
Capítulo 747
Re: Blood and Iron
O sol siciliano punha-se baixo sobre as águas, riscando de ouro o mar calmo como latão derramado.
Bruno, o Júnior, sentava na borda de um muro de contenção desmoronado, com um cigarro numa mão e uma garrafa de cerveja gelada na outra.
Ao redor dele, seus homens descansavam na areia; sem camisas, botas começando a desamarrar, rifles apoiados nas rochas da praia como ferramentas esquecidas.
Eles eram soldados do 12º Regimento de Panzergrenadiers, estacionados perto do Golfo de Gela, o lugar que todo oficial de inteligência jurava que os americanos escolheriam quando finalmente viessem.
Por semanas, nada. Apenas treinamentos, calor e o ar sempre salgado, escorregadio.
Era quase tranquilo. Demasiado tranquilo.
Famílias sicilianas locais passeavam na orla próxima, rindo ao pôr do sol.
Crianças chutavam uma bola de couro perto do píer. Um grupo de mulheres de chapéus de sol passava, e uma, ousada, com olhos escuros, jovem e destemida, lançou um beijo a Bruno.
Os homens riram alto.
"Por que é sempre você, Herr Hauptmann?" chamou Leutnant Kruger deitado numa toalha, óculos de sol tortos no rosto. "França, Córsega, Nápoles... as moças praticamente se jogam nos seus braços. Qual é o seu segredo?"
Bruno soltou fumaça pelo nariz, olhando para o horizonte. "Sou um homem felizmente casado", respondeu simples.
A resposta só provocou mais risadas.
Outra voz veio do chão abaixo. "E o que ela não sabe, não mata! Qual é a graça de estar em missão se não dá pra aproveitar um pouco antes do próximo bombardeio?"
Bruno não respondeu. Sua cabeça se inclinou levemente para cima, na direção de uma forma quase perdida no brilho do sol.
Por um momento, pensou ser uma gaivota, depois uma linha cruzou atrás dela, limpa e deliberada. Uma, depois duas, depois uma dúzia.
Fitas brancas se projectaram no céu de algum lugar além das colinas, formando arcos que se estendiam até o mar.
Ele deslizou os óculos para baixo do nariz e murmurou, quase para si mesmo,
"…Mísseis."
As risadas cessaram instantaneamente.
"Veste logo sua porra de equipamento," ordenou.
"O quê?" Kruger piscou, quase terminando de beber uma gole de cerveja.
"Intercepções de superfície a ar. Nossos homens já estão enfrentando alguma coisa lá fora, e não fomos avisados porque estávamos ocupados demais relaxando pra verificar nossas comunicações!"
Um segundo depois, o horizonte brilhou de branco. O som chegou como trovões rolando, um estrondo profundo metálico de explosões longe dali, no alto do Golfo.
Os homens congelaram, olhos arregalados. Então Bruno berrou de novo, mais alto desta vez:
"Agora! Mexam-se!"
Ele já corria, o cigarro jogado fora, a cerveja abandonada, as botas batendo forte no caminho de pedra enquanto o céu acima começava a pulsar com luz laranja.
As primeiras explosões eram distantes, estalos abafados de algum lugar sobre a água. Depois, o horizonte voltou a se iluminar de branco, e o ar começou a tremer.
Interceptadores de alta altitude, invisíveis na claridade, duelavam com alvos invisíveis a quilômetros de altura, e agora os sobreviventes soltavam suas cargas.
Em segundos, a paz desfez-se.
Torres antiaéreas ao longo dos penhascos rugiram de repente. Colunas de fumaça se ergueram ao céu enquanto canhões automáticos e baterias SAM disparavam tracer e mísseis nas nuvens.
Os rastros brancos se engrossaram, não mais arcos limpos, mas teias de morte, enquanto os aviões de guerra que vinham em ataque rompiam a formação, alguns sumindo no ar, outros caindo em espirais inflamadas rumo à água.
Bruno saltou para trás do muro de contenção, gritando no rádio.
