Re: Blood and Iron

Capítulo 748

Re: Blood and Iron

Bruno olhava os relatórios na tela. Os aliados haviam concentrado toda a sua força em duas invasões simultâneas.

Uma pelo estreito de Gibraltar rumo à Espanha. E outra atravessando Argélia e Tunísia em direção à Sicília. As coisas estavam acontecendo exatamente como ele previa.

Exceto por um pequeno inconveniente. Seu neto… O filho de sua filha mais querida e mais velha. O único neto a ter o privilégio de ser nomeado em homenagem a ele próprio estava lutando na linha de frente.

Não há palavras para descrever a mistura complicada de sentimentos que Bruno era forçado a reprimir dentro do peito neste exato momento.

Bruno, o Mais Jovem, estava entregando sua vida para cumprir ordens e defender o território que defendia.

Mas centenas de milhares de outros filhos da Alemanha também estavam na mesma luta. Não era uma situação com a qual pudesse brincar.

Se ele ordenasse uma retirada, alguns poderiam questionar suas ações como favoritismo por seus próprios parentes.

Por outro lado, se se recusasse a agir, Bruno, o Mais Jovem, e o restante de seus homens inevitavelmente seriam cercados e destruídos. Ou, pior, capturados e usados como moeda de troca política.

Se um cenário assim se concretizasse, Bruno talvez fosse forçado a sufocar o resto de sua humanidade remanescente e, ao invés disso, se tornar um avatar de destruição.

Esse pensamento o atingiu profundamente, enquanto seus dedos comprimiam a mesa de mogno com tanta força que deixaram marcas permanentes de suas unhas na superfície.

No fim, Bruno precisou respirar fundo para se acalmar, pensando de forma fria e racional, sem emoções pessoais.

E foi quando a resposta veio a ele, tão rápida quanto um supercomputador quântico que tivesse sido deixado para calcular por um milênio.

"Ordene a retirada de todas as unidades avançadas na Sicília. O ponto de ataque foi perdido. Elas devem se reagrupar com as unidades de retaguarda e criar uma nova linha de defesa. Qualquer equipamento que não puder ser recuperado deve ser destruído, e somente abandonado se não puder realizar tarefas de sabotagem sem colocar sua própria integridade em risco…”

Os generais presentes o olharam de várias maneiras. Alguns o encararam com reprovação, como se duvidassem de sua integridade.

Outros, mais aliviados, especialmente aqueles que o conheciam há mais tempo.

Temiam a ideia de o homem abrir mão de sua humanidade em nome de uma suposta clareza estratégica, e, no final, invocar uma fera muito mais monstruosa a partir do medo que ela gerava.

Menos ainda conseguiam compreender a verdadeira estratégia de Bruno. E entre eles estava ninguém menos que o Marechal de Campo Erwin Rommel, que foi rápido em confirmar a ação de Bruno para que os demais compreendessem claramente suas intenções.

"Você pretendia que o Golfo de Gela fosse um ponto de falha o tempo todo?"

Bruno lançou um olhar para Rommel, meio severo, meio inquisitivo, antes de recuperar sua postura estoica habitual.

"Claro que sim. Todo bom engenheiro sabe que não se projeta uma máquina sem uma falha estrutural adequada, um ponto de vulnerabilidade, uma área de comprometimento que seja capaz de suportar maior dano, para salvar o resto do sistema."

"E esse ponto é o Golfo de Gela. Nunca foi para resistir, apenas para direcionar as forças Aliadas para um conflito do qual elas não têm escapatória."

Assim que Bruno pronunciou essas palavras, Rommel sorriu com aprovação, enquanto os demais generais desviaram o olhar, envergonhados.

Alguns se sentindo culpados por terem interpretado as ordens do Reichsmarschall como favoritismo, outros por terem percebido o homem como alguém que se entregou ao próprio diabo.

Uma coisa, porém, era certa: assim que Bruno esclareceu suas ordens, elas foram transmitidas a todos os níveis das forças militares do Reich.

Até mesmo chegando à unidade de Bruno, o Mais Jovem, que lutava para segurar o ponto de resistência na praia, com recursos escassos e sem reforços.

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Bruno, o Mais Jovem, ouvia o canal como um homem que espera que o mau tempo cesse: vozes de rádio, fragmentos de coordenadas, o estalar de tiros distantes.

Ele tinha um mapa estendido sobre o capô de um semi-reboque e um cigarro apagado na terra ao seu lado.

Ao seu redor, o pelotão se movia com a lentidão de homens que haviam passado demais em treinamentos: mãos rápidas, rostos calmos, pequenos gestos aprendidos para sobreviver.

A mensagem veio em uma voz limpa, seca, sem cerimônias. Sede, rede segura, autoridade: Marechal de Campo von Zehntner. A mandíbula de Bruno se apertou; o nome ecoou no ar.

"Alpha-7", dizia a mensagem através de static, "retirada. Executar códigos de demolição Echo-Seven a Echo-Diez. Recuar para a linha interior Bravo-3. Nenhum material deve ser deixado intacto, a não ser que a retirada esteja garantida. A retaguarda terá quarenta e cinco minutos para criar uma janela de oportunidade. Disciplina. Nada de heróis."

Não havia adendo. Nem apelo. Nem suavização. Apenas coordenadas e consequência.

Bruno leu duas vezes, pois a segunda leitura lhe dava uma pequena margem de pensamento. Seus homens o observavam.

