
Capítulo 707
Re: Blood and Iron
O ventilador do teto girava preguiçosamente como uma guilhotina sobre o camarote dos fundos do La Estrella Roja, um bar de tango enegrecido na San Cristóbal.
Já passava da meia-noite. A banda tinha ido embora. Os bêbados haviam cambaleado para fora.
Só permaneciam os fantasmas do bar, homens vazios, mulheres amarguradas, aqueles sem passado e com menos futuro.
Kurt sentou-se na mesa do canto, de costas para a parede, com os olhos semi-fechados como uma cobra observando ratos fazerem teatro.
Seu sobretudo estava pendurado na cadeira ao lado, revelando a coronha de couro preto sob o braço.
Não escondida. Apenas presente. Intencional. Uma mensagem.
Luís Menéndez já estava sentado quando ele chegou, local, cabelo brilhante, uma face que sorria fácil demais.
Ele acendia fogo com uma faísca na unha do polegar e sorriam ao redor do cigarro.
"Você chegou atrasado," disse Luís em espanhol.
Kurt serviu-se de um copo de vermute, devagar e em silêncio.
"Eu nunca atraso. Você é que chegou cedo demais ao fracasso."
Luís ergueu uma sobrancelha. "Sempre encantador."
Helena Gallo entrou logo em seguida, usando um vestido vermelho que mostrava uma fenda alta demais e decote baixo demais para alguém que não vendia algo.
Mas ela não vendia. Ela observava.
Seus olhos vasculhavam o bar como duas lâminas, e quando se sentou em frente a Kurt, abandonou a máscara com a respiração cansada de uma mulher que sabia como os homens olhavam para ela e não se importava.
"O americano já se foi," ela disse. "O motorista trocou o carro no última segundo. Ou eles sabiam, ou tiveram sorte."
"Sorte é só previsibilidade com venda de olhos," murmurou Kurt. "Vamos tentar de novo."
Um impacto ecoou do degrau da escada.
O barman, argentino, de peito largo, coberto de tatuagens de marinheiro desbotadas—aceno discreto e se escondendo atrás do bar.
Depois veio Frank.
Sem sobrenome. Sem história. Apenas Frank.
Ele andava como um homem sem destino, mas com lugar para morrer.
Seu terno estava limpo, sem notoriedade, mas seus olhos eram orifícios de bala, negros, sem piscar, vazios.
Kurt assentiu uma vez.
Frank sentou-se sem dizer palavra.
Então chegou o quinto.
Um traficante local, meio ligado ao Cartel del Sur, chamado Baltazar.
Pele escura, moral mais escura.
Corrente de ouro, camisa quase botada, knuckles inchados por lembranças deixadas na boca de outros homens.
Cheirava a cigarro, sangue e perfume barato. Seus olhos se moviam rapidamente.
"Por que vocês nos trouxeram aqui?" perguntou. "Precisa de armas? Drogas? Uma garota para gritar ao fundo enquanto bate uma confissão de alguém?"
Kurt não piscou.
"Preciso que Buenos Aires caia de frente, e não para trás."
Baltazar riu. "Você acha que está salvando a Argentina?"
"Não." Kurt se inclinou para a frente. "Estou reordenando ela."
Luís deu uma risada no gole do drinque. "É assim que ele diz 'sim'. Só que com mais etapas."
Kurt ignorou-o. Acendeu um cigarro, segurando-o entre os dedos como se o ofendesse.
"Não nos importamos com seu rei. Seu Reich. Todo esse papo de antigo império, aqui as pessoas nem lembram sua própria história,"
disse Baltazar. "Me diga o que vou ganhar. É assim que funciona. Não ideologia. Incentivo."
Kurt fez um gesto.
Helena deslizou uma pasta na mesa. Ela se abriu com um sussurro.
Dentro: livros-caixa, registros de transações, listas de nomes, policiais, agentes de fronteira, oficiais de alfândega.
Todos na folha de pagamento do cartel.
"Estes são seus," disse Kurt. "Seus inimigos, seus aliados, e seus substitutos, caso você demonstre ineficácia."
Sorriso de Baltazar morreu.
"Está me ameaçando?"
"Não." Kurt apagou seu cigarro com calma cirúrgica.
