
Capítulo 787
Re: Blood and Iron
A neve caía sobre Berlim como cinzas de um incêndio distante.
Das janelas do alto do Chanceleria, a cidade parecia quase tranquila. Os bondes deslizando sobre seus trilhos, e os faróis cruzando linhas limpas na névoa do entardecer.
Em algum lugar lá embaixo, uma campainha da igreja alarmava a hora, engolida pelo zumbido de uma capital em guerra.
Dentro do escritório oficial de Bruno, não havia paz.
Mapas cobriam as paredes, Europa, África, o Pacífico, a costa leste da América do Norte — cada um coberto de alfinetes, lápis-giz, setas e zonas sombreadas que representavam vidas em linhas limpas e organizadas.
Wilhelm II de Kaiser permanecia diante do mapa do Atlântico, uma mão usando uma luva descansando em um bastão, a outra pairando perto da costa de Nova Inglaterra.
Seu barba agora era prateada, mas sua postura ainda era reta, seus olhos ainda afiados. A idade não o havia derrotado, mas sim polido.
"Você tem Siam e Japão atuando como guardiões no Pacífico," disse Wilhelm, sem se virar. "Mittelafrika alimenta nossas fábricas como uma segunda Ruhr. Sicília é..."
Ele fez uma pausa, winçando ao ver um aglomerado de alfinetes perto de Palermo, como se tentasse colocar na cabeça o pensamento de tudo o que estava acontecendo."… custoso, para nossos inimigos, isso sim."
Ele finalmente se virou, com uma leve irritação na expressão.
"Mas a América," disse, "a América é uma ferida que gangrena e se tornou uma praga para todos nós, e que não tem fim à vista."
Bruno estava sentado à longa mesa, mãos entrelaçadas, postura relaxada que apenas tornava sua presença mais opressora.
"Sim," respondeu calmamente. "Parece mesmo que sim."
Antes que pudesse aprofundar, houve uma batida na porta.
Um ajudante entrou, jovem, preciso, nervoso, como homens que sabem que vão interromper os dois homens mais poderosos da Europa.
Ele fez uma rápida reverência.
"Vossa Majestade Imperial, Vossa Alteza Real. Interceptamos e gravamos uma transmissão de emergência do presidente Roosevelt. Foi transmitida há menos de uma hora. Nossas estações de monitoramento na Noruega e na Islândia captaram o sinal."
As sobrancelhas de Wilhelm se levantaram.
"Uma transmissão de emergência?" perguntou. "Sobre o quê?"
O ajudante estendeu uma pasta e uma transcrição.
"Revoltas em Detroit, Senhor. E... alegações de sabotagem estrangeira."
Isso chamou completa atenção de Bruno.
Ele fez um gesto com dois dedos.
"Leia."
O jovem oficial começou a recitar, tropeçando uma ou duas vezes antes de se estabilizar na leitura.
A voz de Roosevelt ganhava vida na prosa austera alemã: uma hora grave, uma república ferida, agentes estrangeiros subvertendo o trabalho americano, saboteadores alemães transformando trabalhadores em peões.
Roosevelt falava de provas, de conspirações descobertas, de ações decisivas para proteger a pátria. Logo falava de unidade, disciplina, traidores entre nós.
Quando o ajudante terminou, o silêncio tomou conta da sala. Wilhelm desviou o olhar do mapa para Bruno. Não era exatamente um olhar de reproche. Ainda não. Mas estava perto disso.
Finalmente, ele falou.
"E então?" perguntou o Kaiser. "Você decidiu começar a assinar seu trabalho?"
Bruno sorriu de leve.
Ele levantou a mão direita, palma para fora, como se entregando a um professor.
"Pegou-me," revelou.
Wilhelm fez uma careta.
"Essa não é a hora de brincadeiras, Bruno. Se ele descobriu..."
"Ele não descobriu nada," interrompeu Bruno, com tom suave. "Ele está adivinhando. E pior... está fazendo isso publicamente."
A carranca do Kaiser se aprofundou.
"Então você admite que foi seu pequeno projeto de estimação que começou tudo isso?"
Bruno lançou-lhe um olhar quase divertido.
