
Capítulo 737
Re: Blood and Iron
Erika estava atrás do balcão, ajudando a bisavó, sua sogra, e suas cunhadas a preparar o jantar junto à equipe da cozinha.
Seus ombros tremiam, suas mãos trepidavam enquanto ela batia de forma desajeitada o molho.
Heidi observou a jovem que havia se casado com seu neto e forçou um sorriso.
"Você está indo bem; vá no seu ritmo, se precisar. Ninguém tem pressa para comer esta noite…."
A mão de Heidi ficou no ar por um momento; reflexos antigos diziam para ela mandar, não confortar.
Mas ao ver os ombros trementes da garota, seu tom suavizou, e ela tocou nela com delicadeza.
A mulher reagiu com um sobressalto rígido antes de se virar e abraçar a sogra, chorando copiosamente.
Heidi só pôde olhar para ela com simpatia nos olhos céu-azul.
A guerra já durava quase um ano.
Começou com a Marcha a Paris e depois seguiu com os bombardeios na Inglaterra.
Prosseguiu pelo Atlântico, com operações clandestinas na América Latina, e ataques abertos às bases navais canadenses no Atlântico e no Pacífico.
De lá, os americanos desembarcaram no Norte da África, onde passaram grande parte do ano construindo uma base de ataque para invadir a Europa pelo Mediterrâneo.
Tudo isso enquanto proclamavam domínio sobre a região e seus habitantes. Uma região contestada por fantasmas nas areias e pelo zelo de uma fé que não se curvava.
Porém, para grande parte do Reich, a ideia de se preocupar com maridos, pais e filhos amados que marcharam para a guerra como uma ameaça distante, ao melhor estilo de um medo que se dispersava.
Um medo pouco visível desde os primeiros estágios do conflito.
Hoje, contudo, era diferente. Erika recebera uma ligação do marido poucas horas antes, informando que ele e seu batalhão fariam parte de uma operação que os enviaria para o leste.
Ele não conseguiu explicar muito, apenas que uma nova frente se abrira na guerra. E que seus homens deveriam atuar como ponta de lança.
Até então, ele e seus homens já estavam a caminho de Bangkok.
E Erika não conseguiu segurar as lágrimas.
Ela havia perdido o pai no final da guerra anterior. E agora temia perder também o marido.
Um medo que não conseguiu deixar de expressar ao lamento de Heidi.
"Sei que não devia dizer isso… Afinal, é seu marido… Mas ele levou meu pai de mim tantos anos atrás, e agora ameaça levar meu marido, seu próprio neto, também… Que tipo de covarde insensível joga seu próprio sangue na boca da morte?"
Heidi não reagiu com a dureza ou crueldade que normalmente teria se uma mulher difamasse o nome do marido daquela maneira.
E a razão era simples: Erika era sua própria neta por casamento. E ela expunha uma dor de uma vida inteira, que se acumulava aqui e agora.
Heidi também sabia que seu marido era, de fato, responsável pela morte do pai da mulher. Uma morte ocorrida antes mesmo dela nascer.
Erika nunca conheceu o pai, e agora o único homem que ela amara estava sendo pedido a arriscar a vida pelo mesmo homem que enviou seu pai cedo demais para a sepultura.
Por isso, quando Heidi levantou a mão, não era para arranhar ou bater, mas para enxugar as lágrimas que escorriam pelo rosto de Erika, longe dos olhos de pedra.
"Entendo por que você pensa assim. Mas precisa entender. Não é que meu marido não tenha coração. É que seu coração carrega o peso de um milhão de filhos. Não se pode pedir que ele privilegie um em relação ao outro. Erich foi chamado a cumprir seu dever porque faz parte de uma unidade de elite, capaz de realizar essa missão. Nada mais, nada menos."
Havia muita verdade no que Heidi dizia. Não apenas na questão da mentalidade paternal de Bruno em relação à hierarquia, mas também na posição de Erich.
Depois de tomar Dunkirk sozinho das forças francesas ali estacionadas, o batalhão de Erich recebeu uma grande honraria.
Foi certificado como Batalhão de Guardas Imperiais. Uma menção coletiva que simbolizava seu status de elite e lendário.
Desde a Guerra Austro-Prussiana de 1866, a Prússia tinha um conceito semelhante. Era uma unidade conhecida como Corpo de Guardas.
Uma unidade de elite que representava a mais alta honra a ser servida.
No entanto, após a Grande Guerra, Bruno reformulou em grande parte o Exército Alemão Imperial, incorporando o melhor de doutrina, patentes e organização herdadas da história deste mundo e do anterior do qual ele proveniente.
