
Capítulo 700
Re: Blood and Iron
O sol do meio-dia pesava sobre o Rio de Janeiro, banhando a cidade com um brilho dourado que suavizava as bordas até mesmo de suas estruturas mais endurecidas.
Turistas perambulavam pela Copacabana de sandálias e chapéus de aba larga, estudantes chutavam bolas de futebol pelos becos estreitos, e vendedores empurravam carrinhos cheios de leite de coco doce e pastéis quentes.
Mas na esquina, o futuro de um continente pendia por um fio.
Fritz ajustou os óculos de sol.
Ele encostou-se à lateral de uma van de comida estacionada, tomando um gole de guaraná gelado através de um canudo.
Sua camisa estava desabotoada o suficiente para revelar uma quantidade adequada de peito suado, e uma corrente de ouro repousava sobre seu bronzeado elegante.
A imagem de um homem que pertencia ali. Que vivia ali. Que bebia aquela bebida, nesta rua, sob este sol, todos os dias de sua vida.
Por trás das lentes, seus olhos azuis pálidos varreram o perímetro.
Bandeiras já estavam sendo içadas.
Banderas aliadas vermelhas, brancas e verdes.
Americanas e brasileiras lado a lado.
Seguranças uniformizados patrulhavam em duplas, algumas da Guarda Nacional local, outras vestidas com fardas de padrão jungle com patches do U.S. mal costurados.
Demasiado novas. Demasiado ansiosas.
Do outro lado da rua, uma mulher de vestido floral se inclinava para fora de uma janela do terceiro andar, ajeitando seu longo cabelo preto.
Ela parou por um instante para pendurar uma lençol branco na corda.
Fritz acenou com a cabeça.
Um quarteirão adiante, um guitarrista de rua barbudo com bandana e óculos espelhados afinava seu instrumento.
Ele dedilhava suavemente, o acorde limpo, bem ajustado.
Duas notas.
Fritz expirou lentamente.
À sua direita, um adolescente numa motocicleta finge ter problemas e então faz uma manobra rápida entrando numa viela.
De cima, um funcionário de manutenção parecia ajustar um suporte de câmeras de segurança numa lâmpada pública.
Eles estavam por toda parte. Mas também, em lugar nenhum.
Ele deu mais um gole.
A praça estava sendo preparada para um pronunciamento histórico.
O vice-presidente Calheiros deveria falar às 17h00, cercado por oficiais militares e enviados de alto escalão dos EUA.
Câmeras já estavam montadas em andaimes.
Um púlpito sob a sombra das colunas neoclássicas, coberto por bandeiras brasileiras e aliadas.
A multidão seria enorme. E eles contavam com isso.
Fritz se afastou da van e caminhou casualmente em direção à fonte central.
Ele mergulhou a mão na água fresca, deixando as gotas caírem de seus dedos como chuva.
Ao seu redor, pombos bicavam preguiçosamente e famílias discutiam sobre onde encontrar o melhor sorvete.
Uma criança gritou de alegria ao ver um vendedor de balões soltando bolas coloridas no céu.
Perfeito.
Ele encontrou um banco e se sentou.
abriu um jornal, folheando as manchetes.
Inflação. Corrupção. Um atentado em Bogotá.
Reforço naval dos EUA no Caribe. E no topo, um editorial em letras garrafais: "Por que o Brasil Precisa Escolher o Lado Certo da História."
Sorriu de relance.
Uma jovem passou com uma prancheta, recolhendo nomes para uma petição pró-Aliados.
Ela lhe sorriu. Ele retribuiu com um sorriso que transmitia simpatia, mas sem desejar prolongar a conversa.
Ela seguiu em frente.
Fritz olhou para o relógio. O ponteiro segundos marcava com precisão.
“Daqui a duas horas,” murmurou.
Um sutil assobio veio das escadas de uma igreja próxima.
Fritz não olhou, mas reconheceu o som.
Ele dobrou o jornal e se levantou.
Enquanto caminhava, passou por um homem empurrando um carrinho de limpeza.
Eles se tocaram nos ombros.
“O telhado sul está livre,” sussurrou, em um tom baixo demais para que alguém mais ouvisse.
Fritz seguiu em frente.
Cada operante tinha seu próprio setor.
Cada um sabia apenas o que precisava saber.
Num cidade de milhões, cinco homens podiam mover-se como água por pedra, se compreendessem o ritmo.
Werwolf entendia o ritmo.
O caos era a sua melodia.
Ele subiu as escadas de um prédio municipal ainda em reforma.
Ninguém questionou sua presença.
Construções por toda parte.
Ele usava as mesmas botas empoeiradas.
Carregava o mesmo prancheta manchada. Misturava-se ao barulho.
Do último andar, olhou para a praça.
Altitude perfeita. Linhas de visão sem obstáculos.
Veículos de emergência agrupados na avenida sul.
Ele levantou um pequeno par de binóculos de ópera.
Um carrinho de flores entrou em posição perto do monumento central.
Um varredor de rua desacelerou, parou numa grade de drenagem e deixou cair algo que tilintou uma única vez.
Um mendigo entrou na viela atrás do palco, murmurando bobagens para si mesmo.
Ninguém iria prestar atenção.
Fritz fechou os binóculos.
Em toda a cidade, outras células de Werwolf se preparavam.
Pequenos grupos de cinco homens cada.
Em Mérida, Santiago, Buenos Aires.
Mas o Rio era a nota de abertura. A introdução.
E tinha que ser perfeita.
Ele pegou um cigarro no bolso, acendeu e deixou a fumaça subir, formando curvas no ar acima da balaustrada destruída.
Na rua abaixo, técnicos testavam os microfones.
Um assobio alto de feedback ressoou na praça.
Fritz sorriu.
Essa seria a última fala de Calheiros.
Ele virou-se, desceu lentamente as escadas e desapareceu na multidão.
Ninguém o olhou duas vezes.
Os lobisomens tinham vindo ao Rio — e ao restante do Novo Mundo.
Foram convidados como funcionários, refugiados, mas nunca como turistas.
Seus papéis eram perfeitos, sua capacidade de se integrar sem máculas.
Bruno vinha se preparando para isso há anos.
Apesar de ter dito ao kaiser que inicialmente pretendia usar seus mercenários como a lança que destruiria a República Francesa.
Os verdadeiros interesses de Bruno sempre estiveram claros desde o começo.
O Grupo Werwolf, uma força mercenária que o Reich nunca reconheceu oficialmente, agora tinha os olhos voltados para o Novo Mundo.
Não como conquistadores. Mas como catalisadores.
O caos gera entropia. A entropia gera colapso.
Enquanto os americanos olhavam para leste, através do Atlântico, os lobos já se infiltravam entre eles.
E eles eram ovelhas.
Aguardando apenas serem dilaceradas.
Um grupo que passou décadas ganhando experiência em zonas de guerra pelo mundo afora.
Que agora tinha como alvo o novo mundo.
Mais especificamente, como agentes do caos que promovariam a queda não só do Brasil, mas do que restasse do "mundo livre."
Porque o caos leva à entropia, e a entropia leva ao colapso.
Enquanto os americanos tentavam resistir à ameaça que vinha do Atlântico, nunca imaginariam que os lobos já estavam entre eles.
Eram ovelhas esperando para serem devoradas.