
Capítulo 703
Re: Blood and Iron
A viagem de Berlim a Innsbruck foi rápida, cerca de uma hora, mais ou menos, com uma potencial rajada de vento a favor. Bruno raramente notava o tempo passar.
Para ele, a verdadeira medida não eram minutos ou milhas, mas o clima: Berlim era aço e mármore, toda gravidade e trovão.
O Tirol era granito e pinheiro, ar de montanha fresco e silêncio.
Um era o centro do poder. O outro, a paz.
O zunido das hélices da aeronave desapareceu à medida que o avião descia sobre os Alpes.
Neve ainda cobria os picos mais altos, mesmo após o degelo da primavera.
As montanhas pareciam eternas, imunes às mudanças da história.
Bruno observava a janela, com o rosto impassível, mas seus ombros lentamente se relaxavam.
No instante em que as primeiras florestas apareceram, algo atrás de seus olhos amoleceu.
Ele estava voltando para casa.
Quando as rodas tocaram a pista privada fora de Innsbruck, o crepúsculo havia pintado o céu com tons violáceos e rosados.
Uma limusine preta aguardava no pátio, já aquecida.
Um único motorista abriu a porta com um aceno de cabeça.
Bruno não falou durante o trajeto.
Raramente o fazia depois de Berlim.
Passaram por prados alpinos começando a florescer novamente.
O ar cheirava a fumaça de lenha e ervas silvestres.
Ocasionalmente, uma criança de vila com bicicleta acenava para a limusine que passava, sem perceber o homem atrás do vidro escurecido.
Ou talvez percebessem, mas não se importavam.
O Grande Príncipe pertencia ao Tirol.
Vivera aqui por décadas.
Seu sangue, suor e lágrimas testemunhados por todos que moravam na região, refletidos nas grandiosas obras de arquitetura, indústrias, medicina e agricultura que ele tinha patrocinado, sobretudo com sua própria riqueza.
Ele era deles.
Os portões da propriedade Zehntner se abriram silenciosamente.
Os guardas saudaram, mas Bruno não olhou.
Ele conhecia cada um deles pelo nome.
Tinha treinado com alguns, enterrado outros.
O carro subiu a última colina e o palácio surgiu à vista, como uma coroa no topo da encosta coberta de pinheiros.
As luzes brilhavam quentes por trás de janelas emolduradas em pedra.
Algum lugar interno, seus filhos e netos riam.
Isso bastava.
Ele saiu do carro, tirou as luvas e respirou fundo.
O vento aqui tinha cheiro diferente. Mais limpo. Honesto.
Entrou pelo corredor dos fundos, pulando o grande hall.
Não havia necessidade de formalidades.
Não naquela noite.
Na sala de estar, Heidi estava encolhida no sofá com um livro no colo, a lareira criando um halo dourado ao redor de seus cabelos claros.
Ela olhou para cima antes mesmo que ele falasse, percebendo sua presença como sempre fazia.
"Você veio mais cedo", ela disse suavemente.
"O piloto escolheu um caminho mais rápido", ele respondeu, tirando o sobretudo. "Foi tranquilo. Sem turbulências."
Heidi se levantou para cumprimentá-lo.
Ele a abraçou sem palavras.
Seu corpo contra o peito dele, magro, quente e real.
O coração dela pulsando firme contra o dele.
"O jantar está no forno", ela murmurou.
"Não estou com fome."
"Vou deixar aquecer, mesmo assim."
Ele beijou sua testa. "E os outros?"
"No andar de cima, se preparando para dormir. Para ser honesto, eles achavam que você chegaria bem mais tarde, com toda essa guerra…."
Bruno suspirou, sem querer pensar na sua missão nem por um instante, sentando-se no sofá e soltando as medalhas ao redor do colarinho.
"Tudo está acontecendo como planejado; não preciso ir a Berlim até amanhã de manhã. E não quero pensar nisso até lá."
Sentaram juntos perto da lareira, em silêncio.
Bruno recostou-se, com os olhos semicerrados, deixando o calor aliviar a tensão na coluna.
A sala vibrava com o crepitar da lenha de pinheiro.
O único som lá fora era o vento nas montanhas, tocando as beirais do telhado.
Heidi pegou sua mão.
Embora seu marido insistisse em não falar sobre trabalho, ela sabia que ele talvez precisasse desopilar, ao invés de guardar tudo pra si até explodir.
Por isso, seu tom era suave e carinhoso, mas firme o bastante para tirar uma resposta dele.
"Foi ruim?"
Ele hesitou, pensando se deveria realmente dizer algo, mas acabou se abrindo.
"Os americanos estão despedaçando. Eles sabem… só não conseguem provar nada ainda."
"E o Brasil?" ela perguntou, a curiosidade brilhando mais na expressão do que o horror.
Bruno rangeu o queixo. "Pegando fogo. Como planejamos."
Ela ficou quieta por um instante — tempo demais pra conforto — e então falou.
"E Londres? Certamente não pensamos em deixá-los em guerra constante, como um porto seguro para os Aliados reunirem forças?"
Bruno suspirou pesadamente, a verdade escapando na respiração.
"Vai virar um caos quando eu chegar a Berlim amanhã de manhã. E as demais ilhas ficarão isoladas até que se rendam ou percam o sustento."
Heidi observava-o atentos. "Então descanse. O mundo ainda vai estar queimando de manhã."
Ele fechou os olhos.
Algumas partes dele queriam acreditar nela.
Que aqui, nesta sala, o tempo pudesse parar.
Que a guerra, sua guerra, pudesse esperar mais algumas horas.
Mas o dever, como a gravidade, nunca dorme de verdade.
Ele se levantou uma hora depois e foi para o andar de cima.
Por fim, Bruno chegou ao seu escritório, acendeu as luzes.
No escuro, as luzes iluminaram uniformes de guerras passadas, medalhas conquistadas de diversos impérios, alguns já esquecidos na história do mundo.
Fotografias de batalhas travadas, camaradas desaparecidos.
No final, ele apagou as luzes e fechou a porta atrás de si ao seguir para o seu quarto.
Heidi o aguardava, já debaixo das cobertas, a luminária de leitura apagada.
Ela assistiu enquanto ele trocava de roupa, dobrava com cuidado seu uniforme e se deitava ao lado dela.
Por um tempo, nada foi dito.
Até que, pouco antes do sono levá-lo, ela sussurrou:
"Você construiu um império. Mas não esqueça… você também criou isto."
Ele não respondeu.
Mas sua mão encontrou a dela na escuridão.
E a segurou até o amanhecer.
E quando o sol nasceu sobre as montanhas do Tirol, Bruno mais uma vez se pôs a caminho de Berlim.
Mais um voo curto, enquanto via as montanhas, intocadas pelas chamas da guerra, sumir ao longe, e a capital do Reich voltar ao que era.