Assim, nasceu um sistema semelhante ao do Império Russo, União Soviética e os Estados sucessores soviéticos.
Concedendo a insígnia de "Medalha de Guardas" às unidades que alcançassem feitos excepcionais no campo de batalha, distinguindo-as como um nível superior às demais parecidas.
A unidade de Erich, o 3º Batalhão de Infantaria Blindada de Choque Imperial "Der Falke", nomeado em homenagem ao próprio apelido de Erich, conquistado como comandante de elite de paraquedistas, foi uma das várias no Marcha a Paris que se destacaram nesse aspecto.
E foi a única unidade blindada de paraquedistas a alcançar esse reconhecimento.
Por isso, a brigada à qual seu batalhão pertencia foi especificamente escolhida para fazer parte do destacamento de paraquedistas na invasão das Filipinas.
E embora Heidi compreendesse que seu marido pensava de forma tática, e não por favoritismo paternal,
Para Erika, que só via seu marido partindo para um risco de vida numa operação perigosa enviada por seu próprio avô, ela simplesmente acreditava se tratar do ato de um coração insensível.
Assim, quando Heidi disse que não se tratava de maldade ou insensibilidade, mas do próprio mérito de Erich, que havia escolhido ele e seus homens para esta missão,
Erika não pôde deixar de chorar ainda mais, manifestando seu descontentamento repetidamente.
"Por quê... Por que aquele idiota tinha que se tornar tão valioso…"
Heidi só pôde dizer e abraçar a mulher com força, esperando que ela superasse o medo que a consumia.
Mas ela nunca poderia criticar Erika, pois também tinha passado noites acordadas, chorando sozinha na cama, olhando pela janela, perguntando-se se Bruno voltaria algum dia.
Era um medo que toda esposa e mãe compartilhava num mundo que só conhecia a guerra.
Erich e seus homens desembarcaram em uma pista fora de Bangkok. Era uma base cheia de soldados, aviões e veículos blindados.
Canhões antiaéreos estavam em todos os cantos, mas mísseis terra-ar estavam completamente ausentes.
Principalmente porque era uma base pertencente e operada pela Força Aérea da Tailândia, com acesso militar temporário concedido apenas à tropa alemã.
Não partiram imediatamente para combate, apesar dos ataques por bombardeio já em andamento pelo Pacífico.
As Filipinas e suas defesas estavam sendo testadas pela Força Aérea da Tailândia e seus destacamentos alemães.
No entanto, Erich não tinha tempo de admirar as paisagens, aprender sobre a história do antigo Reino de Sião ou interagir com os locais.
Ele e seus homens foram logo instruídos a trocar seus uniformes de clima frio europeu pelos novos uniformes tropicais.
Capacetes leves de paraquedista, com silhueta menor.
Ofereciam o mesmo nível de proteção, mas com menos cobertura, para economizar peso e aumentar a comodidade.
Além disso, a armadura corporal foi substituída pelas mais leves, que se ajustavam ao torso, de design simples e com bolsos internos de placas.
Removeram as partes de virilha e pescoço da proteção, focando apenas na proteção dos órgãos vitais.
Assim, aumentou-se a respirabilidade e o conforto, além de reduzir significativamente o peso, para cerca de 2 a 3 kg sem as placas rígidas, mantendo a classificação de proteção IIIA do colete macio.
Por fim, trocaram o padrão dos uniformes do padrão Blumentarn BDU, adequado para o campo europeu, por um uniforme de selva de peso mais leve, no padrão "Lizard Pattern".
Seu corte era mais ajustado, pensado para o calor da floresta, e o padrão tinha origem no "Lizard Pattern" da vida anterior de Bruno, com cores adaptadas às selvas tropicais do Sudeste Asiático.
A última grande mudança foram as botas, que agora eram de design sintético, na mesma cor feldgrau do colete e do arnês de carga.
Esse calçado foi otimizado para ambientes extremamente úmidos, combinando com meias específicas.
Boots desenvolvidas para evitar que a umidade e bactérias do ambiente deteriorassem os pés dos soldados, ao mesmo tempo em que ofereciam estabilidade, suporte e tração suficientes para escalar, se locomover e realizar operações de combate.
Quando Erich vestiu os novos uniformes e inspeccionou o equipamento, não pôde deixar de pensar em quanto tempo seu avô já se preparava para aquela guerra.
Para criar um uniforme totalmente novo, perfeito para o ambiente do Pacífico, provavelmente testado por unidades do Werwolf embutidas no Sudeste Asiático e na Amazônia anos antes.
De repente, passou a sentir pena do inimigo. Pois eles desconheciam a profundidade da mente que havia criado a máquina de guerra contra a qual agora lutavam.