"Aqui é o Hauptmann Bruno von Hohenzollern! Golfo de Gela sob ataque aéreo, intercepts em andamento, possível força de aterrissagem a caminho! Confirma prontidão costeira!"
Ruído branco. Depois, um grito quase inaudível antes que o céu o abafasse.
Mais explosões vinham do horizonte enquanto as aeronaves derrubadas atingiam o mar, jorros de fogo e espuma fervente.
Para cada avião aliado destruído, outra formação avançava através da chuva de fogo, teimosa, implacável.
Ele se abaixou quando uma onda de choque atingiu, areia voando pela praia.
"Levanta aí!" gritou, puxando um de seus soldados pelo colarinho. "Não estamos de férias! Veste o equipamento e vai pra linha de defesa!"
Homens se apressaram, alguns quase nus, outros descalços, todos movidos pelo instinto e pelo medo.
Colocaram coletes, carregaram revistas, correram em direção às trincheiras escavadas nas dunas.
Em poucos minutos, o pequeno grupo que descansava na praia virou uma unidade de combate, descoordenada, suja, mas armada e alerta.
Quando chegaram à linha, os defensores já disparavam. Artilharias alemãs retumbavam por trás das cristas, o impacto profundo trepidando a areia sob os pés.
Bruno pulou para a trincheira mais próxima, caindo ao lado de um oficial de comunicações gritando no telefone de campo. O homem nem percebeu sua presença.
O coronel do regimento saiu da entrada do bunker, com o cigarro pendurado na boca. Seu uniforme estava impecável, mesmo sob o bombardeio.
"Pois não, Hauptmann," disse, com a voz seca como poeira. "Parece que os americanos decidiram invadir sua despedida de solteiro. Você ia ser trocado em três horas, não ia?"
Bruno deu um aceno breve, limpando o rosto da sujeira. "Acho que não podiam esperar pra se despedir."
O coronel sorriu de leve. "Não morra de sunga, filho. Seria um golpe duro pra moral se o futuro Kaiser fosse acabar dessa forma…"
Seus homens, recém-tanos, meio armados, vestindo shorts camouflage sob coletes, pareciam completamente deslocados entre os soldados bem equipados.
Mas ninguém ria agora.
O ar acima deles rugia enquanto a próxima onda de bombardeiros se aproximava. As trincheiras tremeram. Uma fila de palmeiras atrás deles pegou fogo.
Bruno se abaixou atrás do parapeito, segurando firme o rifle. Seus homens seguiram o sinal dele, esperando em silêncio. Os mais jovens rezavam baixinho.
Ele olhou por cima da crista. O mar estava em chamas. As primeiras embarcações de desembarque americanas, sobreviventes, rastejavam pela fumaça, com as rampas abaixando antes mesmo de tocar a praia.
Ele apertou o rádio. "Aqui é o Hauptmann Bruno von Hohenzollern para todas as unidades! Fogo de defesa! Alvo: embarcações de desembarque e acessos à praia! Ninguém põe o pé nesta areia!"
Seus homens obedeceram imediatamente. A linha de trincheiras se encheu de flashes das armas.
Metralhadoras roncando, morteiros estourando, o ar impregnado com o cheiro de cordite e óleo queimar.
Bruno avançou pelo interior da trincheira, dando ordens, ajustando mira, arrastando um soldado ferido para fora do fogo.
Uma granada explodiu a vinte metros de distância, jorrando areia e estilhaços.
"Mantenham a cabeça baixa!" gritou.
Um dos seus homens gritou, segurando o braço dilacerado.
Bruno ajoelhou, abriu sua caixa de primeiros socorros e colocou um torniquete com destreza. "Segura aí, Karl. Você vai resistir. Agora, leva ele até o posto médico!"
Ele não parou, focado, frio, instintivo.
No próximo ponto de fogo, Kruger gritou no rádio novamente: "O comando sumiu! As linhas de retaguarda foram cortadas!"
"Então ficamos aqui, sem eles," disse Bruno. "Esperam que a gente quebre. Vamos decepcioná-los."
