Re: Blood and Iron

Capítulo 746

Re: Blood and Iron

A cidade estava morta, e mesmo assim, a fumaça se recusava a subir em linha reta.

Ela se enroscava e se contorcia sobre Manila, como se também estivesse perdida, agarrando-se ao que restava do horizonte.

Blocos inteiros haviam virado cinzas e escombros, e mesmo assim, os oficiais ainda usavam sacos de areia como mesas e chamavam os destroços de "quartel-general".

O capitão James Mallory estava sentado com as costas encostadas numa parede quebrada, o capacete pendurado por um dedo, observando a luz da manhã escorrer através da neblina.

A sala de reuniões já fora um banco. Agora, era um abrigo, metade teto, metade céu.

Ele tinha uma xícara de café preto, já frio, e uma pilha de relatórios disposta diante dele como a mão de um jogador que perdeu tudo.

Brigadeiro-general Patton, não o Patton cujo cadáver jaz enterrado sob as areias de Argel.

Mas um parente distante que gostava de fingir que era tão grande quanto seu irmão, caminhava atrás da mesa com suas botinas batendo no chão ao ritmo do chicote.

Seu queixo era quadrado, o cabelo rareando, e seu temperamento já nervoso por causa da umidade.

Ao redor dele, estavam os restos do comando: alguns coronéis e majores, com os rostos tensos de cansaço e fumaça.

O major Willis, seu ajudante, lia em voz alta o último relatório de situação. Sua voz quebrou na metade.

"…e a atividade hostil continua ao longo da Rota 8. Dois comboios foram emboscados ao norte de Calamba. Estimados quinze mortos, oito feridos, quatro desaparecidos. Relatos indicam participação de moradores locais, armados com rifles de padrão alemão mais antigos, alguns usando M1 capturados."

O chicote de Patton batiu contra a mesa de mapa.

"Moradores. Moradores! Toda porcaria de vez é a mesma coisa: os moradores. O pessoal do MacArthur não disse que tinham sido pacificados? Entregamos a eles um governo provisório, uma bandeira, um hino…"

"Eles não queriam nada disso, senhor."

A voz de Mallory cortou a sala como o estardalhaço de um disparo. Calmamente, frio, carregando uma insolência suficiente para fazer todos olharem para ele.

Patton virou, as narinas dilatadas. "Tem algo a acrescentar, capitão?"

Mallory encolheu os ombros, deixando o capacete ao lado do café.

"Só que eu avisei isso há três meses. Assim que começamos a fazer patrulhas conjuntas a partir de Taguig, avisei ao Comando que estávamos vivendo de empréstimo de tempo. Os moradores não estavam pacificados, estavam fingindo. Você consegue perceber pelo olhar deles, estão esperando a gente ir embora ou alguém mais forte expulsar a gente."

O coronel Reed deu uma risada baixa do outro lado da mesa. "Mais forte? Quer dizer os alemães?"

Mallory assentiu. "Os alemães não precisam ganhar aqui. Basta convencerem as pessoas de que já perderam. E está dando certo. Cada vila por onde nossos scout passam sorriem para as câmeras, acenam a bandeira da Autoridade Transitória de Manila, e depois apunhalam nossos comboios na calada da noite."

Ele se inclinou para frente, com a voz baixa, porém deliberada.

"Já vi isso antes, senhor. Os uniformes mudam, mas o roteiro nunca muda. Você pode pagar alguém para trabalhar para você, mas não dá pra comprar a crença dele em você."

A sala ficou silenciosa por um instante, o único som o ranger abafado do metal lá fora, onde os engenheiros tentavam desobstruir outra estrada desabada.

Patton exalou pelo nariz, pegou seu cantil e falou: "Então, o que sugere, capitão? Começamos a distribuir medalhas para os que atiram em nós?"

A boca de Mallory se torceu quase numa careta.

"Não, senhor. Mas deixamos de fingir que eles são nossos amigos. Pelo amor de Deus, lutamos aqui uma guerra há menos de uma década, uma campanha brutal, sangrenta, e você acha que eles já esqueceram?"

"Maldade," retrucou Reed. "Nós atendemos às áreas que exigiram, estão a apenas um ou dois anos da data de plena independência que combinamos. Se não fosse por nós, os japoneses teriam usado essas ilhas como trampolim na guerra contra os alemães. Você realmente acha que…"

Mallory o interrompeu. "Nós dizimamos vilarejos inteiros e queimamos cidades até virar cinzas. Como já disse, isso foi há menos de uma década. A maioria das pessoas aqui ainda se lembra daquela guerra. E do que fizemos com elas."

Ele soltou uma risada seca, gesticulando para o horizonte destruído. "Olhe ao redor, coronel. Eles parecem gratos?"

Ninguém respondeu. Lá fora, um disparo distante rolou pelos escombros, seguido de silêncio.

Finalmente, Patton falou. "A inteligência informa que Berlim está transmitindo propaganda por ondas curtas, dizendo que estamos aqui para reescravizar os moradores."

Mallory assentiu. "E facilitamos para eles provar isso. Oferecem comida, remédios e a promessa de independência. Nós oferecemos cartões de racionamento, toque de recolher e lei marcial. Não é preciso ser gênio para escolher um lado."

O major Willis se moveu desconfortavelmente. "Com todo respeito, capitão, também construímos estradas, postos de saúde, usinas de energia…"

"…para as nossas logísticas," completou Mallory. "Não para eles. As vilas não têm eletricidade, mas os aeródromos sim."

O humor de Patton se quebrou. "Chega de cinismo, Mallory. Você tem lido demais livros de filosofia. Essas pessoas querem ordem, e somos os únicos capazes de proporcioná-la."

