
Capítulo 702
Re: Blood and Iron
A Casa Branca estava sufocante.
Telegramas, informes e transmissões interceptadas lotavam a mesa do Presidente como folhas em uma tempestade.
Do lado de fora, o sol da primavera surgia sobre Washington, mas não transmitia calor algum.
A República Americana estava, mais uma vez, à beira de algo que não conseguia nomear.
Franklin Delano Roosevelt permanecia imóvel na sua cadeira, as sobrancelhas franzidas, as mãos unidas sob o queixo enquanto ouvia o caos se desenrolar.
"…o incêndio na refinaria de Guayaquil foi confirmado como intencional. Ainda não houve reivindicação de grupo algum. Autoridades colombianas relatam cinco descarrilamentos. Milícias armadas reivindicaram dois deles, mas os outros três… bem, dizem que provavelmente foi sabotagem."
"E o Brasil?" perguntou FDR, com a voz rouca de quem não dormia bem.
"Ainda sem pistas," disse o diretor William Donovan, do Escritório de Serviços Estratégicos.
"Toda agência de inteligência que temos, FBI, OSS, Criptologia Naval, estão todas orbitando o mesmo buraco negro. Sem impressões digitais, sem casca, sem rastro."
Do outro lado da sala, Cordell Hull, secretário de Relações Exteriores, massageava as têmporas. "Foi uma operação cirúrgica. Quase ritualística. Nenhuma gangue de extremistas na América do Sul teria essa precisão."
Donovan assentiu, de maneira sombria.
"Não estamos mais lidando com atores locais. São agitadores estrangeiros. Treinados. Financiados. Talvez já infiltrados antes mesmo da fala ter sido marcada."
O que fez a mandíbula de Roosevelt se apertar.
Do lado de fora da Casa Branca, gritos raivosos ecoavam pela Pennsylvania Avenue. Os protestos começavam a se formar em cerca de uma hora após a morte de Calheiros.
Agora, tornara-se um ritual diário: faixas agitadas, punhos levantados, gritos cruzando as linhas policiais.
Algumas legendas diziam:
"Sem filhos para a Europa!"
"Mantenha a América fora!"
Outras:
"Democracia agora, ditadura nunca!"
"Envie os bombardeiros!"
E entre as ruas, punhos se embolavam.
"E os estaleiros?" perguntou Roosevelt, já suspeitando da resposta.
Assistente Reynolds aclarou a garganta. "Norfolk está parado. Duas mil pessoas deixaram o trabalho nesta manhã. Estão se recusando a terminar a preparação da cruzador USS Providence. Sem falar na reparação do sabotagem que vários de nossos encouraçados e porta-aviões sofreram."
Roosevelt arregalou os olhos.
"Aquela embarcação deveria partir na próxima semana."
"Sei, senhor. Os representantes sindicais dizem que não irão levantar uma chave até terem garantias de que seus filhos não serão obrigados a lutar outra guerra na Europa."
Cordell Hull interveio: "Isso não é só sobre a guerra. É algo que vem se preparando há anos. As políticas isolacionistas de Hughes deram espaço para que isso crescesse."
Roosevelt olhou firme para ele. "Não me venha com essa história. Ambos sabemos como a mídia foi manipulada sob Hughes. Está dizendo que isso aconteceu por acaso?"
A sala silenciou-se.
Donovan falou cautelosamente. "Temos feito auditorias de fundo, senhor. Rastreamos doações políticas, fundações, propriedade de mídias… fundos universitários…"
FDR virou lentamente para ele.
Donovan hesitou, até que deixou a pasta cair com um estrondo suave na mesa.
"Senhor, é pior do que imaginávamos. Nossos números iniciais indicavam que 5% das corporações americanas teriam ligações com Berlim. Mas parece que os alemães há muito compraram influência em todas as principais instituições de poder nos EUA…"
Silêncio absoluto tomou conta da sala.
FDR agarrou a borda da mesa com força.
Do lado de fora, o protesto crescia em声.
"NENHUMA GUERRA PELOS IMPÉRIOS!"
"A DEMOCRACIA MORRE SE NÃO FIZERMOS NADA!"
Duas Américas gritando uma contra a outra, sem saber do fio invisível que as manipulava.
"Os sindicatos sempre foram a espinha dorsal da nossa mobilização industrial," murmurou Roosevelt.
"A mídia, nossa voz. As universidades, nossa fonte de talento leal. Tomei medidas severas para erradicar a influência alemã em todas elas. Está me dizendo que acabei expulsando essas forças da vista do público?"
Roosevelt se levantou e caminhou até a janela, observando o mar de corpos que se deslocava e se embatia lá embaixo.
Uma lembrança surgiu, algo que há muito tinha enterrado.
Era a conversa que teve com o ex-presidente Charles Hughes.
Sós, numa cabana numa noite fria de inverno.
Longe da cidade, longe dos olhos e ouvidos atentos da Alemanha.
Ele o alertou sobre o que Bruno havia dito uma vez durante uma discussão particular entre ambos, na Casa Branca.
"Sabe o que eu amo nas repúblicas como a sua? Elas são corrompidas até a medula. E, não de forma sutil, mas abertamente, com orgulho, sistematicamente. As eleições são um circo. Os políticos lutam pelo poder, e onde eles vão buscar isso? No povo. E, com toda sinceridade, o povo é uma verdadeira piada. Eles leem uma manchete só… Só a manchete, e acreditam como se fosse verdade absoluta, sem procurar entender o contexto. Depois, espalham para os amigos, que inevitavelmente fazem o mesmo. Uma mentira, um lampejo de indignação, e de repente temos uma tempestade. Uma onda de histeria coletiva atingindo a urna. E de onde vem essa tempestade? Da mídia. Que eu agora possuo. Que seu sistema permitiu que eu, um monarca estrangeiro, comprasse."
Roosevelt cerrava a mandíbula.
"Achava que ele estava blefando. Só mais um aristocrata… Um homem de uma era que se esgotava, que se recusava a ir embora silenciosamente…"
Donovan respondeu: "Ele não estava blefando, senhor. Ele estava investindo."
Na América Latina, as coisas estavam piorando.
Notícias de Caracas diziam que um general tinha se declarado presidente provisório.
Bolívia fechou suas fronteiras. O México, já fervilhando, agora esquentava ainda mais.
Mas o que preocupava Roosevelt era a América.
"Precisamos de uma declaração pública," disse Hull. "Se não nomearmos os alemães agora…"
"Não temos provas!" exclamou Roosevelt.
"Se eu acusar o Reich sem provas concretas, dar-lhe-á todos os pretextos para nos rotular como agressores."
"Mas se ficarmos calados, perderemos o controle da narrativa," contrapôs Hull.
FDR virou-se da janela. "Já perdemos a narrativa."
Seu olhar se tornou firme.
"De agora em diante, lutaremos duas guerras: uma lá fora, e outra dentro de casa. Uma com bombas e outra com palavras."
Donovan se inclinou para frente. "Senhor, com todo respeito… acho que não podemos vencer as duas."
Roosevelt acenou lentamente, concordando. "Então, vamos garantir que a próxima bala não venha de um fantasma."
Mas, mesmo ao dizer isso, a verdade se instalou como poeira em seus pulmões.
Os fantasmas já estavam aqui.
Nas syndicatos, nas salas de aula, nas redações, atrás da cortina.
E agora, eles estavam puxando o gatilho.
Uma instituição de cada vez.