de desculpas, e encontrou uma estudante, bochechas rubras e visivelmente envergonhada.
“Desculpe, senhor,” ela disse rapidamente, fazendo uma reverência. “Não tinha visto você.”
Ele sorriu suavemente. “Sem problema.”
Os olhos dela correram para o jornal, mas só por um momento; logo ela se virou para juntar-se ao grupo. Bruno a observou por um instante, depois colocou a mão plana sobre o papel de notícia.
Guerra no leste. Guerra no oeste. Guerra no Pacífico.
E mesmo aqui, nesta pequena esfera de civilização, a vida era calma o suficiente para que uma criança trombar com ele fosse a coisa mais caótica de toda manhã.
Ele respirou fundo, soltando a tensão dos ombros.
Um bonde tocou seu sino ao passar. Motores elétricos zuniam. O cheiro de castanhas assadas vinha da carroça do vendedor.
Paz. Não aquela frágil, assustadora. Uma paz cultivada. Uma paz construída. Uma paz conquistada.
Uma paz que só existia porque ele segurava a escuridão com ambas as mãos… e nunca permitia que ela o dominasse.
Bruno fechou o jornal com cuidado, deixou uma gorjeta ao lado do copo vazio e se levantou. Seus joelhos protestaram só um pouco. Já passou por manhãs mais difíceis.
Ele saiu para a rua, misturando-se à multidão de trabalhadores a caminho de seus turnos.
Alguns lhe acenaram por cortesia, achando que era apenas mais um idoso começando o dia.
Ele desfrutava do anonimato. Lembrou-se de que o império já não precisava dele numa varanda para tranquilizar as pessoas. Agora, ele se sustentava por si só.
Enquanto passava por um grupo de estudantes se preparando para embarcar no bonde, ouviu um deles recitando em voz alta de um livro de história:
“…e enquanto o mundo mergulhava em conflito no início do século XX, o povo alemão prosperava sob estabilidade, unidade e reforma disciplinada…”
Bruno sorriu novamente.
Se ao menos eles soubessem.
Virou para uma rua mais silenciosa, onde as folhas de outono se acumulavam como pequenos exércitos nos sarjetas.
Pássaros cantavam nas hortas no alto dos telhados. Uma mãe caminhava empurrando um carrinho. Um padeiro abria a porta de sua loja, deixando escapar um aroma quente e levedado.
Bruno parou, fechou os olhos por um momento e deixou o sol aquecer seu rosto.
Em outra vida, tinha visto seu mundo definhar, apodrecer de dentro, sua civilização colapsar sob seu próprio peso. A entropia tinha vencido uma vez.
Mas não aqui, não agora. Não enquanto ainda respirar.
Ele murmurou uma última reflexão, suave, firme e satisfeito:
“Contra todas as probabilidades… o mundo está se tornando aquilo que deveria ter sido.”
Depois, continuou caminhando pela rua, mais um velho em uma cidade pacífica, sozinho com seus pensamentos enquanto campos de batalha distantes queimavam.
E, por ora, por este momento, já era suficiente.