
Capítulo 769
Re: Blood and Iron
A vila não apareceu tanto como se revelou.
Num instante, Mallory e seus homens lutavam através de uma parede de verde úmido, encharcados até os ossos, quase cegos pelo suor e pela chuva.
E, no próximo, a selva se afinou em uma clareira cercada por paliçadas de bambu, cabanas baixas sobre estacas como garças de madeira observando invasores lá de cima.
Fumaça subia das chaminés de barro, carregando o aroma de arroz fervido, cinzas de coco e óleo velho.
O guia levantou a mão.
"Chegamos," disse.
Mallory examinou o perímetro em busca de movimento. E lá encontrou sombras atrás de fendas na parede de bambu. Rifles apontados para fora, nem alemães, nem americanos.
O guia avançou e gritou em Tagalog, e a tensão quebrou. Os rifles baixaram e homens saíram de trás das barricadas, descalços, magros, com a pele bronzeada pelo sol, vestindo apenas shorts, sandálias e bandoleiras cruzadas pelo torso.
Mallory reconheceu de imediato os padrões.
Fazendas de lona americanas. cintos de munição de couro do Tipo 38 japonês. facões espanhóis mais antigos que a maior parte dos moradores.
E as armas…
M1 Garands, Springfield de 1903, metralhadoras Browning…
misturadas a rifles Arisaka, e metralhadoras leves alimentadas por correia.
O guia fez sinal para Mallory avançar, e os moradores se afastaram exatamente o suficiente para deixá-los passar.
"Primeiro de tudo," disse o guia, "suas roupas. Queimem."
Mallory não precisou de convencimento, uniformes americanos aqui são sentença de morte, e ele desertou justamente para evitar esse destino.
Ele e seus homens removeram o que sobrara dos uniformes rasgados de costura de sapo. Jaquetas, calças, bonés, patches, tudo que pudesse marcá-los como soldados dos EUA.
Os moradores trouxeram fogueiras de barro sob uma cobertura de chapas eameçaram a pegar fogo. Mallory foi o primeiro a jogar sua túnica antiga. O pano deu um chiado, escureceu, e virou cinza.
Um por um, seus homens fizeram o mesmo, queimando as últimas peças de suas velhas vidas. As chamas consumiam insígnias, tapes de nome e patches de unidades.
Alguém jogou uma bandeira americana desbotada, que tinha sido usada como lona. Mallory não perguntou de onde tinham tirado aquilo.
Entretanto, as armas não foram descartadas. Os moradores assentiram com aprovação quando Mallory manteve seu Thompson, seu equipamento de cinturão, sua munição. O guia até entregou um paninho engraxado e uma lata de graxa.
"Vai precisar disso," disse ele. "A chuva entra em tudo."
Depois que o último uniforme virou cinza, os moradores fizeram sinal para que avançassem mais um pouco na aldeia.
Crianças espiavam pelas esquinas, cachorros latiram uma vez e se esconderam, e mulheres carregando cestas desaceleraram o passo, lançando olhares cautelosos aos americanos.
Não era uma cerimônia de boas-vindas, era uma avaliação.
No centro da vila, um grupo de homens mais velhos se sentava sob a sombra de uma cabana de nipa, jogando cartas. Todos armados. Um tinha um Thompson mais antigo que Mallory. Outro tinha um Arisaka com uma baioneta enferrujada até a metade. Um até usava um capacete de soldado da Primeira Guerra Mundial com uma marca de balas na lateral.
Não era uma aldeia pacífica, eram um povo que vivia em preparação constante para a próxima guerra.
Os homens de Mallory observavam com crescente apreensão enquanto o guia fazia gestos para várias caixas compridas empilhadas perto da cabana central.
Primeiro, Mallory pensou que fossem ferramentas ou suprimentos. Mas, ao ver um morador abrir uma tampa com um facão, ele sentiu o estômago se apertar.
Dentro, caixas de munição, cuidadosamente organizadas. Limpa, engraxada e arrumada.
.30-06. 7,7mm japonês, .45 ACP, até caps de pólvora negra antigos, e explosivos improvisados embrulhados em lonas americanas rasgadas.
E encostadas às caixas, estavam armadilhas de tripwire para minas caseiras.
Feixes de estacas afiadas embebidas em algo que Mallory preferiu não identificar.
"Meu Deus…" murmurou o Sargento Hollis atrás dele. "Isso não é uma vila. É um arsenal."
Mallory se virou para o guia.
"Você está esperando visitantes?"
O guia não sorriu nem piscou.
"Preparamos para quem vier."
Mallory cruzou os braços, sem saber bem o que pensar diante do que via.
"Americanos ou alemães?"
O guia deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia.
