
Capítulo 759
Re: Blood and Iron
A noite sobre Gibraltar estava carregada com o aroma de sal e fumaça.
Dos penhascos, ainda era possível ver os destroços flutuando na baía abaixo. Embarcações de pouso retorcidas, manchas de óleo escurecidas, e corpos levados pela maré lenta e implacável.
Os holofotes vasculhavam a água, mais por hábito do que por necessidade. Não havia mais nada vivo lá fora.
Dentro da villa dos oficiais que agora servia de comando temporário do VIII Exército alemão, risadas reverberavam entre as paredes de pedra. Não era a risada de alegria, mas de alívio… aquele tipo que vem após um desastre quase evitado por pouco.
O generalfeldmarschall Heinrich von Koch presidia a cabeceira da longa mesa de carvalho, com postura descontraída, um braço apoiado no encosto da cadeira.
Os botões de sua túnica estavam desabotoados no colarinho, e suas luvas, agora desajeitadas, descansavam ao lado de uma garrafa de conhaque aberta.
Ao seu redor, estavam os principais comandantes das três forças que defendiam a Porta Oeste — alemães, russos e espanhóis, todos juntos.
Seus uniformes estavam um verdadeiro mosaico de lama, sangue e vitórias.
Os espanhóis tinham trazido o vinho, os russos, os charutos, e os alemães, como sempre, a disciplina para fazer ambos durarem mais do que deviam.
Um coronel espanhol levantou seu copo.
"Às tropas que seguraram a linha," disse em alemão com sotaque. "À Legião de Gibraltar, os soldados que fizeram a Rocha honrar seu nome."
O ambiente ecoou com o tilintar de copos e o coro de vozes repetindo o brinde em três idiomas diferentes.
Heinrich bebeu fundo, apreciando a queima na garganta.
O general Aristarkh Mirov, comandante do Corpo Expedicionário Russo da Ibéria, exalou uma nuvem de fumaça de seu charuto e virou-se para Heinrich com um sorriso.
"Sabe," disse ele, "já lutei sob muitos homens, mas nunca vi uma defesa tão bem executada assim. Você não só segurou a linha… você quebrou o espírito deles. Os americanos e seus aliados não tentarão algo assim tão cedo."
Heinrich sorriu levemente, fazendo girar o conhaque no copo.
"Elogios de um general russo… deveria encravar esse momento numa placa."
Risadas preencheram a sala.
Mirov se inclinou, sem se deixar intimidar. "Estou falando sério. A maneira como você usou o terreno costeiro, as linhas de retirada falsa, as falhas na comunicação fingida, os campos de fogo sobrepostos, foi tudo de manual. Até sua cobertura aérea foi perfeitamente sincronizada. Você fez um exército inteiro sangrar por uma praia que eles nem sequer alcançaram."
Antes que Heinrich pudesse responder, o general de Rivera, comandante das divisões do Exército Real Espanhol ao sul, levantou a mão.
"Vou confessar uma coisa, senhores," disse, suavizando a voz. "Quando vi a primeira onda, centenas de embarcações de desembarque avançando para a costa, talvez até milhares, pensei que a Espanha estivesse condenada. Sério mesmo. Meus homens estavam rezando nas trincheiras. Eu mesmo estava em oração na minha tenda de comando."
Ele deu uma risadinha, balançando a cabeça. "Mas aí os alemães abriram fogo… e os russos também. Foi nesse momento que percebi que os americanos não estavam lutando contra um exército. Eles estavam enfrentando a própria história."
A mesa ficou silenciosa por um momento. Até o sussurro fraco dos assistentes e o toque de telefones na sala ao lado pareceram desaparecer.
Heinrich recostou-se, acendendo um cigarro com a vela à sua frente. A chama refletia em seus olhos enquanto falava.
"Vocês me dão crédito demais, meus amigos," disse. "Sou apenas Pompeu diante do César de Bruno."
As palavras pairaram na fumaça, confundindo alguns, intrigando outros. Heinrich sorriu de leve, contente com os olhares perplexos.
"Passei minha vida toda subordinado àquele homem," continuou. "Cada campanha que ele travou, eu fiz parte. Droga, frequentei a academia com ele quando éramos apenas meninos sonhando com glória. Aprendi guerra assistindo a ele. Se você fica perto de uma verdadeira grandeza por tempo suficiente, alguma coisa dela acaba se grudando em você… quer você queira ou não."
Mirov exalou pelo nariz. "Ele não pode ser realmente tão grande assim, pode? Quero dizer, ele é o estrategista mais brilhante da nossa época, sim… mas compará-lo a César? Acho que é exagero, não acha?"
Heinrich deu um sorriso pequeno, consciente.
"Você está certo," respondeu. "É um pouco demais, comparar César a Bruno."
A sala ficou completamente imóvel.
"Hannibal, César, Napoleão… até Clausewitz antes deles," continuou Heinrich, batendo cinzas em um copo vazio. "Bruno os supera todos. Coloque-os na mesma linha, ligados pelas próprias regras de guerra, e ele os derrotará todas as vezes. Não tenho dúvida disso."
A sala ficou surpreendentemente silenciosa, o único som era a voz de Heinrich se perdendo em pensamentos profundos, longe daquela comparação que tinha feito poucos momentos antes. Não era mais só sobre isso.
"Talvez apenas Alexandre seja seu igual, mas o mundo nunca conhecerá Bruno como conhece Alexandre, porque Bruno não conquista. Ele luta apenas para preservar aquilo que não lhe pertence."
A conversa foi lentamente retomando, passando para músicas, brindes e o som de copos vazios sendo colocados no canto.
Heinrich se levantou sem dizer palavra e saiu para a varanda da villa. O ar do mar o recebeu com a friagem da meia-noite, carregado de sal e o ligeiro cheiro de óleo queimado.
Abaixo, Gibraltar ainda fumegava.
Os destroços da frota aliada brilhavam suavemente sob a luz da lua, cascos quebrados balançando delicadamente na maré, os últimos rastros de fogo se apagando na espuma do mar.
Os holofotes varriam a água como sentinelas cansadas procurando fantasmas que já tinham se afundado há tempos.
Heinrich acendeu outro cigarro, seu quinto da noite, observando a fumaça spiralar na escuridão.
Logo atrás de si, risadas ecoaram, o som de homens fingindo que não tinham acabado de testemunhar a morte de uma geração.
Ele sussurrou ao vento, sua voz mal se ouvia acima do mar.
"Bruno… essa vitória também é sua. Você me ensinou a fazer o impossível parecer inevitável."
Olhou para as águas negras, para as ruínas silenciosas do que já foi uma frota poderosa.
"E ainda assim," murmurou, "cada triunfo parece mais um aviso do que uma recompensa."
Deu mais uma tragada, jogou a brasa no mar e voltou para dentro, juntando-se às risadas.