Re: Blood and Iron

Capítulo 736

Re: Blood and Iron

O capitão James Mallory estava às margens da Baía de Bagac, com suas botas afundando na areia molhada enquanto a maré avançava.

A Thompson pendia frouxa sobre o seu peito, o peso conhecido e indiferente.

Navios passavam pelo porto, silhuetas negras contra o céu em declínio, mas Mallory não os observava. Seus olhos estavam fixos no horizonte. Em Siam.

Ele não via suas praias, mas sabia que ali logo seriam enviados.

Os exércitos real da Tailândia cresciam em algo perigoso nos últimos vinte anos, especialmente nos últimos dez.

Substituindo o Japão como a nova potência do Sudeste Asiático, eram fiéis a Berlim, armados e treinados por ela.

O Reich investira aço e ciência em Siam como óleo sagrado: rifles, uniformes, blindagem, até navios de guerra.

Alguns estavam carimbados com "Feito em Banguecoque", enquanto outros eram fruto de plantas alemãs.

A Alemanha havia criado um peão. E a América… Bem, Mallory não se importava.

Política não era da sua conta. Ele não era filósofo nem grande estrategista.

Ganhou sua patente reprimindo motins em Nova York, atirando em homens que acreditavam que "liberdade" significava incendiar bancos.

Certo ou errado, isso não importava, o que valia eram as ordens.

Mas o calor… Ah, esse sim, era algo que ele considerava mal inegável: o calor infernal desta merda de inferno tropical.

Agora... isso aí, isso era algo que ele via como inerentemente mal.

Um som de bofetada molhada ecoou ao ele esmagar um mosquito contra a bochecha. Seu sangue manchou a palma da mão.

Ele fez uma careta. "Porra de mosquitos da selva…"

Se os nativos fossem mais amigáveis, talvez ele encontrasse algum conforto aqui, uma garota, uma garrafa, uma noite sem suor e ódio.

Mas os filipinos olhavam para eles com um nojo tão intenso que ele poderia bem ser a própria encarnação do diabo.

Não fazia tanto tempo assim, afinal, que os americanos queimaram vilarejos até o chão em nome de manter o controle sobre essa terra.

Ele ficou em silêncio, encarando o reflexo alaranjado do sol se esfacelando na baía, até que botas arranharam o chão atrás dele.

"Senhor!" um jovem tenente saudou de forma rígida, sem fôlego. "Ordens do quartel-general da brigada... aviões de reconhecimento reportam atividade incomum em Siam. Parece que o inimigo está se preparando para uma invasão. Você deve se dirigir a Manila imediatamente, senhor."

Mallory não se moveu.

O garoto hesitou, a voz elevando-se. "Senhor! As ordens são do próprio Tenente-Coronel Moore!"

Finalmente, Mallory virou-se, o cigarro preso nos lábios inferiores. "Relaxe, rapaz. Você vai viver mais tempo."

Ele arrancou o papel, vasculhou o selo e o amassou antes que a tinta secasse na mente dele. "Fique aí, cabo."

O jovem ficou tenso, saudou novamente e saiu murmurando algo sobre "suicídio na carreira".

Mallory apenas encarou com uma expressão vazia de desprezo, apagando cinzas no mar. "Idiota. Não dura cinco minutos quando as balas começarem a voar."

Ele ergueu sua Thompson, começou a caminhar pelo cais em direção à cidade e não olhou para trás.

Logo atrás, trovões ressoaram fracamente sobre a água, um rosnado distante vindo do oeste.

Poderia ser uma tempestade. Ou o primeiro eco de algo pior.


A viagem até Manila levou três horas, passando por postos de controle e barricadas.

Quanto mais se aproximava da capital, mais o ar parecia carregado. Máquinas demais, rifles demais, homens fingindo que não estavam assustados.

Manila não era uma cidade nesta noite. Era uma ferida com luzes dentro.

Holofotes rasgavam o céu, dedos de luz branca cortando a escuridão úmida.

comboios passavam a toda hora, com faróis apagados, motoristas agachados sobre o volante.

Metralhadoras antiaéreas dominavam os telhados como gárgulas nervosas.