"Vossa Majestade," disse ele, "em assuntos como esses, mercenários continuam a ser uma ferramenta útil. E se eu não os tivesse contratado, teria sido alguma outra faísca. Vocês não podem lançar munições, corpos e mentiras em uma nação e se surpreender se algo explode."
Wilhelm bateu seu bastão contra o chão.
"Isso não é uma resposta."
Bruno recostou-se um pouco na cadeira, os olhos vagando pelo mapa da América do Norte.
"Nosso homem em Detroit," disse ele, "foi apenas um catalisador. Nada mais. Um atirador sozinho, com uma arma americana, usando munição americana, vestindo roupa americana, entre trabalhadores americanos."
Ele abriu as mãos.
"Sem papéis falsificados. Sem códigos trancados. Nada que possa ser rastreado até nós. Roosevelt sabe que foi intervenção estrangeira porque faria o mesmo na nossa posição. Mas saber e provar são coisas diferentes."
O Kaiser franziu o cenho.
"E essa história de 'provas'? Essa pasta que ele empurra na frente do povo dele?"
"Falsificada," disse Bruno de imediato. "Deve ser. Não há nada real para ele segurar. Então, ele inventa fantasias costuradas com medo."
Ele sorriu levemente.
"O que significa, Wilhelm, que pela primeira vez desde que esta guerra começou, ele cometeu um erro verdadeiramente catastrófico."
Wilhelm não parecia convencido.
"Ele une sua nação sob uma ameaça externa," disse o velho Imperador. "É isso que fazem os líderes. Nós mesmos já o fizemos muitas vezes."
Bruno balançou a cabeça.
"Não como assim," respondeu. "Ele está tentando unir uma embarcação rachada com mentiras enquanto o casco já está vazando. A cada dia que passa, mais homens não voltam pra casa. Mais fábricas desaceleram, depois param. Mais governadores veem o aço desaparecer em Delaware e se perguntam por que a capital acumula enquanto eles passam fome."
Deixou suas palavras pairar, como geada no ar.
"Agora ele afirma que os alemães, e não Washington, são os responsáveis pela miséria deles. Ele nomeia um fantasma, e por trás dele esconde seu enclave, seu refúgio, sua tentativa de erguer uma fortaleza sobre os ossos da própria república."
Os olhos de Wilhelm se estreitaram.
"E o que," disse lentamente, "você propõe fazer a respeito?"
A resposta de Bruno foi imediata.
"Mexer o caldeirão," ele falou. "E garantir que ele não só cozinhe, mas ferva."
Wilhelm o olhou fixamente.
"Você pretende empurrá-los para uma segunda revolta?"
"Quero," respondeu Bruno, "dar à sorte o último empurrão que ela precisa."
O Kaiser respirou fundo, controlando a irritação.
"Explique," exigiu.
Bruno se levantou lentamente da cadeira, caminhando até o mapa da América. Os dedos traçaram a costa leste com cuidado.
"Roosevelt cometeu três erros fatais nesta noite," começou. "Primeiro, admitiu abertamente que a pátria não está mais segura. Segundo, acusou potências estrangeiras sem apresentar provas verificáveis. E, terceiro, mais perigoso, continua a esvaziar os estados do interior para alimentar seu enclave costeiro."
Sua mão pairou sobre Michigan, deslizou para baixo, seguindo linhas férreas visíveis apenas por ele.
"Temos olhos nos seus pátios ferroviários," disse. "Operários no porto de Nova York. Oficiais na Pensilvânia. Trabalhadores nas docas de Boston. Homens que não têm amor por Washington, mas grande amor pelo dinheiro."
Olhou para Wilhelm.
"Sabemos o volume de aço que vai para o leste. Os combustíveis. O grão. Os geradores. Temos os registros de embarque, as movimentações navais, a transferência silenciosa das unidades da Guarda Nacional para longe do Midwest."
As sobrancelhas de Wilhelm se levantaram.
"E você acredita," disse ele, "que se os governadores e líderes sindicais vissem tudo isso em preto no branco..."
Bruno interrompeu suavemente.
"...eles entenderiam que Roosevelt não está preservando uma união. Ele está preservando sua própria união. Um enclave no norte, um corredor privilegiado. E o resto?" Ele apontou para o Midwest. "Descartável."
O Kaiser olhou para o mapa.
"E os seus mercenários Werwolf?" perguntou. "Qual o papel deles nesse… fervura?"
