
Capítulo 752
Re: Blood and Iron
O sol da manhã filtrava-se pelas janelas altas do Palácio de Berlim, iluminando o chão de mármore com uma luz pálida.
Lá fora, a cidade se movimentava com precisão tranquila, trens em horário, fábricas humming, dirigíveis traçando contrails sobre o Tiergarten.
Mas dentro do palácio do Kaiser, o coração do comando do Império pulsava com uma intensidade silenciosa.
O marechal do Reich Bruno von Zehntner sentado diante da grande mesa de mapas e relatórios. O Kaiser sentava-se em frente a ele, vestido com uma túnica cinza-escura de campo, apesar da idade.
Os dois homens compartilhavam uma tarde de chá enquanto eram atendidos pelo pessoal real. Eva sentava-se à beira, silenciosa, mas orgulhosa, enquanto seu marido e filho faziam o mesmo.
Embora recém-retornado da Sicília, Bruno Júnior fora convocado para a reunião com o avô, ainda com as marcas do sol do mediterrâneo.
A voz de Bruno quebrou primeiro o silêncio.
"Eles mordem, Sua Majestade. Os americanos caíram na armadilha exatamente como esperado. A Sicília será o túmulo deles agora. Acham que isso os levará a Roma, quando na verdade, vai sangrá-los até a exaustão."
O Kaiser sorriu levemente, cruzando as mãos de luvas sobre sua bengala. "Ah, então a armadilha foi lançada. Confio que os campos estão férteis?"
O tom de Bruno foi frio, quase clínico. "Férteis o bastante para beberem o sangue de sua juventude por meses, talvez anos, se persistirem. O campo italiano os drenará. Eles pensarão que avançam, mas cada quilômetro ganho custará a eles uma geração."
Ele virou-se em direção ao mapa de projeção na parede. Marcadores vermelhos e azuis brilhavam pelo Mediterrâneo.
"Eles estão completamente comprometidos. A logística deles está no limite. Nós, por outro lado, permanecemos flexíveis. A frente na Sicília aguentará tempo suficiente para inflar a confiança deles… e então cortamos seu abastecimento pelo mar."
O Kaiser recostou-se, batendo a bengala contra o mármore. "E o Pacífico? Tenho ouvido sussurros preocupantes de nossos assessores em Bangkok e Saigon."
Bruno exalou lentamente. "As Filipinas estão se mostrando… complicadas."
Ele fez um gesto silencioso para os dois ajudantes ao lado começarem. O mapa do Mediterrâneo foi dobrado e substituído pelas ilhas do Mar do Sul da Bacia do Pacífico.
Linhas vermelhas finas traçavam as rotas da Alemanha por Sião, os Estados sucessores holandeses e até o Japão. Toda a região pulsava com movimento, uma artéria do império.
"Nossas primeiras quedas aéreas em Luzon foram um sucesso," explicou. "A Operação Donarsblitz foi brilhante sob todos os aspectos militares. Os aeródromos foram capturados intactos, sem muita resistência, e metade da 3ª Divisão Blindada americana foi destruída antes do café."
Ele fez uma pausa, estreitando os olhos. "Mas encontramos dificuldades ao nos prepararmos para avançar rumo a Manila. Os civis nos receberam inicialmente como libertadores. Agricultores, padres, até a antiga guarda revolucionária. Eles se lembravam da fome e dos incêndios sob o domínio americano. Queriam que os Yankees fossem embora tanto quanto nós. Mas feridas antigas cicatrizam rapidamente."
"Você quer dizer os guerrilheiros."
Bruno confirmou com a cabeça.
"Sim. Facções menores, nacionalistas, anarquistas, bandidos que se autodenominam patriotas. Eles nos veem não como aliados, mas como a próxima onda de ocupantes. Seus ataques são imprevisíveis: comboios emboscados, exploradores que desaparecem na selva, vilas armadas comarmas improvisadas e incendiadas."
Ele virou-se para o neto, com a voz se tornando mais dura.
