
Capítulo 727
Re: Blood and Iron
A câmara da Câmara dos Comuns do Canadá nunca havia soado tão oca.
Do lado de fora, a chuva de inverno descia em cortinas cinzentas sobre Parliament Hill, abafando o barulho habitual de repórteres e lobistas.
Dentro, cada palavra pairava pesada demais para ser pronunciada.
O Primeiro-Ministro estava sentado à cabeceira da longa mesa de mogno, ladeado por ministros que pareciam menos líderes e mais homens aguardando o veredito de seu próprio julgamento.
Os primeiros relatórios de Terranova tinham chegado antes do amanhecer, confusos, contraditórios, mensagens semi-codificadas interceptadas por postos de escuta naval em Halifax.
Ao amanhecer, a verdade completa havia chegado a Ottawa.
A base naval de St. John’s havia sido destruída.
A Frota Avalon, destruída.
Milhares de marinheiros… desaparecidos.
Ninguém queria pronunciar a palavra, mas ela já estava marcada no ar: aniquilação.
O ministro da Defesa, com a gravata torta e os olhos vermelhos, bateu uma pasta na mesa e fechou com força.
— Senhores, não estamos falando de um ataque isolado. A Luftstreitkräfte não apenas testou nossas defesas… eles as apagaram. Foi um ataque deliberado contra nosso território.
Do outro lado da mesa, o ministro das Relações Exteriores murmurou amargamente: "Território. Quer dizer a nova linha de frente."
Um murmúrio percorreu a sala.
Mapas foram desenrolados sobre a mesa, fotos aéreas granuladas, esboços de reconhecimento de aeronaves restantes de patrulha e uma imagem borrada tirada da periferia da tempestade: o cadáver fumegante da base naval outrora conhecida como HMCS Avalon.
O Primeiro-Ministro inclinou-se para frente, com as pontas dos dedos unidas. "Washington nos garantiu que isso era impossível. Disseram que o alcance do Reich terminava no Atlântico."
— E Washington — interrompeu o ministro da Defesa — mentiu.
As palavras caíram pesado, como chumbo.
Ao seu redor, assessores congelaram-se, indecisos se deveriam anotar a declaração ou fazer como se não tivessem ouvido.
Ele continuou, com a voz baixa.
— Disseram que o domínio do céu americano, a cobertura de radar e a frota do Atlântico nos protegeriam. Que qualquer tentativa alemã de atravessar o oceano morreria na água. E, no entanto, estamos aqui… nossa frota queima no próprio porto.
Um dos ministros de Quebec, o Lysien do governo em exílio, levantou-se abruptamente.
— Então, talvez vocês não devessem confiar em promessas americanas — ele sussurrou. — Paris confiou uma vez, e veja no que deu.
A sala virou-se.
O sotaque do homem era carregado de ressentimento, sua entonação o tom ríspido de um governo que havia fugido de suas próprias cinzas.
Ele ajustou as luvas e continuou. — Dissemos que os alemães atacariam além de sua esfera assim que pudessem. E agora, eles provaram. Podem atravessar o oceano, bombear nossas cidades e queimar nossas frotas sempre que quiserem.
A paciência do Primeiro-Ministro quebrou. — Chega, Henri. A República caiu em uma semana. Você está aqui porque oferecemos abrigo aos sobreviventes, e você é seu elo de ligação, não porque esteja em posição de nos dar lições.
O ministro de Quebec sorriu de forma fria e sem humor. — Ainda assim, parece que todos vamos queimar juntos.
Silêncio. A chuva tamborilava contra as janelas.
Um jovem assessor entrou e sussurrou algo ao chefe de comunicações.
Ele ficou pálido, então se aproximou da mesa. — Senhor… nosso elo de ligação ao comando dos Estados Unidos acaba de confirmar… Roosevelt fez uma declaração de Washington.
— Toque.
O homem ligou o receptor de rádio. Um chiado fino preencheu o ar antes que a voz do presidente emergisse, medida, confiante, aquele tom que um dia inspirou calma.
— Aos nossos irmãos canadenses e aliados: o ataque a Terranova foi um ato grave e covarde. Os Estados Unidos solidarizam-se com o Canadá na sua defesa. Reforços já foram enviados para Halifax e Ottawa. Juntos, garantiremos que a liberdade nunca vacile.