"Lutamos contra quem tenta tomar nossa terra. Yankees. Germanos. Japanese. Qualquer uniforme estrangeiro. Qualquer governante que se esqueça de que não somos dele."
Logo atrás deles, os moradores começaram a empilhar caixas, cobrindo-as com folhas de palmeira.
Outros limpavam rifles sob os beirais, para evitar a chuva.
Um grupo de mulheres misturava pólvora negra e fertilizante em tigelas de barro com uma confiança assustadora.
Mallory olhou ao redor, e aí tudo fez sentido.
Essas pessoas não eram rebeldes, nem nacionalistas, comunistas ou qualquer outro tipo de ideólogo. Não lutavam por uma bandeira. Lutavam pela sobrevivência, simples assim.
Todo império que passou por essas ilhas deixou sangue aqui, americano, espanhol, até os japoneses que tentaram enfiar suas garras.
Sempre que surgia, os moradores se adaptavam, mudavam estratégias e acumulavam armas de quem tinha perdido na última batalha.
Mallory deu um passo para perto do guia.
"E agora? Você nos leva ou vamos de novo pra selva?"
O guia coçou o queixo pensativo, depois fez sinal para seguir em direção a uma cabana elevada com telhado de lata.
Dentro, uma mulher mais velha sentada de pernas cruzadas diante de um rádio, de fabricação americana, dos anos 1920, consertado com tubos japoneses e fios retirados de aviões destroçados. Ela ajustava os dial, enquanto a estática preenchia o cômodo.
O guia sussurrou:
"Sabemos de tudo o que acontece. Ouvimos as notícias antes de Manila."
Mallory inclinou-se para escutar.
Um sinal fraco de uma transmissão americana crackeou através do ruído.
"…todas as unidades devem se reagrupar no Golfo de Leyte… repitam, reagrupar no Golfo de Leyte… qualquer pessoal que for visto cooperando com forças locais será considerado…"
O sinal se desfez em estática.
O guia desligou o rádio.
"Viu? Seus antigos comandantes agora querem matar americanos, só por sobreviverem aqui. Só por respirarem errado."
Ele fez uma pausa.
"Nós não ligamos para as ordens deles. Mas eles querem matar vocês."
Mallory respirou fundo lentamente.
"Essa administração Roosevelt… o que sobrou dela… não vai perdoar desertores."
"Não," disse o guia. "Mas não nos importa o que Roosevelt perdoa."
Ele fez sinal para que Mallory se aproximasse, revelando duas longas caixas escondidas sob a mesa do rádio. Abriu-as.
Dentro, duas submetralhadoras japonesas Type 100 intactas, que Mallory só tinha lido sobre tais armas.
Os japoneses foram uma das primeiras nações a modernizar-se, e ao fazerem isso, desafiaram os alemães, pagando um preço terrível.
Mas deixaram um grande legado de equipamentos. Equipamentos que os filipinos ainda usam na luta pela sobrevivência, independente do que venha pela frente.
"São suas," disse o guia. "Pagamento pelo que vem a seguir."
Mallory ficou tenso.
"O que vem a seguir?"
O guia não olhou para ele ao responder.
"Guerra."
Uma palavra simples, sem adornos, como se o destino da vila fosse apenas isso. Mallory ajoelhou-se ao lado da caixa e pegou uma das submetralhadoras.
Era leve, equilibrada e recém-engraxada.
"O que vocês querem de nós?" perguntou em voz baixa.
O guia olhou nos olhos dele.
"Para ficar vivo," respondeu. "E para nos ajudar a ficar vivos."
Um trovão distante rolou pela selva, de um outro ilha, com artilharia em ação. Alguém, em algum lugar, lutava e morria por uma bandeira que Mallory não reconhecia mais.
O guia prosseguiu:
"Seu país e a Alemanha vão se enfrentar mesmo depois que essas ilhas virarem cinza e ossos.
Nós ainda estaremos aqui. Ainda lutando por quem vier a seguir."
Seus homens se reuniram atrás dele, esperando, com fome, feridos, exaustos, despojados de identidade e propósito. Cada um buscando algo que ancore suas vidas.
Mallory pendurou a Type 100 no ombro.
"Bem," disse com um sorriso seco e sem humor, "parece que agora somos aldeões."
O guia finalmente sorriu.
"Não, Capitão Mallory." Ele bateu na arma nas costas de Mallory. "Vocês voltaram a ser combatentes."
Fora, a chuva começava a bombardear os telhados. Os moradores se moviam com destreza treinada, escondendo depósitos de munição, cobrindo suprimentos com lonas, posicionando sentinelas com binóculos americanos no topo dos muros de bambu.
Mallory saiu para a trilha de barro e os observou.
Isso não era uma insurgência.
Era uma tribo se preparando para o próximo império.
E agora, ele fazia parte dela.