"A divisão do seu primo Erich foi atacada ontem fora de San Pablo. Cinquenta e três homens mortos, vinte e sete feridos, duas viaturas de abastecimento destruídas. O inimigo recuou para a floresta antes que a contraofensiva pudesse ser organizada."
Bruno Júnior endireitou-se abruptamente.
"Ele está bem? Os rebeldes têm apoio externo, senhor?"
"Erich está bem. Mas quanto à sua segunda pergunta, é improvável, pelo menos por ora. Apesar disso, há uma condição nisso tudo. A Reconhecimento Aérea americana começou a coordenar-se com os rebeldes, marcando nossas posições para ataques locais. Eles esperam nos enredar em outra guerra colonial."
O Kaiser resmungou, segurando a borda da mesa.
"E eles terão sucesso?"
Bruno balançou a cabeça.
"Não, Majestade. Não permitirei. Mas…"Pausa"—ele deixou o silêncio se estender—"há dois caminhos divergentes à frente, e ambos estão encharcados de sangue."
A expressão do Kaiser endureceu. Ele já podia imaginar a proposta que Bruno iria fazer.
Por mais que Wilhelm amasse o homem como um filho, sabia que Bruno carregava uma dureza que beirava o satânico.
"Continue," disse com severidade.
Bruno permitiu um leve sorriso irônico.
"Bem, já que me deu permissão para falar, não vou me segurar. Para ser franco: conquistar o apoio dos civis e tentar obter seu respaldo, quando eles têm uma história tão marcada por invasores estrangeiros… não é uma estratégia que já se provou eficaz."
Eva assentiu lentamente, em silêncio. Seu olhar era sério e lamentoso, mas compreensivo.
Seu pai a tinha educado bem em história, estratégia e realpolitik. Ela sabia exatamente para onde ele estava indo e optou por permanecer calada, para não se tornar cúmplice.
Bruno continuou sem interrupções.
"Se afrouxarmos as rédeas e permitirmos que nossos homens realizem operações, vamos chamá-las de punições... isso nos custará sangue no curto prazo. Mas se dedicarmos esforços para eliminar os agitadores, executar os colaboradores, capturar os pontos logísticos e tornar impossível abrigar a sedição, então a população terá uma única escolha: entregará os provocadores ou se juntará a eles no túmulo. Você ficaria surpreso com o nível de crueldade que o espírito humano pode suportar se essa for sua única sobrevivência."
O Kaiser ficou em silêncio por um momento. Simplesmente ficou ali, olhando além do rosto de Bruno, como se visse na escuridão além do véu em si.
Bruno Júnior tremeu levemente ao ouvir a sugestão do avô. Seu nervosismo foi acalmado apenas pelo calor da mão da mãe, que apertou a sua em sinal de apoio.
Finalmente, um suspiro de ar quebrou o silêncio. O Kaiser olhou para as fotos tiradas na batalha de Luzon, imagens de corpos mutilados, a juventude da Alemanha cortada numa terra a meio mundo de distância.
E, ao empurrar as fotos para o lado, seus olhos ficaram severos, sua voz fria.
"Você me disse uma vez, quando éramos jovens, que, não importando as circunstâncias em que o Reich estivesse envolvido na guerra, você buscaria a vitória a qualquer custo."
"Está dizendo agora, na sua velhice, que finalmente ficou sentimental?"
Bruno o encarou com frieza enquanto bebia seu chá, sua expressão refletindo o peso de sua resposta.
"Nunca."
O Kaiser se levantou da cadeira como se não quisesse prolongar a conversa. Sua bengala atingiu o mármore com ritmo deliberado ao caminhar em direção à porta.
Parou apenas uma vez, olhando de volta na direção da mesa onde o marechal do Reich permanecia em silêncio.
"Então, sabe o que precisa fazer."
Bruno Júnior e sua mãe, Eva, ficaram imóveis, testemunhas da troca entre dois titãs de uma era que se findava.
Um parecia exausto pelos passos que acabara de autorizar a tomar. O outro parecia exausto pelo próprio conceito de guerra.