Quando a transmissão terminou, ninguém falou por um minuto completo. Então, o ministro da Fazenda soltou uma risada vazia. — “A liberdade nunca vacila”, murmurou. — Conte isso aos marinheiros no fundo do Atlântico.
O Primeiro-Ministro massageou as têmporas. — Quantas divisões Washington consegue mandar de verdade?
— Três, talvez quatro — respondeu o ministro da Defesa. — Todas de reserva. O exército principal deles está na África do Norte. Estão lutando por controlar as areias enquanto nós estamos em chamas.
O ministro de Quebec deu um passo adiante, baixando a voz. — Você não entende. Isso não foi um ataque tático. Foi uma mensagem. O Reich está demonstrando alcance… domínio psicológico. Podiam ter atingido Halifax, ou até aqui, mas escolheram St. John’s para provar que podem escolher um alvo em nosso próprio solo e destruí-lo à vontade.
Virou-se para as janelas, observando as torres cinzentas da capital se desfocando na chuva.
— França pensou que o Reno e os Países Baixos a protegeriam uma vez. Agora, a distância não é mais defesa.
O ministro da Defesa ajustou-se na cadeira, tentando manter a voz firme. — Ainda temos aliados. O governo em exílio da Grã-Bretanha, os americanos…
— A sombra da Grã-Bretanha — interrompeu o ministro de Quebec — e uma América covarde demais para admitir que não consegue proteger seu próprio hemisfério. Eles cavaram trincheiras no Marrocos enquanto preparam uma invasão à Europa que só resultará em sua aniquilação completa longe de casa.
Apontou para o mapa. — Berlim já sabe a verdade: o Atlântico não é mais um oceano, é uma rodovia. E não construímos nenhum reduto.
O Primeiro-Ministro olhou ao redor da mesa, com rostos pálidos e olhos vazios. — Quais são nossas opções?
O chefe do Estado-Maior Naval, ainda com seu casaco molhado, respondeu com aspecto sombrio. — Podemos reconstruir… aos poucos. Mas precisaremos de estaleiros americanos, engenheiros americanos, dinheiro americano. E se os alemães invadirem a África do Norte, não sobrará muito para apoiar.
— E se decidirmos não depender deles?
— Então, ficaremos sós.
Do lado de fora, um trovão ressoou sobre a cidade, sacudindo as janelas.
Por um instante breve, cada homem na sala imaginou que aquilo não era trovão, mas o eco de bombas distantes.
Aquela noite, as luzes de Ottawa ficaram acesas até tarde.
Em um escritório menor, mais silencioso, o Primeiro-Ministro e seu adjunto estavam diante de um mapa do Atlântico Norte, com a mancha de Terranova marcada por uma cruz preta.
— Diziam que os alemães não conseguiriam atravessar o mar — sussurrou o adjunto.
— Eles já cruzaram em piores — respondeu o Primeiro-Ministro.
Ele se aproximou da janela, olhando para a cidade.
As ruas molhadas pela chuva, as multidões ansiosas segurando jornais que gritavam: S. JOHN’S DESTRUÍDA! ATAQUE ALEMÃO NO CANADÁ!
As palavras pareciam surrealistas no papel, como uma profecia tornada carne.
Ao longe, a torre do relógio bateu as dez horas.
— Não podemos vencer isso — disse o adjunto baixinho. — Não assim. Não com esse alcance e nossa dependência de Washington.
O Primeiro-Ministro demorou a responder. Estava pensando na voz confiante de Roosevelt no rádio, calmante, paternal, vazia. Pensando em todas as promessas feitas do outro lado do oceano.
Finalmente, falou: — Então, talvez devamos parar de fingir que essa é nossa guerra para vencer. O Canadá não pode ser o escudo do orgulho de outra potência.
O adjunto franziu a testa. — Está sugerindo?
— Nada ainda. Mas se Berlim pode nos atacar à vontade, e Washington só consegue enviar condolências, talvez precisemos decidir se morrer por uma causa estrangeira vale o prestígio que custa.
Do lado de fora, a chuva virou névoa.
Mas o ar em Ottawa parecia mais frio do que nunca… mais rarefeito, mais frágil, como se os ventos do Atlântico sussurrassem uma verdade que os políticos se negam a falar:
O Novo Mundo já não é mais intocável.
E todo homem no Parlamento, antes que a noite terminasse, sabia que essa guerra finalmente havia chegado ao seu lar.