Re: Blood and Iron

Capítulo 709

Re: Blood and Iron

Berlim, outubro de 1938. O vento de outono cortava a capital com uma brisa seca, espalhando folhas douradas pelos pátios de mármore do Novo Chanceler Imperial.

Bandeiras negras, brancas e carmesim penduradas orgulhosamente nas colunatas, seu tecido tremulando ao ritmo do vento.

Dentro, o clima era bem mais quente, ainda que não menos eletrizante.

No grande salão de guerra sob a cúpula do Chanceler do Reich, uma multidão de dignitários e oficiais superiores se posicionava em formações cerradas.

O piso de mármore exibia uma cruz de ferro incrustada de obsidiana e bronze; acima dela, a águia do Kaisers observava com julgamento imperioso do teto de vitral.

Um rolo de filme ganhou vida.

Projetado na tela de tamanho monumental ao final do corredor, um trecho de arquivo de notícias de Buenos Aires era exibido, caótico, granular, real.

Chamas surgiam ao lado do consulado dos EUA enquanto diplomatas em pânico se espalhavam pelas ruas.

Manifestantes avançavam além das barricadas, seus gritos alternando entre "Liberdade ou morte!" e "Abaixo o dólar imperial!"

Algumas bandeiras, umas vermelhas, outras pretas, e algumas com uma impressão suspeitamente perfeita, eram levantadas em desafio.

Ideologias de todas as bandeiras lotavam as ruas para defender seus ideais, contra o governo que consideravam corrupto e comprado por potências estrangeiras, e entre si próprias.

"O embaixador americano estaria escondido", anunciou o projetista.

"Relatórios não confirmados sugerem que a turba foi orientada por agitadores treinados no exterior. Mas nada foi rastreado até nós. As autoridades argentinas declararam estado de sítio devido ao caos."

Sussurros percorriam os presentes entre os oficiais.

Bruno, encostado na borda entalhada da longa mesa central, sorriu levemente.

Na luz suave do projetor, suas medalhas refletiam o brilho.

Seu sorriso era relaxado, mas seus olhos eram afiados, calculistas.

"Toca o próximo", pediu, em tom calmo.

A tela piscou novamente.

Agora: Norfolk, Virginia.

Imagens aéreas, provavelmente clandestinas, captadas por um colaborador disfarçado de correspondente estrangeiro, mostravam nuvens de fumaça emergindo dos estaleiros.

A multidão abaixo, que antes era um protesto de sindicatos trabalhistas, degenerara em uma revolta aberta após a notícia de escassez de alimentos e cortes de salário para famílias militares.

Um único lanche, jogado por um operário para um amigo, desencadeou uma onda de violência que varreu a cidade portuária como uma pandemia.

O ponto alto do conflito foi em contraste marcante: uma unidade do Exército dos EUA disparando rajadas contínuas contra a multidão.

Gritos de desespero. Corpos. Cidadãos americanos sangrando na terra de seu próprio país, não por um ataque externo, mas pela própria administração que dizia protegê-los.

Um oficial mais jovem, ao fundo, ofegou. Outro sussurrou: "Meu Deus…"

Wilhelm II levantou-se lentamente de sua cadeira, semelhante a uma throne alta, ao centro da sala.

Seu corpo, agora mais envelhecido e até frágil, tinha ainda seus olhos azuis a queimar com aquela mesma chama imperial da última guerra.

Ele ajustou seu bigode cinza-aco com uma mão protegida por luvas antes de olhar para Bruno.

"E pensar", disse o antigo imperador, "que houve quem no Reichstag invejava sua República…."

Um riso baixo percorreu o recinto, como trovões distantes.

Bruno assentiu uma vez, depois se virou para os demais.

"Senhores, o que vocês estão vendo não é caos. É pressão aplicada sobre as fissuras certas. Golpes estratégicos sem que um único atirador tenha cruzado as fronteiras."

Heinrich ficou ao seu lado, uniforme impecável, peito carregado por uma nova medalha, especialmente a recém-concedida Grã-Cruz da Cruz de Ferro, pela condução da campanha na França.

A face que já fora jovem do mais famoso solteirão do Reich agora refletia a experiência do dever. Dever à família, à fé e à pátria.

Ele não falou nada, apenas cruzou os braços, satisfeito, com os olhos brilhando de cálculo.

Bruno prosseguiu. "Com poucas remessas de armas, alguns agitadores bem posicionados e uma infiltração lenta de propaganda em suas frágeis veias sociais, promovemos levantes em quatro grandes cidades. Sua imprensa chama de 'distúrbios civis coordenados'. Seus generais temem uma segunda guerra civil. Ainda não disparamos um míssil sequer em solo inimigo. E nem uma bomba soltamos. Nenhuma."

Ele tocou delicadamente na mesa do projetor.

"Estão se destruindo com um pequeno empurrão de nossas forças clandestinas e colaboradores na região. Se isso continuar, talvez nem precisemos pousar uma força de invasão do outro lado do Atlântico. Por que sujar sangue em Manhattan, quando os americanos irão fazer isso por nós em Chicago?"

Agora, uma risada mais forte.

