Re: Blood and Iron

Capítulo 788

Re: Blood and Iron

No coração do palácio da grandiosa propriedade de Bruno, ele permanecia na neve do inverno. Seus robustos coturnos pretos, brilhantes, deixavam pegadas firmes e decididas na fina camada de neve que cobria as encostas das montanhas.

Seu grande casaco de pele, forrado, escondia as medalhas ocultas sob seu calor. Os bordados vermelhos vibrantes e as linhas de ouro exibiam a opulência de uma era que já passou, quando cavaleiros e senhores dominavam os vales com espada e juramento.

Seu gorro de oficial, pesado com adornos, marcava sua patente tão claramente quanto as insígnias exclusivas nos ombros que nenhum outro homem na Europa poderia reivindicar.

Ao seu lado, no entanto, estava uma criatura totalmente diferente.

Um homem de fama infame, alguém que passara a maior parte dos últimos trinta anos fora das fronteiras do Reich. Um homem que carregava a postura de guerra como outros carregam o ar.

Seu uniforme era discreto. Sem filetes vermelhos do Estado-Maior. Sem fios de ouro.

A pelagem do seu colarinho era marrom, assim como as luvas, botas, cinto e coldre.

Até o gorro na cabeça dele era preto, não prussiano, não tirolês, mas marcado com a caveira prateada do Grupo Werwolf.

Uma lembrança do que ele era, do que comandava, e por que, mesmo dentro de um império de soldados, ele era uma anomalia.

Se as linhas de expressão no rosto dele, e os fios grisalhos eram um indicador, ele parecia ter a mesma idade de Bruno.

Exceto que, na verdade, não era. Era quase uma década mais jovem, mas a guerra molda os homens de forma desigual. E Bruno parecia ter uma resistência notável aos efeitos do tempo.

Uma característica que Ernst Röhm não parecia possuir. Ernst esclareceu a garganta e falou com um tom de reverência que Bruno raramente ouvia dele.

"Há trinta anos, sirvo como sua mão direita," disse Röhm. "Levei soldados às batalhas por você e aos zonas de guerra onde o Reich não tinha razão de estar. Estou ficando velho, meu senhor. Logo não serei capaz de carregar um rifle. Muito menos de liderar homens para fazer o mesmo."

Fez uma pausa.

"Quando a América se fragmentar… deixe-me ir. Deixe-me liderar meus homens uma última vez. Permita que eu escolha o final que mereço."

Bruno permaneceu impassível, diante de seu cão louco.

Na verdade, Röhm tinha sido sua segunda escolha para liderar o Werwolf. A primeira, Erich, há muito tempo se tornara uma sombra, um mito, uma história de advertência.

A lealdade daquele homem tinha terminado numa bala — por sua própria vontade, não por Bruno.

Bruno soltou uma risada suave, uma sonoridade relativamente incomum, que fez a neve parecer de repente ainda mais fria. Talvez fosse a primeira vez que Röhm via de fato uma rachadura na fachada de aço do homem.

Mas quando os olhos de Bruno se fixaram nele, um arrepio percorreu a espinha de Röhm.

"Deixe-me adivinhar…" disse Bruno. "Você acha que, quando essa guerra terminar, vou achar o Werwolf desnecessário. E você… vai estar… 'aposentado', do mesmo jeito que seu antecessor?"

A palavra caiu como um martelo.

Antecessor.

Só um homem podia reivindicar esse título: Erich von Humboldt. Oficial de infantaria, fundador e diretor do Ministério de Segurança do Estado, assassino pessoal de Bruno e silencioso carrasco da Revolução.

Ainda circulam rumores nas sombras do Ministério, sussurros de que Erich era uma espécie de santo macabro, um mártir cujo halo era feito de arame farpado.

Bruno continuou falando, embora parecesse quase estar dirigindo-se aos mortos.

"Qual é, Ernst? Depois de todos esses anos, você de repente perdeu o fogo?"

Ele deu um passo à frente.

"Não matei Erich porque ele deixou de ser útil. Ele deu a vida para vencer a Grande Guerra e silenciar os traidores que tentariam tirar essa vitória de nós."

A voz de Bruno diminuiu.

"Se você deseja morrer em batalha, essa é a sua prerrogativa. Mas não pense que o Reich não vai precisar de homens como você quando tudo terminar. E se o Reich não precisar mais do Werwolf… então Tyrol certamente precisará."

Röhm expirou, seu hálito subindo na fria atmosfera da montanha como fumaça.

"Você realmente acha que haverá paz?" perguntou em voz baixa. "Depois desta guerra?"

Bruno olhou para o vale abaixo, às luzes de Innsbruck, às pessoas caminhando tranquilamente pelas ruas, ao murmúrio suave de uma cidade intocada pelos horrores do outro lado do oceano.

Ele fez uma pausa.

E quando se virou de volta para Röhm, um sorriso raro curvou seus lábios — não caloroso, não gentil, mas honesto.

"Por um tempo, sim," disse Bruno. "Mas a paz nunca dura para sempre. Mais cedo ou mais tarde, haverá outra guerra. Não sei contra quem estaremos lutando, ou em qual canto do mundo estaremos destruindo-os. Mas guerra é a única certeza nesta vida, além da morte e dos impostos."

Ele encolheu os ombros, delicadamente.

"E quando esse dia chegar, quem melhor para liderar a ofensiva do que homens como você?"

Röhm não conseguiu evitar um sorriso de meio canto, balançando a cabeça enquanto olhava para o céu que começava a escurecer.

"Você realmente vai me fazer viver para sempre, não é?"

Bruno bufou e voltou a caminhar pelos terrenos cobertos de neve. Suas palavras pairaram sobre seus ombros como uma ordem, como uma profecia.

"De modo nenhum…" disse ele. "Mas não vou permitir que você morra antes de descansar primeiro."

Röhm observou as costas de Bruno enquanto o Reichsmarschall seguia pelo caminho, com suas botas esmagando a neve com a mesma firmeza com que destruía impérios.

Descanso.

A palavra permanecia no frio como uma absurda ideia.

Em trinta anos de seguir aquele homem, Ernst nunca viu Bruno realmente descansar. Nem no corpo, nem na mente, nem no espírito.

Até o sono, nas raras noites em que Bruno se permitia a dormir, parecia mais uma emboscada de soldado do que uma entrega aos sonhos.

Ernst respirou lentamente, esfregando as mãos guardadas dentro das luvas enquanto a nevasca se intensificava ao seu redor.

Se existe uma vida após a morte, Valhalla, Paraíso, algum quartel celestial para velhos guerrreiros, ele duvidava que Bruno alguma vez se sentasse tempo suficiente para aproveitá-lo.

Possivelmente, os próprios deuses lhe entregariam um mapa, uma espada e uma lista de problemas a resolver.

E ele os resolveria.

Porque essa era a essência de Bruno. Não por honra, nem por glória, nem por fortuna ou orgulho.

Mas porque o mundo exige ordem, e ele era o único teimoso o bastante para impô-la.

Röhm balançou a cabeça, com uma risada baixa e rara.

"Descanso," murmurou. "Você vai conseguir isso quando as estrelas caírem, velho amigo."

Ele seguiu atrás das pegadas de Bruno, como sempre fizera.

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