"Estou lhe dando vantagem. Sua. Ou de alguém mais. A escolha é sua."
Baltazar olhou novamente para a pasta. Depois para Frank. Depois para Helena. Depois para Kurt.
Engoliu, devagar.
"...Vou jogar seu jogo. Por enquanto."
"Você não está jogando," disse Helena seca. "Você está nele."
O barman trouxe uma garrafa nova. Não pedidos. Apenas sabido.
Agora uísque. Mais forte.
Luís recostou-se, girando seu copo, sempre o conquistador.
"Sabe, Kurt, tenho um pressentimento ruim sobre isso…."
Kurt deu um gole no seu copo, terminando o líquido âmbar dentro dele. Seu rosto era impassível, mas o tom foi brincalhão.
"Da última vez que você disse isso, te achei numa vala na Catalunha, coberto de sangue, metade seu, metade não…."
Luís exibiu um sorriso com um incisivo dourado. "E olha só pra mim agora. Ainda bonito. Ainda respirando."
Finalmente falou Frank.
"Um dos oficiais navais que identificamos frequenta uma casa de prostituição perto da Avenida Belgrano. A mesma ligada às importações clandestinas do consulado americano."
"Sexo, drogas, influência." disse Kurt. "Não é fascinante como o poder sempre volta às mesmas três moedas?"
Helena murmurou: "Porque é sempre a mesma transação."
Luís acrescentou: "Exceto quando são balas. Essas são finais."
Frank não piscou. "Precisamos de uma mulher lá dentro. Para observar."
Helena levantou uma sobrancelha.
Luís gesticulou. "Eu me disponho. Para apoio moral."
"Você não conseguiria nem ser convidado para um funeral," respondeu Helena.
Kurt bateu duas vezes na mesa. O som foi final.
"Chega."
Recuou o silêncio.
Uma nota de violino do jukebox uivou pelo bar, morrendo como um grito num rio.
Kurt levantou-se. Caminhou até a janela.
A rua lá fora escorregava de chuva e segredos. Táxis deslizando por poças. Neon piscando contra paredes descascadas.
Um menino vendia flores para um homem de casaco preto. Nada era inocente.
Virou-se de volta, voz baixa.
"Buenos Aires está na beira da faca. Os americanos querem ela organizada. Os locais querem ela obediente. E nós…"
Ficou quieto por um momento.
"Nós só queremos que ela tenha medo."
Baltazar riu nervoso. "Você fala como se o medo fosse uma solução."
Kurt deu um sorriso sem alegria.
"É um começo."
Voltou para a mesa. Serviu-se de mais uma dose. Deixou o ardor queimar no peito como gasolina.
"A Operação Silberkrone seguirá no cronograma. Amanhã à noite, colocamos as cartas. No dia seguinte, os jornais vão publicar o escândalo. No terceiro dia, a embaixada chama seus cães de volta e os peronistas se multiplicam. No quarto dia…"
Olhou para cada um deles, lentamente.
"…vamos tomar o porto."
Frank assentiu.
Helena acendeu outro cigarro, exalando como um lança-chamas.
Luís sorriu.
Baltazar não disse nada, mas suas mãos estavam firmes agora.
Kurt reabasteceu seu copo e deu mais um gole.
O gosto era amargo, não doce.
Mas preferia assim.
A doçura era para mentiras.
E este mundo já não tinha espaço para mentiras que não sangrassem.
Eles saíram do bar juntos.
Não todos ao mesmo tempo.
Nem como um grupo.
Isso seria demasiado óbvio.
Não, partiram como fantasmas. Helena pelo front, seguindo perfume e ameaça.
Frank pelo beco, passos silenciosos.
Luís chamou um táxi e piscou para uma menina que passava. Baltazar foi embora murmurando consigo mesmo, segurando a pasta como se ela fosse mordê-lo.
E Kurt permaneceu mais tempo, dando gorjeta dupla ao barman, ajustando o colarinho, acendendo os luvas.
Quando finalmente entrou na rua, a névoa havia se fechado densa e baixa.
Ele desapareceu nela como quem volta para casa.
A guerra nunca terminou.
Apenas encontrou um novo palco.
E Buenos Aires logo aprenderia o preço das alianças.