
Capítulo 701
Re: Blood and Iron
A praça em frente ao Palácio do Planalto transbordava de bandeiras e de celebração.
Dezenas de milhares de pessoas se reuniram em Brasília para assistir ao pronunciamento oficial do presidente Calheiros ao vivo, um discurso que, pela primeira vez desde a Grande Guerra, ligaria o destino do Brasil ao dos Aliados Ocidentais.
O palco era adornado com faixas azuis e douradas.
Soldados uniformizados, impecáveis, formavam fila ao longo da frente, ao lado de uma arquibancada improvisada para dignitários estrangeiros.
Um tapete vermelho se estendia pelos degraus do palanque.
Câmeras de televisão capturavam a multidão animada.
E acima de todos, de uma torre de relógio abandonada, com a ponta quebrada e localizada a quatro quarteirões de distância, Fritz observava através do vidro de um visor óptico, montado com simplicidade sobre uma relíquia de uma guerra anterior.
A Carabina Mauser Modelo 1908 brasileira, recarregada em 7.62×51mm, havia sido restaurada e modificada.
A manete do ferrolho dobrava-se fora do caminho do visor. E não restavam marcas que pudessem identificar origem ou proprietário.
Era, como todas as ferramentas de Werwolf, uma sombra que assombra.
Fritz permanecia deitado de bruços sob um pano gasto, cercado por groselha de pombos e telhas desbotadas pelo sol.
Seu observador, Manfred, verificava a correção do vento com um medidor analógico e alimentava as coordenadas em um caderno velho, sem eletrônica, sem rastros.
"Vento três, de leste a oeste. Temperatura estável."
Fritz deu uma tossida discreta. "Ele quase vai falar pelo microfone."
Na parte de baixo, Calheiros discursava em frente à multidão, trajando uniforme cerimonial branco, medalhas refletindo, com a mão erguida pedindo silêncio.
Sua voz ecoava pelos alto-falantes, amplificada por toda a praça, pela cidade e pelo continente, através da transmissão ao vivo.
"Hoje, o Brasil se ergue orgulhoso ao lado das nações livres do mundo…"
Fritz respirou fundo. Ainda não.
"…diante da tirania e da agressão, não hesitaremos…"
Seu dedo descansava sobre o gatilho.
"…pois a democracia não deve temer levantar a voz…"
Ele apertou o gatilho.
O rifle disparou uma vez. Apenas uma vez.
O corpo de Calheiros se sacudiu de forma desumana ao ser atingido na lateral da cabeça, a bala atravessando até romper o escudo nacional ao fundo.
Inicialmente, a multidão não reagiu.
O estampido reverberou pelos construções de concreto e aço, engolido pelo barulho da aclamação.
Então alguém gritou.
Depois outro.
Calheiros caiu como uma marionete com os fios cortados.
Os guardas paralisaram. Uma criança começou a chorar. O pânico espalhou-se rapidamente como fogo.
Quando alguém gritou "Atirador!", Fritz e Martin já tinham desaparecido.
Eles não correram. Isso atrairia atenção.
Ao invés, desceram as escadas como se fossem funcionários de manutenção, com caixas de ferramentas na mão, mangas arregaçadas revelando antebraços calejados e camisas sujas de graxa pelo sol.
Estavam disfarçados.
Na rua, sirenes de polícia soavam alto.
Ninguém percebeu que os dois sumiram pelo túnel de drenagem ao lado de uma subestação elétrica enferrujada, outra rota pré-estudada, outro caminho escondido.
A Mauser permaneceu para trás, limpa, desmontada, escondida na cavidade da parede atrás de uma placa metálica selada.
Nunca seria encontrada.
Pela noite, Brasília ardia.
Saques começaram nos bairros do sul.
Dezenas de partidos extremistas se acusavam mutuamente.
O exército decretou estado de emergência, dividindo-se em facções que discutiam se continuariam alinhados aos Aliados ou permaneceriam neutros.
Boatos corriam. Alguns alegavam que era os alemães.
