
Capítulo 768
Re: Blood and Iron
Capitão James Mallory estava até os joelhos na floresta do leste de Visayas, com a chuva caindo em cortinas pesadas que borravam o mundo em tons de verde e cinza que se deslocavam.
A água era morna, suja, grudada de folhas podres. Cada passo era como caminhar através de uma sopa quente de sangue. Mosquitos grudavam no pescoço e nos ombros dele, picando fundo na pele suada e molhada.
Alias atrás dele, seus homens avançavam em fila quebrada, sem capacetes, sem jaquetas, sem insígnias. As túnicas de camuflagem delas estavam rasgadas, as faixas de tecido sendo usadas como bandanas ou enroladas em rifles para manter a ferrugem tropical afastada.
Metade deles estava sem camisa, com a pele queimada pelo sol e rasgada por mordidas. As armas eram seguradas acima dos ombros para não molhar, acomodadas na nuca enquanto se movimentavam pela água negra como fantasmas de uma nação derrotada.
Depois da evacuação de Manila, Mallory e seu pelotão fugiram. Foram os primeiros, e o Comando os rotulou de desertores e traidores, mas Mallory discordava.
Para ele, todo o maldito governo dos EUA estava cheio de traidores, e ele simplesmente decidiu parar de sangrar por eles.
Ele pegou uma lança quando Roosevelt mobilizou o Exército para esmagar a crise constitucional lá em casa. Lutou quando manifestantes foram baleados na rua de Chicago, e quando greves trabalhistas foram consideradas atos de rebelião.
Porém, sua lealdade acabou no momento em que passou a ser inconveniente. Escolheu o lado que ganhava lá em casa, sem remorso. Mas agora?
Agora Roosevelt decidiu enviar os sobreviventes daquela purga política através do oceano para lutar numa guerra que a França já tinha perdido em uma semana. E, nesse momento, Mallory começou a planejar sua fuga.
Luzon caiu mais rápido do que qualquer um esperava. Os alemães não eram apenas bons, eram inevitáveis. Tecnologia superior, disciplina rígida e doutrina que ainda fazia o Pentágono perder o sono.
Não era de se estranhar que a França tivesse perdido tão rápido. Durante toda a luta, Mallory e seu pelotão buscavam justificativas... falhas de equipamento, erros logísticos, atrasos "acidentais".
E quando o combate virou catastrófico, eles discontinuaram as uniformes, se embrenharam na selva e não olharam para trás.
Agora Luzon tinha desaparecido. E Mallory não tinha intenção de morrer numa outra ilha por uma República condenada, se é que ainda poderia chamá-la assim.
Seu guia filipino avançava à frente com graça natural, uma submetralhadora Reising presa ao ombro e um cigarro balançando nos lábios. Um par de óculos escuros desgastados da Força Aérea escondia seus olhos.
Mallory mudou para o espanhol, a única outra língua que conhecia bem o suficiente para tentar nesses momentos.
"Quanto tempo até chegarmos à sua aldeia?"
O guia abriu a boca para responder, mas parou, levantando um dedo para os lábios.
Apontou rapidamente para dentro da floresta.
Foi aí que Mallory ouviu.
Não trovão, nem aviões, mas algo cortante, cruel, como um ninho de vespas metálicas gritando pelo céu.
"Corra," sussurrou Mallory. "Agora."
Os homens se jogaram na vegetação, escorregando em raízes molhadas e colapsando sob samambaias gigantes. Folhas tremeram acima, enquanto a pressão do rotor abaixava o dossel em ondas ondulantes.
O som cresceu até um zunido agudo, metálico, rápido demais para um helicóptero de utilidade, mas suave demais para um avião. Então, sombras cortaram as copas das árvores.
Três helicópteros rasgaram o céu em formação fechada, suas silhuetas piscando entre as lacunas do dossel. Elegantes, delgados, caçadores.
Seus motores gêmeos urravam como jatos torturados. Ao fazerem curvas, Mallory viu o brilho de seus canhões frontais, a curva perversa de um canhão giratório rebatível de 20mm, como um ferrão pronto para atacar.
