Re: Blood and Iron

Capítulo 708

Re: Blood and Iron

O estalar de cassetetes ecoou pelo vento árido da costa, enquanto fumaça flutuava entre as guindastes do estaleiro como fantasmas de uma guerra ainda por vir.

Norfolk estava em chamas, não por bombas estrangeiras, mas por vozes americanas.

Rugiam, desesperados, traídos.

Estavam em greve há três semanas.

Soldadores, caldeireiros, encadernadores de tubos, homens que sabiam manusear tochas e martelos, que construíram literalmente os alicerces da frota americana agora retornando mancando do Pacífico.

Não começaram com violência. Apenas silêncio. Piquetes. Cartazes.

Fileiras de operários sindicais de pé, ombro a ombro, ao longo dos portões do estaleiro, gritando por salários justos, condições seguras, por uma promessa não quebrada.

Agora, eles eram recebidos por policiais com equipamento antimotim.

"Em nome da segurança nacional..."

Essa frase tinha sido pronunciada vezes sem conta nos corredores de Washington.

A Ordem Executiva 9843 concedeu ao Presidente amplos poderes para "garantir a produção contínua de guerra" e para " dispersar ameaças internas à capacidade militar operacional".

Em palavras mais simples: encerrar tudo.

Roosevelt não estava em Norfolk.

Estava em Washington, caminhando diante de um mapa do leste dos Estados Unidos, com as sobrancelhas como nuvens de tempestade.

A Marinha lhe implorou por ação, contratorpedeiros precisando de manutenção, transportes de tropas quase montados, cais secos silenciosos.

Sem falar nas embarcações danificadas por sabotagem, que precisavam de reparos para voltarem ao mar.

"Isso não é questão de trabalho," murmurou para seu ajudante de campo. "É questão de sobrevivência. Se não tivermos uma frota operacional, não haverá o que deter uma invasão."

"Mas, senhor," respondeu hesitante, "a imprensa virou contra nós. O Post, O Tribune, até O Sentinel. Estão chamando isso de..."

Roosevelt bateu com força a mão na mesa. "Que se dane a imprensa!"

A mesa tremeu sob o impacto do punho de Roosevelt, um peso de papel escorregou do canto e caiu ao chão.

O ajudante assustou-se, mas não se atreveu a pegá-lo.

O Presidente não estava mais murmurando. Agora, rugia como um leão acuado, a jaula quase se partindo.

"Aquelas covardes espalharam manchetes sobre 'liberdade de reunião sob fogo' enquanto nossos estaleiros queimam! Nossas costas estão à mercê! E a única coisa que conseguem falar é se quebrei uma promessa de campanha?!"

Ele se virou, olhosuflados, pescoço veias salientes de raiva.

"Eles não percebem que o inimigo já está aqui? Que sabotadores destruíram nossas linhas de produção naval? Que essas greves, esses protestos espontâneos, justos, liderados pelos trabalhadores, são tudo menos isso? São coordenados. Financiados. Inspirados. Isso não é uma simples disputa trabalhista. É guerra."

Ele apontou um dedo para o mapa na parede, marcando Norfolk, Boston, Charleston, San Pedro, Bremerton. Alfinetes marcaram todos eles. Metade circundados em vermelho.

"Se perder Norfolk, perderemos o Atlântico. Se perdermos San Pedro, não há nada entre os russos e São Francisco a não ser esperança vã. E, enquanto isso, o dólar desvaloriza a cada hora. A hora, caramba! Os mercados despencando como se estivessem engraxados. Credores estrangeiros tirando os pés do tiroteio. O Federal Reserve diz que estamos bem, mas eu sei que não. Alguém está despejando ouro ou acumulando. Alguém que sabe como esse jogo funciona."

Ele fez uma pausa.

O ajudante não falou, porque sabia exatamente quem era esse "alguém".

Roosevelt caminhava como um homem tentando superar seus próprios pensamentos.

"Bruno von Zehntner," ele sussurrou finalmente, o nome com sabor de veneno. "Aquele filho da mãe sabia que isso ia acontecer. Queria que acontecesse. Sabotagem. Operações psicológicas. Guerra financeira. Subversão filosófica. Li seus discursos, ele escreveu tudo de forma dramática, implorando por aplausos."

Ele pegou o arquivo de inteligência da mesa e abriu de repente, páginas espalhadas, fotos quase queimadas, comunicados interceptados, imagens borradas de cargueiros descarregando caixas no Uruguai, Panamá, Portugal.

"Ele sabe que a Constituição limita minhas ações. Ele sabe que não posso simplesmente prender os agitadores. Não posso declarar lei marcial em seis estados sem aprovação do Congresso. Ele está me desafiando a cruzar a linha. A provar sua tese."

Uma risada amarga ficou presa na garganta de Roosevelt.

"Sabe o que ele disse? Naquele discurso na Academia de Berlim, no outono passado? 'Em tempos de crise prolongada, a democracia se torna uma vela em um furacão, suas únicas opções são ser apagada ou protegida pela tirania.'"

Ele virou, com o rosto vermelho de raiva e impotência.

"Bem, não vou lhe dar essa satisfação. Não vou queimar a Declaração de Direitos só para dar um tiro na teoria daquele filho da mãe."

Silêncio.

Apenas o tique do relógio naval na lareira.

"Mas, se eu não fizer... se eu ficar parado…" ele sussurrou. "Então, a República se desfechará. Não por bombas. Não por armas. Mas pela podridão. Pela dívida. Pelo desespero. Ele vai vencer de qualquer jeito."

Ele se inclinou pesadamente sobre a mesa, de repente envelhecido por anos.

"Não podemos derrotá-lo com navios. Ainda não. E não podemos vencê-lo com palavras. Não quando toda promessa que fiz está sendo quebrada por necessidade."