Outros, monarquistas rebeldes. E alguns até sussurravam que era uma ação interna, Calheiros tinha inimigos de todos os lados.
Porém, nenhuma prova apareceu.
Nenhuma cápsula de cartucho foi encontrada. Nenhum testemunha viu o atirador.
Nenhuma câmera de vigilância capturou um rosto, um movimento ou mesmo um brilho.
Os Aliados, já fragmentados, estavam em desordem.
Em Ottawa, o Parlamento canadense considerou a morte uma “violação à soberania hemisférica”.
Em Washington, relatórios de inteligência chegavam a todo instante, cada um mais especulativo que o anterior.
O FBI suspeitava de sabotagem.
A OSS sussurrava sobre uma rede fantasma treinada na Europa Oriental, agora desatada no Hemisfério Ocidental.
O presidente Roosevelt convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança Aliado.
"O que sabemos?" perguntou.
"Nada", respondeu o diretor Lawson. "Sem pegadas. Sem sinais. Sem rastros."
"Então vocês estão me dizendo que o Reich acabou de assassinar o líder de um aliado democrático soberano, ao vivo na televisão, e não podemos provar nada?"
"Não o Reich, senhor", Lawson respondeu com gravidade. "Pelo menos oficialmente."
O silêncio na sala revelou o restante.
Em uma quarters clandestina fora do Rio de Janeiro, Fritz acendeu um cigarro e assistiu às notícias em silêncio.
Martin encostou-se na parede, tomando uma cerveja gelada de uma garrafa com rótulo lascado.
"Acha que eles vão descobrir?"
Fritz expirou a fumaça pelo nariz. "Não faz diferença."
Ele desligou a TV e se levantou.
"Um não precisa de reconhecimento. O que queremos é o caos."
Na América Latina, células de Werwolf se ativaram.
Subestações explodiram na Argentina.
Trens foram sabotados na Colômbia.
Uma refinaria pegou fogo e parou toda a exportação de gasolina do Equador por uma semana.
Milícias de esquerda, monarquistas separatistas, levantes indígenas, antigas feridas reabriram com precisão cirúrgica.
Algumas foram armadas. Outras, idiotas úteis. Nenhuma sabia que tinha sido instigada por mãos alemãs.
Nunca se tratou de matar um só homem.
Era sobre desestabilizar todo o continente, fio por fio.
E enquanto o comando dos Aliados lutava para apagar incêndios em três continentes, uma mensagem ressoava no silêncio por trás de cada chama e balas:
Os lobos estavam entre eles.
E não dariam seu uivo até que fosse tarde demais.
Em todo o Brasil, a confusão virou fúria.
Manifestantes confrontaram soldados em frente a prédios do governo; bandeiras de partidos antigos foram retiradas do armazenamento, e cocares monarquistas apareceram ao lado de bandeiras republicanas.
Caravanas policiais foram emboscadas nas rodovias. Em poucas horas, os próprios ministérios do governo deixaram de confiar uns nos outros.
Em Ottawa e Washington, cabos diplomáticos ficaram desesperados, repletos de palavras como “insurgência” e “rede oculta”.
Os adidos latino-americanos exigiram proteção.
Segurança em embaixadas aliadas foi reforçada de um dia para o outro.
Ninguém queria falar a palavra "assassinato" oficialmente, mas todas as conversas voltavam ao assunto.
Na casa segura, Fritz ouvia o barulho do Rio mesmo através das paredes: gritos distantes, um carro que detonava uma faísca, sirenes ao longe.
Por um momento, permitiu-se imaginar como o continente ficaria em um mês. Portos fechados.
Linhas férreas sabotadas. Presidentes com medo de falar em público. Nações paralisadas pelo desconfiômetro.
Ele apagou o cigarro no chão.
"Isso não é o fim", disse baixinho, embora ninguém tivesse perguntado. "Isso é a abertura."
Martin olhou para cima, mas não respondeu.
Os lobos chegaram ao Novo Mundo. E antes mesmo de uivarem, a alcateia já estaria em fuga.