O guia filipino murmurou uma oração rápida em tagalog.
Mallory sussurrou: "Vespas…"
Os helicópteros não circulavam, simplesmente cortaram a floresta com violência cirúrgica… baixos, rápidos e impiedosos.
O último passou quase paralelo à linha do dossel, rasando as copas das árvores. Sua fuselagem tinha uma segmentação dura em preto e cinza, que fazia parecer uma vespa real zumbindo pelo ar.
As asas curtas carregavam pods de foguetes e mísseis antitanque. Seus faróis piscavam brevemente pelas folhas, sondando, mas sem permanecer.
Depois, o som desapareceu, engolido pelo silêncio inquieto da floresta.
Só então o guia respirou fundo.
Mallory se levantou, enxaguando lama dos antebraços.
"Bem," murmurou, "Ainda bem que não estavam procurando por nós."
O filipino o encarou. "Q-que eram aquelas coisas?"
Mallory sorriu sem humor.
"A Vespa. Wespe, como os alemães chamam. Um tipo novo de apoio aéreo próximo. Não temos nada parecido. Voa baixo. Voa rápido. Devora blindagem."'
Ele se adiantou mais na vegetação, falando enquanto caminhava.
"Você nunca viu eles atingirem tanques de perto. Nós já. Estávamos enraizados fora de Tarlac, uma companhia inteira de AMC, posição sólida. Achamos que ia repelir outro ataque alemão."
Ele balançou a cabeça ao recordar.
"Aquelas Vespas surgiram do nada. Os mísseis primeiro, arrancaram a lagarta do Liberty. Depois, os canhões de 30mm começaram a chiar." Ele fez um snap com os dedos. "Duas minutos, e toda a linha blindada tinha sumido."
O guia engoliu em seco. Mallory viu a tensão em seus ombros, a mesma tensão que as pessoas sentem quando percebem que o mundo virou de cabeça para baixo.
Então, a floresta explodiu.
Detonações distantes fizeram a terra tremer. Um eco de fogo e trovão varreu-os.
O filipino se encolheu. Mallory não.
"Parece que encontraram alguma coisa," ele murmurou. "Provavelmente o que sobraram de uma companhia blindada tentando se reagrupar."
Ele deu um Tap no ombro do guia.
"Vamos lá. Se chegarmos à aldeia antes que eles retornem, estaremos seguros. Alemães não se importam com os locais, só querem que os americanos desapareçam."
Avançaram mais, adentrando a mata.
A umidade ficou ainda mais densa; cipós pendiam como cordas do dossel. Pássaros saíram das árvores em bandos frenéticos. Uma Liberty parcialmente destruída jazia submersa numa poça de água parada, com o casco derretido por dentro, resultado de um ataque da Wespe. Mallory não parou, apenas apontou.
"Eles não deixam sobreviventes."
E continuaram, enquanto o trovão ribombava ao longe.
As árvores eventualmente se afinavam em colinas. Mallory cheirou fumaça de lenha. Ouviu risadas suaves. O guia desacelerou.
"Estamos perto," ele disse. "Minha aldeia fica escondida entre as colinas. Silenciosa. Segura. Se seguir minha direção, o povo te acolherá."
Mallory não acreditava em segurança, só confiava no movimento. Mas uma aldeia significava comida, abrigo. Talvez até um plano.
Seus homens se espalharam atrás dele, cansados, mas atentos. Era o mais próximo de esperança que tinham visto em semanas.
Algum tempo depois, ao subir a encosta, Mallory parou novamente, desta vez na beira de um cratero. Folhagem queimada, lama revolvida, pedaços de metal retorcido. Mais um ataque da Wespe, provavelmente há menos de uma hora.
O guia ficou pálido sob o suor e o suor.
"Dios mío…"
Mallory passou ao redor do cratero e seguiu em frente.
"Bem-vindo à nova guerra," murmurou. "Agora vamos. Antes que as vespas voltem."
E, juntos, desapareceram no abraço verde da floresta, desertores, sobreviventes, homens sem pátria, apressados em direção ao destino que os aguardava na aldeia escondida adiante.