Ele olhou pela janela.

O horizonte de Washington era cinzento e sombrio, fumaça no horizonte, Norfolk, talvez. Ou talvez apenas um outro armazém em chamas em Baltimore.

"Bruno não queria só guerra," disse Roosevelt por fim. "Ele queria que nos destruíssemos tentando pará-la."

E, até agora, estava conseguindo.


A manhã tinha cheiro de sal, aço e algo amargo, como óleo queimado e raiva antiga.

Os portões do estaleiro de Norfolk estavam fechados, ladeados por guindastes enferrujados e andaimes escurecidos pela fuligem.

Mais de três mil homens estavam do lado de fora, ombro a ombro. Sem ferramentas na mão. Sem capacetes na cabeça.

Apenas cartazes, vozes rasgadas e punhos cerrados dentro de mãos calejadas.

"Lutamos por essa frota!"

"Sem salário, sem paz!"

"Roosevelt mentiu, e nós morremos!"

Alguns cartazes eram simples, feitos de madeira, com spray paint.

Outros pareciam cuidadosamente estêncil, emblemas sindicais estampados com orgulho.

Ao fundo, caminhões carregados com chapas de aço e suprimentos de reparo estavam parados, imóveis.

Os cais secos da Marinha permaneciam silenciosos, seus esqueletos de contratorpedeiros semi-reparados pairando como fantasmas de guerras quase travadas.

Na linha de frente, um capataz barulhento, com quarenta anos de experiência na doca, avançou.

Sua voz soou como uma buzina de navio antigo:

"Temos todo o direito de estar aqui! Primeira Emenda! Não estamos infringindo nenhuma lei!"

Ele segurava uma cópia lamacenta da Constituição, lamínada, amassada, desbotada pelo sol e suor.

Alguns jovens assobiaram e aplaudiram.

Um trabalhador mais velho ao lado dele assentiu solenemente, murmurando: "Isso aí."

Porém, a linha de policiais permaneceu imóvel.

Polícia de Norfolk, flanqueada por novos agentes federais designados como "agentes de segurança", mantém-se em formação apertada.

Em seus braços, rifles semi-automáticos Remington Model 24.

Com carregadores internos cheios de munição .22lr, considerada na época "menos que letal" e a munição preferida para controle de distúrbios.

Outros seguravam bastões firmemente, preferindo o impacto visceral de metal quebrando ossos do que a brutalidade impessoal de tiros automáticos.

Um microfone em alto-falante anunciou, de forma plana, oficial, robótica:

"Por autoridade da Ordem Executiva Nove-Oito-Quarenta e Três, ordenamos sua dispersão. O não cumprimento será tratado como ato de sedição sob lei de guerra."

A multidão berrou, não por medo, mas por incredulidade.

"Guerra? Não estamos em guerra!"

"Nem um tiro alemão caiu aqui, por que estamos sendo atirados?!"

"Nós construímos essa Marinha, pelo amor de Deus!"

Alguns começaram a cantar. Uma versão desafinada e rebelde de "De que lado você está".

Uma canção usada inicialmente durante as Greves do Carvão do final dos anos 1910, na vida passada de Bruno, agora reutilizada como protesto contra o governo, as corporações e sua relação cada vez mais próxima com o regime de Roosevelt.

Outros entrelaçaram os braços, encarando a linha avançando.

A tensão pairava no ar como fio energizado.

Foi então que aconteceu.

Uma lancheira de metal caiu com um estrondo no chão.

Alguém tentou jogá-la por trás da linha, de volta para um amigo que a tinha soltado.

Mas ela ricocheteou em um cartaz e atingiu um policial na cabeça.

Ele se recuou como se fosse atingido por uma pedra. Instinto tomou conta. Sua cacetada foi forte e certeira.

Acertou um jovem, pouco mais de vinte anos, na têmpora. Ele caiu instantaneamente. A multidão suspirou.

Uma mulher gritou. Então outra. Alguém jogou uma pedra.

A linha se quebrou.

Granadas de gás lacrimogêneo foram lançadas lá de cima, sibilando como víboras antes de explodir em nuvens brancas e ferventes. Homens tossiram e cambaleavam.

Outros avançaram, sem recuar agora, depois do sangue derramado.

O capataz levantou os braços.

"Segurem a linha! Não deem motivo!"

Porém, era tarde demais.

À medida que as linhas da polícia começavam a se romper, os armados com Remington Model 24 abriram fogo.

Uma saraivada de balas atingiu os operários numa enxurrada de chumbo, nada menos que letal.

Mulheres assistindo ao cenário começaram a gritar desesperadas, horrorizadas diante do massacre.

Enquanto homens imploravam à polícia que parassem a escalada.

"Parem! São americanos!"

Estalo.

Ele também caiu.

Gás se espalhou como fumaça de uma igreja em chamas.

Chamas lamberam uma carroça de comida virada.

Alguém jogou um coquetel Molotov. Agora, um carro da polícia pegava fogo perto da cerca do porto.

"Seção 3 está segura. Seção 4 ainda resiste," anunciou o rádio na mão de um policial. "Acendam as tochas e despejem os operários. Autorização confirmada."

Acima do caos, um adolescente soldador escalou uma grua.

Seu rosto estava vermelho e coberto de lágrimas. Em sua mão, uma pistola de sinalização, destinada a indicar às equipes de reportagem que pairavam a quilômetros de distância.

Ele apontou para o céu.

Um estalo soou.

Mas ele nunca disparou.

O franco atirador não errou.

A luz da tocha caiu de sua mão frouxa, batendo na estrutura de andaimes abaixo.

Por um instante, tudo ficou em silêncio.

Depois, veio o caos.

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