"Talvez," disse Mallory suavemente. "Mas ordem forçada a usar armas não é ordem. É inércia."

Isso ganhou dele um olhar duro, mas Patton não respondeu. Apenas deu mais uma trago no cantil e resmungou algo sobre "fascistas do caralho em uniforme".

Antes que alguém pudesse falar novamente, a porta se abriu de repente.

Um jovem cabo entrou tropeçando, com o rosto riscado de fuligem e suor. Cumprimentou com um movimento desajeitado, respirando fundo.

"Mensagem do campo, senhor. Comboio Delta-Quatro, emboscado perto de Antipolo. Três caminhões destruídos, sobreviventes ainda não encontrados."

As mandíbulas de Patton se cerraram. "Por quem? Os alemães?"

O cabo balançou a cabeça. "Moradores locais, senhor. Grupo misto. Alguns com uniforme, outros não. Usaram Panzerfausts capturados. Acreditamos que os alemães estão fornecendo armas diretamente agora."

Patton amaldiçoou, batendo o chicote novamente na mesa. Reed e morderam o lábio, Willis esfregou as têmporas.

Mallory apenas se recostou, expressão indecifrável.

"Quantas vezes já aconteceu isso?" ele perguntou.

Willis conferiu suas anotações. "Oito nas últimas duas semanas."

Mallory deu um sorriso pequeno e sem humor. "E ainda chamamos isso de 'região estabilizada'."

Reed se virou para ele. "Você parece bem satisfeito com isso, capitão."

O olhar de Mallory se fixou nele, firme e inabalável. "Não estou satisfeito, coronel. Tenho razão. Há uma diferença."

Patton apontou o chicote para ele. "Cuidado com o tom."

Mallory ignorou e continuou: "Você pode continuar escrevendo relatórios chamando-os de bandidos, mas estamos perdendo esse teatro de guerra uma vila de cada vez. Eles não nos enfrentam porque amam os alemães, mas porque acreditam que os alemães estão lutando por eles."

O cabo ainda permanecia na porta, inseguro se seria dispensado. Patton acenou para que fosse embora, dando ordens por reforços. Quando o rapaz saiu, a sala voltou ao silêncio.

Do lado de fora, o céu começava a escurecer com outra tempestade chegando, aquele tipo tropical que chega rápido, deixando o ar cheirando a podridão e ferro.

Mallory acendeu um cigarro, a luz dele iluminando brevemente os machucados nas mãos. Ele tinha se envolvido numa briga de rua duas noites antes com dois ladrões fardados como policiais transitórios. Os MPs fingiram não ver.

"Sabe como chamam a gente agora?" ele disse ao partir. "Os Novos Espanhóis."

Willis franziu o cenho. "Quer dizer?"

"Quer dizer que eles acham que somos apenas mais um império de uniforme diferente. Os alemães dizem que nunca vão embora, e eles acreditam nisso. Dá para culpar eles?"

Reed retrucou rápido. "Eles acreditam no que for quem tiver o rádio mais alto."

Mallory exalou fumaça pelo nariz. "Ou no que menos dispara em agricultores."

A paciência de Patton finalmente quebrou. Ele bateu as mãos na mesa.

"Puta merda, Mallory! Você acha que quisemos essa guerra? Que eu curto ver meus homens morrendo pra manter um país estável que não consegue decidir se quer nossa ajuda ou nossas cabeças? Você quer falar de moralidade? Fala na sua hora, não na sala de briefing!"

Mallory o olhou, calmo como uma pedra. "Com todo respeito, senhor, isso não é moralidade. É aritmética. Se os alemães continuarem armando a selva, vamos precisar de cinco homens para cada insurgente. E não há homens suficientes no Pacífico para preencher essa proporção. Francamente, devíamos ter pensado nisso desde o começo. Transformar os moradores contra os alemães. É uma pena ninguém ter pensado nisso…"

Patton o encarou, fazendo cara de poucos amigos, mas a lógica era indiscutível. A sala ficou silenciosa novamente. Até a chuva começou a cair lá fora, grossa e pesada, batendo no teto de metal torcido.

Por um longo momento, só se ouvia a chuva.

Depois, Willis falou suavemente, quase para si mesmo: "O que vamos dizer ao Comando?"

Patton não respondeu. Apenas ficou olhando para o mapa, as linhas vermelha e azul se misturando sob a luz tremeluzente.

Mallory apagou o cigarro na parede, levantou-se. "Diga a eles o que sempre dizemos," ele falou. "Que a situação está sob controle."

Pegou o capacete, colocou sob o braço e virou-se para sair.

"Para onde você acha que vai, capitão?" Reed perguntou, alto.

Mallory parou na porta, com a chuva escorrendo do teto destruído sobre os ombros.

"De volta à linha," ele respondeu. "Alguém precisa garantir que os homens que morrem na próxima sejam pelo menos por uma razão."

Ninguém tentou impedir. A porta rangeu ao se fechar atrás dele, e o trovão rolou um instante depois.

Do lado de fora, os escombros de Manila brilhavam de leve com a luz do fogo. Em algum lugar na selva além, o som de tiros ecoava, um ritmo distante e constante, como um batimento de coração crescendo mais forte.

Mallory puxou um cigarro do bolso, acendeu, e observou o horizonte se iluminar com outra explosão.

Ele sorriu, não de alegria, mas com a satisfação sombria de saber que o inevitável finalmente tinha chegado.

"Eu disse que ia acontecer," murmurou para si mesmo. "Toda porcaria de vez."

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