Em algum lugar distante, o som de uma sirene de ataque aéreo titubeava e voltava a silenciar.

Mallory saiu do jeep e acendou um cigarro.

Ele deu duas tragadas, quando alguém gritou.

"Ei! Você aí! De qual unidade você é?"

Um sargento, com uniforme suado e escurecido, correu até ele, espingarda no ombro e capacete inclinado.

Os olhos do homem passaram pelos equipamentos de Mallory antes de se fixar nas abas do ombro dele.

"Capitão… Deus, senhor, o que você está fazendo aqui fora?" Ele não esperou uma resposta.

"Bombardeiros alemães foram detectados vindo nesta direção. Estamos em alerta. O comando está preparando um ataque aéreo!"

Mallory apenas piscou, a fumaça saindo entre seus dentes.

"É mesmo?"

"Sim, senhor!" o sargento gritou, quase gritando acima do caos. "Nos ordenaram a esvaziar as ruas e conduzir todo o pessoal para abrigos designados. Uma reunião emergencial do comando está acontecendo sob a Fortaleza Santiago…"

Mallory expirou lentamente, de forma tranquila e indiferente.

"Vai na frente, sargento. Eu me viro."

O homem hesitou, claramente dividido entre o protocolo e a incredulidade. "Senhor, com todo respeito, não é seguro aqui fora."

Mallory sorriu de forma sem graça. "É o exército, sargento. Nunca é seguro."

Antes que o homem pudesse argumentar, Mallory virou-se e seguiu pela rua estreita em direção à orla.

Os sirenes começaram novamente, desta vez constantes, agudas e estridentes. Soldados corriam em todas as direções. Em algum lugar, um cachorro latiu, frenético e inútil.

Ele passou por um grupo de civis agachados atrás de sacos de areia, com os rostos pálidos à luz intermitente de tambores de óleo em chamas.

O cheiro de medo pairava no ar, junto de suor, gasolina e o leve cheiro metálico da antecipação.

No final da rua, o mar aguardava.

Ele seguiu-o como uma lembrança.

A praia agora estava vazia, salvo pelo leve zumbido da maré e pelo distante ruído de motores.

Rumo às águas, o horizonte era negro, até que não fosse mais.

Pequenas faixas de laranja começaram a florescer, depois desaparecer, depois florescer novamente. Como vaga-lumes.

Ele conhecia esse padrão. Tinha visto mais vezes do que podia contar.

Explosões de artilharia antiaérea.

"Na hora certa", murmurou.

Ao seu lado, as luzes de Manila escureciam enquanto a rede de energia se desligava.

A cidade ficou escura, uma silhueta esperando ser esculpida pelo fogo.

Podia ouvir as primeiras explosões distantes, impactos surdos que rastejavam do mar.

Os bombardeiros tinham chegado.

Mallory sentou-se numa Ebina quebrada, apoiando a Thompson sobre os joelhos.

O cigarro queimava na ponta dos dedos, a cinza tremendo a cada impacto retumbante.

O céu brilhou branco, depois vermelho, depois laranja novamente.

O próprio ar parecia distorcer-se, carregando o eco de prédios desabando e homens gritando.

Ele não se mexeu. Nem mesmo cambaleou.

Em algum lugar, uma formação de caças passou rasante, interceptores aliados, tarde demais e poucos demais.

Seus rastros se entrelaçavam na luz estroboscópica de tiros de tracador, belos de uma forma que só a morte consegue ser.

Mallory deu outra tragada e deixou a fumaça descansar nos pulmões.

"Acho que é isso", ele falou baixinho, para ninguém em particular.

Outra explosão atravessou o porto.

O chão tremeu sob seus pés. Chamas alcançaram o céu onde antes ficavam os tanques de óleo, pintando as ondas de ouro derretido.

Ele voltou a olhar para Siam ou para a escuridão do mar onde ela esperava, invisível mas inevitável, e sorriu amargamente.

"Vai lá", ele sussurrou, jogando o cigarro no mar. "Deixa os filhos da puta virem."

A próxima explosão abafou completamente o som.

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