Um cabo à esquerda começou a preparar o próximo passo como se músculos pudessem calcular mais rápido que cérebros: lista de demolitions, ordens de incendiários, equipes de recuperação de veículos, triagem médica.

O jovem Hauptmann enfiou o papel de volta na sua palma como se fosse um detonador, sentindo a friça da impressão em seus dedos.

"Ordens", disse em voz baixa.

"Ordens", confirmou Kruger, com a voz embargada. Ao redor, os homens empacotavam equipamentos em caixas, ajustavam correias, verificavam munições.

A praia ainda fumegava de destroços; o mar era uma linha de preto e laranja. Naves de desembarque queimando como colmeias viradas ao contrário rolavam na maré.

Armas menores disparavam para dentro, e o uivo distante de tanques anunciava um inimigo que se recusava a deixar a praia vazia.

Ele se movia entre eles como uma chama que não quer queimar: "Equipes de motor, escutem: destruam os conjuntos de transmissão que não puderem puxar. Quebrem os eixos. Se um guincho não conseguir puxar em quarenta minutos, queimem."

As mãos se mexiam mais rápido, como se sua vontade fosse um relógio, e cada homem uma engrenagem tentando não travar.

Eles se moviam em um caos medido.

O que não pudesse ser recuperado ou destruído antes da próxima onda de desembarque, deixavam para trás.

Depois, avançaram a pé ou com qualquer veículo que conseguissem requisitar, não importando se já era um destroço.

Não eram apenas as armas ou máquinas que Bruno e seus homens sabotavam.

A ponte se despedaçava em um crescendo de metal e fogo.

O cais se desintegrava em barras retorcidas de ferro. O mar adquiria uma borda irregular. Por um momento, o mundo prendeu a respiração, então eles correram, para o interior, cambaleando, eficazes.

O pelotão de retaguarda se misturou ao campo, trocando espaço por esforço, emboscada por atraso.

Suficientes soldados americanos e aliados do mundo latino estavam mortos nas praias.

Na visão dos sobreviventes da guarnição, eles cumpriram o seu dever ao extremo da lei.

E, assim que a ordem chegou, eles todos ficaram felizes em recuar para uma linha de defesa mais segura.

A unidade de Bruno, o Mais Jovem, se reagrupara no ponto de encontro mais próximo, exaustos, com as camisas grudadas de sal e os rostos cobertos de fuligem.

Seu oficial executivo se aproximou. "Acha que vai segurar?"

Bruno olhou para a linha escura onde o mar antes se estendia.

Fagulhas de fogo brilhavam como lanternas, destroços soltavam fumaça. "Nem de perto, mas acho que esse era o objetivo das nossas ordens. Fazer com que eles sangrem a cada centímetro conquistado, para que nossas reforços da Itália possam cercar e liquidar tudo. Talvez tenhamos perdido a praia, mas, fazendo isso, os americanos acabaram entrando na própria armadilha de Canas."

Acima da linha interior, a noite caiu.

Bruno, o Mais Jovem, permitiu que o cansaço pesasse sobre suas pálpebras e sentiu, fraco e amargo, o peso de um nome que ele não costumava usar para burlar regras.

Seguiu as ordens, queimou pontes e não deixou seu sangue decidir o que pesava mais.

A Golfo foi paga em areia e aço, a estrutura ainda de pé – por enquanto. Esperando para prender as almas desventuradas que lutaram pelo direito de passar.

Sentou-se ali em silêncio, por um longo tempo, enquanto a adrenalina da batalha se dissipava e a fadiga começava a dominá-lo.

Os faróis de um caminhão de transporte rasgavam um corredor de fumaça, roncando pela estrada litorânea como uma resposta a uma prece.

Parou com um abafado estalo. Um sargento desceu do veículo de cabeça baixa e foi andando apressado até ele, a respiração formando nuvens na friagem.

"Vocês estão duas horas atrasados na troca," berrou, irritado, mas aliviado. "O comando disse que vocês estão de licença. Carreguem, andem rápido. A janela de evacuação é de vinte minutos. Não querem ficar aí por mais uma missão agora que a região ficou quente, né?"

Bruno o observou como se a notícia pudesse mudar as estrelas.

Duas horas. Duas horas que fizeram toda a diferença entre dormir numa cama no quartel e estar enterrado na areia e no aço torcido.

Ele sentiu a absurda e privada sorte de passagem do tempo, a pequena crueldade do momento certo, e não sorriu.

Da underneath da jaqueta, tirou as tags de serviço que tinha arrancado do uniforme de um cabo que eles não conseguiram tirar.

O metal ainda estava quente na palma da mão. Virou-os, como se seus nomes pudessem ler de volta para ele o cálculo do destino.

Rostos surgiram na memória: uma risada ao amanhecer, uma mão firme segurando um rifle, o silêncio de um homem que nunca pediu para ser famoso.

Pressionou as tags contra os lábios, como se quisesse saborear o perdão, e depois as segurou junto ao peito.

"Duas horas atrasado," resmungou um tenente ao seu lado.

Bruno recolheu as tags ao bolso, com a mandíbula firmada.

"Então, em duas horas estamos em casa," disse, e essas palavras eram uma promessa e uma mentira ao mesmo tempo.

Virou-se para o caminhão, em direção à promessa tênue de segurança, e caminhou com o passo medido e inevitável de quem aprendeu a carregar a sorte como uma caderneta: ela não favorece ninguém pra sempre.

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