Subiu na borda da trincheira, disparando rajadas controladas no mar. Cada tiro, cada grito carregava o eco de seu avô, disciplina no caos.
Logo atrás dele, o coronel se posicionou ao lado de uma equipe de arma, acendendo outro cigarro com um fósforo tremendo ao vento.
"Pois não, Hauptmann," murmurou, "se você passar por essa guerra, de fato."
Bruno deu um sorriso breve. "Sorte é uma herança de família, senhor."
O coronel soltou uma risada curta. "E teimosia também."
Uma explosão os interrompeu, um projétil caindo perto do bunker central. Ambos se jogaram no chão com destroços caindo ao redor.
Quando Bruno olhou para cima novamente, o coronel já havia desaparecido. Restou apenas um cratero em chamas e uma boina semi-enterrada.
Ele cerrrou a mandíbula, pegou o rifle e assumiu o comando sem hesitar.
"Todas as baterias! Concentrar fogo na entrada central! Cortar a blindagem inimiga!"
Pegou um telefone de campo de um operador morto, conectando-se ao posto de artilharia mais próximo. "Coordenadas 47 por 9, disparar, repetir, disparar!"
Em segundos, os canhões da colina responderam. A praia virou um inferno de explosões. Tanques de desembarque queimando, torcendo-se em formas fundidas.
Os homens aplaudiram, mas Bruno não. Seus olhos fixaram-se no horizonte. Mais embarcações vinham vindo. Centenas delas.
Para cada onda destruída, duas seguiriam atrás. O céu se enegrecia com aeronaves. O bombardeio não cedia.
Kruger rastejou até ele, respirando ofegante. "Senhor! Se isso continuar, vamos ser sobrecarregados!"
Bruno demorou a responder. Seus olhos permaneceram na estranha carcaça flutuando na baía, homens e metal engolidos pela maré.
Finalmente, falou com firmeza:
"Então, vamos fazê-los ganhar cada metro que levarem."
Carregou mais uma revista no rifle e disparou até que o cano fumaçasse.
Ao redor, os defensores lutavam como lobos, ensanguentados, encurralados, persistentes.
A tarde avançada transformou a praia numa tapeçaria de fogo e destruição.
O céu voltou a ficar laranja, como se zombasse do início que tinha tido.
Bruno limpou o suor e a fuligem do rosto. As mãos tremiam, não de medo, mas de cansaço. O rádio chiarrou, com vozes em meio ao caos.
"Blindados inimigos na margem sul!"
"Solicitando apoio aéreo!"
"As artilharias estão sem munição!"
Ele pressionou o transmissor. "Todas as unidades, mantenham as posições. Reforços chegam em minutos."
Era uma mentira, mas uma mentira necessária.
Os homens ao seu redor se estabilizaram. Ordens importavam, mesmo quando a esperança desaparecia.
Outra explosão sacudiu a trincheira, jogando Bruno ao chão. Ele tossiu, cuspindo areia e sangue, depois se levantou.
Na neblina, conseguiu ver a bandeira alemã ainda tremulando acima do posto de comando, rasgada e manchada de fumaça, mas firme.
Olhou para ela por um momento, não como símbolo de império, mas como uma promessa: que o trabalho de seu avô não estaria tão facilmente desfeito.
Ajustou o capacete, com os ombros erguidos. "Kruger," disse calmamente. "Me traga uma atualização da margem esquerda."
"Sim, senhor."
"E diga aos homens..." Bruno fez uma pausa, voltando o olhar outra vez para o inferno no mar. "…Diga a eles que esta praia é onde vamos deter a maré."
Kruger assentiu e desapareceu na fumaça.
Bruno recarregou a arma e voltou à borda da trincheira. O horizonte estava em chamas, o fogo refletido nos óculos como uma profecia espelhada.
O mar continuava vindo, onda após onda, como se o próprio oceano quisesse reivindicar a terra.
Ele levantou o rifle e sussurrou para si mesmo, as palavras levadas pelo vento:
"Que venham."
E com isso, disparou novamente, o primeiro tiro da próxima batalha.