A expressão de Bruno não mudou, mas algo mais frio entrou em seus olhos.
"Ativação, proteção, escalonamento quando necessário," respondeu. "Continuarão a se passar por trabalhadores, supervisores, guardas. Garantirão que os documentos certos cheguem às mãos certas na hora certa. Sussurrarão que Roosevelt mentiu sobre sabotagem estrangeira porque precisava de um pretexto para apertar o cerco enquanto fugia para o norte e os deixava passar fome."
Devolveu o olhar a Wilhelm.
"Resumindo, Sire, vamos dar ao povo americano a verdade."
O Kaiser resmungou.
"E rodear isso com suas próprias mentiras."
"Claro," disse Bruno, completamente sem vergonha. "A verdade nua é demais para a maior parte das pessoas. Precisa estar envolta em algo familiar, ou ficarão cegas antes mesmo de agir."
Seus dedos apertaram o bastão.
"Você está brincando com fogo, Wilhelm. Se a América se quebrar completamente, haverá caos por décadas. Senhores da guerra. Milícias. Homens desesperados com acesso às fábricas e estaleiros."
"E sem uma bandeira só que os una atrás de uma máquina industrial única," respondeu Bruno calmamente. "Nenhuma marinha controla dois oceanos. Nenhuma moeda única domina o mundo. Cinquenta repúblicas, reinos e juntas brigando, ameaçando ou ignorando conforme a necessidade — isso é um perigo bem menor do que um gigante ferido que sobrevive a esta guerra ressentido, vingativo e humilhado."
Ele fez uma pausa.
"'Se uma ofensa precisa ser feita a um homem, que seja tão severa que sua vingança não precise ser temida.' Presumo que você conhece bem seu Maquiavel, não, Wilhelm?"
O olhar de Wilhelm se agueçou.
"Não estaria nesta posição se não fosse… Deixe-me perguntar, Bruno: já que está tão convencido de que os Estados Unidos da América precisam ser desmontados, quando a união finalmente desmoronar, e entrar num estado de caos total, e algumas dessas novas facções que inevitavelmente surgirão representem uma ameaça à nossa segurança nacional?"
Bruno sorriu, mas não hesitou um instante sequer ao responder.
"Essa é a beleza da balkanização, Wilhelm: o inimigo de nosso inimigo vira nosso proxy..."
Por um longo momento, o Kaiser Wilhelm II ficou em silêncio.
Estudou o homem à sua frente, alguém que conhecia desde sua adolescência. Um homem que fez o impensável, e chegou a alturas maiores do que qualquer homem antes dele.
Ao longo das décadas, Wilhelm confiou em Bruno, e toda vez o homem entregou mais do que prometeu.
Por mais louco que parecesse esse plano, Wilhelm estava disposto a confiar nele mais uma última vez.
"Muito bem," disse Wilhelm baixinho. "Você terá o que precisa para… mexer seu caldeirão. Aumente o financiamento às suas redes estrangeiras. Coordene com o Ministério das Relações Exteriores para preparar negações. E, pelo amor de Deus, mantenha nossas pegadas longe dessa bagunça o máximo que puder."
Hesitou, depois acrescentou:
"E Bruno... quando isso pegar fogo, tente poupar os inocentes."
Bruno inclinou a cabeça.
"Vou poupar o máximo que a situação permitir," disse. "Mas você sabe tão bem quanto eu, Sire..."
Sua expressão se voltou novamente para o mapa da América, para Detroit, para a Pensilvânia, para o Sul silencioso e tenso.
"…revoluções não se fazem com bisturis. E, no caos que a anarquia traz, só os fortes sobreviverão."
Wilhelm murmurou algo, talvez uma oração ou uma maldição, ou ambos.
"Então vá," ordenou.
Bruno fez uma reverência, não como servo, mas como alguém que reconhece o peso do outro.
"Conforme sua vontade, Sua Majestade."
Ele virou-se e saiu, os passos ecoando suavemente no chão polido.
Por trás dele, a neve continuava a cair sobre Berlim, leve como cinzas, enquanto em algum lugar do outro lado do oceano uma república falava de sabotadores estrangeiros...
…e, sem perceber, avançava mais rápido rumo ao precipício que ele mesmo escolheu.