Um dos chefes da marinha inclinou-se para sussurrar algo ao ajudante.

Outro general anotava em uma ficha com o águia negra do Estado-Maior Imperial de Inteligência.

No canto mais distante da sala, um diplomata do Tsardom Russo ajustou seu monóculo.

"Seus métodos são… eficazes", disse diplomaticamente. "Embora não esperávamos que se desfeitassem tão rapidamente."

Bruno olhou para ele com um gesto cortês.

"A mente americana sempre descansou na ilusão de estabilidade. Quando você cutuca a cortina e mostra que toda a estrutura está enferrujada, não demora muito para ela desabar."

Wilhelm II sorriu com isso, batendo duas vezes com o bastão no piso de pedra.

"Estamos testemunhando", declarou o Kaiser, "não apenas a decadência de uma nação, mas a vitória do nosso século. Sentamos no centro do mundo, enquanto seu suposto farol de liberdade queima por dentro."

Uma salva de palmas ensurdecedora seguiu-se.

Porém, a expressão de Bruno permaneceu fria e pensativa.

Ele virou-se para Heinrich, em tom baixo, só para seu amigo ouvir: "Quero relatórios completos sobre as fissuras domésticas ainda inexploradas, sindicatos de Nova York, mercado negro de Detroit, imprensa radical de São Francisco. Se pressionarmos justamente nos momentos certos, eles se desintegram sem que precisemos marchar."

Heinrich concordou, já fazendo cálculos mentais.

"Também estabelecemos contato com outros governos sul-americanos além daquele em que nossos agentes já atuam. Alguns estão dispostos a fechar os olhos para nossas operações pelo Panamá e Venezuela, desde que nossos fornecedores sejam bem pagos."

Bruno estreitou os olhos. "Faça acontecer."

As luzes reacenderam. A sala se moveu, generais se dispersaram em discussões, analistas estudando mapas da América do Sul.

Além das janelas altas, o som distante dos músicos de rua de Berlim chegava, acordeon e violino, alegres e despreocupados.

Um jovem mensageiro entrou rapidamente com uma mensagem selada, entregando-a a Bruno com um beijo de cabeça e recuou. Bruno abriu o envelope com cuidado.

Fez uma leitura rápida e passou para Wilhelm.

"Chicago. Três mortos em tiroteio entre Guarda Nacional e militantes sindicais. A faísca está se espalhando mais rápido do que esperávamos."

O Kaiser passou a mensagem ao ajudante com um gesto. "Então queimar tudo."

Bruno respirou fundo, lentamente.

Apesar de toda sua confiança no plano, de toda a genialidade em manipular um império rumo à autodestruição, ele compreendia o risco.

Os americanos estavam divididos, mas ainda eram formidáveis.

Um inimigo desesperado para evitar sua ruína interna poderia agir de forma irracional, impetuosa.

Ele se voltou para o mapa do mundo na parede e fixou os pontos vermelhos que marcavam todos os teatros de influência clandestina ativos: Havana, Panamá, Chicago, Caracas, Nova Orleans, Dallas, Atlanta.

Todos pontos. Todas madeiras secas esperando por uma faísca.

E ainda assim, sussurrou, "Chegará um momento em que o caos não será mais nosso aliado. Chegará uma hora em que a serpente tentará devorar sua própria cauda. Devemos agir antes desse momento."

Heinrich ao seu lado. "Ou guiar a cauda até sua garganta."

Bruno sorriu com isso.

No canto mais distante da sala, começava a tocar a transmissão ao vivo mais recente da Rádio Berlim.

Uma fala de uma organização em Nova York, simpatizante do Reich alemão.

Um homem de forte sotaque gritou sobre corrupção em Washington, sobre veteranos esquecidos, sobre o retorno à ordem e força.

E atrás dele, a bandeira americana tremulava. Suas famosas listras vermelhas e brancas orgulhosamente exibidas.

Mas na caixa azul, já não havia estrelas representando o número de estados, mas uma águia bicéfala coroada, carregando na mão uma espada e um scepter, e na outra, um globo de soberania.

Um símbolo que não representa mais orgulho e ideais americanos, mas a descontentamento com os próprios ideais da República, e com o caos inevitável que deles decorria.

A câmera fez um zoom na multidão: milhares reunidos, com os punhos erguidos, não de esperança, mas de raiva.

Bruno voltou-se para os oficiais reunidos.

"Que esta seja nossa doutrina daqui em diante", disse, elevando a voz. "Não precisamos conquistar o mundo só com tanques. Basta garantir que nossos inimigos não se mantenham unidos. A vitória nem sempre é forjada pelo fogo. Às vezes… ela é esculpida pela decadência."

Os oficiais saudaram.

E além do domo de vidro alto, a águia do Reich assistia a tudo, com as asas abertas, como se já estivesse abraçando o mundo lá embaixo.

Enquanto o Novo Mundo se punha ao fogo de suas próprias labaredas, o Reich alemão consolidava seus avanços, reforçava suas posições e voltava suas armas para o oeste, atravessando o Atlântico, preparando-se para que a guerra entrasse na próxima fase.

Comentários